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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A década da imagem

Esta também foi a década onde o design de comunicação português se consolidou ainda mais como um serviço clerical.

Embora ainda sonhe com os altos vôos do branding, e fique muito orgulhoso e sonhador com os Porto Ponto que ainda vão havendo, a verdade é que o logotipo é cada vez algo feito pela agência publicitária.

A agência vai penetrando nos territórios onde o design gráfico se tinha refugiado, a câmara municipal e as instituições de cultura. Em resposta, vai-se fesejando as poucas e pouco representativas vitórias em contra-corrente – como o já referido Porto Ponto.

O design tem-se tornado numa actividade funcionária e nada o revela melhor do que a obsessão central desta década pela tipografia, pelo editorial, pelos interfaces e experiência de utilizador – organização da informação em letras e páginas, sejam elas físicas ou virtuais.

A obsessão pela tipografia é tanta que se perdeu, quase sem dar conta, a capacidade para lidar com as imagens.

Numa das melhores conferências a que assisti este ano, Sofia Gonçalves (na PDB) falou de dois territórios que seriam impossuíveis pelo design: o meme e o cartaz de protesto. Para um designer os fazer precisa de abandonar a sua identidade de designer. Eu acrescentaria que outro território é o da imagem.

Dei conta disso ao pedir aos meus alunos para conceber uma publicação sem tipografia e eles me terem perguntado como se avaliava isso. Por contraste, quando eu era aluno só começávamos a trabalhar com tipografia no último trabalho do primeiro ano, e mesmo assim de modo muito limitado. Esperava-se de quase todos os designers que fossem fotógrafos ou ilustradores. Neste momento, essas são duas especializações quase fora do território do design.

O resultado é que, na década onde qualquer pessoa sabe discutir através da imagem, onde as eleições e as guerras se vencem e se perdem através da desinformação via meme, o design parece fantasticamente mal preparado para lidar com este problema. Num dos melhores textos da década, Can Jokes Bring Down Governments?, os Metahaven já avisavam para estas imagens que se movimentam quase totalmente do lado de fora do design.

Para ser franco, também se movimentam fora do jornalismo e do discurso político tradicionais que as vêem com a maior desconfiança. As boas análises têm sido raras e quase todas fora da esfera do design.

Na verdade, o design tem sido tão incapaz de produzir imagens marcantes como de produzir análise crítica pertinente sobre imagens – o que é triste, na década onde se começou a comunicar e a discutir através da imagem. O gif animado e o meme estão, dentro do design, ao nível da Comic Sans, um território chunga sobre o qual se empina o nariz.

Filed under: Crítica

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