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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Nova Fundação

Da nova série inspirada na Fundação, de Isaac Asimov, o que gosto menos é a narrativa que rodeia a fundação própriamente dita. Sempre que se corta para o inóspito planeta Terminus onde fica fica sediada, dá-me logo vontade de fazer pause.

Em contrapartida, o que gosto mais nem aparecia sequer nos livros, o imperador tricéfalo, dividido em três clones com idades distintas. Via de bom grado uma série só sobre isto. É política, é governo, é pós-humanismo, é poder através do tempo, é inventivo, tem word-building e time-building. Tem, em suma, as melhores qualidades da série original.

A fundação, pelo contrário, é só gente aos tiros e a correr dum lado para o outro e a esfaquear-se e a arrancar olhos. Uma das citações mais conhecidas dos livros sentenciava que a violência é o último refúgio dos incompetentes. Quem a dizia era Salvor Hardin, que nos livros ultrapassou uma crise militar pela inteligência diplomática. Na série, Hardin anda sempre aos tiros, aos pontapés e a abrigar-se de explosões.

Não sou um purista. Não acho que um livro deva ser transposto tal qual para o ecrã. Marcou-me a mim, como a muita gente, que o protagonista dos primeiros livros da Fundação fosse a História, mas mesmo Asimov se cansou e tornou os últimos livros em Space Opera, que se lêem bem, mas nos deixam a pensar se tivesse levado a premissa até ao fim: o que sucederia se a filosofia da história fosse realmente uma ciência exacta. O que daí deriva é que a História muda de direcção e olha para o futuro. Foi coisa que já se tentou, por exemplo com o marxismo, mas que se desfez precisamente nos anos em que a Fundação foi escrita, entre os primeiros livros na década de cinquenta e o segundo ciclo, já na década de 1980.

Agora, recupera-se a Fundação no século XXI e é natural que a sua premissa duma fórmula matemática que dite a história já é impossível de se vender por si mesma. Precisa de todo o tipo de agência humana a conspirar em segredo para a apoiar, o que lhe retira a razão de ser. Suponho que isto ilustra a descrença recente nas ciências humanas, que se estende até a quem as pratica e se mostra cada vez mais disposto a acreditar em teorias de conspiração do que na existência de sistemas económicos, sociais e políticos que organizam os assuntos humanos de um modo que não pode ser realmente ditado pela vontade dos indivíduos. Aqui também se cai na facilidade narrativa equivalente a resolver problemas sistémicos disparando mísseis contra eles.

Ironicamente, os únicos personagens que têm uma visão sistémica dos problemas acabam por ser os imperadores.

Filed under: Crítica

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