The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Público Ilustrado

Sobre o Público ilustrado de ontem, só duas coisas.

Primeira: como muita gente apontou, os ilustradores não foram pagos. Já participei umas tantas vezes nesta iniciativa e é triste ver como isso continua a acontecer. Ainda se assume que ilustradores vão trabalhar a troco de visibilidade e ainda se fica à espera que agradeçam. Como é evidente, o Público também lucra com uma edição que, mesmo que marginalmente, vai ser comprada por colecionadores, curiosos e aficionados.

Segunda: quando participei, pensava que aquilo realmente iria acabar por provar que um jornal pode ficar a ganhar com a presença de mais ilustração. Mas isso não é uma lição que seja ou possa ser, ou queira ser aprendida. Os jornais pura e simplesmente não sabem o que fazer com a ilustração e muitos ilustradores não sabem o que fazer com um jornal.

Nesta última edição, percebe-se o carácter ad-hoc de quase todos os desenhos, encaixados conforme se pode numa base concebida com a fotografia em vista. Poucos faziam um bom par com as cores e tipografia densas. Muitos limitaram-se a ilustrar os temas dados com graçolas que pouco acrescentam – não vou dizer nomes, porque a coisa me parece sistémica. Já era assim no meu tempo e o problema é andar a põr-se por um dia um carro a gasolina a funcionar a electricidade. Vale pelo gesto ou nem isso.

Continua a ser um pouco triste ver bons ilustradores sujeitos a isto.

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A Nova Fundação

Da nova série inspirada na Fundação, de Isaac Asimov, o que gosto menos é a narrativa que rodeia a fundação própriamente dita. Sempre que se corta para o inóspito planeta Terminus onde fica fica sediada, dá-me logo vontade de fazer pause.

Em contrapartida, o que gosto mais nem aparecia sequer nos livros, o imperador tricéfalo, dividido em três clones com idades distintas. Via de bom grado uma série só sobre isto. É política, é governo, é pós-humanismo, é poder através do tempo, é inventivo, tem word-building e time-building. Tem, em suma, as melhores qualidades da série original.

A fundação, pelo contrário, é só gente aos tiros e a correr dum lado para o outro e a esfaquear-se e a arrancar olhos. Uma das citações mais conhecidas dos livros sentenciava que a violência é o último refúgio dos incompetentes. Quem a dizia era Salvor Hardin, que nos livros ultrapassou uma crise militar pela inteligência diplomática. Na série, Hardin anda sempre aos tiros, aos pontapés e a abrigar-se de explosões.

Não sou um purista. Não acho que um livro deva ser transposto tal qual para o ecrã. Marcou-me a mim, como a muita gente, que o protagonista dos primeiros livros da Fundação fosse a História, mas mesmo Asimov se cansou e tornou os últimos livros em Space Opera, que se lêem bem, mas nos deixam a pensar se tivesse levado a premissa até ao fim: o que sucederia se a filosofia da história fosse realmente uma ciência exacta. O que daí deriva é que a História muda de direcção e olha para o futuro. Foi coisa que já se tentou, por exemplo com o marxismo, mas que se desfez precisamente nos anos em que a Fundação foi escrita, entre os primeiros livros na década de cinquenta e o segundo ciclo, já na década de 1980.

Agora, recupera-se a Fundação no século XXI e é natural que a sua premissa duma fórmula matemática que dite a história já é impossível de se vender por si mesma. Precisa de todo o tipo de agência humana a conspirar em segredo para a apoiar, o que lhe retira a razão de ser. Suponho que isto ilustra a descrença recente nas ciências humanas, que se estende até a quem as pratica e se mostra cada vez mais disposto a acreditar em teorias de conspiração do que na existência de sistemas económicos, sociais e políticos que organizam os assuntos humanos de um modo que não pode ser realmente ditado pela vontade dos indivíduos. Aqui também se cai na facilidade narrativa equivalente a resolver problemas sistémicos disparando mísseis contra eles.

Ironicamente, os únicos personagens que têm uma visão sistémica dos problemas acabam por ser os imperadores.

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O Novo Dune

Resisti ao novo Dune durante quase toda a primeira hora, não por ser mau, mas por me parecer que vibrava, como se fossem três impressões a cores diferentes um pouco desfasadas entre si.

Já tinha visto quase as mesmas cenas com outros actores pelo menos mais duas vezes, no filme de Lynch e na mini-série. E, sem os actores, mais duas vezes, na novelização do primeiro filme escrita por Joan D. Vinge e editada pela Europa-América, e no livro original de Frank Herbert. Três, se contar o documentário sobre Jodorowski. Cada diálogo vibrava de familiaridade, até que o filme de Villeneuve se focou para mim como uma moeda que acaba de girar sobre uma mesa, e percebi que tinha aquela qualidade de estranheza que nos põe a sonhar à noite com certa narrativa. A violência alienígena, pós-humana de tudo aquilo, de como os cenários habitam tão bem a estreiteza do ecrã.

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Unseen by design

Magazine online sobre forma, política, estética e ética. Versão beta.

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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico.

Autor do livro O Design que o Design Não Vê (Orfeu Negro, 2018). Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

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