The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Erosão

Não acredito na abstenção, seja nas urnas, seja na rua, seja em qualquer situação onde se reinvidique qualquer coisa. Os ingleses têm uma expressão para isso, que ainda por cima é bonita. “You have to stand up and be counted” – em certas ocasiões é preciso erguermo-nos para ser contados, para votar, em suma.

Por aqui, diz-se que é um dever participar, o que até poderia ser verdade, mas nunca chega a sê-lo, porque esse dever tende a ser depositado unicamente no eleitor, no manifestante, no grevista. A outra parte do dever fica do lado de quem acata ou não essa contagem, e isso tem falhado constantemente. O eleitor tem deveres; o eleito muito poucos. Assim, dá vontade de paraticipar cada vez menos.

Não apenas nas grandes eleições mas também nas pequenas, onde a mesma inconsequência se torna exemplar. A erosão democrática a que se assiste nas grandes assembleias também acontece nos pequenos órgãos. Os argumentos são os mesmos: não se decide nada; há gente a mais a tomar decisões; a verdadeira decisão é tomada em outro lugar, mais acima ou mais ao lado, etc.

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Nova Crítica?

Já se tornou comum dizer que a crítica está em crise portanto fico logo com as orelhas espetadas quando alguém consegue argumentar consistentemente o contrário. Só nesta semana, aconteceu duas vezes.

Em primeiro lugar, com “No one cares about art criticism: Advocating for an embodiment of the avant garde as an alternative to capitalism”, de Steve Cottingham, que defende uma crítica de vanguarda, próxima da poesia, da colagem ou da performance. Resumidamente, ele acredita que,se alguma arte ainda consegue ser anti-capitalista ou política, a crítica está paralisada em formatos como a recensão, que se resume a indicar a alguém o que fazer com o seu dinheiro ou o seu tempo livre. Pergunta porque, sendo cada vez menos uma actividade remunerada, ainda insiste a crítica em formatos e estilos de escrita que conotam esse profissionalismo. Dá exemplos e aponta possibilidades.

Em segundo lugar, Gilda Williams também não percebe porque se insiste em dizer que a crítica de arte está em crise, porque nunca se escreveu tanto no mundo da arte, tanto por obrigação burocrática de carreira como simplesmente por causa da internet e das redes sociais. Se os próprios artistas se têm virado regularmente para a escrita, a edição e a publicação, a discussão pública sobre arte também o tem feito, em foruns e formatos cada vez mais imediatos e informais, blogues, twitter, facebook.

Em cada um dos textos, há uma desconfiança explícita da história de arte como modelo único para a crítica. Pessoalmente, tenho as mesmas dúvidas: será que é possível produzir opinião sobre um objecto que não seja obrigatoriamente uma inventariação de precedentes ou inscrição numa tradição, por exemplo? Há também uma desconfiança dos limites éticos e profissionais do crítico: a necessidade de só falar de eventos ou objectos que se viu, quando em muitos casos boa parte da discussão acontece antes sequer do objecto ter sido produzido (Joana Vasconcelos) ou deslocada geograficamente (uma bienal do outro lado do mundo). Enquanto é aceitável receber passivamente toda a barragem discursiva (publicidade, entrevistas, opinião) que antecede e apoia um evento, só se tem legitimidade para lhe responder participando nesse evento – o que não faz grande sentido. Se a mediatização ou a simples discussão pública é inseparável do trabalho nas artes, este género de limites tornam-se artificiais, impossíveis de cumprir.

Por outro lado, as próprias referências da crítica mudam. O crítico académico próximo com um discurso denso que se aproxima da filosofia perde terreno em relação a uma crítica que prefere a informalidade do Novo Jornalismo, a agressividade moral de Sontag, o território a meio caminho entre a ficção e a realidade de David Foster Wallace, de Ballard ou até de Burroughs. A argumentação com base em precendentes históricos ou filosóficos também perde terreno em relação a uma postura que enfatiza o contacto do escritor com aquilo de que fala: dizer que uma crítica é “mera descrição” já não é depreciativo, quando muita da melhor não-ficção e crítica assentam o seu poder nisso mesmo, numa capacidade de descrever articuladamente.

Enfim, revejo-me em muito disto e adorava ser optimista mas se em outros sítios esta nova crítica já vai aparecendo, aqui a história é, como de costume, muito diferente e muito paroquial. Mas pensem: se o novo cinema português (por exemplo) também anda a meio caminho entre o documentário e a ficção ou se nas artes cada vez mais artistas se dedicam a incluir a escrita nas suas obras e performances porque não também uma nova crítica, quando da velha crítica já nem sequer os formatos conseguem satisfazer?

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Escolhas

Ainda a propósito do fascismo de Le Corbusier, algumas reflexões em resultado de uma discussão sobre o assunto no facebook.

Tudo indica que a sua próximidade pessoal a essa ideologia é factual. A questão seguinte é se é possível ou desejável isolar a sua obra como arquitecto dessas suas crenças. Como é óbvio, é possível. Se virmos a obra como um certo conjunto de formalismos e tácticas para lidar com materiais, com um contexto, pode-se isolar e reutilizar o que se quiser.

O punk, por exemplo, usou imagética nazi como parte de uma estratégia de choque e agressão (curiosamente, a recuperação actual do punk esquece essa sua vertente). Sem ir a casos tão extremos, é habitual comentadores como Vasco Pulido Valente sugerirem que a proibição de fumar em locais públicos é fascista porque HItler também a impunha – uma falácia habitual. Não é  proibição de fumar (ou o seu vegetarianismo) que tornam Hitler num exemplo monstruoso mas o facto de ter perguido e morto milhões de pessoas pela sua religião, etnia ou crenças políticas.

É possível aproveitar o que se quiser da obra de alguém mas a chave é “o que se quiser” – a ética dessa decisão é toda nossa. Nesse domínio, os mortos, os heróis e os monstros tomaram as suas suas; o que fazemos com elas é connosco. Talvez por isso nos seja tão difícil lidar com revelações como estas, obrigam-nos a olhar de novo, criticamente, para tudo o que pensávamos já saber.

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A Vida dos Grandes Homens

Este fim de semana apareceu uma notícia a dar conta da “militância fascista” de Le Corbusier. Trabalhou de modo regular com instituições colaboracionistas, editou revistas com líderes fascistas, elogiou Hitler e teceu comentários anti-semitas. A pergunta é a habitual: mas isso afecta a sua obra? A resposta mais evidente é claro que sim.

A sua obra não é apenas um conjunto de edifícios, escritos e discursos sobre arquitectura mas inclui-o deliberadamente a ele mesmo – é uma arquitectura de autor, para o melhor e para o pior. Seria tão absurdo sugerir que os famosos óculos do arquitecto são irrelevantes como as suas crenças fascistas. Quando se usa um modelo estético assente nos grandes homens, é difícil dizer onde a sua biografia deve parar.

Duvido que Le Corbusier venha algum dia a ser uma figura tão embaraçosa como os Futuristas Italianos, Céline, Riefenstahl. A verdade é que também em cada um destes casos é habitual isolar-se a obra da ideologia. Porque é bela, é uma experiência estética que transcende a política, etc. Ora a beleza é sempre a coisa mais superficial da arte. Não é senão a porta de entrada. Nunca nos limitamos a ela: queremos saber mais sobre quem a fez, porquê e para quem. E essa não é uma preocupação alheia às obras – sobretudo quando quem as fez reclama para si mesmo uma certa coerência biográfica, uma reunião entre vida e arte.

Um autor é também uma certa imagem pública de si mesmo. A ideia de um autor total com um controle absoluto e estético sobre a sua vida e a sua obra é evidentemente totalitária. Exclui formas de colaboração e de negociação.

São possíveis, como é evidente, alternativas à autoria: formatos colectivos ou simplesmente uma recusa das suas condições habituais (veja-se a reclusão pública de Herberto Helder e a discussão em seu torno).

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A conversa do costume

– 500€. Just 500€.
– So, the minimum wage in Portugal is 500 € a week?

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A Birra do Tavares

Não queria dar muito mais atenção ao João Miguel Tavares mas o homem insiste em dizer asneiras. Desta vez, pode-se resumir o seu argumento a: o país não sabe o que fazer aos doutorados que tem e portanto não admira que eles se tornem (no seu ponto de vista) perigosos radicais de esquerda, “um batalhão de doutorados descamisados, frustrados e politizados” oferecidos por “Mariano Gago” a “Boaventura Sousa Santos, José Manuel Pureza e Carvalho da Silva”.

A ideia, calculo, será desacreditar a investigação científica porque, estando em tão maus lençóis, tudo dirá para se salvar. Ora, ter motivos para mentir não implica necessariamente mentir. Insinuar não é a mesma coisa que demonstrar.

Tal como já foi várias vezes assinalado ao longo desta polémica, os únicos argumentos de JMT contra as conclusões do Observatório sobre as Crises são ataques pessoais e a convicção que as categorias usadas são ridículas (sem qualquer tipo de fundamentação que não declarar que são “um conjunto de categorias criativas de quem nem Karl Marx se lembraria”). É admirável que tanta gente se tenha dedicado a desmontar e a contrariar seriamente tão pobres falácias.

Assim, só lhe resta atacar a credibilidade da ciência em Portugal – mais um texto ou dois e calculo que se atire contra a ciência pura e simples –, apenas porque alguns destes cientistas se recusam a estar de acordo com a sua própria opinião.

Acho curioso que não se socorra da extensa parafernália de tretas que muita investigação portuguesa também tem excretado para apoiar a “opinião” de gente como JMT. Não há falta de politização neoliberal nas universidades portuguesas. E tendo em conta os resultados maravilhosos que a aplicação desta doutrina está a operar na nossa sociedade, nem sequer me espanta que os únicos argumentos que se consigam raspar do fundo do tacho (trocadilho intencional) seja no fim de contas que eles se queixam porque acham que lhes fizeram mal.

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Oferecer facas

Há quem acredite que dá azar oferecer facas como presente. A solução é vendê-las por um cêntimo. Deixou de ser uma prenda e passou a ser um serviço. Nos últimos anos, uma superstição semelhante tornou-se viral: basta pagar um cêntimo a alguém que nos fez um serviço para essa pessoa estar – para todos os fins estatísticos – empregada. Na maioria das vezes, nem é preciso gastar o tal cêntimo: basta pagar com experiência, que nem sequer é o empregador que fornece mas o próprio empregado que adquire. Ou então é o Estado que paga por nós através do IEFP, chamando o azar a si mesmo.

João Miguel Tavares é um dos que acredita nesta nova superstição. Para ele, ou se está empregado ou não, sim ou sopas. E escandaliza-se que se use categorias como “os ‘desempregados ocupados’ (que são, na verdade, empregados subsidiados), os ‘inactivos desencorajados’ (que incluem aqueles que por opção de vida não querem trabalhar, como Kiki Espírito Santo), os ‘activos migrantes’ (mais conhecidos por emigrantes) e o ‘subemprego’ (trabalhadores a tempo parcial que gostariam de trabalhar mais horas).”

Já muita gente lhe respondeu com mais paciência do que o colunista merece – aqui, por exemplo. Se escrevo sobre o assunto é porque me ocorre mais um argumento para justificar a relevância das categorias que João Miguel Tavares acha tão absurdas: elas não avaliam apenas a simples existência ou não de emprego mas a sua qualidade.

Já há muito tempo que não ouço ninguém dizer nada sobre os – em larga medida auto-intitulados – criadores de emprego: os empresários, empreendedores, investidores, banqueiros. É bem provável que esse chavão tenha desaparecido da discussão pública porque apesar de todos os incentivos que lhes são dados (menos impostos, “flexibilização” dos contractos, etc.) o emprego tarda em aparecer. O pouco que aparece é via subsídio do Estado que paga os salários através do IEFP.

Lembrando a tal aposta do nosso e de outros governos em apoiar incondicionalmente os tais criadores de emprego, seria importante averiguar não apenas se a tal criação de emprego pura e simplesmente existe. Se assumirmos que sim (como faz o Governo), seria ainda mais importante averiguar a qualidade do emprego criado. Já estão a ver onde quero chegar, espero.

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Geometria Moderna

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Lembro-me sempre de ter lido – ou ouvido, não sei onde – que quando perguntaram a certo arquitecto modernista porquê a obsessão da sua época pelo branco, ele riu-se e respondeu que não, que os modernistas faziam casas de todas as cores, mas as revistas de arquitectura só as reproduziam a preto e branco. Daí que os fãs, os discipulos distantes, também as reproduzissem a preto e branco.

Quando vi pela primeira vez o Guggenheim de Frank LLoyd Wright, relativamente pequeno, entre as ramagens do Central Park, o que me marcou mais foi a textura quase grosseira das suas paredes, que tendem a ser disfarçadas, minimizadas ou alisadas. Era uma geometria pura criada a partir de matéria que quase não a podia sustentar. Como eu disse em outra ocasião:

“ferro, vidro e madeira, mas tornado elegante pela simples repetição de formas e combinação de texturas. Os mesmos materiais que podiam ter sido usados para fazer uma tasca são empregues para criar modernidade, apenas pela forma como são combinados – que é como quem diz: pelo seu design. É essa a lição mais profunda da gestalt: ritmo, textura, sobreposição e justaposição, estratégias elementares para fazer da matéria mais básica uma coisa nova.”

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Jet lag

A hora mudou enquanto estava em Nova iorque, assim as habituais quatro horas de diferença cresceram para cinco à volta. Portanto, saí anteontem de nova iorque às 19h30, comi o jantar no avião por volta das 20h30 e quatro horas depois estavam-nos a servir o pequeno almoço meia hora antes de aterrarmos às 7 e meia da manhã aqui. Assistimos ao nascer do Sol pouco antes de ver a costa portuguesa enquanto o meu organismo estava convencido que eram duas da manhã. Por outras palavras: estou com um jetlag gigante.

Em Pattern Recognition, o meu William Gibson favorito, o jetlag da protagonista era empregue um mecanismo psicológico de estranhamento, que a fazia estar deslocada em relação à realidade imediata, enquanto viajava pelo globo para leste, perdendo noite pelo caminho. Um dos seus amigos acreditava que enquanto os corpos dos viajantes eram rapidadmente transportados através do globo, as suas almas eram mais lentas, e precisavam de um certo tempo para os alcançarem. Roberto Bolaño em 2666 citaria indirectamente e anonimamente esta passagem.

De entre a literatura de viagem contemporãnea, há sem dúvida uma tradição dedicada ao jet lag da qual só conheço estes dois exemplos, ligados entre si.

Tanto à ida como à vinda, reparei que este estado de estranhamento, de vigília ou de sonolência deslocados em relação à luz e aos hábitos dos outros me deixavam morbidamente mais sensível aos objectos como se os estivesse a ver a meio da noite iluminados por um relâmpago que não pára, congelado como numa fotografia sobreexposta, que não conseguimos interpretar como sendo simplesmente a claridade do dia. Tomadas eléctricas, torneiras, cafeteiras, cabos eléctricos suspensos, telhas, tudo ganha a claridade e a cor dos sonhos que tenho de manhã, quando a luza ambiente os contamina.

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Nada de novo(s media)

Fui espreitar a Trienal do New Museum, dedicada a novos artistas e, suponho, que a novas obras. Apanhei com óculos de realidade virtual, cenas 3D reproduzidas em pintura a óleo, uma stand-up comediant traduzida para 3D, filmes de animação de morphings de personagens de Anime, esculturas impressas em 3D, teletubbies vestidos de stormtroopers, etc. Parecia o fim dos anos 90, mas agora em HD.

Pelos vistos, o futuro parecia-se bastante com o passado. Lembrou-me os tempos do mestrado, entre 98 e 2001/2. Tal como então, quase toda esta estética dos novos media parece superficial, mais assente em ideias feitas do que numa reflexão eficaz sobre as consequências dos computadores, da internet e do resto. Na altura eram visíveis duas tendências paralelas: uma americana que via a tecnologia de um modo optimista e com os olhos de um insider (gente que trabalhava em sítios como o Mit ou directamente para grandes empresas de hardware e software) e outra europeia que encarava essa tecnologia do lado de fora, como uma importação ou até uma invasão. Enquanto os primeiros viam a ligação entre arte e computadores como uma coisa natural, os segundos tendiam a ver isso como uma forma de deturpação criativa das intenções originais dos fabricantes – mesmo que a intenção original fosse precisamente essa.

Não faço ideia se isto são artistas de há quinze anos atrás a atingirem finalmente algum tipo de visibilidade, circulando por programas de graduação até irem ter finalmente a uma espécie de mainstream nos Estados Unidos – onde finalmente alguém lhes começou a achar piada –, ou se isto é uma espécie de revivalismo, uns Neo Novos Media.

Em 1982, JG Ballard já tinha reparado que a nostalgia por video games, então literalmente um novo media, já ia de vento em popa:

“That’s already begun – you’re getting nostalgia books about video games! One was published last week by Kingsley Amis’s son, Martin Amis, all about his addiction to the early video games. It’s sort of kiysch beyond kitsch – nostalgia, but for five minutes ago, for god’s sake! I don’t know how long video games have been going in the ‘States, but it’s not that long!” – e acrescentava que íamos acabar por ter uma classe de jovens executivos cuja ideia de uma experiência intelectual estimulante seria jogar um jogo de computador com 15 anos.

Ou seja, apesar da qualificação de “novo” (ou se calhar até por causa disso ou pelo mesmos disfarçada por isso) esta é uma área com uma nostalgia estrutural que se arrisca a torná-la conservadora e até reacionária. Se muitas destas obras se assumiam como uma crítica, até essa crítica encarrilava por caminhos já muito trilhados.

Muitos dos novos artistas da trienal vêm de zonas problemáticas e/ou promissoras, da Palestina, de Angola, por exemplo, o que garante desde logo um aroma (embora não mais do que isso) a activismo e política, que se arrisca muito simplesmente a cair na fusão ligeira de duas coisas exóticas, um tecno-orientalismo: a última trienal de arquitectura de Lisboa foi um bom mau exemplo, cheia de maquetes propondo tecnofavelas e de visões de uma Índia de aparência tradicional mas reconstruída com nanotecnologia, etc.

Nem seria mau se isto se limitasse à ficçao especulativa, mas este género de ideias encontram quase sempre utilidade nos novos colonialismos corporativos, glamorizando acções de caridade empresarial em países de terceiro mundo, áreas de conflito, propondo soluções altamente poéticas e irrelaizáveis para problemas cuja primeira solução deveria ser (como eles próprios) política.

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Across 110th St

No fim de Junho passado, decidi-me finalmente a ver Across 110th St, o filme de 1972 com a fervilhante banda sonora de Bobby Womack, a que Tarantino tornaria famosa para a minha geração na abertura de Jackie Brown. Trata de um assalto à Mafia e do massacre que se lhe seguiu. Não faço ideia se já foi uma história realista. Agora parece um pesadelo violento, com gangsters negros de calças boca de sino, polícias corruptos, padrinhos italianos sádicos, traições esperadas e redenções de último minuto. Não o sabia, mas Womack morria precisamente enquanto via o filme.

Hoje, vindo do Harlem, de lá da 110 St, resolvi-me a espreitar outra vez o filme e espantei-me como a arquitectura mudou tão pouco. Os carros já não são tão longos e esquinados. As roupas e os penteados perderam a exuberação e as cores quase vegetais. Mas as casas e as ruas ainda lá estão, tal e qual.

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Exposições e activismo

Em Nova Iorque, vi duas exposições sobre activismo. A primeira, numa salinha do City Museum, “pedagógica”, que é como quem diz: documental, com muita informação de apoio, sobre assuntos de contencioso na história da cidade: racismo, feminismo, imigração, ecologia, bicicletas urbanas, religião. Quase tudo  era apresentado de pelo menos dois lados, contra e a favor da imigração, por exemplo. Ou discutindo uma mesquita a ser construída perto do local do World Trade Center. Dava uma visão plural da rua e de quem a usava para reinvindicar.

A outra, Zero Tolerance, ocupando um andar da PS1, era sobre arte e activismo e um falhanço quase completo, tanto pelas obras em si como pelo modo como eram apresentadas, com textos de apoio mínimos, reduzidos a um amontoar de lugares comuns acríticos. As obras, na sua maioria documentando performances de rua acumulavam-se numa cacofonia insuportável. Limitavam-se a reencenações superficiais de manifestações. Em geral eram apresentadas como sendo “fake demonstrations” que em muitos casos serviam para denunciar como a política de rua já não é eficaz – fazendo placards com reivindicações abstractas, genéricas, por exemplo, que ninguém conseguia ler. Já não tenho paciência. Apagar as letras de um cartaz político para denunciar uma perda qualquer de sentido é ser um agente activo desse apagamento. No limite é uma forma de censura. De garantir que a política só entra num espaço de arte contemporânea se for devidamente silenciada.

Por um lado, consolou-me um pouco perceber que as grandes instituições internacionais de arte contemporânea têm tão pouco juízo como as portuguesas quando se trata de arte política. Por outro, deprimiu-me porque não vi nenhuma solução, excepto a mais óbvia: é melhor tratar a arte política como um documento e evitar reencená-la como um “objecto vivo”. Tenho alguma pena de quem acredita que há algum activismo numa pantomina qualquer engendrada por um comissário ou pelo serviço educativo de um museu. Prefiro um documento bem comentado do que toda a experiência circence que é usada para os emudecer.

Mas enfim, há exposições que são como um murro no estomâgo; há exposições que são como uma micose entre dois dedos do pé. Estimulam por irritação.

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Ars Longa

Comecei a ver os filmes do Manoel de Oliveira com o Non, ou a Vã Glória de Mandar. O homem na altura era um saco de pancada, como de resto era todo o cinema português. Pouca gente o levava a sério. Eram os longuíssimos planos e os longuíssimos filmes. Eram os maneirismos dos actores. Agora, qualquer coisa do Senhor dos Anéis ou da Guerra das Estrelas é quase tão comprida como o Soulier de Satin e o Oliveira passou para as curtas. Na altura, alguém disse que o Non era o seu filme-testamento. Se fosse verdade, a obra do Pedro Costa encaixava toda dentro desse longo testamento. Dustin Hoffman num inquérito disse que queria ser como ele: ainda a fazer filmes aos 100. O último que vi dele foi o Acto da Primavera, num iPad com o pôr do sol na varanda atrás. Tanta coisa.

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A Natureza como Extase

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Chegando ao Natural History Museum directamente da estação de Metro, por uma porta rasa, no meio de pais, monitores e hordas de criancinhas, fica-se com a ideia de ter entrado num mundo inteiro que congelou e se afundou entre os túneis dos comboios e as fundações dos arranha-céus. Nas primeiras salas que espreitámos, num lusco-fusco permanente, passámos por elaboradas infografias da evolução que usavam os próprios animais minuciosamente empalhados como ícones. Uma baleia em tamanho real nadava suspensa da abóbada de uma grande sala de luz azulada como a que se imagina ser a do fundo do mar. Em cada nicho, uma cena distinta com animais montados em frente a uma grande cena pintada. A primeira sensação é de realismo mas não me parece que seja essa a sua força. São pinturas ou mais exactamente ilustrações científicas tridimensionais como as que se vêem em certos livros. Vê-las é como folhear. Pedem o tipo de atenção necessário para examinar pinturas religiosas. Com pressa não as estamos realmente a ver. Parando, apercebemo-nos de um ratinho que espreita de um buraco numa árvore; insectos minúsculos pairam sobre as folhas de árvore. Baixámo-nos para ver e sentimos com sobressalto a presença de um lince acocorado atrás de uma pedra, pronto a saltar sobre o ratito. O percurso do visitante vai revelando pequenas histórias escondidas da pressa. Fica-se embasbacado como numa igreja. É disso mesmo que se trata: da natureza tratada como uma espécie de religião. Cada uma daquelas cenas, reproduzindo um cantinho real de paisagem, com rochas reproduzidas à mão em estuque, cada um daqueles animais mortos há quase um século são como relíquias de santos reencenando martírios e extases. Lembrei-me de Alberto Caeiro: “Nunca fui senão uma criança que brincava./Fui gentio como o sol e a água,/De uma religião universal que só os homens não têm.”

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Ai, o frio!

Para um organismo sintonizado a Portugal, acordar numa casa quentinha, em particular num apartamento de estudante a cair de velho, significa que lá fora deve estar pior, ou seja: ainda mais quente. Ora, o acto de sair de uma casa assim em Brooklyn e apanhar com um regelo de frio sente-se no tal organismo português como uma espécie de traição, uma espécie de Magrittismo feito com a temperatura. Simplesmente não se faz. Uma pessoa não está habituada.

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Turistas

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Antes de mais, sou um. Não acho que valha a pena protestar o contrário. Não sou um “viajante” esclarecido que se tenta infiltrar com vagar na “autenticidade” local. Não tiro fotos a tudo mas ando perto disso. Ando quilómetros a pé por engano. Feita a declaração de interesses, resta-me dizer que até agora só fiquei chocado com o turismo novaiorquino num sítio: em Wall Street. Por toda a praça financeira, os turistas acumulavam-se como um líquido pastoso e saplicante. Posavam junto ao Touro Dourado, às fachadas antigas, aos polícias entediados, às discretas barreiras de protecção. Ali perto, o Battery Park no extremo sul da ilha, com vista para a Estátua da Liberdade, Ellis Island e o relógio da Colgate na outra margem, estava todo vazio excepto nós e um ou outro jogger. Não se percebe.

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Livritos

É tudo muito caro em Nova Iorque excepto os livros que são muito baratos. Um café anda dos três dólares para cima. Uma garrafa de vinho para cima dos 10. Um livrito da Sternberg Press, por exemplo, anda pelos quinze. É pena que haja livrarias como a Strand com andares e cave cheios deles. É pena que depois isso tenha que vir nas malitas de volta a Portugal. Não se pode ter tudo. E disso só uma pequena parte enfiada entre as peúgas e t-shirts.

Ainda bem que já não leio muito em papel – praticamente tudo em eBook. Só me atraem os livros que não conseguem existir assim, os antigos, os estranhos, os raros, os bonitos. Comprei (a meias) umas antologias do Giorgy Kepes dos anos 1960; um do Raymond Williams, o fundador dos cultural studies, que não existe em versão electrónica; uma caixa com panfletos da revista Wedge, de 1983, incluindo um que eu já tinha da Kathy Acker. Tudo antigo, excepto um livrinho da Rachel Kushner, a do Flamethrowers. Quase nada, pelos padrões antigos. E quase nada de Design (só o Kepes).

Nessa área, não tem saído nada que eu tenha mesmo que ter, que me dê o tal murro no estomâgo. Quando me decido a comprar um, a obrigação tem sido circunstancial – porque cobre um assunto que preciso, história, fintes, etc. –, mas nada que me encha as medidas criticamente; nada de que se possa dizer é isto. Se calhar estamos na tal fase pós-crítica.

Gravito por natureza para as prateleiras da crítica, literária e de arte. Espreito a política e a economia.

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Filas de alta qualidade

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Deixem-me sublinhar um dos meus detalhes favoritos de Nova Iorque: as filas para o autocarro. Se fossem viaturas, seriam no mínimo dos mínimos um Porsche. A primeira pessoa põe-se junto da paragem. A outra põe-se a seguir e por aí adiante. Pode entortar para contornar obstáculos mas não há ambiguidades. Não aparecem chico-espertos que se metem do outro lado da paragem ou que ficam do outro lado da rua porque se pode ver o autocarro. Nada disso. Até tirei uma foto.

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Limiar

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De volta a Brooklyn depois de um fim de semana em New Hampshire, não muito longe do Canada numa região de lagos gelados pelo inverno. Uma das terras próximas aparece mencionada no Walden e pelo caminho, embora bastante longe e sem abrandar, passámos por sinais indicando a localização do pequeno lago que dá o nome ao livro. Caminhámos pelo meio da neve com versões actuais das “raquetes” que se usavam para o efeito nos velhos tempos e que ainda aparecem cruzadas a decorar portas de celeiro. Havia umas no sítio onde fomos comprar gelados artesanais numa estrada terciária de lama no meio da neve. Entrava-se, escolhiam-se os sabores e deixava-se o pagamento numa gaveta, recolhendo o troco de uma jarra de vidro. Avisaram-nos que nunca havia ninguém, apenas uma câmara moderna de vigilância a piscar num canto no meio das traquitanas, reservatórios antigos, dos frigoríficos decorados toscamente com padróes a lembrar os de uma vaca.

Tanto como em Brooklyn, sentia-se ali a experiência americana, a natureza extrema e os grandes céus, sim, mas também a ideia de pequenos negócios tornados épicos por se aninharem assim, convictos, no limiar do falhanço. O ex-libris da zona eram os cães de trenós,  trazidos por um antepassado do nosso anfitrião, que chegaria a escrever dois livros de aventuras contados do ponto de vista dos animais.

Não era um lugar afastado do mundo. Num dos quartos da antiga pensão, conhecido por “war room” um mapa mundi com a Rússia ao centro ocupava a quase totalidade de uma das paredes inclinadas das águas-furtadas. Pertenciam a um antigo oficial da marinha, presente no Dia D, cujo apelido tinha batizado depois um vaso de guerra, e cujos livros sobre o Médio Oriente enchiam ainda as estantes das salas. A senhora que nos atendeu num  diner na cidade próxima e que limpava a casa de onde tinhamos saído a caminho de Nova Iorque também nos disse que o namorado da filha era português, “da região montanhosa para o interior do Porto.”

De volta, a Brooklyn e a Nova Iorque, a experiênca era de novo mais óbvia e mais extrema, de construção mas também de degradação permanente, por vezes no mesmo acto, na gentrificação que o nosso anfitirião nos ia apontando a cada passo. Também aqui, entre os artistas, e os polícias, e os correctores, se vivia sempre e orgulhosamente num limiar qualquer do falhanço – e mesmo que se aterre do lado errado, ainda assim será melhor que conseguir em outro sítio qualquer.

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Sermão

É provável que o género literário mais português de todos acabe por ser, não a ficção, a poesia ou o ensaio, mas o sermão.

Pode ser longo ou breve, pode ser ensaístico ou ficcional, pode ou não ter uma moral, mas aquilo que me interessa aqui é o modo como se põe perante o público: o sermão é por definição paroquial. É deliberadamente concebido para ser ouvido ou lido por uma pequena plateia, na presença de quem o fez. Tal como no facebook, o sermão é um texto (ou qualquer manifestação pública) cujos settings de privacidade se limitam aos amigos mais próximos.

Ou seja, numa época em que é possível publicar instantaneamente, prefere-se quase sempre limitar artificialmente esse alcance. Às vezes, invocam-se razões de legitimidade: um livro é mais respeitável que um eBook; um jornal mais sério do que um blog, etc. No meio académico, a conferência fechada ou a aula são preferidas a simplesmente opinar em público.

Nunca se escreveu tanto para tão pouca gente.

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Mário Moura

Esta é a minha biografia.

Se a estão a ler para tentarem perceber se "eu sou alguém", se acreditam que só depois de lerem o meu cv é que podem levar-me a sério, concordar ou não comigo, nem vale a pena continuarem a ler. Se vieram aqui por isso, leiam os meus textos: todos os argumentos importantes estão lá.

Dito isto: escrevo sobre design, cultura, política há uns nove anos. Faço-o regularmente aqui. Menos regularmente em jornais (Público, i), revistas e livros. Alguns dos meus textos foram reunidos no livro Design em Tempos de Crise, editado pela Braço de Ferro (está esgotado).

Dou também conferências regularmente. Nas Belas Artes do Porto, nas Belas Artes de Lisboa, na Esad das Caldas da Rainha, na Esad de Matosinhos, na Experimenta Design, no ciclo Ag – Prata, por exemplo. Dei um ciclo de 6 conferências sobre Livros na Culturgest de Lisboa entre 2011 e 2012.

Tenho uma tese de mestrado sobre a estética da programação (já soube fluentemente dezasseis linguagens de programação – Java, C++, Basic, Javascript, ActionScript, Lingo, Starlogo, PostScript, Proce55ing (quando ainda se escrevia assim), etc. Mas é preciso praticá-las, e eu não tenho feito isso; suponho que acabei por enjoar, mas de vez em quando sinto o chamamento; faço o que posso por ignorá-lo).

Fiz uma tese de doutoramento sobre autoria no design.

Já ensinei perto de vinte cadeiras distintas, distribuídas pelas Belas Artes do Porto e Lisboa, e pela Faculdade de Engenharia do Porto: gostei de uma que dei sobre Autoria; gosto de ensinar edição e bookdesign; também gosto de história e crítica. Tipografia e criação de tipos, dou quando tem que ser (não desgosto).

Se alguém quiser uma bio mais resumida, respeitável e copy/pastável:

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.


História Universal do: Estágio

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Design & Desilusão
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Juventude em Marcha
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