The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Lista do Ano

Começam a aparecer as primeiras listas de coisas importantes de 2012. Aqui fica a minha, que é de prioridades do dia-a-dia (e também vale para 2013): Leia o resto deste artigo »

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Filed under: Crítica, Cultura, Política, Prontuário da Crise

Como um Boy a olhar para um Palhaço

Em geral, chamar nomes ao nosso Governo não é má ideia; afinal, argumentar com eles não tem efeito nenhum. Em abstracto, qualquer nome serve, desde que seja justo e – se possível – bem esgalhado. Há alguns nomes, porém, que me custam. São preconceitos subtis que prejudicam mais o emissor do que o receptor.

Se há coisa que aprendi com esta crise é que existe uma deontologia do insulto. O bom insulto deve ser cirúrgico, evitando alvos civis enquanto dizima o seu alvo. O mau insulto degrada o ambiente e a sociedade. Leia o resto deste artigo »

Filed under: Crítica, Política, Prontuário da Crise

Caricaturas

António Guerreiro, no Expresso deste fim de semana, defende que a “doutrina neoliberal, no discurso corrente da esquerda, é uma mera máquina de desmantelamento do Estado. Ora, o neoliberalismo é algo mais complexo e, sobretudo, constitui um desafio à esquerda, para esta se pensar a si própria”. Essencialmente, acusa a esquerda de atacar não o neoliberalismo mas uma caricatura a traço grosso.

Contudo, ele próprio acaba por cair numa generalização caricatural do discurso de esquerda. Se o neoliberalismo é uma doutrina com décadas de existência, a sua crítica também já não é nova, nem se resume a acusações de desmantelar o Estado. Leia o resto deste artigo »

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Missão: Demissão!

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Já vamos nesta crise há quatro anos, mais ou menos dois desde que chegou aqui a Portugal, e foi-se tornando enjoativo ver as mesmas falácias a serem repetidas e rebatidas todos os dias. Desde o “viver acima dos meios” até “ao temos que empobrecer”, passando pelo “não há alternativas”. Nada disto é verdade; há argumentos convincentes contra tudo isto e muito mais. Torna-se cansativo escrevê-los aqui outra vez. Até se torna penoso lê-los. Não porque não sejam mais elegantes, articulados e estruturados que tudo o que este governo alguma vez tenha dito, mas porque simplesmente são ignorados por quem está no poder. É um desgaste que é também um desgaste da própria ideia da discussão racional e informada como base da democracia. Leia o resto deste artigo »

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Parábola

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A história é conhecida. Peter Saville queria usar uma reprodução de um quadro de Fantin-Latour na capa do disco, mas não se sabia bem quem detinha os direitos de autor. Pressionado por Tony Wilson, o director da National Gallery respondeu que pertenciam ao “povo inglês” ao que Wilson respondeu que o povo inglês queria mesmo usá-la na capa de um disco. Se a história tem piada, se é subversiva, é porque pouca gente se lembra de usar o que é público literalmente, como se fosse realmente nosso. Cada vez que entregamos dinheiro ao Estado em impostos ou segurança social, estamos a investi-lo, quase como se o puséssemos  num banco. Se algum dia fizermos como Wilson e formos levantar esse dinheiro, ou pelo menos usar aquilo em que ele foi gasto, será que ainda vai lá estar? O nome do disco dá talvez uma pista.

 

 

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Corrupções

Há duas definições possíveis de corrupção, uma legal e outra ética. No primeiro caso, o mais simples, alguém paga (em favores ou dinheiro) a alguém para ser favorecido, em geral lesando outras pessoas. Os exemplos são muitos: desde o político que faz uma lei que prejudica toda a gente menos um “amigo”, até ao instrutor de condução que “agiliza” a carta em troca de uma “atençãozinha”. Chama-se a isto tudo corrupção porque adultera um processo desviando-o do seu propósito original, deformando ou destruindo os seus princípios em nome de outros, em tudo menos na aparência – por exemplo, um concurso público feito já com um vencedor em vista dá uma legitimidade meritocrática a um processo que não o é de todo. Leia o resto deste artigo »

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This is Not a Love Song

Tenho andado a coleccionar histórias de gente que votou neste governo por convicção estratégica ou militância e se arrependeu, muito. Fala-se de confiança nos mercados mas se o Governo fosse uma empresa boa parte dos seus accionistas já a teriam abandonado. Em outras ocasiões, sem a crise, sem a Europa, com outro Presidente e outra oposição, já teriam saído. Agora, receio que seja tarde demais para os demitir. Há quem acredite que gente como Dias loureiro se demitiu quando na verdade ainda são ministros de um território que deixou de ser político e público. A maré secou, a linha de costa mudou, mas eles continuam e continuarão no mesmo sítio. E este governo, a privatizar como poucos, em breve se tornará eterno. Em outros tempos seria um Golpe de Estado, mas até para isso é preciso Estado.

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Pro Bono, ou melhor: Pró Boneco

Esta semana mais uma notícia típica. Pagaram-se 120 000 euros a Peter Greenaway para realizar uma curta metragem 3D para o Guimarães 2012; fez-se um casting; escolheram-se actores, que acabaram por descobrir que trabalhariam à borla; o pouco dinheiro disponível ia ser usado para pagar o filme; terem uma obra de Greenaway no currículo seria pagamento suficiente; alguns recusaram. Leia o resto deste artigo »

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Soluções, Alternativas

Com a crise a durar há uns quatro anos, já devia ser evidente o que está ou não a dar certo. No meu caso, fui aprendendo com o que lia. Alguns comentadores ou especialistas tinham mais razão do que outros. Paul Krugman, por exemplo, desde há anos que tem previsto com bastante precisão a evolução da crise no mundo e em particular na Europa e até Portugal. Paul de Grauwe, que esteve cá esta semana, e de quem tomei conhecimento via Krugman, conseguiu prever a crise europeia actual antes ainda do Euro ter começado a funcionar. Tudo isto apontava para Keynes, que fui lendo, e para a necessidade de perceber mais de economia. Para isso, li um manual de Krugman, Wells e Graddy, Essentials of Economics. Por cá comecei a apreciar os textos do economista Pedro Lains, que tem feito um bom trabalho a desmontar certas ideias feitas sobre a crise. Leia o resto deste artigo »

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Filhos, Família, Design

Tal como todas as profissões, não basta produzir paginação, cartazes, logotipos, sites para se fazer design. É preciso fazê-lo de certa maneira, usando certas ferramentas, reconhecendo certas influências, etc. Por defeito, espera-se que o designer gráfico típico tenha o seu próprio atelier, sozinho ou com colegas, que trabalhe para clientes que o procuram aí, que faça o seu trabalho usando um Mac com o inDesign instalado, que tenha ouvido falar do designer X ou Y, da revista Z, etc. Não é, claro, uma obrigação rígida mas um conjunto de formalidades bastante  negociável. Poderíamos chamar a isto o discurso alargado da disciplina. Leia o resto deste artigo »

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“Não faças do teu pensamento blocos de cimento”

A discussão política, crítica e até filosófica parece-se cada vez mais com comprar iogurtes numa grande superfície: queremos comprar um ou dois e acabamos por ter que levar uma dúzia. Não há outro remédio; só se vende assim. Do mesmo modo, às vezes gostamos de certo conceito de Marx e não o podemos usar por que se aceitamos Marx temos que aceitar Stalin, etc. À direita, também não podemos tocar nos Futuristas porque isso leva a Mussolini, e por aí adiante. Leia o resto deste artigo »

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“Curating is the new criticism”

Em resposta¹ à famosa observação de Pedro Gadanho (e que dá o nome a este texto), ocorre-me que há uma diferença fundamental entre crítica e comissariado: ambos produzem um discurso argumentado em público sobre certos objectos ou áreas, é verdade, mas esses discursos são construídos materialmente de modos muito distintos. Enquanto a crítica é feita de palavras – neste momento basta um computador e acesso à net –, o comissariado constrói o seu discurso a partir da gestão ou colaboração com artistas, acervos, instituições ou eventos. Ou seja, enquanto a crítica é relativamente barata, não precisa de muitos meios, o comissariado pressupõe um acesso directo aos artistas, às obras, às instituições ou aos eventos. São estas as “palavras” que compõem o discurso do comissário. Leia o resto deste artigo »

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A Família no Combate ao Nepotismo

No Público, José Manuel Fernandes atira-se à greve dos estivadores, com os argumentos do costume, articulados do modo do costume. Ou seja, bastante preconceito, barrado com uma leve camada de factos e legislação, abrindo caminho a mais uma dose de preconceitos – associando, por exemplo, direitos do trabalho às economias controladas de Leste, desvalorizando a representatividade dos grevistas, associando-os ao comunismo e até à extrema direita, etc. Nada de muito sólido, como é habitual, apenas bocas a que é dada a aparência de seriedade pela citação de um número ou de um estudo, interpretados de modo bastante solto. Leia o resto deste artigo »

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Crítica de Arte ou Crítica da Gestão da Arte?

Quando comecei a escrever o texto de ontem sobre curadoria, a minha intenção era usá-lo como ponto de partida para uma reflexão sobre a crítica de arte – a gripe, da qual ainda sinto os efeitos, não mo permitiu.

Recapitulando, eu argumentava que a “viragem curatorial”, não apenas da arte contemporânea mas da cultura em geral, seria uma monumentalização do “gestor enquanto autor”.

Concluía, especulando que uma crítica prática a uma “arte da gestão” teria de encontrar modelos colaborativos, não-hierárquicos de apresentar a experiência estética – o que não é particularmente difícil: há bastantes modelos históricos ou contemporâneos disponíveis deste género de práticas. O maior problema reside no simples facto de quase todas as instituições culturais serem incentivadas a organizarem-se de um modo hierárquico e empresarial – e não adianta expor objectos em contextos que os desautorizam.

Outro problema, menor, reside no facto de muita da crítica de arte com mais divulgação aqui em Portugal não o permitir – falo da crítica publicada em jornais, porque neste momento (tanto quanto sei) não há mais publicações periódicas sobre arte. Leia o resto deste artigo »

Filed under: Arte, Crítica, Cultura, curadoria, Política

Sem título

Até agora ainda não encontrei uma explicação satisfatória para a chamada “viragem curatorial” das artes, tirando a evidência de ser uma moda total, absoluta: o termo aparece um pouco por todo o lado. Coisas que dantes eram organizadas, produzidas ou editadas são agora curadas ou comissariadas. Há até quem diga, famosamente, que o comissariado é a nova crítica. Leia o resto deste artigo »

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A Gentinha

É habitual argumentar-se que a privatização de serviços públicos garante a liberdade do utilizador porque pode escolher o serviço que mais lhe convém, sem o Estado a ditar-lhe qual o ensino ou a saúde que deve ter.

Mas, para muitos liberais, essa liberdade resume-se a, muito disfarçadamente, não ter que lidar com “a gentinha”, tanto no sentido de não ser obrigado a pagar-lhes a escola e o centro de saúde através de impostos, como no de simplesmente não ser obrigado a estar fisicamente com eles numa situação de igual para igual, em que dinheiro, estatuto ou família não fazem diferença. Leia o resto deste artigo »

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Palimpsesto

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Por Vila Real ainda é possível encontrar grafittis como este, a mandar Sá Carneiro para a rua, o voto para Salgado Zenha, etc. Por alguma razão, ninguém se deu ao trabalho de os tapar, com tinta ou com tags. Ganham uma certa dignidade com o tempo, como um fresco romano, um solar em ruínas ou uma velha árvore. Passei por eles durante anos, a caminho da escola, sem os olhar realmente. Agora, ganham outro sentido, outra actualidade. Mostram que o que hoje é história, já foi discutido, contestado e incerto.

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Liberdade de Expressão

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Desde há anos, quando me perguntam a diferença entre crítica e censura, lembro-me desta imagem. Um partido de extrema direita fez um oudoor a argumentar contra a imigração. Os Gato Fedorento pagaram outro outdoor ao lado satirizando-o com uma mensagem oposta. Entretanto o primeiro outdoor foi vandalizado, a sua mensagem tapada com manchas de tinta. Enquanto a censura apaga, tapa, o que pretende criticar, a crítica soma-se ao que pretende criticar. Não subtrai vozes ao discurso público mas multiplica-as. Se uso este exemplo, é porque, para mim, é um exercício de tolerância. Eu não concordo de todo com a mensagem do outdoor contra a imigração, mas custa-me que se censure em nome de ideais próximos aos meus. Poderá argumentar-se que nem toda a gente tem dinheiro para pagar um outdoor (com uma vaquinha não é assim tão caro) mas há sempre alternativas equivalentes e mais baratas de fazer algo semelhante.

Update (7.7.2018): Entretanto e depois de pensar bastante mudei de ideias. Acho perfeitamente válido que se censurem ou boicotem mensagens de ódio.

Filed under: censura, Crítica, Cultura, Política

Rosnadelas

Ontem foi um dia de enjoo físico, perante a enxurrada de insultos, ódiozinho e preconceito miúdo que foi despejada em cima de quem foi protestar pacificamente à frente do parlamento. Choca-me que o Governo e comentadores profissionais ou virtuais metam no mesmo saco gente que atirou pedras e gente que os tentou dissuadir em vão e ainda acabou por apanhar.

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Filed under: Crítica, Cultura, Política

Bibliografia

Comprei-o na Fnac há meia dúzia de anos por curiosidade e porque era barato. Acabei por nunca o ler. Hoje fui resgatá-lo à fila de trás da estante. Foi escrito por este senhor. Se calhar já é útil por aqui, onde a Austeridade mostra os dentes.

Filed under: Política, Prontuário da Crise

Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico.

Autor do livro O Design que o Design Não Vê (Orfeu Negro, 2018). Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

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