The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

I Want to Believe

ovni

Outro dia, o meu pai perguntou-me o que era feito do Santana Lopes e eu disse-lhe que dirigia a Misericórdia (acho) e provavelmente anda a fazer as rondas de algum programa de comentário nos canais por cabo (não faço ideia). Enquanto respondia ocorreu-me que ainda havemos de vê-lo a candidatar-se a algum lugar público, talvez até à Presidência. O homem já demonstrou uma falta tão completa de consciência dos seus limites, que pode perfeitamente cumprir as mesmas (ou mais) funções que uma autoconfiança saudável. Imagino que a sua campanha poderia assegurar que, por comparação com o Governo actual, a sua falta de credibilidade é muito mais credível. Como aquelas marcas de refrigerante que reeditam um sabor antigo chamando-lhe “clássico”.

Temos um governo de tal maneira tão pouco credível, que se pusessem um deles, qualquer um, a dizer junto à Area 51 que os Ovnis existem, todos os freaks da conspiração acampados por ali desmontavam as tendas e cancelavam a sua assinatura do canal História.

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Pro Bono, ou melhor: Pró Boneco

Esta semana mais uma notícia típica. Pagaram-se 120 000 euros a Peter Greenaway para realizar uma curta metragem 3D para o Guimarães 2012; fez-se um casting; escolheram-se actores, que acabaram por descobrir que trabalhariam à borla; o pouco dinheiro disponível ia ser usado para pagar o filme; terem uma obra de Greenaway no currículo seria pagamento suficiente; alguns recusaram. Leia o resto deste artigo »

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Zen e a Arte de Governar

Estou cada vez mais convencido que temos o primeiro Governo zen da história. Nem o Japão alguma vez conseguiu um tão zen como o nosso. E estou a falar a sério. Ao que parece, os monges zen costumavam apresentar problemas e adivinhas absurdas aos noviços para que, resolvendo-as, alcançassem a sabedoria. Diziam, Visualizem uma garrafa de vidro com um ganso dentro, vivo. Agora libertem-no, sem partir a garrafa ou matar o ganso. Os noviços meditavam durante algum tempo. Os mais sábios concluíam que não havia ganso  nem garrafa, só palavras. E pronto: o ganso estava livre e a garrafa intacta. Passos, Gaspar e companhia é a mesma coisa: tinham um problema, a Constituição, o País, a Dívida e o resto. Mas para quê uma revisão constitucional, se são apenas palavras? Infelizmente, ao contrário do Ganso e da Garrafa, o País existe, as pessoas existem. E se o Governo anda zen, os governados acabarão por responder na mesma moeda.

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Soluções, Alternativas

Com a crise a durar há uns quatro anos, já devia ser evidente o que está ou não a dar certo. No meu caso, fui aprendendo com o que lia. Alguns comentadores ou especialistas tinham mais razão do que outros. Paul Krugman, por exemplo, desde há anos que tem previsto com bastante precisão a evolução da crise no mundo e em particular na Europa e até Portugal. Paul de Grauwe, que esteve cá esta semana, e de quem tomei conhecimento via Krugman, conseguiu prever a crise europeia actual antes ainda do Euro ter começado a funcionar. Tudo isto apontava para Keynes, que fui lendo, e para a necessidade de perceber mais de economia. Para isso, li um manual de Krugman, Wells e Graddy, Essentials of Economics. Por cá comecei a apreciar os textos do economista Pedro Lains, que tem feito um bom trabalho a desmontar certas ideias feitas sobre a crise. Leia o resto deste artigo »

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Filhos, Família, Design

Tal como todas as profissões, não basta produzir paginação, cartazes, logotipos, sites para se fazer design. É preciso fazê-lo de certa maneira, usando certas ferramentas, reconhecendo certas influências, etc. Por defeito, espera-se que o designer gráfico típico tenha o seu próprio atelier, sozinho ou com colegas, que trabalhe para clientes que o procuram aí, que faça o seu trabalho usando um Mac com o inDesign instalado, que tenha ouvido falar do designer X ou Y, da revista Z, etc. Não é, claro, uma obrigação rígida mas um conjunto de formalidades bastante  negociável. Poderíamos chamar a isto o discurso alargado da disciplina. Leia o resto deste artigo »

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“Não faças do teu pensamento blocos de cimento”

A discussão política, crítica e até filosófica parece-se cada vez mais com comprar iogurtes numa grande superfície: queremos comprar um ou dois e acabamos por ter que levar uma dúzia. Não há outro remédio; só se vende assim. Do mesmo modo, às vezes gostamos de certo conceito de Marx e não o podemos usar por que se aceitamos Marx temos que aceitar Stalin, etc. À direita, também não podemos tocar nos Futuristas porque isso leva a Mussolini, e por aí adiante. Leia o resto deste artigo »

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Irredutíveis

Tanto José Manuel Fernandes como Pedro Lomba já usaram o termo em relação aos estivadores que continuam em greve, que insistem em defender colectivamente os seus direitos em vez de se precarizarem como toda a gente. Toda a gente? Não. Para além dos estivadores, há outra pequena aldeia resiste ao invasor. Falo do Governo e dos seus dois partidos, que insistem em votar colectivamente, em bloco, em vez de se liberalizarem como toda a gente. Leia o resto deste artigo »

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“Curating is the new criticism”

Em resposta¹ à famosa observação de Pedro Gadanho (e que dá o nome a este texto), ocorre-me que há uma diferença fundamental entre crítica e comissariado: ambos produzem um discurso argumentado em público sobre certos objectos ou áreas, é verdade, mas esses discursos são construídos materialmente de modos muito distintos. Enquanto a crítica é feita de palavras – neste momento basta um computador e acesso à net –, o comissariado constrói o seu discurso a partir da gestão ou colaboração com artistas, acervos, instituições ou eventos. Ou seja, enquanto a crítica é relativamente barata, não precisa de muitos meios, o comissariado pressupõe um acesso directo aos artistas, às obras, às instituições ou aos eventos. São estas as “palavras” que compõem o discurso do comissário. Leia o resto deste artigo »

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Pré Punk

Não sou grande conhecedor de música. Ouço o que me entusiasma em boa parte por associação – a filmes, a vídeos, a design, a roupas. Já tinha visto muita coisa sobre o Pós Punk. Não sabia nada sobre o Pré Punk. Descobri este vídeo enquanto pesquisava sobre Rock para um texto e fiquei encadeado. A banda tocava como se estivesse a assaltar uma ourivesaria. O guitarrista tinha uma presença em palco como eu nunca vi: obsessiva ao ponto da verocidade; para a frente e para trás, de olhos em frente, sempre o mesmo percurso, uma máquina. O vocalista parecia um gangster dos anos setenta que por alguma razão descobriu que cantar serenatas era mais ameaçador do que, simplesmente, ameaçar. São os Dr Feelgood (calão para um médico disposto a vender drogas) e faziam parte do que veio a ser chamado Pub Rock, que antecedeu por muito pouco a vaga do Punk inglês. Fica aqui o que Jon Savage disse sobre eles em England’s Dreaming:

They weren’t just something to drink your beer by, but were downright threatening: Lee Brilleaux and Wilko Johnson, the groups front pair, looked like villains you might see on The Sweeney.

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Expo 1940

Já que ontem, em conversa com amigos, falei dele, fica aqui um desdobrável da Exposição do Mundo Português, com belos overprints, e uma ampliação de um dos meus detalhes favoritos: a sombra dos hidroaviões. Sem mais comentários, que não lembrar que a mania das expos já vem de longe. Cliquem nas imagens para ampliar. Leia o resto deste artigo »

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A Família no Combate ao Nepotismo

No Público, José Manuel Fernandes atira-se à greve dos estivadores, com os argumentos do costume, articulados do modo do costume. Ou seja, bastante preconceito, barrado com uma leve camada de factos e legislação, abrindo caminho a mais uma dose de preconceitos – associando, por exemplo, direitos do trabalho às economias controladas de Leste, desvalorizando a representatividade dos grevistas, associando-os ao comunismo e até à extrema direita, etc. Nada de muito sólido, como é habitual, apenas bocas a que é dada a aparência de seriedade pela citação de um número ou de um estudo, interpretados de modo bastante solto. Leia o resto deste artigo »

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Crítica de Arte ou Crítica da Gestão da Arte?

Quando comecei a escrever o texto de ontem sobre curadoria, a minha intenção era usá-lo como ponto de partida para uma reflexão sobre a crítica de arte – a gripe, da qual ainda sinto os efeitos, não mo permitiu.

Recapitulando, eu argumentava que a “viragem curatorial”, não apenas da arte contemporânea mas da cultura em geral, seria uma monumentalização do “gestor enquanto autor”.

Concluía, especulando que uma crítica prática a uma “arte da gestão” teria de encontrar modelos colaborativos, não-hierárquicos de apresentar a experiência estética – o que não é particularmente difícil: há bastantes modelos históricos ou contemporâneos disponíveis deste género de práticas. O maior problema reside no simples facto de quase todas as instituições culturais serem incentivadas a organizarem-se de um modo hierárquico e empresarial – e não adianta expor objectos em contextos que os desautorizam.

Outro problema, menor, reside no facto de muita da crítica de arte com mais divulgação aqui em Portugal não o permitir – falo da crítica publicada em jornais, porque neste momento (tanto quanto sei) não há mais publicações periódicas sobre arte. Leia o resto deste artigo »

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Sem título

Até agora ainda não encontrei uma explicação satisfatória para a chamada “viragem curatorial” das artes, tirando a evidência de ser uma moda total, absoluta: o termo aparece um pouco por todo o lado. Coisas que dantes eram organizadas, produzidas ou editadas são agora curadas ou comissariadas. Há até quem diga, famosamente, que o comissariado é a nova crítica. Leia o resto deste artigo »

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A Gentinha

É habitual argumentar-se que a privatização de serviços públicos garante a liberdade do utilizador porque pode escolher o serviço que mais lhe convém, sem o Estado a ditar-lhe qual o ensino ou a saúde que deve ter.

Mas, para muitos liberais, essa liberdade resume-se a, muito disfarçadamente, não ter que lidar com “a gentinha”, tanto no sentido de não ser obrigado a pagar-lhes a escola e o centro de saúde através de impostos, como no de simplesmente não ser obrigado a estar fisicamente com eles numa situação de igual para igual, em que dinheiro, estatuto ou família não fazem diferença. Leia o resto deste artigo »

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Basta

A Austeridade é neste momento e claramente uma doutrina falhada. Teve (e tem; e terá) todas as oportunidades e apoios para funcionar. Portanto não tem qualquer desculpa. Falhou. Falha todos os dias e em todo o lado. E não me interessa perceber se é por orgulho, estupidez, interesse, de quem nos dirige (Passos e Gaspar) ou de quem os dirige a eles (Merkel, Bancos, etc.) Alternativas não faltam, os outros partidos já as deram, os sindicatos já as deram, economistas com muito melhores credenciais e rigor que esta gente já as deram.

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Jonet

Na altura em que a polémica esteve mais acesa, confesso que não liguei muito às declarações de Isabel Jonet. Li as transcrições nos jornais e nas colunas de opinião mas nem vi o programa. Não me pareceu que valesse a pena, apenas mais outro exemplo de uma das tendências desta crise: a declaração insensível e moralista da semana, na senda de Passos, Cavaco, Borges, Ulrich.

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Palimpsesto

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Por Vila Real ainda é possível encontrar grafittis como este, a mandar Sá Carneiro para a rua, o voto para Salgado Zenha, etc. Por alguma razão, ninguém se deu ao trabalho de os tapar, com tinta ou com tags. Ganham uma certa dignidade com o tempo, como um fresco romano, um solar em ruínas ou uma velha árvore. Passei por eles durante anos, a caminho da escola, sem os olhar realmente. Agora, ganham outro sentido, outra actualidade. Mostram que o que hoje é história, já foi discutido, contestado e incerto.

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Liberdade de Expressão

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Desde há anos, quando me perguntam a diferença entre crítica e censura, lembro-me desta imagem. Um partido de extrema direita fez um oudoor a argumentar contra a imigração. Os Gato Fedorento pagaram outro outdoor ao lado satirizando-o com uma mensagem oposta. Entretanto o primeiro outdoor foi vandalizado, a sua mensagem tapada com manchas de tinta. Enquanto a censura apaga, tapa, o que pretende criticar, a crítica soma-se ao que pretende criticar. Não subtrai vozes ao discurso público mas multiplica-as. Se uso este exemplo, é porque, para mim, é um exercício de tolerância. Eu não concordo de todo com a mensagem do outdoor contra a imigração, mas custa-me que se censure em nome de ideais próximos aos meus. Poderá argumentar-se que nem toda a gente tem dinheiro para pagar um outdoor (com uma vaquinha não é assim tão caro) mas há sempre alternativas equivalentes e mais baratas de fazer algo semelhante.

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Rosnadelas

Ontem foi um dia de enjoo físico, perante a enxurrada de insultos, ódiozinho e preconceito miúdo que foi despejada em cima de quem foi protestar pacificamente à frente do parlamento. Choca-me que o Governo e comentadores profissionais ou virtuais metam no mesmo saco gente que atirou pedras e gente que os tentou dissuadir em vão e ainda acabou por apanhar.

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Filed under: Crítica, Cultura, Política

Passageiros

Ouvi ou li em qualquer lado que depois do aumento dos transportes, dos impostos, do desemprego, há cada vez mais gente a viajar sem pagar. Às vezes, juntam-se num grupo. Cada um põe um tanto, e se alguém for apanhado o dinheiro acumulado é usado para pagar a multa. É uma mutualização do risco. A mesma coisa que costumava acontecer quando se pagavam impostos ou a segurança social, podíamos nunca precisar daquilo, mas se precisássemos mesmo, estava lá. Curiosamente, quando o Estado vai abandonando a bem ou a mal as suas funções, elas vão reaparecendo em menor escala, menos eficientes, ilegais até.

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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

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