The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Parlamento das Cantigas

Segundo o Público de hoje, a música “Que Parva Que Sou” foi discutida no parlamento, e até já é considerada uma canção de intervenção – porquê ou por quem, a notícia não explica. Fica-se assim sem saber qual o mecanismo para legitimar uma canção de intervenção em Portugal: serão os críticos de música? será um sombrio instituto de classificação política da música popular? Se calhar – e muito simplesmente –, é uma música de intervenção porque foi discutida por políticos no parlamento. Neste aspecto, fica demonstrado que as artes ainda têm alguma capacidade para influenciar o discurso público.

Lendo a notícia, percebe-se que  a canção serviu apenas de pretexto para discutir um conjunto de problemas do mercado de trabalho português, nomeadamente a dificuldade dos licenciados e pós-graduados encontrarem um trabalho pago. Falou-se de proibir os estágios não-remunerados. Discutiu-se, mais uma vez, o famoso verso do “para ser escravo é preciso estudar”. Salvaguardou-se que o problema não é o estudo, mas o ser escravo, receando-se que a canção incentive ao abandono universitário.

Seria sensato salvaguardar também que o problema não está na canção, mas na relação injusta entre o mercado de trabalho e o ensino – afinal, trata-se apenas de uma canção e não de um decreto no Diário da República ou uma declaração do ministro das finanças. Porém,  é sempre mais fácil culpar o mensageiro quando a mensagem não agrada.

Na mesma onda, um deputado do governo acusou que o uso da palavra escravidão é “puro populismo” e reivindicou “mais soluções e menos críticas” – uma maneira preguiçosa de dizer a quem está a denunciar um problema (seu ou de outra pessoa) que devia ficar calado até saber como resolver esse problema: “Não me peçam ajuda até não precisarem de me pedir ajuda.” Ou seja, uma daquelas coisas que um representante eleito – e ainda por cima do partido do governo – devia ter vergonha de dizer.

Fica a ideia que é feio andar para aí a dizer que o Rei vai nu sem lhe ter costurado um casaquinho e umas cuequinhas primeiro. Calculo que a próxima música dos Deolinda se vá chamar “Soluções para o problema da inserção dos jovens no mercado de trabalho”. Não cai tão bem  no ouvido, mas o Governo agradece.

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Filed under: Economia, Ensino, Política

4 Responses

  1. Olá Mário 🙂
    Acompanho o blog, sempre pertinente do ponto de vista do design, das questões sociais, éticas, etc.
    Quanto a este assunto, estou numa fase de cansaço/desencantamento relativamente às políticas e comportamentos sociais que estão cada vez mais enraizadas/naturalizadas nesta sociedade.
    Considero que existe uma desresponsabilização geral. O vírus não está alojado apenas na classe política; os administradores, os gerentes, os colaboradores, trabalhadores, estudantes, desempregados, aposentados, etc,… todos temos vindo a revelar um individualismo egocêntrico/covarde, um anticivismo que nos encaminha para a alienação social/política.
    Soluções? O sistema está demasiado viciado. O certo é que cada um, no seu pequeno mundo, poderá contribuir, dia a dia (sem esmolas e com atitudes) para que a realidade não seja esta.
    E isto dava muito que falar…
    Abraço

  2. duarte carolino diz:

    Não resisti uma vez mais a comentar este tema, este fenómeno gerado pela música dos Deolinda é, à falta de melhores palavras fascinante! confesso que não sou um apreciador da banda…mas estiveram bem, tal como o Mario: “gosto muito de o ver trabalhar”, mergulhou de cabeça e brindou-nos com textos de grande lucidez.

    Quanto às artes ainda terem alguma capacidade para influenciar o discurso público… esperemos que sim, que o discurso do reflexo da própria imagem ao espelho, alterne com outras dores …no caso dos Deolinda mesmo que o resultado não seja brilhante pelo menos falou-se como nunca nos media do drama em que vive uma geração. Era bom que não fosse apenas um happening, mas suspeito que não, que nas próximas semanas estejam demasiado ocupados a procurar candidatos a bater o recorde da idosa da Rinchoa…

  3. duarte carolino diz:

    onde se lê “mas suspeito que não” dever ler-se “mas suspeito que sim”

  4. […] problemas, sugerindo soluções e até leis já completamente definidas para os resolver. Dizer, como se disse no parlamento a propósito da música dos Deolinda, que não adianta levantar problemas se não se propuserem soluções é simplesmente ignorar esses […]

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