The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Brutalismo

(c)2010 George Rex Photography

Louvei um aluno por ter usado o termo “Brutalista” para designar o estilo de arquitectura. O mais habitual é querem dizer “opressivo”. Na verdade, o termo vem do Béton Brut. Usa-se cimento à vista, sem o pintar ou cobrir.

É o mesmo quando dizem “minimalismo” e só querem dizer algo branquinho com poucos elementos na composição. Que, para alguns, é também sinónimo de “moderno” ou “modernista”. Já tive uma aluna que concebeu um livro sobre arquitectos portugueses com menos de quarenta anos. Ou seriam trinta? Bem lhe tentei dizer que a maioria, a totalidade, talvez, já tinha morrido há muito.

O Brutalismo até é um estilo com aproximações ao design gráfico. Embora se veja aquilo como algo seco e estéril, tem detalhes muito interessantes. Em alguns casos, usa-se madeira nas cofragens para imprimir texturas orgânicas no cimento. Esta ideia situa-se na mesma constelação da valorização de texturas dentro do design gráfico mais ou menos da mesma época. Veja-se o trabalho de H.N. Werkman ou de Sebastião Rodrigues.

H.N. Werkman
Almanaque, Sebastião Rodrigues

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Nano Banana Pro

Tenho experimentado com AI desde 2022. Hoje, tentei o novo serviço da Google, Nano Banana Pro. Como é habitual, experimentei gerar imagens do Douro. O resultado é muito bom. Não falo em termos de realismo, mas de controle. Andava há anos a tentar gerar uma imagem onde o rio corresse paralelo ao plano da imagem. O Midjourney e o Dall-e tentam sempre pôr um ponto de fuga dramático. Consegui-o em três prompts no Nano Banana Pro. Usei estratégias que já tinha tentado com outras plataformas.

Muito do que procuro nestas plataformas de AI são problemas aparentemente simples, como este.

Quando se pergunta se o AI pode ou não produzir arte, está-se a exigir demasiado. Acredito que se ganha mais com questões mais simples: pode-se emocionar alguém (mesmo que apenas o próprio utilizador)? Pode-se contar histórias? Podem-se criar memórias? Arte é uma etiqueta demasiado exigente. Quando se trata de avaliar se algo é ou não arte, o ponto de vista dominante insiste que nem a maioria das pessoas formadas em arte consegue produzi-la. Claro que se contrapõe logo que a arte é algo inerentemente humano. Como contra-argumento a esse ponto de vista, vão a uma ou duas inauguração de arte. Vão conhecer pessoas na idade da reforma que dedicaram a vida à arte e poucos reconhecerão como artistas a sério. A arte não é generosa. Se um humano só a custo a consegue, que hipóteses tem um computador? Ou alguém com um gosto por slop?

Prefiro portanto perguntas mais simples.

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Arguência em Lisboa

Ontem, fui arguir a tese de Doutoramento do artista e professor Daniel Pinheiro à Faculdade de BElas Artes da Universidade de Lisboa. Foi uma boa experiência. Já não ia a Lisboa desde Abril, um período anormalmente longo. Para fazer tempo, visitei vizinhanças onde vivi. Encontrei a gentrificação esperada.

A tese trata das infraestruturas invisíveis da nossa “sociedade da imagem” – um trabalho muito bom. A abordagem do Daniel Pinheiro às imagens é materialista, procurando sensibilizar para problemas ecológicos e sociais através da revelação dos fundações materiais invisíveis que sustentam as imagens que circulam entre nós.

Já faz quase dez anos que me comecei a interessar pela imagem, um campo que me parece negligenciado por parte do design. Durante uma porção dessa década, investiguei extra-academia. Só no ano passado comecei a dar cadeiras relacionadas ou a dar apresentações sobre o assunto. É difícil mudar ou mesmo afinar interesses dentro da universidade contemporânea, que tem uma estrutura pesada e dá cada vez menos autonomia.

Dentro das artes, os modelos de avaliação obrigam à supremacia da escrita dentro de formatos que se tornaram burocráticos ao extremo (papers, dissertações, teses, posters, etc). Apesar de se aceitar por vezes formatos como o ensaio visual, acaba por não saber o que se fazer com investigação produzida nestes moldes. A visualidade é aceite com ensaios de 5000 palavras a servir de caução.

Gostei de ler esta tese cuja estrutura escapava ao índice tradicional (introdução, estado da arte, metodologia, estudos de caso), que serve sobretudo para facilitar o seu processamento pelo sistema. Cumpria as funções académicas mas em capítulos organizados de acordo com o assunto. Pedia atenção e sossego do arguente, e só por isso mereceria louvor. É cada vez mais impossível reivindicar essas condições básicas quando os objectos que o sistema produz encorajam o oposto.

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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico.

Autor do livro O Design que o Design Não Vê (Orfeu Negro, 2018). Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

História Universal do: Estágio

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Papá, De Onde Vêm os Designers?
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O Parlamento das Cantigas
Soluções...

História Universal dos: Zombies

Zombies Capitalistas do Espaço Sideral
Vampiros, Zombies, Classe Média

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