The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

No Terraço

Escrevo este texto num terracinho com vista para o Marão nos subúrbios de Vila Real. Uso o meu portátil, um mac. Está ligado à internet através de um router também portátil. Enquanto escrevo, vou dando olhadelas ao facebook. Corre uma polémica sobre estágios de arquitectos, que começou nos jornais. Também vou lendo o Público, que prefiro “folhear” em pdf. Ando a ler vários livros ao mesmo tempo. Quando estou em viagem, ganhei o hábito de ler usando a app do Kindle do telemóvel. É prático. Quando estou à espera, que a viagem chegue ao fim, que o autocarro chegue, ponho-me a ler. Nas últimas semanas, tenho lido a biografia de Murray Bookchin – da qual já falei aqui ontem.

Bookchin é conhecido sobretudo pelo seu trabalho pioneiro ligando a ecologia à luta política. Hoje é uma ligação óbvia, mas quando a propôs no final da Segunda Grande Guerra era uma novidade. Mesmo a palavra “Ecologia” era  quase desconhecida.

Quando Bookchin se decidiu por um modelo anarquista de sociedade, fê-lo com a convicção que era a única maneira de impedir uma catástrofe ecológica que iria pôr em causa a sobrevivência humana. Contudo, ao contrário do que é habitual não propunha uma rejeição da tecnologia. Não acreditava que um regresso a modelos arcaicos de produção sustentasse uma sociedade mais livre e justa. A ideia de austeridade levava necessariamente a uma escassez que inevitavelmente castigava os mais pobres, aumentando a desigualdade. Para Bookchin, a igualdade só podia ser sustentada pela abundância, no que chamava a sociedade “pós-escassez”.

Com a automatização, por exemplo, seria possível libertar as pessoas de trabalhos repetitivos, perigosos, mal pagos, desde que se reivindicasse uma distribuição mais justa de rendimentos. Com a miniaturização, seria possível sustentar comunidades mais pequenas. O uso de combustíveis fosseis ou da energia nuclear só se justificava para alimentar cidades cada vez maiores. Numa escala mais modesta, onde a produção fosse local ou distribuída por pequenos ajuntamentos, seria possível usar energias renováveis. Não seria preciso gastar tanto dinheiro a transportar matérias primas, a transmitir a energia à distância, a deslocar os trabalhadores das suas casas para os empregos, etc. O municipalismo libertário de Bookchin assentava nisso.

Ao ler isso, neste terracinho em Vila Real, apercebo-me que sim, que há realmente a possibilidade real de ter a existência descentralizada com que Bookchin sonhava. Em Vila Real há hospitais, há um tribunal, há segurança social e correios. Mas aqui mesmo ao lado há aldeias onde os autocarros só passam (se passam) duas vezes ao dia. A “província” ainda é o sítio de onde se foge. Ou onde se volta de vez em quando como turista. As relações entre campo e cidade – a própria divisão – é de classe. Ganha quem tem a mobilidade suficiente para circular livremente.

A esta clivagem ajuda a cultura que é sobretudo urbana. Numa altura em que se pode aceder a quase tudo valoriza-se o que só pode ser visto ao vivo. Mesmo formatos que se transmitem facilmente pela net como o cinema são relançados como experiências que só se podem viver nas melhores condições, num cinema, com o melhor som. A arte é a dos grandes objectos e das grandes exposições. Qual o sentido de ler em Vila Real uma crítica sobre a importância da exposição x ou y em Lisboa ou Porto? Mais vale ler sobre o que se passa em Nova Iorque ou Londres, é quase o mesmo. Tão distante que podia ser ficção.

Nem sequer acho que a coisa se resolva com itinerâncias ou residências, que mais não fazem do que publicitar uma cultura de centralidade por sítios que não lhe podem responder. Se calhar era melhor coisas que não se limitassem a fazer circular o centro pela periferia. Valorizar por exemplo a portabilidade, a distribuição, o pequeno formato. Fica a sensação que se fala de edições, mas porque não investir em coisas que se possam aceder através do youtube, do bandcamp, e não apenas em cinemas, festivais ou museus. Porque não?

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Vidas Subversivas

Ainda por causa do projecto Páginas Inquietas, ando a ler Ecology or Catastrophe: The Life of Murray Bookchin. Cheguei a Bookchin porque era considerado uma influência pelos Up Against That Wall Motherfucker. A curiosidade aumentou quando soube que também tinha sido uma influência na criação do sistema político usado pelos Curdos do PKK (uma forma de municipalismo, um derivado do anarquismo). Na biografia, também são visíveis outras ligações, a Judith Malina, do Living Theatre, por exemplo. E algumas colisões: com os Situacionistas, por quem a antipatia era evidente mútua era evidente: Bookchin seria tipicamente insultado ao tentar mediar um encontro entre Morea (dos Motherfuckers) e Vaneigem. Finalmente os Situacionistas ingleses seriam expulsos em bloco por se darem com Bookchin, Morea, etc. Uma telenovela que só sublinha o lado autoritário e mais irritante do Situacionismo.

Bookchin considerava o que os Motherfucker faziam como uma forma de teatro de rua:

«Morea thought he could incite people to a revolution with artistic antics, but street theater “rarely makes [people] think, and it can get out of control and undermine serious organizations.” Above all, it could make you lose sight of politics, which had to be the top priority. “However personalized, individuated, or dadaesque may be the attack upon prevailing institutions, a liberatory revolution always poses the question of what social forms will replace existing ones”— that is, what concrete institutions, what forms of freedom. Art cannot answer that question. Serious revolutionary thought must “speak directly to the problems and forms of social management.”»

O percurso de Bookchin começou pelo Comunismo, continuou pelo Trotskismo, passou pelo anarquismo e terminou no seu municipalismo libertário. Abandonou o anarquismo porque considerava que a própria expressão se tinha tornado sinónimo de não-adesão, de estilo de vida, etc. A anarquia como logotipo inconsequente para chatear os papás popularizada pelo punk.

A biografia é um verdadeiro “quem é quem” dos movimentos de intervenção política em Nova Iorque no século XX e do modo como se foram ligando aos do resto do mundo: aparecem os anarquistas espanhóis da Guerra Civil, os Provo, o Maio de 68. Como texto e como documento, cai demasiadas vezes numa apologia acrítica de Bookchin que é sempre apresentado como mais sensato e sábio que quase toda a gente que encontra.

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Linhas fechadas

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Ontem cumpri parcialmente um dos meus mais velhos sonhos – e estou a falar mesmo de sonhos, dos que se têm à noite: percorri a pé a Linha do Corgo entre as antigas estações de Alvações e de Povoação. Já tinha esse sonho no fim da década de oitenta, quando ia e vinha do Porto para Vila Real de comboio, que demorava entre três e quatro horas e portanto era tão lento como as carreiras quando ainda não havia a IP4. Agora, ir até ao Porto de autocarro demora pouco menos de uma hora (medida entre a garagem em Vila Real e o Hospital de S. João). Os comboios acabaram quando o Governo de Passos Coelho subiu ao poder. Meses antes, Passos tinha lutado pela sua manutenção durante a campanha eleitoral. Seis anos depois a linha é um rasto empoeirado que só se distingue dum caminho por causa do cascalho grosso onde assentavam as travessas misturado na terra batida, pelas estações e apeadeiros emparedados e por algum parafuso ou rebite enfurrajado que ainda se encontra no meio da terra. Continua a ser uma paisagem incrível, surpreendentemente variada, mesmo no espaço dos quatro quilómetros que fizemos: vinha, socalcos antigos de antes da praga da Filoxera, sobreiros, oliveiras, floresta nativa que ia reaparecendo em troços sem cultivo. Cruzaram-se por nós mais três turistas, em sentido contrário, descendente, um casal estrangeiro mais velho e uma ciclista. É provável que tivessem saído de Vila Real ao começo do dia e fossem até à Régua. Não é mau a linha estar aberta aos caminhantes e ciclistas mas imagino o que seria se o velho comboio ainda funcionasse.

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Rasuras

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No Público, lado a lado, duas notícias sobre comboios na Régua.

Numa, dá-se conta da vandalização do Comboio Histórico, provavelmente por taggers como tantos outros que andam por aí a enfiar a assinatura deles em tudo quanto é lado. Ainda há uns dias, rabiscaram por cima de um mural do Nuno Saraiva na Mouraria. Criticar este género de acções é complicado porque leva quase inevitavelmente a acusações de censura. Defende-se que o grafitti é uma espécie de liberdade de expressão e portanto um direito. Contudo, ao contrário de um discurso escrito ou falado, a própria natureza do grafitti implica que se sobrepõe a outros discursos. Rasura-as. Podem ser outros desenhos, como os de Nuno Saraiva, ou pode ser por exemplo um elemento arquitectónico. No Porto, a maioria da arquitectura Brutalista, feita em betão sem revestimento, está neste momento pintada de cinzento. Tendo em conta que a intenção dos Brutalistas era enfatizar a natureza dos materiais, pode-se dizer que o grafitti eliminou a arquitectura Brutalista. Onde ficou a liberdade de expressão de quem fez ou de quem gosta deste tipo de arquitectura?

A liberdade de expressão é um direito mas também uma responsabilidade, um compromisso de garantir que aquilo que dizemos em público não limita ou apaga a liberdade de expressão dos outros. Muitos grafitters têm essa ética cívica, que leva a que só actuem com autorização dos donos, sobre edifícios devolutos, sem estragar outros grafittis. Mas a grande maioria limita-se simplesmente a deixar uma marca desleixada e rápida, uma rubrica a tomar posse de um lugar, quanto mais difícil o acesso melhor – veja-se o caso da grafitter americana que vandalizou irremediavelmente Parques Naturais com pinturas só para poder pôr selfies ao lado da sua obra no instagram (foi apanhada por isso).

O grafitti já tem muito pouco de resistência ou de contracultura. Se tem um mínimo de qualidade já é encorajado por Câmaras Municipais e Governos. Ainda é um instrumento de luta poderoso mas na maioria dos casos limita-se a uma agressão fútil, impulsiva e arbitrária. Tornou-se talvez a marca mais óbvia da degradação dos valores públicos em nome de uma expressão individual absoluta, que não admite limites. Aliás, a discussão sobre grafitti reduz-se em grande medida ao combate entre o direito de propriedade de quem tem a parede e o direito de expressão de quem assina – uma luta entre duas formas de propriedade privada, sem qualquer tipo de consideração para com o comum, o público, etc.

Curiosamente, a segunda notícia sobre Comboios na Régua tem a ver com património público histórico, um certo tipo de linha do qual só sobram poucos vestígios em Portugal, que foi eliminado pela Infraestruturas de Portugal (antiga Refer), sem se dar ao trabalho de consultar outras entidades ou sem dar ouvidos ao interesse do público, a atitude comum por estas bandas. E não deixa de ser irónico que enquanto se lamente a vandalização do Comboio Histórico se destrua levianamente património.

A linha destruída era um resto da Linha do Corgo que o governo de Passos se encarregou de encerrar definitivamente (meses depois do próprio Passos ter lutado para a manter aberta quando ainda estava na Assembleia Municipal de Vila Real). Tal como a Linha do Tua, era um troço extremamente pitoresco que poderia muito facilmente ser promovido turisticamente. Contudo, tem-se preferido investir em barcos. O problema dos barcos é que não são um transporte público, não levam estudantes às escolas ou gente ao hospital – são só turísticos e mais nada. Num comboio pode-se ler, adiantar trabalho, descansar, coisas que é difícil fazer quando se está a guiar um carro. Para muito gente ter um carro é sinónimo de liberdade, mas para muita gente um carro é uma limitação: é o tempo perdido a conduzir quando se podia estar a ler, a escrever, a trabalhar. Ou seja, o automóvel ou o turismo da maneira como estão a ser promovidos também rasuram outras possibilidades de vida.

 

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Com grande poder vem uma grande poesia

O que mais aprecio neste momento numa história de super-heróis é o lirismo. Não falo dos filmes mas dos comics, e quando digo “momento” estou a ser rigoroso: esta nesguinha de Verão enquanto já não tenho de dar aulas mas as férias ainda não começaram. Só me resta tempo para ler ou reler coisas curtas e rápidas. Assim, todos os anos tendo a voltar a um pequeno grupo de histórias, coisas obscuras e excêntricas. Mini-séries ou séries canceladas à margem dos intermináveis eventos que organizam agora as histórias de super-heróis: salva-se os universos, a realidade, a parada é sempre alta como aquelas músicas que parece que estão sempre a subir mas não vão a lado nenhum. Contra isso prefiro os super-heróis que salvam o universo mas de um modo mais intimista, mais alternativo. As coisas continuam a ser épicas e cruciais mas há poesia e absurdo. Exemplos. Seven Soldiers, escrito por Grant Morrison e desenhado por muita gente. Uma ameaça cósmica ameaça a realidade e só um grupo de super-heróis que nem sequer sabe que é um grupo de super-heróis lhe pode pôr cobro. Assim temos sete histórias auto-contidas que só se relacionam tangencialmente. O leitor no final fica na posse da história toda. Os personagens nem por isso. Marvel Boy, também de Morrison. Um soldado adolescente de um império anarco-fascista é o único sobrevivente de um naufrágio interdimensional na Terra. Caçado por um milionário coleccionador de absurdos e por agências governamentais, decide tomar a iniciativa e conquistar o planeta sozinho. Outro exemplo, o que ando a reler este ano: Defenders (2012), de Matt Fraction e (salvo erro) Terry Dodson. Embora Morrison seja o mestre do género, Fraction não fica atrás. Com Defenders aproxima-se ao que seria ler uma história de super-heróis escrita por Rimbaud – ou pelo menos António Maria Lisboa. Criam-se constantemente imagens e ideias a partir de justaposições inesperadas de linguagem. A cada quadradinho um universo, um superpoder ou uma sensação inédita.

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Páginas Inquietas

Este texto é a folha de sala da exposição Páginas Inquietas, patente no Espaço Mira, Campanhã. Tal como a exposição, foi concebido por Susana Gaudêncio e Mário Moura. Para já, disponibilizamo-lo online sem grandes imagens para que não concorra com a exposição, para que quem não foi tenha um estímulo para ir, e quem foi possa consultar facilmente o comentário do que viu. Com o tempo acrescentaremos mais imagens.

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Doze anos

Faz hoje doze anos que comecei a escrever aqui no blog. Lembro-me que foi num dia da semana, que ainda não tinha internet. Lembro-me que escrevia os textos em casa num iMac vermelho, transparente, os gravava num cd e publicava na escola. Era um processo lento. Mas a decisão foi rápida, demorou um instante. Foi como abandonar uma dieta. Ou cair de um prédio. Demorou um instante mas tudo mudou. Na altura, não pensei assim tanto no assunto. Foi excitante. Será que alguém ia ler? Não, na verdade assumi (com demasiado optimismo, é verdade) que alguém me estava a ler. Claro. Ia colocando cada texto com a certeza que estava a ser lido, mesmo sem ter os comentários ligados, mesmo sem acesso a estatísticas de uso. Não fazia ideia de quem me lia, mas alguém me estava a ler. Como podia ser de outro modo?

Não tinha sequer ideia do tipo de pessoa para quem estava a escrever. Designers? Estudantes de design? Pessoas? Se tinha na cabeça a imagem de alguém, era como uma coisa difusa, uma sobreposição de rostos e lugares genéricos, uma cara que se vê num sonho ou pelo canto do olho. Ou nem sequer isso. Uma abstracção. Via um público, apenas isso, a palavra “público”, que é como um x, como a incógnita numa equação. Um símbolo perfeitamente definido que esconde uma pergunta, uma expectativa.

Na altura, eu diria (convicto) que fazia crítica, agora digo que escrevia em público – o que não faz diferença nenhuma excepto sublinhar que nem sempre fazia recensões. Não tentava avaliar objectos ou eventos. Não escrevia com um objectivo definido, mas ia encontrando esse objectivo à medida que ia escrevendo.

O meu assunto favorito eram os hábitos dos designers, o modo como falavam, vestiam, liam, faziam, os locais que frequentavam, etc. Percebi que o design e os designers eram também abstracções, abreviaturas para coisas que se assumiam como certas mas eram de todos os feitios e tamanhos. Discutiam entre si. Tinham convicções absolutas do que eram e de como eram que não batiam certo. Falavam através de chavões – resolviam problemas, eram inovadores, queriam uma Ordem (como os arquitectos), não gostavam da Comic Sans, etc. Também os designers tinham as bordas esbatidas. Também eram uma incógnita, símbolos perfeitamente definidos que escondem uma pergunta, uma expectativa (doze anos depois, ainda são).

Entretanto comecei a falar mais sobre arte, cultura, política, não porque o design se estivesse esgotado, mas porque as coisas estão ligadas. Não escrevo para circunscrever o design, para determinar o que é ou não design e quem o pode fazer. Talvez o faça para perceber qual a importância pública do design. Qual a diferença que o design faz para quem o faz e quem não o faz. Daí que não limite, nem possa limitar o que escrevo ao design. Se não o vejo como uma coisa definida à partida, não posso definir à partida os limites do que escrevo. Não vejo a cultura, a arte, a política, o design, o cinema, como coisas separadas.

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Sempre o mesmo dia

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Tenho andado pouco por aqui. Para os textos curtos, uso o facebook, para os longos, o medium, o que deixa pouco espaço para o blogue. Mesmo assim, há tradições que importa manter, a do post do Dia da Marmota, por exemplo.

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Slideshow Chris Marker

Alguns leitores sugeriram que o artigo do Chris Marker ficaria melhor com imagens. Estou a guardar uma versão mais “integrada” para um livro impresso mas posso deixar aqui o slideshow da conferência respectiva.

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Chris Marker, o autor em fuga

Aqui fica mais outro ensaio de longo formato, desta vez sobre os guias Petite Planète. Serviu de base a uma conferência dada no âmbito do evento Travelogue Summer School, na Fbaup.

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2015

Como toda a gente, nesta altura do ano ando bastante entretido (e arreliado) a ler listas. A minha reacção foi escrever isto. É um texto mais longo que o costume (daí não o publicar aqui mas no Medium, que me dizem ser mais adequado ao long form). Não o leiam atrás de uma lista de compras ou de tendências. Espero que gostem.

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Balanço

Tenho andado fora do blog por uma série de razões. No fim do Verão, tive que escrever um relatório de grandes dimensões para a escola sobre as minhas actividades nos últimos quatro anos. Escrevi mais de mil e seiscentos textos só aqui, sem contar com o que foi impresso em outros sítios ou postado no facebook. Em geral, publico aqui textos curtos, entre as 400 e as 1000 palavras. Uma ou duas folhas A4.

Ultimamente, tenho preferido ler coisas mais compridas. Com o ritmo que ganhei a escrever o tal relatório (no mínimo, quinhentas palavras logo de manhã ao acordar), aproveitei para tentar ensaios de folêgo. O primeiro, que contava publicar aqui, é sobre os guias Petit Planète de Chris Marker. Demorou-me uns quinze dias a terminar. Não o postei porque entretanto tive uma oferta para o publicar em outro lado.

Entretanto ando a escrever outro sobre o que gostei em 2015. Não é uma lista, nem aconselho sequer que se use para ir às compras. Contava terminá-lo antes do fim do ano, mas  já percebi que não vai acontecer. Vou escrevendo reflexões mais ou menos espontâneas, pequenas ou grandes no facebook. Reservo para aqui as coisas mais estruturadas.

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Problemas Críticos

Parabéns aos dois vencedores do Prémio de Crítica e Ensaística de Arte e Artquitectura, Pedro Bandeira e David Santos. Li tanto um como outro com muito gosto e interesse. Não conhecendo os outros concorrentes, acho que o prémio é totalmente merecido.

Quando foi anunciado o concurso, apostei que se iria confirmar a tendência geral da crítica e da escrita sobre arte em Portugal se ter tornado num subproduto da curadoria. Estes livros confirmam-no plenamente. O do Pedro Bandeira é um livro que acompanha uma exposição que comissariou. O do David Santos reflecte e acompanha a sua prática de curador no Museu do Neo-Realismo.

É uma tendência geral que ultrapassa as fronteiras portuguesas mas, ainda assim, em outros lugares a crítica jornalística ou estruturalmente polémica é mais regular, enquanto aqui desapareceu quase completamente tanto no tamanho como no alcance como na própria existência.

Não consigo deixar de ver aqui um indício do mesmo efeito maior que acontece também na política onde os comentadores, que na verdade poderiam ser o equivalente a um crítico (historicamente há muitas continuidades entre o comentário político e a crítica), são também os protagonistas.

O problema tanto num caso como no outro é de acessibilidade ou de democracia- Por exemplo, a crítica académica ou curatorial exigem grandes dispositivos institucionais para a sua produção. No último caso, o pré-requisito é uma exposição, com tudo o que isso implica. Nos velhos tempos, o apelo da crítica panfletária é que um zé ninguém podia responder à exposição real com um pasquinzito impresso por tuta e meia.

Acresce ainda que a crítica e a simples escrita sobre arte vive internacionalmente um momento bastante estimulante, com novos formatos (ficcionais, gráficos, etc).

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Consumo

Ontem, fui ver o Lipovetsky ao Futuro do Futuro. Às quatro da tarde, já não havia bilhetes para a sala principal, acabámos a vê-la através de um ecrã no pequeno auditório. Começou com bastante atraso. Passámos o tempo a ver as pessoas a entrar para sala principal através do vídeo. Celebridades como o Presidente da Câmara, Rui Moreira, antigos alunos ou colegas. Olha!! Lá vai o não-sei-quantos! A dada altura, um infeliz levantou-se e deixou acocorado o seu lugar, o rego perfeitamente visível para risota da nossa plateia. Quando a conferência finalmente começou, o enquadramento da câmara propositadamente amplo para abarcar o cartaz do evento atrás do palco fazia de Lipovetsky meia dúzia de pixeis a gesticular em francês.

Falou longamente da felicidade e, no geral, não se podia discordar. Excepto quando criticou o consumo, chamando-lhe hiper-consumo. Dizia que era preciso assegurar felicidade para além disso. Antes desta crise, talvez concordasse com ele, mas neste momento, em Portugal e calculo que entre outros sítios, o discurso dominante – o do Governo, por exemplo – é totalmente anti-consumo. Só é bem visto gastar dinheiro em alguma coisa se for um investimento, se isso puder ser justificado como parte de um empreendedorismo qualquer. As pessoas activas empreendem, o que sobra consome. A conversa de encontrar felicidade e sentido na vida para além do consumo é uma conversa que já foi apropriada pelo paleio neo-liberal há muito tempo – essa felicidade é sinónimo de uma empreitada qualquer. Neste momento, o discurso do poder, da austeridade, é anti-consumo: vivemos acima dos meios, etc.

O consumidor já só é visto como um subproduto desagradável da produção de bens e serviços – se possível era totalmente eliminado. Daí que esteja cada vez mais confinado dentro de uma série de contratos legais, fidelizações, que o prendem aquilo que deve consumir – água, luz, telefone, TvCabo. Se o consumidor já foi visto como um agente, a tomar decisões livremente, agora é uma forma de gado que é preciso ir trazendo de volta ao curral.

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Isto não vai passar com duas tretas

Estamos em crise há pouco mais de meia década. Para quem, como eu, já passou os quarenta, é doloroso mas ainda assim parece pouco, uma etapa, uma interrupção que pode ser resolvida. Para um aluno que entra numa faculdade com dezoito anos, é quase metade da vida. Para um que sai agora de um dos novos cursos de Bolonha com dois, três ou mais raramente quatro anos ou mais, a crise engoliu boa parte da experiência formativa. Não conhece mais nada para além da crise, excepto como história, como tradição oral, etc. Mesmo que não aceite esta nova realidade, para ele será como lutar por uma coisa que não pertence ao seu tempo, será uma utopia e não uma tentativa de se recuperar uma época que foi desmantelada.

Ou seja, eu ainda vejo esta crise como algo temporário mas a verdade é que os seus efeitos irreversíveis aconteceram mais rapidamente e mais insidiosamente do que se pensa. Mesmo que o Governo mude e a Austeridade acabe, o ensino é construído por cima de uma base de empreendedorismo, inovação, organiza-se em estágios internos e externos. Uma instituição qualquer só capta dinheiro se (pelo menos) conseguir fazer de conta que leva isto a sério. E a falta de dinheiro também a encoraja a pôr alunos a trabalhar como estagiários para suprir as deficiências orçamentais. Por mais que discorde, acaba por ter que pôr em prática nem que seja parte deste processo.

Daí que a pouca resistência se tenha tornado quotidiana, constante e cansativa. Já me habituei a ver gente a pôr em prática medidas com as quais não concorda por princípio, com um pequeno discurso sublinhando a sua discordância. É como dizer “bom dia” ou “boa tarde”. Uma formalidade, um “antigamente é que era bom”. A sensação geral é de fatalismo. Pouca gente acredita que seja fácil ou mesmo possível melhorar, excepto nesta resistência individual e mínima. E a verdade é que muitos já nem vêem isto como um problema. Para eles, a crise foi resolvida com muitos sacríficios e isto agora já não é a crise mas o novo quotidiano, a nova sociedade. Ainda se tende a ver esta aceitação como uma forma de conformismo ou de apatia, sobretudo quando se fala das gerações mais novas, mas penso que é um erro de classificação – é conservadorismo e não apatia. Ou seja, é uma atitude consciente e vocal.

Um exemplo: tem sido um prazer ler nos últimos dois anos os catálogos das exposições de finalistas de design de comunicação na Fbaul. O deste ano é um objecto denso, organizado à volta de uma reflexão política sobre juventude, um tema escolhido pelos professores e que organiza o trabalho de todas as disciplinas. As propostas são criteriosamente descritas bem como cada projecto seleccionado. Para além disso, há ensaios de reflexão sumarentos e há zonas onde se encenam diálogos. Numa delas entrevistam-se líderes de associações juvenis, juventudes partidárias, etc. Em outra, e é aí que queria chegar, os alunos discutem as propostas que fizeram com os professores. É patente uma perplexidade ou resistência até, para com o tema – porque é político, porque não se parece com as expectativas que o aluno tinha do que é o design, porque não prepara para o mercado de trabalho.

As objecções são enunciadas de um modo articulado e são valorizadas pelos organizadores  da iniciativa como uma contribuição para a discussão, onde se espera que haja várias vozes e pontos de vista, etc. A verdade é que me deprimiu porque me confirmou mais uma vez um conservadorismo activo que não é uma apatia: é vocal e reivindicativo. Reclama aquilo que espera da sociedade em geral e do ensino superior.

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Cock and Bull, Shaggy Dog

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Ainda ando obcecado pelas 1001 Noites de Miguel Gomes. Tenho-me lembrado bastante de outras estruturas narrativas parecidas desde o Tristram Shandy, de Sterne, até ao Manuscrito  Encontrado em Saragoça, de Potocki. Histórias dentro de histórias dentro de histórias, que não se contentam com um género, que saltam entre as palavras e as imagens. Em Sterne encontra-se uma discussão divertida deste género de histórias, que não terminam e que enrolam o leitor: cock and bull stories, ou shaggy dog stories. Ora nas 1001 Noites há a história de galo, uma história com bois e vacas, e uma história à volta de um cão peludo.

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Qual é o drama?

Cap 66

Desde o começo desta “crise” pós-eleitoral já apanhei dois artigos históricos a descrever as razões pelas quais o PCP se tinha afastado do “arco de governação”, um de Paulo Pedroso e outro no Observador, que descobri através de uma referência num post de Pedro Lains. Através deles percebe-se qual é o começo da coisa. E até se percebe porque se foi mantendo. Mas tirando isso não são muito pertinentes. Foram coisas que se passaram lá para 1980 e poucos.

Eu na mesma altura comecei a comprar revistas de super-heróis Marvel. A primeira que apanhei foi uma do Capitão América onde se especulava o que teria acontecido se o herói não tivesse sido descongelado a meio da década de 1960 pelos vingadores. Na sua ausência, a América tinha-se tornado num pesadelo totalitário onde a maioria dos heróis se tinham tornado guerrilheiros. Uau. Muito intenso. É claro que eu nem fazia ideia quando comprei a revista que o Capitão América tinha sido congelado no fim da Segunda Grande Guerra. Ansiei por ler a história trágica onde isso tinha acontecido. Aliás, o maior apelo daquelas revistinhas coloridas era o que vinha de trás, o que tinha acontecido a todos aqueles super-heróis antes de os descobrirmos. No fim de cada revista vinha um dicionário destacável que nos dava uma biografia sumária e tantalizante, ilustrada pela cabeça de um herói ou vilão: o Barão Zemo, o Adaptóide, a Viúva Negra!

Anos depois li a primeira história onde aparecia o congelamento do Capitão América e era uma banhada ingénua e mal escrita. Na verdade, o congelamento tinha sido uma coisa para inventada à pressão para justificar o facto do personagem ter sido arquivado por vendas baixas desde o final da Segunda Grande Guerra. Também se apagavam assim as vergonhosas aventuras onde o tinham posto a perseguir Comunistas e negros durante os anos de McCarthy – mais tarde inventaram que este era um outro Capitão América que tinha enlouquecido. Os dois tiveram uma luta memorável.

Tudo isto para dizer o óbvio: os grandes mitos têm origens prosaicas, que muitas vezes já só têm um interesse histórico. A origem da saída do PCP do “arco de governação” diz pouquíssimo a muita da esquerda contemporânea.  O apagamento em curso desse período não teve só efeitos negativos (que é como quem diz, não serviu só os interesses do Governo) também foi desfazendo algumas grilhetas auto-impostas.

Não comecei a votar à esquerda pelo folclore mas por questões muito pragmáticas que tinham que ver com questões laborais relacionadas com o design. Se me dizem que reivindicar um pagamento justo ou votar contra a austeridade vai inevitavelmente trazer os Gulags, eu até me rio. Talvez já tenha havido uma época em que três mulherzinhas a protestar à frente de uma fábrica de texteis fechada podia ser interpretado sem grande contraditório como um primeiro passo para uma invasão soviética, mas hoje em dia é preciso explicar as coisas um bocadinho melhor.

O mesmo se pode dizer da possibilidade do PCP entrar no “arco de governação”. Qual é o drama? O Pedro Lains lembra outros países Europeus onde isso aconteceu com muito pouco drama, a França e a Itália. Já foi há algum tempo e estão bem melhor do que nós. Não se transformaram em Sovietes.

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Colectivos

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Ainda estou abananado com as 1001 noites. Fui ver o último dos três filmes a pensar em trabalho, a precisar de me concentrar para não me distrair. Agora, um dia depois, estou a escrever outra vez sobre o filme, porque não consigo pensar em trabalho depois de o ver.

Um pormenor que aprecio é que este é um filme sem heróis óbvios, que salvam o dia sozinhos. Todos os galãs, os que se relacionam com as mulheres através do sexo e mais nada, são rapidamente e na cara classificados como burros. A narração lembra-nos constantemente que o solitário Simão “Sem Tripas” é um facínora. Xerazade, a coisa mais próxima de uma heroína, conta as suas histórias mas quem as escreve é um colectivo de mulheres. E até dizer que este é um filme de Miguel Gomes é um tique, tendo em conta que, se virem a ficha técnica, tudo parte de um Comité Central.

tinha defendido que uma das chaves para o cinema se ter oposto tão bem à crise reside na sua natureza colectiva mas maleável. É precisa muita gente para fazer um filme mas o modo como se organizam não precisa de ser hierárquico. Agora, pensamos tudo em termos de realizadores ou quando muito de argumentistas ou até de actores, mas é possível imaginar modos muito distintos de fazer filmes.

Chris Marker nos anos 1960 fazia parte de uma equipa que filmava uma greve numa fabrica. No final, quando mostraram o filme aos operários, eles agradeceram o esforço mas apontaram que o filme não os representava bem. Tinham deixado de fora coisas que consideravam importantes. Assim, Marker e os colegas deram-lhes condições para filmarem os seus próprios documentários.

Na altura, andavam entusiasmados com o trabalho de Medvedkine, um cineasta soviético que percorria a Rússia nos anos 1920 num comboio estúdio, fazendo e usando filmes como instrumento pedagógico e documental da revolução. Essa mobilidade lembrou-me o esquema usada nas 1001 Noites, de uma grupo de jornalistas que investigava historias que pudessem ser filmadas de um momento para o outro pelo resto da equipa, depois de tratadas pelos argumentistas.

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Crítica Independente

De vez em quando alguém me pergunta se não preferia escrever para outro sítio que não para aqui, querendo dizer um jornal ou uma revista. Já o fiz pontualmente. Gostei. Mas gosto de escrever à solta, sobre o que me preocupa, irrita ou entusiasma. Ter um blog permite-me ser um crítico independente – o que deveria ser um pleonasmo.

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Um Filme de Sons Que Se Lê

As-1001-Noites-2015-de-Miguel-Gomes

Saí agora do último 1001 Noites, “O Encantado”. Só me dei conta quase no fim que tinha lido um filme quase todo. De legenda em legenda, desde as amarelas que contavam histórias, às brancas que traduziam o que um actor estrangeiro dizia, é um filme cheio de sons que se lê. No meio dos sons e das palavras percebe-se de quando em quando portugueses que falam. Calculo que um francês ou um inglês vissem um outro filme. E um alemão (penso que não havia ninguém a falar essa língua) teria que ler a totalidade do filme, ou talvez dobrassem, o que neste caso (como noutros) seria um pouco absurdo.

E chega-se ao fim, e tal como nos outros dois filmes, há um indice, também ele uma legenda. É um filme-livro. Lembrou-me um pouco o Moby Dick, porque também aparecia (não neste) uma baleia, mas pela quantidade de dispositivos narrativos: desde cenas teatrais até verbetes de enciclopédia. Havia um capítulo onde as diferentes baleias eram classificadas como se fossem livros, as baleias in folio (as maiores), in quarto, in octavo, etc. – um livro onde tudo se parecia com uma baleia e tudo se parecia com um livro.

É um filme que merece bem o seu nome: “O Encantado”.

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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

História Universal do: Estágio

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