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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Contra a Anestesia do Design

Quando se muda de casa, não se tem outro remédio senão mudar de vida, sobretudo quando se colecciona livros. Entrei sozinho no apartamento onde morei dezoito anos. Saí com uma família e milhares de livros. Sempre comprei livros. Em 2010, comecei a coleccioná-los pelo seu design. Tenho livros em línguas que não domino (alemão, russo) porque são bonitos e bem feitos.

Pela mesma altura, comecei-me a interessar pela história do design português. Até aí, o meu interesse era a actualidade do design, o que se dizia, o que se fazia, o que se publicava, o que se expunha. A história do design chegou-me primeiro por necessidade profissional, quando me encomendaram textos sobre o assunto. Depois, tomou conta da minha vida de investigador enquanto um problema muito específico: fazer uma história do design português que não seja conservadora, desligar a história do design português da sua tradição.

Desconfio que, para a maioria dos designers, mesmo os mais progressistas, a história se limite a isso, à transmissão de uma tradição, de um certo caracter colectivo. Através da construção de narrativas, garante a coesão disciplinar da profissão. Acontece o mesmo na arquitectura, no cinema e até na literatura.

O problema acontece quando se confunde sistematicamente tradição com história, o que me parece dominar o discurso do design português. Para o evitar, é necessário desconfiar das metodologias mais tradicionais, da tentação de resumir a história à exposição da vida e obra de praticantes ilustres, de listas de objectos e clientes notáveis, à exposição das suas associações e instituições.

O mais grave é que, dentro dos esforços para fazer uma história do design em Portugal, há uma ausência notável, que é a do próprio design. Fala-se de pessoas, de objectos, de instituições, de legislação, mas o próprio design fica para último. Mal se fala dele. Numa recensão, num paper ou numa tese, numa crítica, a parte mais ténue e tangencial é quase sempre a que trata directamente do design.

Não há um vocabulário formal para o tratar. Quando muito descreve-se a qualidade da impressão ou gaba-se em termos vagos a qualidade do designer. É rara a análise do objecto que se centre naquilo que os antigos gregos designavam como estética, o acto de simplesmente o sentir ou experimentar. O oposto disto seria, a ausência de sentido, uma condição anestética.* A crítica e a história do design em Portugal está, neste e noutros sentidos, anestesiada.

Uma das razões para a ausência do design do discurso do design é a noção herdada do modernismo do melhor design como algo universal e intemporal, que sempre acompanhou a humanidade desde a pré-história. Se o design fosse realmente uma constante, seria a-histórico. Não seria possível fazer a sua história. Só se poderia tratar dela através do que vai mudando: as instituições, os praticantes, as leis, etc. Neste enquadramento, só é possível falar do design quando falha, quando nem sequer é design – a rezinguice inconsequente contra a Comic Sans é o melhor exemplo. Do melhor design só se consegue reafirmar os princípios eternos do design e abrir a boca de espanto.

É um estado das coisas que serve perfeitamente um conservadorismo medroso onde se diz bem dos amigos, e se ignora ou desanca às cegas os inimigos, mas de onde o design está, como de costume, ausente.

Para fazer uma história do design que vá além dos vícios tradicionais, será preciso voltar aos objectos, encontrar outros documentos e testemunhos que não os tradicionais. Por isso, nos últimos anos tenho voltado à história através dos objectos, sobretudo dos livros. Foi frutuoso. O que fui escrevendo e palestrando foi informado por esse regresso aos objectos, coadjuvado por muita investigação académica alheia que felizmente já não é feita em moldes tradicionalistas.

Agora, apetece-me voltar assumidamente ao presente. Sempre vi a história como algo que se faz em relação ao momento presente, mas quero voltar à crítica. Ainda ando à procura de alguns livros antigos, mas deixei de os coleccionar. Interessa-me o presente e uma crítica que deixe de estar anestesiada.

*Esta ideia vem exposta de maneira bastante feliz no livro Forensic Architecture.

Filed under: Crítica

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