The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Garrafa

Desmontei na terça a exposição. Os livros e revista já estão de volta nos seus caixotes. A Porto Design Biennale chegou ao fim. Vou sentir falta. Aliás, já sentia. Por causa do meu emprego e dos meus deveres de pai recente, foi-me impossível ir a todos os eventos, todas as exposições e conferências. Foram tantos. Os que tive a boa fortuna de assistir foram sempre estimulantes. Alguns porque iam ao encontro das minhas preocupações, mostrando-me mais possibilidades. Outros porque embatiam contra as minhas preocupações, ainda assim de modo estimulante.

Um dos eventos que mais me pôs a pensar foi um dos que me irritaram, uma conferência dupla do editor da Dezeen. A Dezeen, como o seu próprio editor referiu, descende da Ícon que por sua vez descende da Blueprint, centrando-se todas, deliberadamente, no designer enquanto celebridade.

Agora, a Dezeen acumula essas funções com um tipo de activismo tablóide, denunciando conferências e ateliers onde não há diversidade, ou revelando que processos ou empresas tidos como ecológicos na verdade não fazem o suficiente. Pareceu-me, não sei se pelo tom da apresentação, boas intenções engarrafadas. Perdão: da torneira, servidas numa garrafa de vidro desenhada por uma celebridade.

Há discussões bem mais complexas e bem mais pensadas. A verdade é que eu beberia de vontade uns quantos copos da tal garrafa de vidro. Quem me dera que houvesse cá em Portugal uma imprensa de design com a mesma vitalidade (mesmo que só falasse de celebridade). Quem me dera que aqui se praticasse a mesma wokeness por defeito da Dezeen. Já estaríamos uns furos acima.

A maior tristeza da bienal foi ter ilustrado o miserável estado do discurso público do design em Portugal. Ninguém escreve. Ninguém fala. Ninguém faz. É mais fácil montar uma boa exposição do que sustentar crítica com interesse e actualidade.

A quantas décadas vamos de correntes contemporâneas da crítica de design? Das interrogações interessantes que são levantadas sobre a relação entre ficção e design? Porque não se consegue relacionar a descolonização do design com discussões em tudo semelhantes sobre representação, identidade e extrema direita em Portugal?

Filed under: Crítica

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