The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Design de Regime

Apropriadamente, na véspera do 25 de Abril deste ano, encontrei na feira de alfarrabistas que costuma haver aos Sábados na rua ao lado da Bertrand do Chiado uma publicação curiosa, um bocadinho roída pelo bicho e escurecida pelo sol, mas ainda assim em bom estado, um ensaio visual sobre o governo de Marcelo Caetano, entre 1968 e 1973.

A capa tinha as duas datas em grandes algarismos Helvetica, verdes e vermelhos; a guarda inicial era verde e a final vermelha, embrulhando literalmente o livro nas cores da bandeira. No  interior, uma sucessão de páginas, quase sem texto, onde era raro não aparecer uma fotografia sorridente de Caetano, conversando com outros chefes de estado, acenando às multidões, assinando acordos – mesmos as grandes obras, barragens, portos e estradas eram acompanhadas de um retrato em caixa do líder.

Na primeira imagem do livro, que acompanhava a introdução, Marcelo começava a discursar, sentado numa cadeira de perna cruzada. Não se percebe com quem fala, se para uma plateia, se para uma câmara – o enquadramento isola-o. Nas últimas páginas, o livro encerrava-se com uma sequência quase cinematográfica de três imagens, continuando a da introdução, mostrando Caetano a falar na mesma sala, em planos mais aproximados, sublinhando a intensidade do seu discurso com gestos das mãos, olhando-nos de frente, expressivo, inteligente e conclusivo. Se a maioria das imagens mostradas ao longo do livro o apresentavam em pose de estado, distante e tutelar, estas últimas apresentavam-no vivo e vigilante; era como se o livro todo fosse o seu argumento definitivo.

Tudo isto era propaganda que, comparada com a retórica actual, parece ingenuamente totalitária. Agora, há mais preocupação de nunca individualizar demasiado o líder, apresentando-o rodeado de uma equipa, demonstrando abundantemente a participação de colegas e público – uma retórica democrática, enfim. Neste livro, pelo contrário, o culto da personalidade é total e evidente: na introdução fala-se, por exemplo, do “pensamento viril e lucidíssimo daquele Mestre da inteligência portuguesa” e “dos méritos da sua invulgar inteligência e meridiana clareza de expressão e pensamento”.

O design do livro, principalmente graças ao uso da Helvetica e de espaço branco generoso, enquadra-se bem na moda da época, o Estilo Internacional Tipográfico, dito Suíço. Há, no entanto, algumas diferenças fundamentais: os suíços gostavam de tabelas e de listas, modos neutros e científicos de apresentar informação. A ficha técnica de uma publicação, por exemplo, dividia as diferentes tarefas, atribuindo neutramente a cada pessoa uma tarefa e uma responsabilidade. A ficha de “1968 / 1973 Cinco Anos de Governo” não é uma lista, mas um pequeno texto agradecendo, no final do livro, o apoio entusiástico dos colaboradores. Não se tratava portanto de um serviço, mas de uma iniciativa espontânea e emocionada. Por curiosidade, aqui fica reproduzida na integra:

“À Secretaria de Estado da Informação e Turismo muito se agradece o entusiástico apoio que deu a esta realização.

Anotar-se-á o trabalho desenvolvido pela chefe da Secção de Fotografia daquela Secretaria de Estado, D. Maria Helena Prazeres, que activa e inteligentemente colaborou nesta publicação, devendo salientar-se o modo como organizou o excelente arquivo fotográfico da S.E.I.T.

Ao grande artista gráfico Sebastião Rodrigues, cuja sensibilidade, saber e dedicação aqui estão claramente patentes, o reconhecimento pelos seus indiscutidos méritos.

Ao jornalista Horácio Caio, um dos chefes de Redacção do Telejornal, que seleccionou, ordenou e redigiu quanto aqui ficou feito, é justa uma referência de apreço e louvor pelo serviço que prontamente prestou.”

Filed under: Crítica, Cultura, Design, História, Publicações

9 Responses

  1. Gostei do suspense… Sebastião Rodrigues!

    É realmente incontornável. Não sei se por estar um pouco mais estudado do que outros dos designers da altura (no fundo os fundadores da disciplina na sua acepção moderna em Portugal), mas a obra é absolutamente deslumbrante (apesar de algumas coisas estarem bastante ‘coladas’ à época em que foram feitas).

    Uma das coisas que torna a sua obra genial e única é precisamente essa contaminação entre as correntes internacionais e os elementos de inspiração mais popular (não populista =), diria quase, mais ‘portuguesa’.

    Não tenho ideia de ter visto esta capa na monografia da FCG. Está ou não? O livro é coordenado por quem (ou não é referido)?

    Ab,

    • Não sei se aparece na monografia. Penso que não, mas ainda não consegui verificá-lo (não sei onde arrumei a minha cópia).

      Quanto à coordenação, o livro é – segundo a introdução – uma iniciativa da RTP; a ficha técnica é ambígua, mas calculo que tenha sido o jornalista Horácio Caio, tendo em conta que “seleccionou, ordenou e redigiu quanto aqui ficou feito” e que trabalha evidentemente para a RTP.

  2. Só uma nota adicional: O Marcelo Catano está a rir-se de uma forma que se pretende espontânea (não me lembro de fotografias semelhantes de Salazar). Só esta página dava para escrever uma tese de douturamento sobre um regime cuja pretensa abertura, em 1973, já tinha falhado (com o abandono da Ala liberal da assembleia, etc…)

  3. Lígia diz:

    Muito interessante, gostava de ver o livro!

  4. suaveagenda diz:

    Esta capa não aparece no catálogo da Gulbenkian. Aliás, a selecção de trabalhos quase parece procurar não envolver Sebastião Rodrigues com o Estado Novo. Não são mostrados trabalhos com mensagem política (apenas encomendas no SNI/SNP de teor cultural ou turístico) à excepção do cartaz de 1977 “25 de Abril” encomendado pela Secretaria de Estado da Cultura. Esta “invisibilidade” é estranha, sabendo-se do imenso trabalho que SR fez (quer enquanto assistente de Manuel Rodrigues quer depois) para o regime – o que não implica necessariamente uma apologia dos ideais do Estado Novo, apenas uma ideia, porventura defensável, de neutralidade..talvez influência do design suiço 🙂

  5. suaveagenda diz:

    Não assinei e o “suaveagenda” pode confundir…

    abraço, José Bártolo/Reactor

  6. A sequência de 3 imagens parece oriunda das “Conversas em família” que eram transmitidas pela RTP.

  7. […] uma economia de mercado. Curiosamente, isso é perfeitamente visível no design gráfico. Quando se convoca Sebastião Rodrigues para produzir o material gráfico do regime, já não é com as mesmas […]

  8. […] gráfica de Marcelo Caetano, uma parte da sua obra que não costuma ser referida. Em trabalhos como 1968-1975 Cinco Anos de Governo ou Portugal Um País que Importa Conhecer ilustra graficamente discursos do ditador. Estas obras […]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: