The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A década, então.

No design português, se formos pela simples quantidade, nunca se escreveu tanto. Papers, teses de mestrado, doutoramentos. Incentivada pelos indicadores de produção académica, a produção de pensamento sobre design massificou-se. Não melhorou, nem se tornou mais pública. São comuns os papers que antigamente seriam simples notas de leitura. O mesmo com dissertações e teses. Já estive em defesas onde se faz questão de contar as palavras ou apontar em público se o candidato citou ou não teses da instituição onde se está a formar. É um mau hábito, uma espécie de sistema de quotas para gerar citações. Com a quantidade actual de produção, deveria ser criticado como uma espécie de incentivo ao provincianismo.

O pior é toda esta produção não ter qualquer eco na sociedade em geral. Nunca se escreveu tão pouca e tão má crítica de design em Portugal. Nos jornais, a crítica de design gráfico limita-se ao que sempre foi: uma nota de rodapé à crítica literária. O gosto é conservador quando não mesmo mau. O tipo de objectos que se louva são quase sempre maus ou, quando não são, estão desactualizados.

Na imprensa, o que se gosta são monografias sobre designers já falecidos. O que se gosta é de edição das décadas de sessenta, setenta. O que se gosta é da Imprensa Nacional Casa da Moeda. O que se gosta são aqueles pastelões vaidosos, álbuns mais ou menos comemorativos que parecem caixas de bombons.

O que não se consegue sequer comentar é uma das melhores décadas em termos de edição independente aqui em Portugal. Ainda por cima edição feita ou ajudada por designers. Uma das décadas mais diversas, também. Nunca houve tanto design feito por mulheres. Lendo o que se escreve sobre design, ninguém notaria. Onde estão Sofia Gonçalves, Márcia Novais, Maria João Macedo, Inês Nepumuceno, Cláudia Lancaster? Onde está Marco Balesteros? Onde está a Oficina Arara?

Mas nem tudo é um deserto na crítica de design aqui em Portugal. Como objecto fundamental da década, escolho os catálogos das exposições de finalistas da Fbaul, em geral dirigidos por Sofia Gonçalves. Foram a única publicação pela qual valeu a pena ansiar. A única em Portugal que pareceu ter sido feita nesta década, já para não falar deste século. A única que fala de desinformação, de identidade, de política, dentro do design. Não é uma revista mas vou tratá-la como um revista anual, a bem do que resta da dignidade do design nacional.

(Ao nível internacional, o texto mais importante do design foi Can Jokes Bring Down Governments? dos Metahaven, escrito dois anos antes de Trump. Profético mas falhado, ainda assim foi o local, a tangente, onde o design esteve mais próximo de acertar).

Filed under: Crítica

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