The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O que vem antes?

À maneira do ovo e da galinha, tem-se discutido o que vem primeiro, se a liberdade se a igualdade.

A causa da discussão é, mais uma vez, Joacine Katar-Moreira. Disse que não há liberdade sem igualdade.

Emprego o termo «discussão» para nomear o que essa declaração provocou por delicadeza. Seria mais rigoroso usar a palavra «escândalo» – é um escândalo sincero, literal. As pessoas sentem-se ofendidas. Exprimem indignação.

Contudo, não usarei a palavra «escândalo» porque já se estabeleceu em discussões passadas que o direito a ofender é sagrado. Logo, se há petições para demitir uma deputada porque alguém desfraldou a bandeira do seu país de origem atrás dela numa foto, não foi sem dúvida porque ofendeu. Nem lhe pedem que se demita porque consideram ofensiva a sua gaguez. Nem circulam artigos e posts recheados de insultos por qualquer ofensa que a deputada ou as suas declarações provocam.

Serei politicamente correcto e chamarei «discussão» ao que na verdade não passa de um monte de gente ofendida.

Ofendida, como referíamos, pela ideia que a liberdade não precede a igualdade.

Eu concordo com Joacine Katar-Moreira nesse ponto. Não se pode ter liberdade de expressão, por exemplo, sem haver no mesmo momento, se não antes, igualdade.

O modelo mais influente de liberdade de expressão assenta na discussão enquanto «mercado das ideias», um fórum idealizado onde do debate livre, não condicionado pela identidade dos intervenientes (se são ricos se são pobres, se são brancos ou não) se impõem as melhores ideias.

Não deixa de ser curioso que, depois da última crise, já pouca gente acredita cegamente na capacidade do mercado propriamente dito para valorizar as melhores soluções, mas quando se trata do «mercado das ideias» até a esquerda mais profunda não consegue despegar-se de um modelo literalmente burguês de conceptualizar a própria ideia de debate.

É um modelo moralmente falido. A falência deveria ser evidente quando a disponibilidade de debater com racistas se tornou numa espécie de símbolo do «mercado das ideias». Todo o defensor da liberdade de expressão contra a suposta censura do politicamente correcto se dispõe a debater com fascistas, nazis, xenófobos, etc.

Não percebem que, se o debate é síncero, o que estão a pôr a discussão é a plena humanidade de pessoas como Joacine Katar-Moreira. É a humanidade de ciganos, de refugiados, de muçulmanos, de afro-descendentes que estão a regatear no tal mercado das ideias.

Enquanto já há algum pudor em realmente vender e comprar em mercados reais a humanidade de pessoas, não há pudor nenhum e é até tido como sinal de liberalismo vendê-la e comprá-la no mercado das ideias em nome da liberdade de expressão.

Há pessoas que se podem dar ao luxo de entrar nesse mercado como mercadores. Outros têm de acumular a discussão com a possibilidade deles próprios ser vendidos.

Para que a discussão seja livre, é essencial, mais do que pressupor, assegurar que a igualdade está lá desde o começo.

Filed under: Crítica

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: