The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Não ver cores

Nas últimas presidenciais, repetiu-se um fenómeno que seria curioso, não fosse ele assustador. Todos os candidatos de esquerda evitaram dizer o que quer que fosse de substantivo sobre racismo ou discriminação sobre pessoas lgbtq. Quando interpelados saiam-lhes chavões e generalidades. Nada de concreto, nada de incisivo, e também nada que pudesse sequer ser concentrado num slogan ou numa palavra de ordem.

A iniciativa de qualquer discurso político sobre estes assuntos continuou a sempre a ser da extrema direita. Há um embaraço geral da esquerda para falar sobre discriminação de minorias — as desculpas são muitas, porque aliena o eleitorado, porque dá força à extrema direita, porque divide a esquerda – e o resultado é que a extrema direita, define as linhas de força do campo de batalha.

A estratégia geral da esquerda, incluindo o PS, é dar o mínimo protagonismo ao que chamam políticas de identidade. É comum tomarem-se atitudes extremas em relação estas, fazendo-as equiparar em gravidade e perigo à extrema direita. O que são políticas de identidade? Anti-racismo protagonizado acima de tudo por minorias racializadas, feminismo protagonizado acima de tudo por mulheres, anti.discriminação LGBTQ protagonizada por pessoas LGBTQ.

Está-se num ponto em que se aceita pessoas racializadas, lgbtq e mulheres desde que não chamem a atenção para isso. É como que uma extensão do velho chavão do velho chavão homofóbico «Ninguém tem nada que ver com o que fazem na vossa vida privada» e isso é, como deveria ser evidente, a imposição de uma privatização.

Dirão que não é uma «privatização» sentido económico, mas esse uso é um estreitamento político do termo, que reduz o seu âmbito com consequências importantes. A principal delas é que certas lutas são isoladas a partir de fora, tornando-se pessoais e individuais, o que quer apenas dizer que lhes é negada a possibilidade de reclamarem comunidades, pontos em comuns, a posibilibilade de serem uma «coisa pública», uma res pública.

A economia tem-se revelado uma maneira de isolar certas lutas mais incómodas, mesmo à esquerda. Um exemplo típico é a versão de esquerda das trickle down economics. À direita, é a crença que favorecendo economicamente os mais ricos, os benefícios «escorrem» para baixo, não sendo necessário fazer mais do que isso pelas classes mais oprimidas. À esquerda é a crença que favorecendo economicamente as classes mais oprimidas, os benefícios «escorrem» para baixo eliminando preconceitos raciais, xenofobia, lgbtqfobia, misogínia, etc.

A experiência e a história desmentem qualquer uma destas crenças. Todas as tentativas de resolver a discriminação racial e de género como um problema de segunda ordem têm sempre falhado, porque não resolvem nada. Só varrem para debaixo do tapete. Desde as tentativas norte-americanas de resolver o racismo, tornando-o invísivel, às tentativas estalinistas de administrar politicamente etnias, à marginalização da homossexualidade, à laicização e desracialização forçada do Estado francês, tudo deu e dá espectacularmente para o torto.

Nunca é possível resolver questões de discriminação às cegas, fazendo de conta que não se vê cores, ou exigindo a minorias que sejam discretas, desaparecendo do espaço público. Este imperativo de supressão é, em si mesmo, um acto de opressão, percebido como tal pelas comunidades alvo.

Tem apenas a virtude de sinalizar o carácter visual da discriminação. Ou posto de outro modo, o seu carácter «invisual». Como aponta de modo muito certeiro WJT Mitchell, o racismo contemporâneo exprime-se como uma invisualidade: «eu sou cego às cores». O que tem como consequência e objectivo que o ónus e a culpa de ver o racismo cai em cima das minorias racializadas e dos seus aliados. São estes que vêem racismo em todo o lado.

O campo do anti-racismo contemporâneo é o de uma visualidade específica, de uma partilha do sensível, em termos Rancerianos, entre quem não vê e quem vê. O mesmo se poderia dizer do feminismo e do activismo lgbtq.

Dir-se-á que é uma questão de linguagem, mas a verdade é que ao recusar uma visibilidade política específica a minorias, uma representação, acaba por se reduzir estas lutas a áreas incómodas mas toleráveis porque já são tratadas como ghettos de qualquer dos modos. Estou a falar das artes e da cultura em geral. Poderíamos dizer que estas são as áreas onde se organiza oficialmente a percepção. É aqui um dos poucos sítios onde se tem valorizado a representação de minorias através de quotas, onde estas podem falar pela sua própria voz não mediada.

O resultado é a sua visibilidade percebida de modo hipertrofiado pelos que se recusam a ver. As artes são tratadas como um ghetto, e a função do ghetto não é apenas isolar mas também amplificar a percepção da existência de uma minoria, exacerbar a sua visualidade como com uma lupa. O ghetto torna visível a minoria, marca-a para ser discriminada, se essa marca já não for perceptível.

A limitação de práticas de igualdade à cultura sem que isso tenha eco no resto da sociedade, por exemplo na esfera da representação política, tem como consequência a percepção que as exigências de igualdade da minoria são despropositadas, tendo em conta que, por virtude, da própria discriminação essa minoria já parece ter destaque suficiente.

A solução será tornar essas discriminações visíveis em todas as esferas.

Filed under: Crítica

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