The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Acentos

A relação das fontes com a linguagem é curiosa. Apercebi-me disso – uma vez mais – por causa de um cartaz. Vi-o há uns anos; fazia parte de um projecto de poesia no metro, e mostrava um poema em galês, acompanhado da sua tradução portuguesa, impressa no mesmo tamanho e numa fonte que, à primeira vista, parecia diferente. Era quase igual, mas havia qualquer coisa que não batia certo: enquanto na versão portuguesa, era arredondada e um pouco monótona, na galesa, parecia mais interessante, mais bicuda. Olhando com mais atenção, vi que era de facto a mesma fonte, mas o galês usava muito mais letras diagonais – Y, W – do que o português, ao ponto de mudar completamente o aspecto da fonte, cujas letras diagonais eram mais características que as redondas.

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Lázaro ou Elvis?

Quando uma espécie que se julgava extinta há muito, por vezes só conhecida através de fósseis, aparece viva e de boa saúde, há duas explicações possíveis. A primeira – e mais simples – é que a espécie nunca esteve realmente morta; evitou sensatamente os seres humanos, talvez durante milénios, acabando no final por ser “apanhada” – a estas espécies, porque voltaram de entre os mortos, chamam-se espécies Lázaro. A segunda explicação é mais complicada, mas também mais interessante: pode não se tratar de uma única espécie, mas de duas espécies diferentes: uma realmente extinta e outra que se tornou, por coincidência evolutiva, semelhante à primeira – estas são as espécies Elvis, porque tal como o Rei, estão sempre a ser vistas em todo o lado, embora estejam – realmente, definitivamente – mortas.

Por um lado, isto lembra-me vagamente o enredo do filme de Christopher Nolan, The Prestige (não vou estragar o fim, mas envolve duplos e ilusionistas); por outro, lembra-me também a relação entre design gráfico e tipografia: o design assume-se como um descendente actual da tipografia, dando a entender uma linhagem ininterrupta desde Gutenberg até ao design mais recente. Mas será que a coisa é assim tão simples? Será o design um Lázaro da tipografia? Ou simplesmente um Elvis?

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Porque não é a teoria mais como a prática?

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Não me levem a mal, não é que não goste de fontes (antes pelo contrário), mas tenho por vezes a sensação que o interesse dos designers gráficos por elas é um sintoma da sua desconfiança por actividades teóricas em geral. De certa maneira, as fontes são teoria para quem não gosta de teorias.

Para criar uma fonte bem sucedida é preciso muito conhecimento da história da tipografia e, por vezes também uma quantidade razoável de pesquisa primária e secundária em arquivos, alfarrabistas, velhas gráficas, museus ou bibliotecas, mas toda esta investigação só é realmente respeitada porque consegue condensar-se num objecto funcional e vendável. Numa fonte bem feita, a história transforma-se em ferramenta, em mercadoria – embora seja capital largamente simbólico; se a maioria dos designers respeita uma boa fonte, poucos parecem dispostos a pagar por ela.

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No Logo? Yes Logo

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Quando estudei design, ensinaram-me a classificar a identidade gráfica de instituições e empresas, dividindo-a em marcas, logótipos e logomarcas. As marcas designavam identidades constituídas apenas por uma imagem, geralmente um desenho de tons planos e um número limitado de cores; os logótipos designavam texto, com o nome da empresa, instituição, pessoa, slogan ou evento a apresentar; as logomarcas juntavam imagem e texto. Desta forma, o sistema procurava fazer uma distinção entre identidade gráfica baseada em imagem e identidade gráfica baseada em texto.

A razão que me levou a desconfiar dele foi o conceito de “brand”, que se tornaria determinante na linguagem empresarial a partir dos anos 80. Se tinha a sua origem na identidade gráfica das empresas, agora a parte era usada para designar o todo, e “brand” tinha passado a ser a identidade da empresa em geral – que podia incluir mobiliário de escritório, fontes, cores, arquitectura, música, texto, uma mascote ou mesmo um porta-voz. Com esta mudança de sentido, começou a vulgarizar-se o uso da palavra “logo”, abreviatura de “logotype”, para designar a identidade gráfica.

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45 Minutos

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Fui a mais uma conferência Personal Views na Esad de Matosinhos. Cheguei uma hora antes, mas já havia fila: umas quarenta pessoas amontoadas junto à porta do auditório, a maioria de pé, uns poucos em cadeiras de plástico roubadas à esplanada do bar da escola, onde mais alguns tomavam café, olhando de vez em quando para a fila que aumentava. Era cada vez mais óbvio que a sala ia encher, como tinha acontecido com quase todas as Personal Views deste ano (mesmo a do relativamente desconhecido William Owen esteve quase cheia).

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As Fontes têm Memória?

Foi há uns meses que reparei no fenómeno. Tinha acabado de comprar um livro chamado Metro Letters – A Typeface for the Twin Cities, editado por Deborah Littlejohn em 2003, sobre o projecto de criação de uma fonte para as cidades de Minneapolis e St. Paul. Seis designers foram convidados, entre os quais Peter Bil’ak, Just von Rossum e Erik Blokland, e o resultado foi a família Twin, constituída por fontes de espessura uniforme, sem serifas, de desenho geométrico, embora com detalhes rebuscados e curvas exóticas. Na página 23 aparecia uma aplicação de uma das fontes, a Twin BitRound, ao título do jornal The Minnesota Daily que me fez lembrar bastante o jornal Futurismo de 1933, uma publicação claramente fascista com design de Enrico Prampolini.

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Vale Tudo Menos Times Corpo Doze

Há quem diga que o melhor design é invisível e depois só se preocupe com o que está mais à vista. Por exemplo, a maioria dos designers portugueses só se aflige com os aspectos mais refinados do design de livros quando fala ou edita para outros designers. A obra de Tschichold, Goudy, Morison e Bringhurst é amplamente citada mas a sua aplicação concreta vai ficando adiada para dias menos apressados ou lucrativos.

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Traduções

Existe um snobismo marcadamente português que se manifesta numa crítica desproporcionada e feroz de todos os actos de tradução. O intelectual português pratica com gosto o passatempo mesquinho de apontar os erros e deselegâncias de tradução do outro intelectual português. Os designers, que nunca chegaram a acordo sobre a tradução do nome da sua própria profissão, são os maiores praticantes desta modalidade em Portugal.

A edição portuguesa do Ensaio sobre Tipografia de Eric Gill, é duplamente vulnerável a estes ataques ao colocar a questão da tradução do design gráfico de um objecto, sobretudo quando se toma a opção polémica de não seguir exactamente a edição original. No entanto, existem bastantes razões para respeitar este livro. Entre elas: a responsabilidade e franqueza com que as decisões de design foram tomadas e o próprio livro que, mesmo que não fosse um objecto raro no panorama editorial português, continuaria a ser muito bem feito.

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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico.

Autor do livro O Design que o Design Não Vê (Orfeu Negro, 2018). Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

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