The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Laundromat

Achei piada a Laundromat, filme de Steven Soderbergh para a Netflix, sobre o esquema de fuga aos impostos denunciado pelos Panama Papers.

Ao vê-lo, percebe-se que já existe uma convenção cinematográfica, quase um género, para representar escândalos financeiros de grande escala: o narrador é o criminoso, fala directamente para a câmara, leva o espectador pela mão por todo o labirinto de leis, de procedimentos, de reviravoltas. O tom e o estilo é o habitual em filmes sobre escândalos financeiros (The Wolf of Wall Street, The Big Short, etc.)

Na década de oitenta, vulgarizou-se a chamada «training montage» onde o protagonista aprendia rapidamente e ao som de «Eye of the Tiger» uma arte marcial qualquer, montava um negócio, arranjava dinheiro para salvar a casa dos avós. O «Finantial Scandal Movie» como género é uma «training montage» de duas horas cujo objectivo é dar-nos a ideia, a nós espectadores, que ficamos preparados para enfrentar os ditos escândalos financeiros – o que se resume a ficar escandalizado mas com o conhecimento suficiente para ironizar sobre o assunto, porque na verdade pouco se pode fazer (e nenhum dos filmes oferece soluções).

O filme de Soderbergh é talvez o melhor de todos porque, usando as convenções cabotinas do género e sem perder de vista o escândalo, consegue voltar sempre a uma escala humana. Em The Big Short (2015), punha-se Margot Robbie num banho de bolhas a explicar uma intrincada questão financeira para que o espectador prestasse atenção – o que era, na realidade, uma admissão que não se tinha grande ideia de como representar cinematograficamente ou até em termos de narrativa aquilo de que se estava a falar. Soderbergh consegue sempre arranjar histórias à medida do que quer explicar: a viúva que não consegue uma indemnização de uma seguradora fraudulenta pela morte do marido , o marido infiel que usa empresas fantasma para subornar a sua própria família, os próprios advogados Mossack e Fonseca que narram o filme. Tudo coreografado de modo inventivo e inesperado. Embora no fim, como é evidente em qualquer «training montage» não seja possível cumprir ou lembrar uma décima parte do que se viu. Mas foi divertido.

Se calhar é essa a função do «Finantial Scandal Movie»: rir para não chorar.

Nessa nota: já tinha reparado no filme nos menus infinitos da Netflix mas só me decidi a vê-lo porque apareceu um crítica no Expresso a recomendá-lo. Apenas a meio do filme é que reparei que estava a ver uma comédia sobre os Panama Papers recomendada pelo Expresso. Pelo Expresso.

Filed under: Crítica

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