The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A história do «cliente»

No último Sábado, a convite doJosé Bártolo fui participar no lançamento do catálogo da exposição Sinal, na Casa do Design em Matosinhos. Trata-se de uma mostra dedicada aos correios e telecomunicações em Portugal desde o século XIX até às últimas privatizações.

Mostra, mais uma vez, uma tendência interessante, talvez um programa, de fazer exposições que não são dedicadas nem a designers ou ateliers notáveis, nem a formatos favoritos do design (cartazes, livros, etc.), mas a clientes notáveis.

«Cliente» é a palavra com que os designers abreviam as instituições para quem trabalham. Não é tanto uma designação rigorosa como uma aproximação. Quando se fala dos correios e telecomunicações enquanto cliente, tanto se está a falar de ateliers ou profissionais independentes que têm os correios enquanto cliente, como se está a falar de gabinetes internos e de designers funcionários, para quem a designação é quando muito metafórica.

Será mais correcto dizer que Sinal é uma exposição que trata um conjunto de instituições com as quais o design tem relações próximas, que não se limitam a disponibilizar um certo serviço, como identidades, logotipos, cartazes, mobiliário, mas que moldam e criam a identidade do próprio design. São instituições de grandes dimensões que pedem um acompanhamento de décadas a um círculo mais ou menos alargado de profissionais.

A história do design como disciplina em Portugal é também a história das várias declinações do SNI, dos CTT/TLP, da Imprensa Nacional Casa da Moeda, Fundação Calouste Gulbenkian, da TAP, etc.

Mais do que na exposição Imprimere, em Sinal é possível ver esta tendência. Imprimere corria vários riscos, de se tornar numa exposição celebratória da instituição, de se resumir a um mostruário do tipo de técnicas e maquinaria vintage bastante em voga no design actual, de se tornar na afirmação conservadora de uma tradição e vocação tipográfica do design.

Curiosamente, é uma tradição inventada há muito pouco tempo. Tem pouco mais de vinte anos. Até essa altura a relação entre design e tipografia andava mais próxima da que separa os arquitectos dos empreiteiros e engenheiros. Ao designer cabia o pensamento do projecto, que não podia ser feito sem conhecimento das técnicas de impressão, mas que sabia separar essas técnicas das tradições de composição. Em grande medida, o design gráfico afirmou-se contra o tradicionalismo das gráficas.

Em Portugal, nos últimos anos tem vingado um revisionismo mascarado de tradicionalismo onde se tenta recuperar o pensamento tradicional das gráficas como sendo ele mesmo design. Aliás, dizem-se e escrevem-se as maiores alarvidades para assegurar que sempre houve uma continuidade e até uma identidade entre tipógrafos e designers.

O risco de uma exposição como Imprimere é então o de se confundir aquilo que nos é mostrado com design. É um bom tema de estudo para o design enquanto método de investigação histórica, mas só o será enquanto se perceber que há uma série de diferenças.

Em Sinal, o risco já não é tão grande porque já se vê claramente os correios e telecomunicações como uma instituição «exterior» ao design. No caso da imprensa, não é tão fácil a exterioridade da relação e abre-se a possibilidade de continuar a mitificar a imprensa e a tipografia como uma espécie de passado glorioso que se perdeu no design, quando o objectivo era mesmo esse.

Filed under: Crítica

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: