The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Vaughan Oliver

4 AD Front Cover Vinyl LP - VA - Lonely Is An Eyesore

Quando comecei a estudar artes no secundário, na segunda metade da década de noventa, ainda sem saber se iria estudar arquitectura ou design, o trabalho que se via em todo o lado tinha cores vivas, contornos claros, e o traço de uma banda desenhada franco-belga. Eram as Amoreiras, o espremedor do Starck e o mobiliário Memphis, o desenho retro-futurista de Daniel Torres ou de Moebius, os arabescos geometricos de Neville Brody.

Quando entrei para a faculdade, sem o saber articular, já queria outra coisa, o oposto disso tudo. Já me tinha aparecido o Eraserhead de Lynch, as banda desenhadas de Bill Sienkewicz e de Dave McKean, a pintura de Francis Bacon, as fotos de Joel Peter Witkin, tudo ambientes texturados, depositados em camadas de contornos esbatidos. Era textura contra cor plana, fotografia contra desenho, atmosfera contra espaço arquitectónico.

Há realmente um pêndulo formalista – depois de uma época cartoon vem uma era sombria e a preto-e-branco – que não se limita ao grafismo. Contra a euforia pop e new wave do começo dos anos 80 veio o som íntimo e solene da 4AD. E, para lhe dar matéria vísivel, carne, o design de Vaughan Oliver – que rapidamente idolatrei. O meu primeiro livro de design, o Album Cover Album 6, tinha-o como um dos autores, juntando-o num trio improvável com Roger Dean e Storm Thorgerson (era o equivalente a juntar os Yes e os Dead Can Dance, ou os Pink Floyd e os Pixies).

Adorava os ambientes texturados de Oliver, muitas vezes produzidos em colaboração com Nigel Grierson. Os primeiros discos que comprei foi pelas suas capas.

Pelo que soube, acabou de morrer. Nunca tive particular vontade de conhecer os meus heróis, primeiro por timidez, depois por perceber que conhecer a pessoa é muitas vezes matar o mistério. Ainda assim, fiquei com inveja quando uma aluna me disse que tinha estagiado em Erasmus com ele, depois de lhe ter mostrado coisas de Oliver. Não fazia ideia da sua importância, mas ficou satisfeita por o saber.

Oliver construiu o ambiente de uma parte importante e formativa da minha vida. Ainda me comove e ainda desejo que o pêndulo caprichoso do formalismo vá de visita a paisagens sombrias e texturadas semelhantes, mas não tem acontecido.

Filed under: Crítica

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