The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Da Criação de Emprego

De todos os moralistas ingleses (e não são poucos), não deve ter havido um que se tenha divertido mais (ou que tenha escrito mais histórias de detectives) do que Gilbert Keith Chesterton.

O seu livro mais conhecido, O Homem Que Era Quinta-Feira  (1908), é talvez a mais perfeita história de espiões inglesa, na qual um jovem poeta é recrutado como agente-secreto da Coroa na luta contra uma organização de anarquistas dirigida por um misterioso vilão cujo nome de código era Domingo. Um pouco como se James Bond também se dedicasse aos versos e usasse um cachecol.

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Democracia a 8 Bits

Para quem a defende, a austeridade não parece ser apenas uma doutrina económica mas também discursiva. Não se trata só de empobrecer os bolsos da maioria mas também a sua capacidade de se manifestar em público.

Isso fica bem claro nos apelos frequentes que se tem feito à paciência e ao silêncio, desde Manuela Ferreira Leite com os seus seis meses de suspensão da democracia, até aos seis meses de silêncio pedidos pelo reitor da Universidade do Porto. Se pensarmos que a democracia é o governo através da discussão e que as votações são apenas a parte do processo onde se escolhem os melhores argumentos, pedir silêncio ou pedir a suspensão da democracia é exactamente a mesma coisa.

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Nada na Manga

Por convenção, um busto não costuma ter braços e este, encontrado na sala de espera de uma biblioteca, cumpre a norma mais do que à risca, ficando apenas a dúvida se lhe falta só um braço ou se lhe faltam três (os dois do costume mais um, que, por qualquer razão, se perdeu). Em todo o caso – e isso é certo – tem mais uma manga que a maioria dos seus congéneres menos afortunados. (Moral da história, que pode ser aplicada aos nossos tempos de crise: até para mostrar que se andou a cortar é preciso gastar mais do que o costume – a austeridade orgulhosa no fundo é uma forma de ostentação.)

 

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Sociedade de Geografia

Atrás de uma porta grande mas discreta, mesmo a seguir ao Coliseu dos Recreios, fica a Sociedade de Geografia de Lisboa, um daqueles sítios que, visitado aos oito anos de idade, pode muito bem ser o causador de uma vida de aventuras e expedições, de lugares excêntricos e distantes, histórias antigas e meio esquecidas, artefactos e mapas, máscaras africanas e louças das Índias, com formas e funções que se foram perdendo.
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Ida e Volta

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No comboio para Lisboa, um ritual agora tão quotidiano que já sei o local exato onde esperar no cais de Campanhã para que a porta da carruagem certa pare quase à minha frente.
Ainda não há muito tempo mesmo esta curta deslocação era uma perturbação considerável – viajar em si não chega a ser desagradável para mim, antes pelo contrário, mas os rituais de preparação, fazer a mala, esquecer-me inevitavelmente de qualquer coisa, deixam-me quase sempre inquieto. Assim, nos velhos tempos, preferia ir a Lisboa e vir no mesmo dia, o que me dava a sensação de ser uma pedra atirada para cima, perdendo velocidade à medida que me aproximava do ponto mais alto do arco (Lisboa), gozando aí umas horas breves de ausência de peso – a espreitar livrarias ou ver exposições –, para, ao fim do dia, voltar a ser puxado pela gravidade em direcção ao Porto.

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Drive

Gostei de Drive desde a primeira imagem, desde o genérico até à cena final, passando pela banda sonora. É um filme onde não há um personagem que não seja um cliché, onde tudo parece que já foi visto algures, que só surpreende verdadeiramente pela violência extrema de algumas mortes e a economia elegante da narrativa – e basta, mais do que basta.

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O Pinguim

Uma boa passagem dos Textos de Guerrilha, apanhado na biografia de Luiz Pacheco da Tinta da China, na página 53, a propósito d’O Pinguim, um jornal que criou no Liceu, impresso num copiógrafo artesanal:

“de fácil construção, que os copiadores da época eram escassos e tinham de ser declarados na PIDE, tal o medo, as precauções! Um tabuleiro; gelatina; um ácido qualquer para não azedar a massa; tinta hectográfica [violeta] para os desenhos, fita de máquinaidem para os textos. O Pinguim: direcção minha, desenhos de paginação do Manuel José Morgado, um caldense com muita queda para a escrita e o desenho, então hóspede em minha casa, hoje alta patente das Forças Armadas. Com quem tive pugnas à refeição, ele anglófilo, eu germanófilo dos quatro costados. São manias da adolescência. Convidei o [José Cardoso] Pires. Que me apresentava, dias depois, o seu primeiro original, Aventuras do Mosquito Zig-Zague, e me exigia pagamento dos Direitos de Autor, cinco tostões, prenunciava sua posterior intransigência que perfilho, que um escritor portuga que receba menos de 20 por cento de percentagem sobre o preço de capa é um refinado filho de puta!”

De uma assentada, percebe-se o modo como a censura actuava sobre as tecnologias de reprodução de escritório e como funcionavam estas. Será que a tinta violeta usada no Comunidade era uma eco destas primeiras experiências?

Update: Pelos vistos, as tintas roxa e verde de algumas das publicações eram apenas as mais baratas da gráfica.

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Faroeste

De todas as coisas passadas no Velho Oeste, as minhas favoritas são – claro – alguns dos filmes de Leone, mas sobretudo uma coisa ainda mais estranha, violenta e absurda, também italiana, chamada Django, onde um soldado arrastava atrás de si um caixão durante quase todo o filme. Ao fim do qual ou se saia morto ou grotescamente estropiado.

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Contra a Maré

Das coisas que me deixou a parte inglesa da família, para além de uma paixão indirecta pela língua e pela literatura que nunca se traduziu em grande sotaque, uma das minhas favoritas é um livro para crianças que a minha avó me ofereceu numa das suas visitas a Portugal. Era um desses livros cheios de factóides históricos e científicos, de grandes invenções e de biografias. O único português presente era o navegador Magalhães, irreconhecível sob o pseudónimo de Ferdinand Magellan.

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Austeridade e Demagogia

Nas últimas duas páginas das revistas de super-heróis Marvel brasileiras do começo da década de oitenta vinha um dicionário coleccionável, uma pequena enciclopédia organizada por herói, vilão, grupo, associação ou espécie, com alguns planetas ou países ficcionais pelo meio. No rol vinha um vilão que assumia o nome bastante descritivo de Camaleão, um dos primeiros que o Homem Aranha enfrentou no começo da sua carreira, pouco antes do meio dos anos sessenta. Não tinha super-poderes, mas era um mestre do disfarce que simulava num instante qualquer identidade, podendo mesmo – segundo informa o dicionário; eu nunca li essa história – enganar ao mesmo tempo mais do que um observador, assumindo perante cada um uma identidade distinta.

O discurso da austeridade tem uma capacidade semelhante para significar coisas distintas a ouvintes distintos, sem mudar uma vírgula. É uma boa característica dentro da comunicação pública contemporânea, habitualmente limitada a intervenções curtas, sem grandes oportunidades para argumentação complexa, e que justifica muito provavelmente o seu êxito.

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A Culpa Rotativa

Já houve tempos em que Pedro Passos Coelho se dedicou a prometer com elegância sem dúvida irrealista que, eleito, não andaria a apontar culpas ao anterior Primeiro Ministro. Bons tempos.

Agora, se não é o próprio Passos a fazê-lo, às claras ou por subentendidos, alguém o faz por ele – um colega, um cronista, alguém na rua, etc. E até há quem defenda que quase seis meses ainda não são suficientes para Passos e o seu Governo já terem culpa do que quer que seja – portanto, a culpa só pode ser dos governos anteriores, sobretudo do último.

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A Garrafa de Pedra

(foto: Susana Gaudêncio)

Reparei na garrafa de pedra há quase vinte anos, quando o meu primeiro emprego – ou mais exactamente “estágio” – me obrigava a atravessar todos os dias a ponte D.Luís numa daquelas carreiras privadas mal-cheirosas que faziam os autocarros dos STCP da época parecerem vaivéns espaciais. Do lado de Gaia, quase invisível a meio da ladeira do lado esquerdo da ponte, um pouco abaixo do tabuleiro superior, via-se a custo da janela da carreira um edifício em ruínas coroado por uma garrafa de vinho do Porto, provavelmente moldada em cimento.

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A classe média a sério

Dentro da chavonística nacional, uma das ideia mais curiosas é que (exceptuando o funcionário público) nunca tivemos uma classe média a sério. O “argumento” segue, gabando as virtudes dos países onde há realmente uma classe média e que isso demonstra a agilidade da economia, a mobilidade social, a participação cívica, etc. Seria portanto necessário criar aqui essa tal classe média a sério. Mas, infelizmente, a classe média actual, mantida artificialmente pelo Estado, estaria a ocupar o lugar da verdadeira classe média, assim deve-se eliminá-la para que a nova apareça. Não interessa muito que a nível global a classe média esteja a desaparecer, e que esse desaparecimento esteja ligado à erosão sistemática do Estado, e que como consequência da degradação dessa tal classe média a desigualdade social esteja a crescer (a desigualdade é, por definição, a eliminação de escalões intermédios de rendimento). Portanto, a estratégia acaba por ser eliminar a pouca igualdade que vamos tendo em nome de uma que talvez venha.

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Também há designers na Rua dos Douradores

(via)

Sim, é literalmente verdade: conheço uns tantos que lá vivem ou têm lá os seus estúdios, mesmo ao lado dos restaurantes onde Fernando Pessoa almoçava, que hoje alternam com comida indiana e postos de aluguer de Segways, mas – para quem não conheça – o sentido do título será mais óbvio lendo o seguinte texto, um dos mais famosos do Livro do Desassossego e que poderia ser uma espécie de Teoria Geral da Cultura Pobre:

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Participação

Já não me lembro bem dos pormenores, já o li há quase vinte anos, mas no livro The Napoleon of Notting Hill (1904), uma fábula futurista passada no popular ano de 1984, o escritor e ensaísta inglês G.K. Chesterton propunha um curioso sistema político: uma monarquia democrática, onde cada vez que um rei morria era sorteado entre toda a população de Inglaterra um sucessor. A garantia de competência do novo soberano era assegurada pelo sistema de ensino que dava a todos os súbditos a formação suficiente para exercerem o cargo. Corria tudo tão bem que já ninguém distinguia um rei do seguinte, cada um deles um administrador competente mas cinzento. Naturalmente, a coisa daria para o torto com a “eleição” de um rei com ideias fantasistas que daria cabo daquilo tudo.

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O meu plano para fugir à crise

O episódio da semana passada do Community (a melhor comédia americana dos últimos anos) deu-me uma ideia para fugir à crise. Reparem: o aquecimento global, o fundamentalismo, a crise económica provocada pelo neo-liberalismo, o investimento no neo-liberalismo para resolver essa mesma crise usando exactamente as mesmas tácticas que a provocaram. Tudo isso demonstra que o nosso é um universo maligno.

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A puxar ao coração

Uma das funções do crítico é agarrar (às vezes literalmente) nos ombros de toda a gente que encontra e dizer-lhe, olhos nos olhos, que deveria, absolutamente e o mais depressa possível, estar atenta a isto ou aquilo – em geral, asneiras que foram sido ditas, feitas ou defendidas. Muito mais raramente, o agarrar dos ombros e o olhar dos olhos é sobre coisas brilhantes que ninguém conhece de todo ou o suficiente. É por isso que vos digo, caros leitores e leitoras, que vos agarro nos ombros e vos olho nos olhos e digo, leiam os Love & Rockets de Jaime Hernandez.

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Tardia Pachecofília

Confesso que até há muito pouco tempo o culto à figura de Luiz Pacheco me deixava perplexo. Havia quem lhe chamasse libertino, mas ele pouco mais fazia nesse campo do que emprenhar empregadas domésticas e escrever sobre o assunto.

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Patentes e Altas Patentes

No meio das aulas e dos textos de longo curso, ando sem muito tempo para escrever aqui mais do que textos curtos, mas não podia deixar passar esta citação de Paul Krugman:

“I’ve never liked the notion of talking about economic ‘science’ — it’s much too raw and imperfect a discipline to be paired casually with things like chemistry or biology, and in general when someone talks about economics as a science I immediately suspect that I’m hearing someone who doesn’t know that models are only models.”

(E claro: se a economia não é uma ciência exacta, o que dizer das artes e do design? )

Mas, enfim. Se por um lado metade do mundo anda a negar a evolução e o aquecimento global, a outra metade anda a destruir a Ciência de um modo bem mais eficaz ao reduzi-la a um mero sistema burocrático de progressão de carreira inspirado superficialmente no modelo científico de apresentação e avaliação em regime de peer review. Na grande maioria não passa de ciência culto cargo, um termo cunhado por Richard Feynman para designar áreas onde se respeita mais a formalidade do cientista que a ciência propriamente dita.

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A teoria

Uma reflexão mais emotiva e talvez mais autobiográfica que o costume sobre a teoria e o que torna alguém um teórico por Terry Eagleton no seu The Function of Criticism (tradução minha):

“A teoria é muitas vezes entendida como uma ocupação hermética e sofisticada, e há boas razões para isso; mas, traçando o desenvolvimento da moderna teoria da literatura até aos anos 1960, lembramo-nos da inocência de todas as empreitadas teóricas. A interrogação teórica demonstra sempre algo da perplexidade de uma criança perante práticas dentro das quais ainda não foi completamente incluída; enquanto essas práticas não se ‘naturalizaram’, a criança retém uma sensação da sua arbitrariedade misteriosa, talvez até cómica, e continua a dirigir as mais fundamentais e intratáveis perguntas aos mais velhos sobre as suas razões e motivações. Esses adultos tentam sossegar a estranheza da criança com uma justificação Wittgensteiniana: ‘Isto é o que nós fazemos‘; mas a criança que retém o seu fascínio vai crescer para ser o teórico e político radical que exige justificação, não por esta ou aquela prática, mas por toda a forma de vida material – a infra-estuctura institucional – que as concretiza, e que não entende porque se pode fazer as coisas de modo diferente por uma vez.”

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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

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