The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A parte das perguntas

Há um pequeno tique discursivo que me irrita muito, porque na verdade é uma desonestidazinha intelectual que se vulgarizou. Noto-o sobretudo em alguns colegas quando fazem parte de júris de doutoramento e noto-o também como conferencista quando se chega à parte das questões.

Depois de terminada a apresentação ou a conferência, há por vezes quem pergunte – ou pior: afirme – mas você não falou nisto ou não falou daquilo. Não leu aquilo. Mas devia. Coisas que, de maneira geral, são pormenores que não interessam, associações paralelas, que interessam a quem levanta a questão mas não podem, com honestidade, ser impostas como obrigação a outros.

Não são, na grande maioria dos casos omissão nenhuma. Uma obra, uma tese, uma conferência, são unidades limitadas. É fácil apontar-lhes coisas que lhes ficam de fora, porque pela sua natureza há sempre mais coisas que ficam de fora do que dentro. Há sempre mais omissões que inclusões. Quando se critica uma omissão, deve-se sempre tentar perceber se faz falta à integridade do trabalho ou se, na verdade, nos faz falta a nós.

Os meus colegas mais sensatos fazem quase o mesmo, mas sem esse sentido de imposição, o que muda tudo. Quando chega a parte das questões, perguntam realmente. Em vez de «Porque você não falou disto», perguntam «já agora, fale-me disto». Querem realmente saber, interessam-se, e sabem que o interesse é sempre por algo que nos falta saber – por exemplo, tendo em conta aquilo que li ou ouvi, gostava de ouvir a sua opinião sobre este assunto que me interessa. Quase a mesma coisa mas bastante mais interessante e aberto.

 

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Filed under: Crítica

Autoria

Espreitei o livro sobre o Francisco Providência que saiu com o Público, onde se menciona muito de passagem a sua teoria, segundo a qual se podem identificar «três agentes de produção na produção da origem do projecto de design»:

«a tecnologia da sua construção, com todos os constrangimentos e potencialidades plásticas que isso implica; a autoria, como aquele recurso, singular ou colectivo que, constitui o imperativo da cultura onde, porventura, se produz a beleza; e o programa, ou seja a finalidade do objecto invocada pelo cliente e respectiva expectativa funcional.»

Tenho encontrado muitas vezes este esquema como metodologia crítica de teses, papers e apresentações, e sempre me pareceu insuficiente para descrever o design, tanto historicamente como no presente. Não me parece que todo o design possa ser reduzido a esses três agentes sem distorções de monta.

Por exemplo, o design de tipos é um campo de autoria forte dentro das “tecnologias de construção” do design. Um dos constrangimentos ao designer que usa uma fonte é muitas vezes essa autoria exterior. Ou então o programa, que aqui é associado ao cliente e que por vezes é traduzido por brief: sempre houve designers para quem o programa não é tão determinado pelo cliente mas por regras internas (veja-se o design suíço) que são produzidas tanto como um princípio de adequação à técnica como de adequação à sociedade. Neste caso, esse programa acaba por determinar a modalidade de autoria, a identidade de quem produz design: um funcionário neutro e nem tanto um autor.

Acrescente-se que, tanto no design como no resto, a ideia de autoria que aqui é reduzida às opções de individual ou colectiva é, como muita gente que trabalhou a teoria do autor sabe, complicada: não é dada à partida mas é performativa e vai variando ao longo do tempo. A autoria não é determinada pela pessoa ou pessoas que fazem mas é uma função, como lembrava Foucault. Uma função determinada por um conjunto de factores que podem incluir o género (porque não há tantas mulheres designers autores como homens?), as instituições onde o design é praticado (porque tendem a aparecer mais autores associados a escolas e a certo tipo de modelo de exercício da profissão como a firma ou o atelier?) e, assumindo que os há, o próprio cliente pode determinar o tipo de autoria do designer que trabalha para si: pode preferir um designer estrela ou um designer discreto ou simplesmente um programa informático que faça o serviço.

Um designer com formação modernista abdicava de uma autoria “forte” em nome dos seus clientes. O designer via-se como uma ferramenta ao serviço de outrém. Já vi vários destes designers modernistas incomodados quando num catálogo de design se identifica um logo que fizeram para um cliente como sendo “seu”. Lembro-me do José Brandão se queixar do uso do logo produzido para um cliente para identificar Sebastião Rodrigues na capa do livro que lhe dedicaram.

Hoje, a ideia de uma autoria dentro do design é pacífica e sublinhada por inúmeras monografias mas nem sempre foi assim. Daí que o esquema proposto por Providência acabe por ser mais prescritivo do que descritivo. Identifica aquilo que na sua opinião deve ser o design mais do que aquilo que é.

Naturalmente, há muito mais o que dizer sobre isto.

Este texto é a versão de outro que publiquei no facebook em 2016.

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A Canterbury Tale (1944) – Powell e Pressburger

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O meu filme favorito dos últimos tempos. Lembra um bocadinho outro dos mesmos realizadores, I Know Where I’m Going. Tal como esse, os personagens pensam que sabem para onde vão, que só estão a fazer uma pequena viagem quando vão percebendo, e nós com eles, que estão numa peregrinação. Neste caso, Canterbury, com a sua catedral funciona como um pólo magnético que atrai e orienta tudo o que a rodeia, que transforma todos em peregrinos.

É um filme que está ao virar da esquina de muitas coisas, do seu destino, Canterbury, da guerra, dos que desapareceram, mas tem uma boa disposição agridoce tão exótica. É um policial sem mortos, um filme de guerra cuja única batalha é entre crianças (e tão cómica e violenta e impossível de fazer o mesmo hoje), um filme religioso sem muita religião, de milagres simples e mundanos.

E cheio de imagens lindíssimas: a aldeia à noite, a cama de dossel de madrugada, a catedral com a luz a entrar, a heroína a chegar pela estrada a Canterbury, um plano rápido de aviões e de um dirigível, a conversa ouvida em segredo no prado, as placas a indicar as lojas e negócios que foram destruídas pelo bombardeamento alemão – no filme não se diz, mas foram raídes planeados com o recurso a guias turísticos Baedecker, e portanto também outra forma de peregrinação.

Como dizia o Fernando Pessoa sobre os Pickwick Papers (outra peregrinação), quem me dera nunca o ter visto para o poder ver outra vez pela primeira vez.

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Evasões

Quando se discute o papel que Portugal teve na escravatura moderna, há um coisa que se diz que teria piada se não fosse trágica. Tenta-se relativizar esse papel, insistindo que também se devia falar do papel que os africanos tiveram na escravatura, que já havia escravatura antes, etc.

É claro que quem diz coisas dessas não quer realmente que se discuta isso. É apenas uma manobra de diversão. Porque quando esse trabalho é feito realmente, o que sai ainda é mais trágico e monstruoso. Percebe-se ainda mais os efeitos que a escravatura ainda tem em África, e questões complexas e contraditórias, como a culpa terrível mas também certo orgulho associado a isso. E, como é evidente, percebia-se também o papel que os europeus tiveram em modificar os modelos tradicionais de escravatura, tornando-os numa espécie de indústria.

Daí que sim, seria mais interessante ler relatos de africanos que tiveram o seu papel, tanto como escravos como negreiros. E não, isso não diluiria o que quer que fosse a responsabilidade que Portugal teve e ainda tem.

Leia-se este artigo, onde um Nigeriano relata o papel que a sua família teve no comércio de escravos. Veja-se como os mesmos argumentos que se usam aqui também surgem por lá, a mesma discussão, a mesma vergonha, etc.

Um excerto:

«“I can never be ashamed of him,” he said, irritated. “Why should I be? His business was legitimate at the time. He was respected by everyone around.” My father is a lawyer and a human-rights activist who has spent much of his life challenging government abuses in southeast Nigeria. He sometimes had to flee our home to avoid being arrested. But his pride in his family was unwavering. “Not everyone could summon the courage to be a slave trader,” he said. “You had to have some boldness in you.”

My father succeeded in transmitting to me not just Nwaubani Ogogo’s stories but also pride in his life. During my school days, if a friend asked the meaning of my surname, I gave her a narrative instead of a translation. But, in the past decade, I’ve felt a growing sense of unease. African intellectuals tend to blame the West for the slave trade, but I knew that white traders couldn’t have loaded their ships without help from Africans like my great-grandfather. I read arguments for paying reparations to the descendants of American slaves and wondered whether someone might soon expect my family to contribute. Other members of my generation felt similarly unsettled. My cousin Chidi, who grew up in England, was twelve years old when he visited Nigeria and asked our uncle the meaning of our surname. He was shocked to learn our family’s history, and has been reluctant to share it with his British friends. My cousin Chioma, a doctor in Lagos, told me that she feels anguished when she watches movies about slavery. “I cry and cry and ask God to forgive our ancestors,” she said.»

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Pensamento de design

A imposição usada por Palla, e que eu referi uns posts atrás, não é de todo a mais habitual. É uma solução de design inventiva para um problema difícil: conseguir produzir uma grande variedade de formatos de páginas da maneira mais económica. Ainda hoje, mantém a capacidade para se evadir ao pensamento mais tradicionalista e menos informado sobre design e impressão.

Quando me limitei a descrever o esquema de Palla no texto que escrevi para o catálogo da recente exposição sobre o Lisboa Cidade Triste e Alegre fui prontamente acusado pelo crítico Vasco Rosa do Observador de não perceber nada de questões de imposição tipográfica – claro que lhe referi que o diagrama tinha sido concebido por Palla.

Nesse aspecto, é um diagrama que demonstra claramente as diferenças entre o pensamento das oficinas tipográficas, que tendia a ser tradicionalista, e o do design moderno que reinventava o trabalho das gráficas em termos de uma ideia de projecto, de design.

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Entretanto

A meio de Maio enviei o primeiro de três pedidos ao Observador para que corrijam um erro factual num artigo sobre mim. Até agora nada. Excepto mails cada vez mais estapafúrdios do autor Vasco Rosa. Que já não têm nada que ver com nada. Agora, pergunta-me em tom de acusação porque não escrevi sobre a exposição sobre a imprensa nacional ou porque não fui ainda ver a exposição sobre o Lisboa Cidade Triste e Alegre. Vai-me também acusando de todo o tipo de vaidades enquanto ele próprio se gaba disto e daquilo que já fez ou vai fazer.

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Lisboa Cidade Triste e Alegre

doc011Estou ansioso por ver a exposição sobre o Lisboa Cidade Triste e Alegre para a qual escrevi um texto. Desde há muitos anos que me interesso sobre edição portuguesa em fascículos, sobre os do Victor Palla em particular. Assim, fiquei fantasticamente interessado quando o Carlos Bártolo me mostrou que a parte heliogravada de cada fascículo do LCTeA era impressa num único plano de impressão de 1,00 por 0,70, sempre com o mesmo esquema de corte, que determinava as meias páginas, as páginas de abrir, etc. O esquema acima é do próprio Palla e pode ser verificado confrontando-o com os próprios fascículos. Foi divertido perceber que no esquema até havia espaço para as fotos que vinham coladas nas capas dos fascículos. (A foto em baixo corresponde ao canto superior direito do esquema marcado “V”.)

Adenda: A imposição usada por Palla não é de todo a mais habitual. É uma solução de design inventiva para um problema difícil: conseguir produzir uma grande variedade de formatos de páginas da maneira mais económica. Ainda hoje, mantém a capacidade para se evadir ao pensamento mais tradicionalista e menos informado sobre design e impressão.

Quando me limitei a descrever o esquema de Palla no texto que escrevi para o catálogo da recente exposição sobre o Lisboa Cidade Triste e Alegre fui prontamente acusado pelo crítico Vasco Rosa do Observador de não perceber nada de questões de imposição tipográfica. Claro que lhe referi que o diagrama tinha sido concebido por Palla.

Nesse aspecto, é um diagrama que demonstra claramente as diferenças entre o pensamento das oficinas tipográficas, que tendia a ser tradicionalista, e o do design moderno que reinventava o trabalho das gráficas em termos de uma ideia de projecto, de design.
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Conviver com os erros

Hoje, um amigo que não via há algum tempo perguntou-me se o Vasco Rosa «já tinha corrigido» – querendo dizer o erro factual que este publicou sobre mim no Observador. Claro que não. Aliás, vou tentando aprender a conviver com os erros do Vasco Rosa tão bem como ele.

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A Espuma dos Dias

O pior que se pode dizer de um texto crítico aqui em Portugal é que trata da espuma dos dias. Que trata daquilo que é passageiro, momentâneo, sujeito às modas, daquilo que não merece ser lembrado. Até se acusa que há críticos que preferem tratar desses assuntos passageiros, dessas modinhas, e não do que é realmente importante.

É comum as críticas de cinema terminarem com um lamento e uma sentença que o filme se esquece mal se sai da sala. É comum quem escreve sobre design desdenhar o trendy. Na arquitectura, por medo de cair no supérfluo e no quotidiano, fala-se do Siza e do Souto Moura. Há umas tantas outras entidades de que se fala à experiência, não vão elas também ser apenas um fogo fátuo. Na arte, as cautelas são ainda mais. Chega-se aos sessenta anos e ainda se é um artista a descobrir, mesmo que uma vez por mês se apareça nos jornais.

A crítica portuguesa acredita que a sua função é a consagração, a legitimação. Dedica-se afincadamente a construir e administrar cânones.

Ora a grande maioria da crítica que eu mais gosto não seria considerada sequer crítica aqui em Portugal. Seria considerada apenas opinião, porque se centra não no cânone mas na espuma dos dias. Mesmo o cânone é interpretado em termos da pertinência que tem agora mesmo. Não se tira do relicário um dos tesouros da Cinemateca para lhes rezar umas novenas, para celebrar a sua pertinência eterna, mas para perguntar que sentido faz hoje. Wichita, de Jacques Torneur, é convocado pelo crítico Richard Brody como parábola sobre a luta para controlar a proliferação de armas. As melhores críticas de televisão de Emily Nussbaum não se perguntam se uma série é memorável mas se é pertinente, se se liga à arena política, ao metoo, a Trump.

Aqui, é ao contrário, quanto menos pertinente for, mais probabilidade tem de passar à história. É verdadeiramente triste como se tenta desculpar com banalidades como a força formal, a arte pela arte, o cinema pelo cinema, etc. o simples pecado de um objecto dizer algo de importante.

É lúgubre ler gente a tratar filmes, arte e livros como um cangalheiro que lhes tira as medidas para ver qual é o melhor caixão onde podem passar a eternidade.

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Design e Discriminação

Não é muito difícil encontrar casos de discriminação dentro do design. Basta pensar um bocadinho. Por exemplo, dou aulas de design vai fazer dezanove anos e acho que ainda não apanhei dez alunos africanos ou afro-descendentes ao todo. Nos Estados Unidos, acontece o mesmo, e já se reflectiu sobre as razões. É muito difícil à maioria dos afrodescendentes investir um monte de dinheiro numa profissão que se sabe precária. Daí que se defendam iniciativas de acção afirmativa.

Também se pode ir um bocadinho mais fundo na história do design e encontrar-lhe as raízes disciplinares no comércio imperialista da Inglaterra do século XIX. Muita da teoria do design da época funcionava como um modo de apropriar linguagens decorativas vindas de todo o mundo para as abstrair num sistema que permitia reproduzi-las comercialmente exportando-as de novo para todo o mundo (trato disso no ensaio que dá o título ao meu livro).

Quase desde o começo, a presença de mulheres nas turmas cresceu ao ponto de se tornar maioritária. Mas ainda se apanha gente, professores até, a dizer que o design não é uma coisa de mulheres. Os argumentos são os do costume – os filhos, a casa, etc. Algumas mulheres já vão tendo alguma visibilidade, mas olhando além da superfície, percebe-se que em muitos casos o trabalho é feito e pago de modo muito distinto. Cá no Porto, a maioria das mulheres com visibilidade internacional tende a trabalhar como funcionário. A maioria dos homens tende a ser patrão do seu próprio estúdio.

Talvez o caso mais óbvio e menos óbvio de segregação dentro do design seja o da homossexualidade. Ainda outro dia, uma mulher (não designer) que me descrevia um caso terrível de discriminação da qual tinha sido alvo, acrescentava que no design haveria o problema de estar dominado pelo «lobby gay». Para ela, como para muita gente, o design seria uma área tão dominada pela homossexualidade que até se poderia falar de uma conspiração para manter os heterossexuais de fora. Para quem trabalhe em design gráfico, a ideia é ridícula. São raríssimos os designers que assumem um identidade pública LGBT. E mais raros ainda os que são bem sucedidos.

Há uns anos, alguém me dizia em voz baixa de uma figura cimeira e falecida do design português que, apesar de casado, «tinha de vez em quando casos com homens» – acho que foi a coisa mais próxima de uma reflexão histórica sobre o assunto aqui em Portugal. De resto, nunca apanhei nada escrito, nunca apanhei nada conferenciado. Aliás, o mais comum é ouvir-se gente a reforçar a ideia: lembro-me de o Peter Saville ter brincado numa conferência que, quando trabalhava no mundo da moda, assumia maneirismos gay. Ou seja, é uma ideia que se tem sobre o design mas que os designers fazem tudo por tudo por contrariar. No caso do design gráfico, há aliás textos clássicos, ainda ensinados nas escolas, onde se dá a entender que o design só será respeitado quando for menos efeminado. Muito do ethos do designer modernista é construído contra essa identidade.

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A Verdade das Imagens

Há gente que acredita que uma imagem num artigo de jornal é uma mera ilustração dos factos. Deveriam pensar um bocadinho. O artigo que a imagem acompanha também é uma mera ilustração dos factos.

Nos últimos dias, apareceram duas imagens verdadeiras tornadas falsas pela legenda. A foto de uma criança dentro de uma jaula tirada durante uma manifestação que andava a circular como se fosse de uma prisão. A foto de uma criança a chorar enquanto a mãe estava a ser revistada, e que afinal não mostrava uma separação.

Cada uma delas documentava um momento e acabou por ser usada para ilustrar outros. Mas a sua força não é a de um desenho mas da conotação documental da imagem fotográfica. Parece objectiva mas é muito simples pô-la a mentir.

O caso da fotografia da separação assim o demonstra. Quase nem precisa de legenda. É como a história de Ambrose Bierce que Eisenstein gostava de citar. Um homem ao visitar um cemitério encontrou uma mulher vestida de negro a chorar desalmadamente junto do túmulo recente de um homem. Querendo consolá-la, disse: «Minha senhora, esteja descansada. Para além do seu marido, há-de haver no mundo um homem que lhe dê felicidade.» E ela soloçou ainda mais apontando para o campa. «Havia, mas está ali.» A moral é que, quando se vê uma mulher de negro, assume-se que «viúva» e não «amante».

Do mesmo modo, a foto da criança ilustra separação mas não é um detalhe secundário se é a separação de um momento ou se é definitiva.

Uma história torna-se ficcional ou falsa não por qualquer verdade intrínseca dos seus ingredientes mas também pelo modo como se organizam. Assim, uma foto verdadeira pode ser usada para contar falsidades e uma foto falsa pode ser usada para dizer verdades. E há ou deveria uma ética, um dever para com a verdade no modo como as imagens são produzidas e reproduzidas.

Isso é particularmente importante hoje em dia, quando se impõe um discurso indiferente à verdade ou à mentira e ao qual interessa apenas a manipulação. Não é um discurso do poder, que vem de cima, mas que já está suficientemente disseminado e que se revela quando há gente que partilha imagens falsas, ou falsificadas pela sua interpretação, como se fossem uma prova e quando confrontadas com isso se recusam a corrigi-las porque afinal são só uma ilustração ou uma interpretação de um evento real.

Percebe-se que o argumento é falacioso quando as suas conclusões se mantêm depois das suas premissas passarem de verdadeiras a falsas. Ilustrar uma história verdadeira com uma imagem que não lhe corresponde faz diferença. Abre o flanco a que se diga que a própria história ilustrada é falsa. Abre o flanco a que se diga que quem a transmite está a mentir, não apenas sobre a foto mas sobre tudo. E dizer que o valor documental da foto não interessa só sublinha que há uma indiferença, um desleixo para com a verdade. E é isso que é particularmente grave.

Pode nunca se saber a verdade objectiva. Estamos condenados a uma aproximação através de interpretações. Mas, pelo contrário, podemos saber se essa aproximação é feita com rigor. Não é rigor quando se muda a ética que se tem com uma imagem a meio da conversa e se espera que isso não faça diferença.

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Sobre a Verdade

«My claim was that bullshitters, although they represent themselves as being engaged simply in conveying information, are not engaged in that enterprise at all. Instead, and most essentially, they are fakers and phonies who are attempting by what they say to manipulate the opinions and the attitudes of those to whom they speak. What they care about primarily, therefore, is whether what they say is effective in accomplishing this manipulation. Correspondingly, they are more or less indifferent to whether what they say is true or whether it is false.»

Harry Frankfurt, On Truth

Nos últimos meses, tenho visto cada vez mais indiferença à própria ideia de verdade. Não estou a falar dos Estados Unidos mas daqui, de Portugal. Não falo só da internet, onde se propaga imagens e histórias falsas mesmo com a melhor das intenções, mas também dos jornais e dos outros media tradicionais.

Quando confrontados com um erro, o mais comum é agradecerem – na melhor das hipóteses – e deixarem-no ficar. Ou então apagarem-no sem o reconhecerem – no fundo, censurando os próprios erros. Há uma indiferença quotidiana à ideia de rigor e de verdade. Os exemplos são demasiados: a cobertura jornalística de Pedrogão há um ano; a propagação de imagens e de histórias comprovadamente falsas a negar a existência de massacres na Síria, o uso de imagens falsas para denunciar a política de separação de famílias de imigrantes nos Estados Unidos. O melhor exemplo é o de uma criança numa gaiola que na verdade é o registo de uma acção de protesto. Como seria de esperar, a própria honestidade do protesto foi posta em causa por causa disso. Acusou-se mais uma vez as vítimas de serem «crisis actors». Para se lutar contra alguém como Trump é absolutamente essencial não usar como arma a mesma indiferença para com a verdade.

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Lançar notas

Lançar as notas é, todos os anos, um processo mais penoso do que preencher o IRS. São cada vez mais as cadeiras e cada vez mais os alunos. Os erros de transcrição são inevitáveis. Às vezes aparecem alunos com o mesmo nome. O nome de um aluno desaparece da pauta lançando a confusão. As possibilidades de erro são infindáveis. Assim, já me habituei a receber mails pedindo correcções. O que faço é verificar se foi de facto um erro. Se não foi, explico porque foi essa a nota. Se foi, peço desculpa e corrijo. Na maioria das vezes, tenho que passar outra vez em revista uma pilha de trabalhos.

Se falo do assunto, é porque passei demasiado tempo a discutir com uma pessoa que acredita que os motivos pelos quais se pede a correcção de um erro determinam se o erro é ou não corrigido – uma pessoa que trabalha nos jornais. Mas não faço um caso geral disso. Não sei se na universidade há mais rigor. Já conheci mais do que um colega que recusou o esclarecimento de uma nota porque consideravam que o aluno a estava a pedir de má fé.

A mim parece-me absurdo que se tenham que apurar as intenções de alguém que reclama a reposição da verdade antes de a repor. Só mostra como mais do que a liberdade de expressão, é o dever para com a verdade que anda pelas ruas da amargura.

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Correcção

Entretanto o Vasco Rosa apontou-me que uma frase da sua recensão que me parecia indicar que punha em causa a minha aptidão profissional na verdade queria dizer que o género de alguém não é indicador da sua competência profissional. Refiro-me a esta passagem: «à privacidade individual — qualquer que ela seja — não pode ser atribuído ad limine litis [sic] valor de exigível aptidão profissional.» Interpretei-a mal e por isso peço desculpa.

(Só tenho a dizer, e com certeza ninguém me há de censurá-lo: dá um gozo do caraças assumir um erro a pedido de alguém que se recusa a assumir os seus.

O erro factual que pedi por três vezes ao Observador para corrigir continua por corrigir.)

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Crianças em Jaulas

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Partilho esta imagem com uma dedicatória a todos os que aqui em Portugal acham que se deve lutar contra o politicamente correcto porque é uma forma de censura, que leva ao estalinismo, etc. Só para lembrar que o Presidente Trump foi eleito precisamente numa plataforma de luta contra o politicamente correcto, em particular no que diz respeito à imigração. Prometia ele acabar com o politicamente correcto nesta área. E, nessa luta sem tréguas contra a censura e o estalinismo do politicamente correcto, agora chegamos àquela fase em que se internam crianças em campos de concentração.
 
Da próxima vez que vos der vontade de repetir asneiras propagadas pela extrema direita americana, nomeadamente andarem a queixar-se do politicamente correcto, lembrem-se de quem anda realmente a pôr crianças em campos de concentração e em nome de quê.

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Dicas

Não sei se alguma imprensa portuguesa conhece isto. É provável que não.

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Enfim, pt. 2

E entretanto tenho o Vasco Rosa a injuriar-me via mail. Diz que me viu numa conferência e me achou vaidoso e soberbo. Assegura que o Observador não publica correcções de pessoas que não gostam do Observador. Insiste que eu escreva um direito de resposta.

Já expliquei umas tantas vezes que não estou disposto a dignificar com uma resposta um ataque pessoal, cheio de julgamentos de carácter, cheio de erros factuais, de português, de citações deliberadamente exageradas, de asserções vazias, de acusações abusivas de incompetência, etc.

Critico livros, ideias, objectos, situações, etc. Não faço crítica à personalidade ou ao aspecto de pessoas. Não é agora que vou começar, discutindo primeiras impressões preconceituosas e psicologia barata com o Vasco Rosa. Basta-me dizer que não pratico esse tipo de crítica.

Tudo o que peço desde o começo é que corrijam um único erro factual. Se nem isso querem ou conseguem fazer, estamos conversados. Não estou interessado em ler mais outro relato emocional de como a responsabilidade dos erros do Vasco Rosa é de toda a gente menos dele.

CORRECÇÃO: Entretanto o Vasco Rosa apontou-me que uma frase da sua recensão que me parecia indicar que punha em causa a minha aptidão profissional na verdade queria dizer que o género de alguém não é indicador da sua competência profissional. Refiro-me a esta passagem: «à privacidade individual — qualquer que ela seja — não pode ser atribuído ad limine litis [sic] valor de exigível aptidão profissional.» Interpretei-a mal e por isso peço desculpa.

(Só tenho a acrescentar, e com certeza ninguém me há de censurá-lo: dá um gozo do caraças assumir um erro a pedido de alguém que se recusa a assumir os seus)

 

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Coisas que deviam ser óbvias

Questões que deviam ser óbvias:

  1. Um erro não é deliberado. Passa a ser uma mentira quando não é deliberadamente corrigido.
  2. Se um argumento é construído a partir de premissas que se demonstram erradas, é evidente que a conclusão perde a validade.
  3. Se, depois de falsificadas as premissas, se insiste na mesma conclusão, isso demonstra que estamos perante um preconceito, porque aqui só interessa a conclusão; o processo pelo qual se chega a essa conclusão é irrelevante. Se a conclusão não depende da veracidade ou falsidade das premissas é porque o argumento é ilegítimo.
  4. Em qualquer destes casos já não se trata de mais ou menos rigor mas simplesmente de desonestidade intelectual.

Podia estar a falar do Presidente Trump, mas é um caso ao mesmo tempo mais geral e mais particular. Falo também por exemplo do Observador e do seu crítico Vasco Rosa, que publicou uma recensão sobre mim onde declara falsidades que, depois de assinaladas, se recusou a corrigir, argumentando que esses erros não afectam a validade dos seus argumentos. Parece-me um exemplo bastante interessante do que se chama pós-verdade. Tal como costuma acontecer nestes casos, a derradeira defesa de alguém que assim argumenta é a liberdade contra uma suposta censura, polícia do pensamento – o que de resto, só sublinha a desonestidade intelectual. Quando se grita censura perante a mera correcção de uma falsidade, tal só demonstra uma espécie de direito a dizer tudo, independentemente de ser verdadeiro ou não, e independentemente da pessoa de quem se fala.

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Facsimile

Da edição em facsimile do Lisboa Cidade Triste e Alegre, à primeira vista parece-me, para já e ao nível da qualidade das imagens, bastante bem. Tenho pena que não se tenha usado papéis mais próximos do original para as guardas e para a introdução – mas era talvez uma esperança irrealista. Do que tenho mais pena é que a reedição em fascículos não siga o plano dos autores, que tiveram a preocupação de fazer de cada número uma espécie de publicação em miniatura que se podia ler como uma unidade, com a ajuda da porção correspondente do índice, que não era deixado para o último fascículo mas acompanhava cada número. Ou seja, tentava-se que a publicação em prestações não fosse um mero acumular mas podia-se ir recompensando o seu público. Tenho também pena que não se tenha decidido reproduzir as capinhas em que vinham os fascículos. Nada disto é uma censura mas apenas um conjunto de penas. Calculo que estas opções se devam também a questões técnicas. Mas confesso que gosto do formato reduzido. Vou ficar à espera dos próximos com ânsia.

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Novas Autorias

Caso tenha tempo, gostava de me debruçar num desenvolvimento da história recente (últimos quinze anos, se tanto) do design português: a maneira como estúdios de design assumidamente clássicos e até antigos começaram a reclamar uma ideia de autoria, tornando-a central ao modo como vêm o design. Exemplos: Francisco Providência e João Bicker.

É um desenvolvimento curioso que demonstra como o design português é, em definitivo, pós-moderno. Seria impossível encontrar a ideia do designer como autor em gente como Paul Rand, Muller Brockmann, ou Tschichold.

Não é o facto de escreverem ou publicarem sobre o seu próprio trabalho que os torna autores. Rand, talvez o mais auto-centrado de todos, o único que reclamava o design como uma forma de arte, tinha um cuidado bastante grande em parecer modesto. Os livros que editou sobre o seu próprio trabalho empenhavam-se em parecer tratados sobre valores universais e até impessoais. Acreditava que se podia tornar no melhor designer possível na medida em que abandonava tudo o que era pessoal.

Designers como José Brandão tinham uma deontologia muito forte que ditava que o que produziam era feito como um serviço para clientes. Era para eles problemático recolherem esse trabalho sob a alçada da sua própria autoria. Preferiam que essa recolha fosse feita por outros que não eles. Não era só uma questão de modéstia mas de ética.

Assim, a reclamação de uma autoria para o design «clássico» é recente e muito interessante. Ponho a hipótese que é um desenvolvimento local, porque ainda não vi nada do mesmo género em outros sítios.

De resto, muitos designers associados à noção de autoria rejeitam a ideia de um design de autor. É mais uma coisa que lhes chamam do que algo que assumam. Nas gerações mais recentes, a autoria é algo que nem se coloca. O design já é algo que inclui coisas como o empreendedorismo, a ideia que se pode trabalhar sem ter à partida um cliente.

Só nos contextos mais tradicionalistas é que, ironicamente, se fala de autoria. Talvez a razão para isso seja uma questão de concorrência: as grandes encomendas públicas já não querem designers modestos e invisíveis mas gente que possa dar entrevistas, aparecer e ter visibilidade. Faz parte do pacote da produção de uma identidade, essas tarefas promocionais. Daí que se tenha começado a falar de autoria.

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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

História Universal do: Estágio

O "Estágio"
O Negócio Perfeito
Maus Empregos
Trabalho a Sério
Design & Desilusão
"Fatalismo ou quê?"
Liberal, irreal, social
Conformismo
Juventude em Marcha
A Eterna Juventude
Indústrias Familiares
Papá, De Onde Vêm os Designers?
Geração Espontânea
O Parlamento das Cantigas
Soluções...

História Universal dos: Zombies

Zombies Capitalistas do Espaço Sideral
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