The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Amnésia do Designer

Há uma inocência necessária, essencial, no modo como os designers – mas também outros artistas – seguem uma moda. Apresentam um trabalho que segue uma tendência formal evidente (uma certa fonte, uma certa combinação de cores, um certo padrão, etc.) mas acrescentam que faz todo o sentido, a fonte adequa-se ao tema, as cores à história do cliente, o padrão assemelha-se a azulejos ou a um tapete tradicional, etc. Contudo, tudo se assemelha a outros trabalhos produzidos nesse mesmo momento. Faz parte da capacidade do designer fazer parte de uma moda, de um movimento, como se fosse algo essencial, inescapável. E como tal esquecer que antes desse movimento houve outros e haverá mais a seguir. É uma espécie de amnésia criativa.
 
Quando se fala de valores universais há um mal entendido comum. Acredita-se que o designer deverá trabalhar para que toda a gente entenda o seu trabalho. A amnésia do designer ilustra outro tipo de universalidade mais comum mas, pela sua própria natureza, mais discreta. A capacidade de embarcar numa moda transitória como se fosse eterna, como se fosse a solução para tudo, empresta a essa moda um desejo de universalidade. É o que (por incrível que pareça) Kant descreve na sua ética e na sua estética: só se deve fazer ou gostar de qualquer coisa se conseguirmos desejar que, nas mesmas circunstâncias, qualquer outra pessoa fizesse ou gostasse do mesmo modo. Não é uma garantia que qualquer outra pessoa realmente o fizesse mas é uma garantia da nossa boa fé. Que estamos a fazer ou a gostar da melhor maneira que nos é possível. Esquecendo o carácter transitório da moda, o melhor designer aspira a cada momento à universalidade.

Filed under: Crítica

Aniversário

Hoje são treze anos de blogue. Tenho escrito com mais regularidade no facebook do que aqui. Não sei se é uma tendência apenas minha. Plataformas como as redes sociais prestam-se mais ao apontamento rápido. Pode-se facilmente pôr uma reflexão rápida, um esboço de pensamento. Permitem também a escolha do público, amiga-se e desamiga-se, bloqueia-se , o que não é apenas um detalhe mas também um modo crucial de expressão. O maior defeito é o acesso ao passado. Pode-se fazer buscas mas são penosas. Não há grande catalogação. Neste momento, o blogue é para mim um formato sério, quase clássico, por comparação com o facebook ou o twitter, ao qual nunca me habituei.

Do lado do design, o meio mudou quase por completo nestes treze anos. Conferências, exposições e textos sobre design tornaram-se comuns, quase quotidianos. O modo como o design é exercido e pensado mudou também quase por completo, embora como é característico nesta área a mudança radical é, depois de alguma polémica, vista como uma clarificação. Há muitos exemplos disponíveis, mas o melhor talvez seja  a maneira como se passou de uma situação em que um designer não podia produzir conteúdos ou criar os seus próprios produtos, sem ser visto como um artista, a outra em que se valoriza o designer como empreendedor e não há estúdio que não tenha o seu projecto próprio, para o qual já nem sequer é necessário fazer de conta que existe um cliente. Agora, parece tudo bastante natural, excepto quando se fala com algum designer da velha guarda, que tem escrúpulos terríveis sobre usar o processo do design em proveito próprio e não para um cliente, por mais fantasmagórico que seja.

O próprio design também mudou. Já deixou de ser aquela coisa que durante décadas estava sempre a um passo de se implantar para passar a ser um património ameaçado ou esquecido que é preciso defender – da utopia ao museu de um momento para o outro. Continua a velha tentação de pensá-lo como uma coisa que (caso lhe dessem ouvidos) mudaria o mundo inteiro, sempre para melhor. Se isto, aquilo ou aqueloutro percebessem o  imenso poder do design, o design faria com que isto, aquilo ou aqueloutro tivessem muito mais visibilidade, qualidade, etc. O design sempre foi o comunicador que se, comunicasse eficazmente as usas intenções, conseguiria pôr tudo a comunicar muitíssimo melhor. Mas há sempre qualquer coisa que não deixa.

Filed under: Crítica

Definições Breves de Design

Nunca houve apenas uma definição do que é o design mas várias, nem sequer a correrem em paralelo mas com vida própria. Desde o começo. A ideia mais geral e duradoura foi talvez a do design como uma disciplina organizada em torno do projecto – no sentido em que alguns arquitectos ainda usam o termo –, um modo de pensar usando métodos de manipulação de formas sensíveis, mas (e aí está a inovação) incluindo também formas sociais (aquilo que se resume como função).

O design enquanto disciplina surge quando se tem a ideia de aplicar esta cultura de projecto a todo o tipo de áreas até aí distintas: a projectar uma casa, um livro, uma peça de vestuário, uma exposição. Pensar tudo isto em torno de um mesmo princípio parece agora natural mas exigiu algum esforço e alguma luta.

Hoje o design perde esse princípio geral em função de um conjunto de especializações que se olham desconfiadas. Há outras ideias de o usar como um princípio geral, como o design thinking, que emprega o design como uma ferramenta de gestão de recursos humanos. Onde antes se projectava para a sociedade, agora projecta-se as relações em empresas.

Filed under: Crítica

Tigre Tigre

Nos intervalos de ler gente aqui no facebook a argumentar se o fascismo e o comunismo são simétricos (não acho que sejam), leio a biografia de William Morris, de Fiona MacCarthy. Nos tempos de estudante em Oxford, o seu grupo de amigos descobria (às escondidas que já na altura era mal visto) o Socialismo, que era bastante próximo do que hoje chamamos Comunismo. Ainda mais às escondidas, sentiam o chamamento de algo tão escandaloso quanto isso, o Catolicismo. A nós, parece-nos uma contradição, mas lembrem-se do livro de Weber, A Ética de Trabalho Protestante e o Espírito do Capitalismo. Basta o título. Para Morris e os seus amigos o apelo do Catolicismo era o de ser algo que vinha de antes da Revolução Industrial e do próprio Capitalismo. Deste modo, comunismo e catolicismo. A contradição, a existir, é nossa, no nosso tempo. No deles fazia todo o sentido. Andar a ver simetrias e rimas na história é bonito mas às vezes engana.

Filed under: Crítica

Outros Olhos e a Vida às Camadas

17359400_1384261924979200_7736028017423108516_o
Desde anteontem que tenho apanhado gente a discutir este anúncio. Ou simplesmente a postar uma foto como se fosse óbvio o interesse positivo ou negativo da imagem. Seria um anúncio completamente banal excepto pelo facto de colocar um homem numa posição onde normalmente é colocada uma mulher. Discutiu-se a objectificação, brincou-se que também podia ser dirigido a homossexuais, o que só mostra como é embaraçoso discutir o corpo masculino como objecto de desejo. Sobretudo entre heterossexuais. Não há vocabulário. Pelo contrário, entre as mulheres boa parte da sua identidade é construída em função disso, o que significa que se vêem a si mesmas em função do modo como os homens as olham. Nada que a teoria feminista já não se tenha fartado de analisar. Mas sempre que aparece um destes objectos o embaraço é o mesmo – desde os metro-sexuais até ao “alto” da estátua de Ronaldo.
Outro detalhe que passa desapercebido a muitos dos meus amigos do facebook, é este mupi só ser uma parte da campanha. Faz pandã com o anúncio de televisão que conta o resto da história (na verdade, a história toda), onde a mulher prefere a margarina ao “pão”. Mais uma vez nada de novo, excepto a auto-ironia fácil. Já não é a primeira vez que fico de cara à banda a olhar para anúncios que não se percebem quando não se vê televisão. E pelos vistos não sou o único. Ontem li em qualquer lado que já há crianças criadas a ver o netflix que não sabem o que é um anúncio publicitário. Não será o fim da publicidade ou sequer do spot publicitário, mas talvez apenas o da campanha concertada com objectos que se reforçam uns aos outros.

O problema menos evidente e mais grave que anúncios como este levantam é político e social. Quando só se tem acesso a uma parte da mensagem, criam-se desníveis e mesmo fracturas de interpretação. O caso mais óbvio é o do clickbait. Quando um jornal faz uma manchete bombástica que empola ou falsifica o conteúdo da notícia, a maioria dos não-assinantes só vê o lado falso e bombástico. Uma notícia verdadeira com uma mau título não é diferente de uma falsa para quem só lhe vê o título. Daí que que o clickbait sistemático seja uma prática perigosa que não é suficientemente avaliada.

(imagem roubada à Gui Castro Felga)

Filed under: Crítica

Bloqueio

Acho extraordinário que haja gente que é bloqueada no facebook e acha que o assunto se resolve com uma conversa ao vivo. Isto do facebook não é a minha vida privada, é a minha vida pública. Ainda vou discutindo aí dentro dos limites da civilidade com gente com pontos de vista que me enjoam. Mas não faço isso em privado, como devem compreender.

Durante muito tempo sentia-me na obrigação de aturar discussões intermináveis, circulares e ofensivas. Cedia à chantagem de que abandonar ou encerrar uma discussão seria uma falta de respeito ou um atentado à liberdade de expressão. O que me obrigava a discutir com gente que acredita que repetir vinte vezes a mesma coisa ou declarar que não está convencido ou que venceu a discussão obriga de algum modo o interlocutor a mudar de ideias. Ou gente que vem para o meu mural dar bitaites sobre o que eu devia escrever ou não. Respeito a opinião alheia até ao momento em que percebo que não é recíproco.

Filed under: Crítica

O Espectador Calado

Outro dia alguém (um crítico) se queixava aqui no facebook de quem dizia que só se era crítico (de arte, cinema, literatura, design, arquitectura, etc.) por que não se podia fazer, porque se era um fazedor frustrado (de arte, cinema, literatura, design, arquitectura, etc.) É uma boca comum, que já ouvi umas tantas vezes, e para a qual já tenho algumas respostas de algibeira. Lewis Mumford, por exemplo, quando o acusavam de não ter legitimidade para falar sobre arquitectura (porque não era arquitecto) respondia que também não era uma galinha e sabia perfeitamente o que era uma boa omelete. Um dia alguém me respondeu a isso dizendo que, no caso da omelete, se tratava de degustar (uma coisa das sensações) e não verdadeiro pensamento, que os críticos de arte (era este o caso) não sabiam do que falavam. Por esta diferença entre sentir sem pensar e fazer pensando se vê o desprezo pelo crítico (que ainda tenta pensar) que é apenas uma subdivisão menor do desprezo pelo espectador (que nem isso). Penso que nunca se desprezou tanto o espectador: educa-se o espectador, põe-se o espectador a estudar, põe-se o espectador a trabalhar, planeiam-se actividades, visitas guiadas, leva-se o espectador pela mão, etc.

Ora, para mim o crítico é apenas um espectador que escreve (ou fala em público) sobre o que vê, lê ou ouve. Não é um criador frustrado mas um espectador frustrado, não no sentido de assistir ao que não quer mas no sentido de não chegar a ser o espectador idealizado, alguém que se limita a assistir. Ninguém é. Haverá pouquíssima gente que não comente o que viu. Em parte, é-se espectador para fazer parte de uma comunidade, para poder falar com outros sobre o que se vê em comum. O crítico é apenas um especialista nisso. E não precisa de mais. Poder responder a meios, a dinheiro, a poder, a talento, apenas com palavras é um direito mínimo, porque as palavras são baratas, são democráticas.

Não se emancipa o espectador pondo-o a fazer outras coisas que não sejam ser espectador (o espectador pode até ser um criador frustrado, não se sabe, mas é um espectador, com toda a certeza). Emancipa-se o espectador reconhecendo-lhe essa condição, e reconhecendo-lhe o carácter político, comunitário. É isso que Rancière sugere no seu texto O Espectador Emancipado, onde critica as ideias de Debord ou Brecht, para quem o espectáculo e o espectador são problemas a resolver. Significativamente, já li interpretações onde se defende que Rancière é Debordiano ou Brechtiano. Só significa que neste momento não se consegue conceber o espectador como uma acção em si mesma. É sempre preciso algo que o active a partir de fora. É sempre um problema a resolver.

Mas o espectador, no fundo, é algo a controlar. Percebe-se isso nas recentes polémicas sobre o humor. Assume-se que criticar um humorista por usar a palavra “mariconço” é equivalente a um acto de censura, quando o humorista continua a ter toda a liberdade de o usar depois da crítica ser feita. Não está a ser silenciado. Está a ser interpelado. E pode responder. Com humor ou recorrendo à justiça. Da mesma maneira que pode ser processado por difamar alguém ou de estar a espalhar o ódio, tem também todo o direito de processar quem o tenha acusado de tal. Os direitos são iguais. Mas, apesar de tudo, assume-se que a liberdade de expressão é predicada pelo silêncio crítico do espectador, que só pode fazer o que se espera dele: rir-se agora ou (como nos casamentos) calar-se para sempre.

A desconfiança da passividade do espectador não é nova. Mas nos últimos anos, começou-se a achá-la subversiva. Falo da doutrina do empreendorismo onde se faz equivaler o próprio sujeito a alguém que toma a iniciativa, que faz, que cria. Quem se limita a assistir é um problema a ser resolvido. Só se assiste como preparação para uma acção posterior. Assiste-se enquanto se espera pela vez de mostrar. Desde as épocas de Debord ou Brecht a acção tornou-se parasitária, alienante, principalmente depois do espectador e da crítica terem desaparecido. Vivemos numa Sociedade do Espectáculo onde não são autorizados espectadores.

Filed under: Crítica

Apagar fogos faz-se com prevenção e planeamento, mesmo a nível metafórico

Um dos trabalhos que os meus alunos do quarto e último ano fazem é paginar um livro. Tem apenas três contos do escritor argentino Jorge Luís Borges, escolhidos pela sua qualidade literária e pelas dificuldades que impõem ao designer. Incluem notas de rodapé, diagramas, listas, citações, referências bibliográficas, epígrafes, etc. Este ano, na entrega desse trabalho, pedi aos alunos que descrevessem a maior dificuldade que tiveram ao concretizá-lo. Uma aluna respondeu que, sempre que mudava qualquer coisa, tudo o resto precisava de mudar, originando novas mudanças que por sua vez afectavam o todo.

Era isso o que se costumava chamar “design” nos velhos tempos. Este era um exercício, mais do que aquilo que se chama brief, trabalhos “realistas” com cliente, contexto, etc., mas tentava aproximar-se a essa ideia de ter um projecto total que se ia afinando até que as suas partes – formas, materiais, necessidades, etc. – se equilibrassem. Tentava ser a resolução de problemas, no sentido de um puzzle sistémico. Já não se faz muito.

No design, continua-se a falar de “resolver problemas”, é difícil mudar de chavões, mas agora isso quer dizer sobretudo “apagar fogos”. Resolvem-se as coisas não com um sentido de sistema, mas uma coisa de cada vez, à medida que surgem os imprevistos. Aliás, tem-se glamorizado cada vez mais o desenrascanço dentro do design, e são duas coisas que pouco têm que ver uma com a outra. Design é projectar, desenrascar não. É uma desistência, um vazio do design.

A confusão entre desenrascanço e design, com o primeiro a entranhar-se de tal maneira que já nem se vê o segundo, é uma consequência por um lado da informatização e por outro da institucionalização quase total de certos modos de “resolver” um trabalho – certos formatos. Neste momento, o design gráfico limita-se cada vez mais a resolver o problema de como dar um ar empresarial ou empreendedor a todo o tipo de coisas. Desde pessoas a causas sociais, tudo se resolve do mesmo modo. Por outro lado ainda, vem da precariedade da prática e do ensino do design, que fazem dele o exercício de um expediente que não termina, e que isola a maioria dos praticantes da possibilidade de participar sequer em decisões de outro modo que não seja ir passando o balde.

Daí que os encontros de design se pareçam cada vez mais com shows evangélicos, onde a sucessão mais banal de produtos, de soluções, de dicas de auto-ajuda, é debitada de auricular na orelha, humor desidratado e ambições de mudar o mundo, com soluções que tirando um pormenor olvidável qualquer se parecem com tudo o que foi apresentado antes e vai ser apresentado depois. O design tornou-se numa formalidade.

O ensino tem culpa porque tem insistido cada vez mais no “realismo”, na ideia de que a escola deve simular o mais possível o mercado de trabalho, que o aluno não fica bem preparado se, enquanto aprender, não estiver a ser confrontado com imprevistos, com mau equipamento, prazos irrealistas, exigências arbitrárias, etc. Por um lado, trata-se da pressão neoliberal para fazer da escola uma empresa, por outro trata-se de simplesmente ir lidando com todos os entraves a que o ensino vai sendo sujeito. Com cada vez mais alunos, menos professores, menos dinheiro e mais ambição nos objectivos, só por milagre é que o ensino não se ia tornar num longo exercício de desenrascanço organizado por especialidade e área científica.

O problema do “realismo” é platónico – ao fazer do ensino uma reprodução do “mundo real”, falsifica-o nesse preciso momento. Se o realismo é o objectivo, a cópia será vista sempre como algo de segunda. Pelo contrário, o ensino da Bauhaus não era particularmente realista, o que não significa que sacrificasse pragmatismo. Os alunos trabalhavam em oficinas não para aprender como se trabalhava numa fábrica mas para tentarem descobrir maneiras novas de usar materiais e maquinaria. Era um ensino abstracto na medida em tentava pensar em soluções sistémicas, abstractas, por oposição a simplesmente reproduzir o que se fazia lá fora no “mundo real”.

Filed under: Crítica

bildungsroman

Nasci pouco mais de dois anos antes do 25 de Abril, as minhas primeiras memórias incluem cartazes e tinta nas paredes de Lisboa, foices e martelos, suásticas a que eu chamava aranhas. Os meus pais eram ecologistas profissionais, trabalhavam no Serviço Nacional de Parques Reservas e Património Paisagístico, cujo logotipo era uma folha de carvalho. Para além disso, não falavam quase nada de política. A família da minha mãe era de professores primários, pobres e nómadas. A família do lado do meu pai era conservadora, de direita. Numa mesa de entrada em casa da minha tia avó, havia a reprodução do retrato pintado de um homem de óculos, sentado numa cadeira à frente de uma cortina vermelha. Sempre que passava por ele, eu fazia um ziguezague com a cabeça para verificar que sim, os olhos nos seguiam. Fui começando a assumir, já na adolescência, que se tratava de Salazar. Até aí era uma coisa que não tinha nome; não se falava de política, e sobretudo daquele tipo de política, à frente das crianças. Muitos anos depois fiz uma banda desenhada, já das minhas últimas, já no final da década de noventa, onde aparecia um Salazar de óculos a balançar numa cadeira. Era um erro, que a abstracção do meu desenho disfarçava: aquele retrato sem nome na sala de entrada era de Marcelo Caetano. Do mesmo modo, só percebi a diferença entre as foices e martelos quando já andava na primária, graças a um filme do Jerry Lewis onde ele fazia (entre muitos outros) o papel atarantado do capitão de um barco atingido por um torpedo que se tinha cravado sem explodir na casa das máquinas. Enquanto desativava o aparelho, Jerry encontrou lá dentro uma bandeira nazi dobrada que lhe indicou quem era o atacante. E que eu descrevi entusiasmado ao meu pai como sendo “os Russos”. Disse-me pacientemente que não, que eram os “alemães” e mais concretamente os Nazis. Com o tempo e à medida que me fui graduando para entretenimento mais adulto fui percebendo a diferença, que era sobretudo uma de actualidade: os nazis eram uma coisa do passado e os russos faziam parte daquele medo atómico constante a que se chamava Guerra Fria. Passei rapidamente de uma consciência geral de que podia morrer (foi num documentário sobre múmias egípcias) para uma consciência geral de que toda a gente do mundo podia morrer de um momento para o outro. Sabia-se isso pela televisão, por filmes como The Day After (que os meus pais não me deixaram ver), por contos pós-apocalípticos de ficção científica, por cogumelos atómicos um pouco por todo o lado. Era, em retrospectiva, uma consciência baça onde se ia aceitando e percebendo lentamente coisas que não nos eram ditas ou mostradas. Pela diferença entre os meus livros de escola e os dos meus pais que eu encontrava em caixotes, onde apareciam nomes e regiões que já não faziam parte de Portugal. Pelas histórias da infância do meu pai em Lourenço Marques, contada através de palavras e objectos que não tinham referente no meu quotidiano. As cubatas. As mamoas. As papaias. O marfim. Era abstracto e fascinante. Com a adolescência fui-me interessando mais pela história e pela política. Lembro-me do Adeus Português, de João Botelho, com as suas duas histórias entrelaçadas do presente a cores e do passado africano a preto e branco. Tentava usar essa história embaciada que ia apanhando mais do que aprendendo como argumento de banda desenhada, usava o que ia lendo nos livros de história que nos davam na escola e que pela sua brevidade, não tinham outro remédio senão ser vagos. Usava o que apanhava nos jornais que comecei a ler no final da década de oitenta (os meus pais não os compravam; limitavam-se à televisão e à assinatura da revista Time). Só bastante mais tarde, já depois do curso de design, é que comecei a pensar em política como uma coisa activa. A minha aprendizagem coincidiu com os meus primeiros empregos, a descoberta dos estágios, dos recibos verdes, e sobretudo com a escrita. Mas mesmo nessa altura, ainda tinha mais conhecimento da política internacional que a do meu próprio país. Comecei a ler sistematicamente a história da primeira república e do Estado Novo neste Verão. O catalisador foi a série A Pide Antes da Pide. Fiquei encadeado pelas vagas de pormenores, de brutalidades, de nomes colectivos que se esfumaram há muito, a Legião Vermelha, a Formiga Branca, A Revolta dos Fifis, etc. Já não leio através das chamadas Histórias Concisas, mas histórias especializadas, focando-se por vezes num só detalhe ou pessoa. Coisas que se resumem através de um chavão numa conversa de café, mas ganham um detalhe tão extremo que as puxa para outra direcção, como um ser a duas dimensões a habitar o seu mundinho plano e que é de repente puxado para a terceira. Há um limite para o que se pode aprender de ouvido. Não nasci de esquerda ou de direita – ninguém nasce. Talvez fosse melhor dizer que não nasci numa família declaradamente de esquerda ou de direita. Fui criado numa posição e num lugar onde a consciência política não era de todo evidente. E penso muitas vezes que podia nem me ter interessado pelo assunto. Podia ter-me tornado num apolítico abstencionista, que acha os políticos todos iguais e que o sistema é o problema, podia ser de esquerda ou de direita, ou uma mistura dos dois sem o saber sequer, como habitualmente é o caso. Podia-me ter deixado fascinar pela história mas num outro sentido, por tudo o que foi silenciado, por tudo o que foi calado, e ver isso como uma espécie de tragédia. Sítios onde a minha família ia, e que já não existem. Coisas que se dizia e já não se pode dizer. Coisas com o seu exotismo, a sua poesia, a sua estranheza surreal mas que já não se devem dizer em voz alta excepto como documento, como testemunho. Em casa dos meus tios-avós chamava-se “cabeça de preto” à vassoura alta e com as cerdas em esfera com que se limpava os tectos. O papagaio verde de bico adunco era o “Jacó” – que só muito tempo depois percebi queria dizer “Jacob”. Podia lamentar que o problema de não poder aceder a esse passado era culpa de uma espécie de censura, de uma ditadura dos costumes que me impedia de ter um acesso pleno ao meu passado. E tremo com isso, porque estaria a milímetros de votar num Trump qualquer, porque apreciaria a franqueza da linguagem, mesmo que não a brutalidade do seu conteúdo. Por tudo isto, acho que o passado, por pior que seja,  não deve ser censurado. Não acho que objectos como o Tintin em África, ou o Birth of a Nation, ou o Triunfo da Vontade, ou os livros do António Ferro, devam ser reservados ao investigador especializado, devem ser mostrados, discutidos e comentados criticamente o mais cedo possível. É um risco, mas penso que necessário. Caso contrário, o racismo, xenofobia, homofobia, e até a própria política reduzir-se-ão a termos abstractos, sem referente, por pessoas que não são confrontados directa e quotidianamente com isso. A eleição de Trump e o Brexit demonstraram que construir uma cúpula de silêncio à volta da discriminação não é o mesmo que preveni-la. Quando muito só dá uma sensação de opressão a uma grande fatia da população que irá atrás de quem simplesmente prometa acabar com ela. Alguém que não tenha medo de dizer em voz alta o que todos pensam. O passado, por pior que seja, não deve ser censurado, deve ser conhecido e revelado. O risco é, como se viu com estas últimas eleições americanas, que o regresso do racismo, da xenofobia, do machismo, seja visto como o levantamento de uma cortina, uma libertação, como um alívio.

Filed under: Crítica

O Design e o Pós-Trump

Nos dias seguintes à eleição de Donald trump, fui apanhando aqui e ali os inevitáveis apelos a que os designers se mobilizassem. Acontece sempre que há uma desgraça. Aconteceu com a invasão do Iraque. Aconteceu com o furacão Katrina. Aconteceu com a crise financeira. Aconteceu com Passos. Já acontecia antes da internet, dos blogs, do facebook ou do twitter mas agora é uma rotina. Há muitas desgraças. Esta eleição, outra delas

O primeiro sinal que me chegou foi um artigo na Wired. Começava por sublinhar como o design tinha contribuído para um momento crucial da história dos direitos cívicos americanos: em 1960 quatro jovens negros sentaram-se durante horas ao balcão de restaurante reservado a brancos, aguentando insultos, ameaças, chamando assim a atenção para a maneira como a população negra era tratada nesse tipo de estabelecimento. Nenhum deles era designer, nem aquilo tinha o que quer que fosse que ver com questões visuais, mas (insistia o artigo) aquele finca pé era “um dos grandes marcos do design do século XX”.

E prosseguia:O design ponderado, seja ele um logotipo, um objeto ou um protesto bem organizado, sempre teve a capacidade de provocar mudanças políticas. E, no entanto, nos dias que se seguiram à eleição, sentiu-se que o poder do design – pelo menos momentaneamente – diminuiu. O design gráfico não afectou o resultado. A infografia também não. Os algoritmos e o experience design não combateram a câmara de eco da Internet; fortaleceram-na.”

A primeira coisa que me ocorreu foi: “Hã?!” De tal modo eram absurdos o exemplo e o argumento que dele se derivava. Como é possível considerar o protesto daqueles quatro activistas como design gráfico? Ou (já agora) como qualquer tipo de design?

Mesmo considerando que “design” enquanto verbo da língua inglesa também significa projectar ou planear, reclamar este protesto para dentro da área disciplinar do design é problemático ao extremo. É o que se designa por apropriação cultural, quando membros de uma cultura dominante se agarram despreocupadamente a objectos, figuras e marcos de culturas minoritárias, oprimidas, etc. Se foi um marco para o design a manifestação de quatro activistas negros num restaurante, em que afectou isso a presença da comunidade negra dentro do próprio design, ou a presença de design produzido pela comunidade negra nas revistas e na história do design. Em que medida isso revelou alguma coisa sobre o modo como o design se relaciona com essa comunidade. Nos livros de história dominantes do design gráfico, aqueles pelos quais se ensina nas escolas, o design tende a situar-se na Europa e na América do Norte, em países e contextos onde o racismo e a xenofobia estiveram e estão presentes. Como se pode imaginar o design como alheio a isso?

E a apropriação de uma acção que pouco ou nada partilha com o que habitualmente se vê como design soa mal, quando se vê facilmente que o design é uma disciplina muito pouco inclusiva por natureza. Afinal, um dos passatempos favoritos dos designers é declarar que tal ou tal coisa, ou tal ou tal pessoa, às vezes bem presentes na história do design, nas escolas, citados por toda a gente, não deviam fazer parte do design. Não é design, sentencia-se. Ou: tal pessoa não é um designer. Já ouvi defender que não fazia sentido considerar um poster como sendo design. Já ouvi dizer isso da ilustração. Já ouvi dizer isso do Sagmeister.

O design, tal como qualquer outra área disciplinar, é um campo de discussão. E os limites do campo naturalmente discutem-se. Mesmo a própria história está aberta a debate. É comum, por exemplo, debater se as vanguardas fazem parte do design ou se são “só arte”. É costume reclamar-se para o design figuras históricas importantes só porque passaram de raspão por uma tipografia ou por um curso de design – Alan Rickman, o Snape do Harry Potter, estudou design, etc.

Se calhar até é possível que o protesto dos quatro jovens activistas seja mesmo um dos marcos mais importantes do design do século XX. Apesar de não envolver designers, apesar de não ter nada que ver com representação visual do que quer que seja, apesar de não ter acontecido em qualquer tipo de instituição ou organização ligada ao design, apesar de não ter sido empregue qualquer tipo de metodologia identificável como sendo design. Se calhar é possível fazer uma espécie de ready made político e afirmar “Je Suis Design” – embora seja mais rigoroso neste caso dizer que “Ceci est du Design”. Design seria tudo o que um designer quisesse. O design é uma coisa poderosa.

Excepto, claro, quando se trata de lidar com os resultados da eleição de Trump. Nesse caso, se já se sentiu “que o poder do design – pelo menos momentaneamente – diminuiu. O design gráfico não afectou o resultado. A infografia também não. Os algoritmos e o experience design não combateram a câmara de eco da Internet; fortaleceram-na.”

Curioso como o design é tudo, está em todo o lado, mas saiu diminuído por esta eleição. O que retirou esta eleição do domínio do design? Foi porque Trump ganhou? Está-se a sugerir que o design alinhava com os democratas, ou pelo menos que não está do lado da demagogia populista? Ou está-se a sugerir que o design em si mesmo está do lado da apresentação da informação de um modo claro, neutro e verdadeiro? E que, sendo Trump um mercador de treta, está portanto num campo oposto do design?

O texto continua, dizendo que os “designers honestos nunca ofereceram o seu trabalho como uma panaceia mas, como tantas outras pessoas, ponderam que papel podem ter daqui para a frente.” A verdade é que sim, os designers já ofereceram e oferecem o seu trabalho como um remédio mágico, uma panaceia, para tudo e mais alguma coisa. E, quanto à honestidade, lembro-me de há uns anos Michael Bierut ter escrito um texto a defender que a treta é uma qualidade inerente ao bom design – garantia a dado passo que “qualquer apresentação de um projecto de design é inevitavelmente, pelo menos em parte um exercício de bullshit.” Para Bierut, em cada projecto de design há decisões funcionais e decisões intuitivas. Se as primeiras são “concretas e mensuráveis”, as segundas, as intuitivas, derivam do gosto, são difíceis de justificar:

“Assim, para dentro deste vácuo jorra a treta: teorias sobre as qualidades simbólicas das cores ou fontes; afirmações não demonstráveis sobre a inevitabilidade de certas formas; casamentos forçados mirabolantes de elementos de design a pragmáticos objectivos de negócios.”

E Bierut não vê mal nenhum nisso. Aliás, diz que desde cedo percebeu que tinha um talento para a treta. E conclui com uma história querida sobre o seu antigo patrão Massimo Vignelli a barrar heroicamente de treta um cliente difícil. E não, não é um caso isolado. Fartei-me de ir a conferências ver designers mostrarem os seus trabalhos pela quantidade estúpida de treta que também era mostrada. A figura estereotípica do vendedor de automóveis usados poderia ser facilmente substituída por um designer. Portanto, não, não me venham dizer que o design se situa claramente contra gente como Trump do lado da clareza, da verdade e da transparência. Não é assim tão simples.

Nos depoimentos que se seguem ao longo do texto da Wired fica a ideia que o papel é sobretudo o de representar o optimismo. Num artigo de opinião, citado no texto, Michael Bierut e Jessica helfand apelam ao design como modo de lidar com a desilusão – com o eleitorado, com as falsas esperanças alimentadas pela imprensa. Contra isto tudo, defendem que o papel dos designers é transmitirem confiança, porque o design é uma actividade “inerentemente optimista”. Os designers “podem não estar na posição para controlar a mudança, mas são os seus mais fervorosos embaixadores”.

E garantem: enquanto a “nação ficou dividida”, os designers “continuam unidos enquanto uma comunidade: uma comunidade de “like-minded peers”. “Like minded” em relação a quê? Ao papel do design? Ao que o design é? Supondo que se calhar até há designers a trabalhar para o campo de Trump, eles não acharão que o resultado desta eleição é um triunfo do design? É bem provável que esses designers até concordem que o papel do design é trazer optimismo na mudança – numa América mais dividida por género e por raça, mais abusiva com mulheres, mais agressiva com judeus, mais dura com imigrantes.

Enfim, banalidades, platitudes e boas intenções.

Filed under: Crítica

Papelada

maxresdefault

É cada vez mais comum ouvir arquitectos a carpir a burocratização da arquitectura – a vida de um arquitecto tornou-se numa longa resma de formulários, licenciamentos, dossiês de aprovação, um longo etc. Sentem-no (e quem não sentiria isso) como um afastamento do que consideram ser a arquitectura “a sério” – que seria fazer casas, projectar, edificar.

A culpa é, até certo ponto, deles. A sua ambição como classe cumpriu-se: só um arquitecto pode exercer legalmente a arquitectura. Infelizmente, a Arquitectura, assim com A grande, tal como eles a definem, ultrapassa-os. Diz  respeito a toda a gente: inclui não apenas tudo o que está a ser projectado e edificado mas tudo o que já foi construído, tudo o que se sonhou construir, tudo o que se construiu apenas como figura de estilo ou especulação diagramática, e por aí adiante. É uma imensa responsabilidade. Desta, a parte mais chata é a responsabilidade legal. Tudo o que é construído deve passar por um arquitecto. Tudo o antigamente se fazia “artesanalmente” – casas, palheiros, armazéns, mudar uma parede de sitio, o que quer que seja – precisa de ser assinado por um arquitecto. Portanto é natural que a vida da maioria dos arquitectos se tenha tornado na de um notário. Têm toda a razão ao dizer que a Arquitectura é uma coisa inerente à condição humana, um direito. O problema é que se instítuiram como os únicos guardiães legais e científicos dele. Daí toda a papelada.

O caso é semelhante aos artistas plásticos ou aos designers, quando também se instituem como únicos produtores legítimos de coisas que dizem respeito a toda a gente. Muitos designers tentam também inscrever isso na lei. Tal como alguns artistas menos avisados também tentam de vez em quando criar uma Ordem dos Artistas. Felizmente nunca deu certo.

Seria o equivalente a legislar uma questão de gosto. Há quem acredite que a arquitectura, o design e até a arte estão acima do gosto. Que, quando são bem feitos, são coisas universais e incontestáveis, contudo não é difícil perceber que, por melhor que seja um artista, um designer ou um arquitecto, haverá sempre muita gente com a opinião perfeitamente legítima que não é assim tão bom.

Mas, voltando aos arquitectos: têm uma imensa melancolia pela arquitectura que – sentem – deviam estar a fazer. A última trienal de arquitectura de Lisboa, por exemplo, num dos seus textos introdutórios refere esse sufoco burocrático e tenta encenar um regresso ao que considera serem os verdadeiros actos e espaços da arquitectura: a obra, o edifício, o gabinete, regressa-se até ao tijolo, ao cimento, às vigas de aço dos arranha-céus. É um fetichismo por algo que já não existe, sobretudo aqui por Portugal onde boa parte dos arquitectos se dedicam à requalificação, um eufemismo para reorganizar o interior de fachadas de acordo com as tendências do mercado imobiliário.

É natural também que a arquitectura portuguesa se dedique a deificar o Arquitecto com A grande, os Sizas e os Souto Mouras, que se tornaram em argumentos vivos de autoridade, que se conseguem elevar da interminável discussão onde a maioria dos arquitectos sentem estar atolados. É uma fantasia, claro. O sonho de alcançar a incontestabilidade de um Pritzker é o sonho de ter uma arquitectura que já não responde a nada que não a ela mesma – onde uma barragem deixa de ser uma catástrofe ecológica e social para encontrar um destino superior em ser projectada por Souto Moura.

O tema desta Trienal é A Forma da Forma, o que deixa uma primeira impressão de Formalismo, uma doutrina que, na arte ou na literatura, coloca a sua ênfase no modo como as formas evoluem, se organizam, como habitam cada época ou contexto, obedecendo apenas às suas próprias regras. Implica quase sempre uma defesa da arte pela arte, de uma expressão resumida ao que se considera ser o mínimo essencial de uma dada disciplina, e portanto um certo fechamento, um afastamento da política, do social. Curiosamente em Inglês diz-se The Form of Form. E, olhando para a sua identidade gráfica, com aqueles grandes Ós quadrados tornados em superfícies onde se pode inscrever o que se quiser (um pouco como num impresso), percebe-se que Form também quer dizer Formulário. A papelada acaba sempre por voltar. É talvez um regresso do reprimido.

Filed under: Crítica

Facebook

Quando vim para o facebook faz uns cinco anos percebi que, por comparação com os blogs, isto era bastante mais fechado. Entrava-se por convite e eram comuns os grupos fechados dentro de um grupo já de si fechado. A isso juntavam-se os algoritmos que escolhiam as notícias que podiam agradar. Agora, com a eleição do Trump, há uma rejeição extrema disto tudo. Denuncia-se  as pessoas que vivem dentro da sua bolha do facebook. Que, se não fosse por isso, saberiam que Trump podia ganhar e mobilizar-se-iam.

É uma suposição optimista. As pessoas sabiam que Trump podia ganhar mas apesar de tudo não se mobilizaram. Ou até se mobilizaram no sentido de o deixar ganhar. Por despeito. Ou para agitar as águas. O problema não é o twitter, o facebook ou a internet mas a fragmentação do voto à esquerda. Para muitos dos que escolheram Bernie, Hillary era pior que Trump. Até Obama era colocado no mesmo saco. Se quiserem, o problema foi mais que, para quase toda a gente nesta eleição, todas as opções eram igualmente más, o que se traduziu num voto populista contra o sistema. Enquanto à direita havia um candidato para votar, à esquerda isso traduziu-se em abstenção. O populismo é o mesmo; o efeito de superfície é distinto.

Não se vota em Trump por falta de informação credível. Vota-se nele apesar da informação credível e contra a informação credível. Daí que o apelo a que Zuckerberg censure as falsas notícias no facebook seja essencialmente um apelo encapotado a que se corte o acesso das bases da direita ao facebook. Não vai dar certo e, se der, vai colocar muito directamente o problema da neutralidade da internet. Será uma censura que muito facilmente se voltará contra a própria esquerda. Ainda agora é comum considerar-se como fantasias qualquer alternativa ao discurso económico neoliberal – e isto até em notícias, não apenas nas colunas de opinião. Porque se deve censurar o criacionismo e não outras crenças religiosas?

Não é o facebook que isola as pessoas, elas fazem-no muito bem sozinhas – trocadilho. Fazem-no artesanalmente. A tendência para se organizarem em grupos, com crenças próprias, vestuário seu, hábitos únicos, um discurso incompreensível para quem já não o conheça, é o que as pessoas fazem por natureza. A ideia que o facebook é o culpado por isso é mais outro exemplo de uma fé inflacionada nas virtudes da tecnologia.

E é também – talvez –  mais outro exemplo da desconfiança extrema que se tem pela ideia de colectivo. Ou pelo menos pela ideia de colectivo que não seja constituído por gente que se assume acima de tudo e contra tudo como um indivíduo. Fala-se de redes sociais mas estas são construídas para ampliar a ideia do indivíduo contra a de colectivo. A ideia de um facebook neutro é a sua redução a um conjunto de indivíduos.

Filed under: Crítica

Só por causa das coisas

Só pedia uma coisa simples: não me venham acusar de censura ou de superioridade moral ou de não respeitar os pontos de vista alheios (ou outras tretas do género) quando não me apetece ficar preso numa discussão em loop no blog, no facebook ou em outro sítio qualquer. Podem falar o quanto quiserem, do que quiserem, até quando quiserem, mas não caiam na chantagenzinha de obrigar alguém a ficar a ouvir-vos. Não é censura, nem falta de respeito encerrar uma discussão sem haver um “lado vencedor”. Fazem-me impressão as discussões em que alguém não deixa o interlocutor ir embora. Já vi ao vivo várias vezes isso acontecer e é um sufoco.
Eu não discuto sob a premissa que estou a mudar os princípios ou sequer as opiniões do interlocutor. Assumo que quem discute comigo tem tantas convicções naquilo que acredita como eu creio nas minhas. Mudar de opinião ou de princípios não é impossível mas é raro. Discute-se para refinar e aprofundar os pontos de vista mútuos não para os aniquilar. Não assumam que por dizerem os vossos pontos de vista de um modo educado, estruturado e competente, isso levará o interlocutor a mudar de ideias, quando muito só levará a sério aquilo que estão a defender – o que não é, nem devia ser, o mesmo. Não assumo que as pessoas discordam de mim por ignorância e espero a mesma delicadeza. Há muitos, muitos anos, numa aula de estética o meu professor Álvaro Lapa disse que havia uma altura na vida em que se acredita que se pode mudar a opinião dos outros em discussões de café. Na altura não percebi mas ficou-me.
Assumo também que quem participa numa discussão tem as suas razões para falar. Não é isso que põe em causa o que defende. Não é por alguém ser de esquerda, de direita, não acreditar em partidos, ser homem, ser mulher, ser de Lisboa ou do Porto que dá legitimidade ou não a um argumento. Tento nunca assentar a validade de um ponto de vista nas intenções de quem o profere. Toda a gente tem um motivo para falar. Por isso, para mim quando se chega à parte da discussão em que se acusa o outro com base nas suas intenções, na psicologia ou na sua superioridade moral é sinal que a discussão já devia ter acabado. Quando se discutem as intenções já se anda nos territórios do insulto.

Filed under: Crítica

Demonizações

Há opiniões que descobri, no último ano, dão-me vómitos literais. Uma delas é a demonização em curso dos eleitores que votaram no Brexit. Em muitos casos, tem-se o cuidado e a decência de salvaguardar que não, nem todo o voto foi xenófobo ou racista, que houve gente que votou porque tinha dúvidas legítimas em relação ao projecto europeu. Em outros, apanhei gente a dizer que o voto no Brexit era por definição xenófobo, na melhor das hipóteses por cumplicidade.
Houve gente ligada a comunidades imigrantes de fora do espaço europeu que foi acusada de xenofobia porque votou na saída porque consideravam a europa como um espaço xenófobo.
Nem se trata, no meu caso, de ser a favor ou contra a europa mas de deixar, nem que seja em possibilidade, um espaço de discussão para a europa, onde as opiniões críticas não sejam demonizadas, atiradas à pazada para a vala comum dos racismos, das xenofobias, da ignorância. Interessa a muito boa gente que o Brexit seja uma desgraça social e económica, que a Inglaterra seja realmente um fosso de racismo, sobretudo para servir como comparação que a Europa é melhor.
Note-se que por mais instrumentalizado que tenha sido pela extrema-direita, o voto era sobre a Europa e demonizar em bloco quem votou por convicções que nada têm que ver com xenófobia só entrega de mão beijada esses resultados e a vitória na mão da extrema direita.
Para muita gente isto não passou de uma discussão inconsequente de facebook, um divertimento intelectual onde se acusou levianamente das piores coisas gente que votou pela saída da Inglaterra da Europa por todo o tipo de razões com as quais de pode discordas mas não são monstruosas (razões laborais, económicas, etc.). Ao fim de algum tempo percebi (ou melhor senti) que não tenho grande consideração por gente que tem tão pouca consideração pelas opiniões de tantos. Não me interessa discutir este assunto nestes termos. Não tenho abertura de espírito que consiga abarcar a redução a lixo do voto, da opinião e das convicções de tanta gente.

Filed under: Crítica

Viagens no Tempo

Hoje é o meu regresso tardio à escola. Dar aulas no contexto do design mudou bastante nos quinze anos desde que comecei. Em primeiro lugar porque o ensino mudou por pressão de Bolonha e por pressão da falta de dinheiro. Tornou-se bastante mais difícil ter tempo porque há mais aulas, mais alunos, mais relatórios, mais medo. Em segundo porque o próprio design mudou sem se dar conta. Adaptou-se ao ao contexto do empreendedorismo, das startups sem se dar conta que estava a mudar, com a falta de consciência histórica que o caracteriza (tende a ver a história como uma sucessão de personalidades, estilos e – quando muito – de técnicas).
 
Para demonstrar essa mudança basta ver as reacções extremas que ainda se tinha há pouco mais de dez anos quando apareciam designers que criavam os seus próprios projectos sem um cliente à partida. Quando muito tolerava-se a auto-promoção. Agora, mesmo quando se trata de um estúdio são raros os designers que não têm o seu projecto auto-iniciado. É até mais comum serem reconhecidos por esse trabalho.
Ter uma consciência histórica e crítica destas mudanças é difícil porque elas tendem a ser mudanças relativamente rápidas e totais de paradigma. Passa-se de um estado ao outro como naqueles filmes de viagens no tempo em que uma pequena mudança no passado altera o presente e só algumas pessoas se lembram como era dantes.
É a mesma coisa com o ambiente social que nos rodeia. Ontem ouvi uma música de hip hop americano onde se usavam os termos “AirBnB” e “hostel”, uma novidade para mim. Contudo, a palavra “hostel” já me parece datada. Usava-se de um modo insistente na segunda metade da década passada mas agora fez mais do que normalizar-se. É tão evitada como a palavra pensão.

Filed under: Crítica

O Novo Populismo em Portugal

Apareceu um artigo bastante míope no Público defendendo que o populismo em Portugal não tem representação política. Vai tendo. O problema é que se assume que o populismo tem determinadas características que não são essenciais mais acessórias, nomeadamente a xenofobia, a promessa de mundos e fundos ou a existência de políticos que se apresentam como estando fora e contra o sistema político, os partidos, etc. Há mais fobias para além da xenofobia, há modos de política populista que passam pela promessa de empobrecimento selectivo de partes da população, há modos de prometer uma política fora da política que não passam por movimentos de rua.

O PàF neste momento percebeu que não irá alcançar facilmente a maioria absoluta pelos meios tradicionais. Ser-lhe-á cada vez mais difícil coligar-se com o PS, que há anos anda a associar ao despesismo, à irresponsabilidade. Assim, desde que perdeu as eleições legislativas tem produzido e encorajado um discurso extremo anti-esquerda que pinta toda e qualquer medida do actual governo como se fosse uma invasão soviética.

A estratégia, que devia ser evidente, é captar algum do voto abstencionista/populista de direita, gente que não vota porque os partidos são todos iguais e os políticos são os ladrões mas que até pode ir pôr o papelito na urna para afastar a esquerda “estalinista” do poder.

Acresce a isto também uma cobardia evidente em assumir que voltando ao poder, voltará a austeridade. Portanto na impossibilidade de apresentar o seu próprio programa dedica-se a demonizar o do governo do modo mais irresponsável. A diabolização que refiro é literal – o próprio Passos Coelho avisa que vem aí o diabo. E não é um acto retórico isolado. É reforçado por outdoors a apresentar o governo e os seus aliados como se fossem sovietes. Não se trata de um fenómeno reduzido às redes sociais mas estratégico.

Lembro-me perfeitamente das manifestações de direita que houve quando o PàF perdeu, com bandeiras portuguesas e cachecóis da selecção e uma ou outra bandeira monárquica a exigir a Cavaco um governo de gestão. E lembro-me do anti-esquerdismo primário evidente nas entrevistas aos seus organizadores. Lembro-me do movimento amarelo dos colégios privados e dos slogans e imagens a ele associado.

Antes disto tudo, a austeridade assente num discurso de diabolização de parte da população e do sistema político – “os priviligiados que vivem à conta dos nossos impostos” – já tinha características populistas. Não assentava numa promessa de mundos e fundos mas prometia a economia como uma espécie de bypass do sistema político tido como corrupto. Neste discurso, a Europa não é vista como um problema (o que aconteceu no Brexit) mas um aliado exterior contra os supostos maus hábitos nacionais.

Ou seja, temos um populismo que não é marcadamente anti-imigração mas sobretudo classista; anti-esquerda e até anti-direita mas que acaba por embarcar no modelo do empreendedorismo que o acaba por encaixar na nova direita neo-liberal; que vê a Europa de Merkel como uma oportunidade. E que se naturalizou ao ponto de nem se dar conta da sua existência.

Filed under: Crítica

Subterrâneo

Sonhei certa vez que caminhava por uma estrada de terra cavada numa paisagem plana, pelo meio de um bosque de árvores pequenas e torcidas que não eram nem pinheiros nem sobreiros. Ao olhar para as lâminas de xisto esboroado do talude raso que ladeava a estrada, reparei que na verdade eram livros, atados em maços com cordel como aqueles restos de bibliotecas e arquivos que se encontram em aterros. Toda aquela paisagem, aquelas árvores, aquela vegetação rasteira, tinham sido plantados sobre livros, uma quantidade impossível de livros.

Lembrei-me desse sonho a pensar no que vou ouvindo nos encontros que tenho tido relacionados com a ephemera. O que já ouvi do próprio Pacheco Pereira, da Manuela, do Joao Lafuente, dos antigos resistentes do Luar, fazem-me pensar que a história das lutas de antes do 25 de Abril nos chegam de um modo tão seco, tão resumido, nos livros de História, mesmo os especializados. Ouvir estas pessoas, ver os seus objectos, recupera por momentos uma memória mais texturada, mais viva, que mesmo a melhor História não consegue descrever inteiramente.

Diz-se que é um período mitificado. Mas na verdade é ao contrário. O pouco mito que há desautoriza toda esta época. Silencia-a. É condescendente. Mas há uma grande história oral que brota sempre que estas pessoas se encontram, mas é muito difícil ter um acesso aos pormenores, à textura, àquilo a que mesmo os protagonistas não ligam muito. Coisas efémeras, que é um grande nome.

Depois destas ocasiões, cai-me em cima sempre como aquelas pessoas, aquele professor universitário que já assaltou bancos, aqueles historiadores que já tomaram parte de uma revolução, aquele senhor que comenta na televisão e que já atravessou fronteiras clandestinamente com livros às costas, como não é possível saber o passado, como ele é tão bem disfarçado debaixo do presente, como se os livros debaixo daquela paisagem inóspita tivessem por sua vez dentro deles um fogo permanente. É difícil voltar a olhar para um velhote no autocarro sem pensar que ele passou por essa mesma história extrema, que desempenhou um papel qualquer, por pequeno que fosse. Resistente? Retornado? Bufo? Pide? Funcionário? Nem interessa, apenas que logo abaixo do dia-a-dia, do suposto “Fim da História”, há esse braseiro.

Nota: Este texto foi publicado previamente no facebook.

Filed under: Crítica

Em Directo da Praça da Alimentação

Há um género narrativo que eu respeito muito — em parte por ser quase sempre mal compreendido. Assume-se que é apenas um truque. Ou que é apenas comédia, sátira. Mas sinto-o sempre como algo mais subtil e duro do que isso. É ou deveria ser talvez um género como o Western, o filme de Gangsters ou a Space Opera. Falo de histórias sobre pessoas que trabalham em parques temáticos, feiras medievais, disneylandias.

O meu exemplo favorito na literatura é Pastoralia, de George Saunders, com um protagonista que trabalha num diorama vivo a fazer de homem das cavernas. É cómico, brutal, mas nem tudo o que é cómico é necessariamente uma comédia. Há mais exemplos: Choke, de Chuck Palahniuk; a webseriesAsk a Slave, baseada na experiência de uma comediante negra a trabalhar como actriz em reconstituições históricas. O efeito mais simples e directo que se pode tirar da situação é o contraste entre a História (que é uma coisa épica) e um emprego habitualmente precário e humilhante.

Pensar-se-á que este é um género tipicamente americano. A América vê-se a si mesma como o país do parque temático, onde tudo é um pequeno museu, recriação, versão de outra coisa qualquer. Mas o género tende a aparecer um pouco por todo o lado. Um bom filme sobre gente a levar vidas duras em parques temáticos é O Mundo, de Jia Zhangke, passado num parque temático de Beijing que reproduz em escala pequena monumentos e paisagens do mundo inteiro. É uma narrativa melancólica sobre existências miseráveis, em cenários absurdos. Imaginem que o Neo Realismo italiano não tinha como cenário cidades destruídas pela guerra, fábricas e bairros operários mas parques temáticos onde a Torre Eiffel está apenas a uma curva do caminho de Nova Iorque. Já agora: morre toda a gente no fim, de modo triste e repentino.

Eu respeito o género porque põe em causa uma série de ideias feitas sobre o que é o realismo, sobre o que é autenticidade. E — claro — porque alguns sítios em Portugal se estão a transformar em parques temáticos, onde a distinção entre habitante, figurante e funcionário hoteleiro se esbate. Daí que sinta a falta de ficção que lide com isso. Não ao modo dos novos Pátios das Cantigas e Canções de Lisboa mas que consiga ver esta nova vida com um mínimo de rigor. Preciso de uma modalidade de realismo que consiga descrever o sítio onde vivo.

Há uma necessidade básica de histórias sobre o sítio onde se vive e como se vive. Por várias razões, em certos sítios isso é mais difícil. Durante o Estado Novo, por exemplo, aquilo que podia ser contado sobre o país era fortemente condicionado. Contar histórias alternativas era um acto de resistência. Mesmo agora boa parte da nossa ficção é importada, o que não é um problema (o mundo é sempre maior e mais rico que uma das suas partes) mas coloca sempre a interrogação de como falar sobre estar “aqui”. É sempre possível usar o que nos chega como metáfora, mas o que fazer quando se vive dentro de uma metáfora? Que tipo de realismo nos é possível quando se vive dentro de um parque temático?

David Foster Wallace escreveu em 1993 um ensaio sobre a relação entre ficção literária americana e televisão (“Et Unibus Pluram: Television and U.S.Fiction”) onde defendia que o Pós Modernismo literário (mistura de géneros, pastiches, histórias dentro de histórias, realismo mágico, etc.) era uma forma de realismo para quem passava a vida não só passava a vida a ver televisão como construía a sua identidade pela televisão. Não se podia pensar em ser realista, deixando de fora a televisão. Era eliminar o modo como as pessoas se viam a si próprias, como viam o mundo em geral, as piadas que repetiam, os estereótipos que, de modo mais ou menos irónico, encarnavam.

Wallace insistia que: “If we want to know what American normality is — what Americans want to regard as normal — we can trust television. For television’s whole raison is reflecting what people want to see. It’s a Mirror. Not the Stendhalian mirror reflecting the blue sky and mud puddle. More like the overlit bathroom mirror before which the teenager monitors his biceps and determines his better profile.” É uma descrição mais apropriada, literal até, do facebook ou do instagram que da televisão.

Em 1993, as pessoas construíam as suas imagens a partir do que viam na televisão, e a televisão produzia e distribuía essas imagens tentando adivinhar o que as pessoas queriam. Era um ciclo, um espelho apontado a milhares de espelhos. Era um processo assimétrico na sua escala que concentrava o poder de produzir imagens numas poucas pessoas, enquanto assumia a relativa passividade e impotência de quem as via.

Com a internet, qualquer um pode produzir as suas próprias imagens. Aliás, é esperado que as produza. Se há trinta anos só um grupo relativamente restrito de pessoas podia ter uma identidade pública que excedesse o alcance do grupo de pessoas que conhecia pessoalmente, neste momento espera-se que toda a gente o faça, num grau menor ou maior. Um adolescente avulso, mediano, com uma conta do facebook ou um canal no Youtube pode ter tanto ou mais público que um colunista de jornal inglês por volta de 1800. Ou um empregado de escritório. Ou um arquitecto. Ou quem quer que seja.

Trocou-se meios distantes, indirectos, por uma produção, reprodução e partilha de imagens permanente, que não é superficial mas identitária. Determina o que se é em público, o nosso género, a nossa cor política, etc. Já não é a resposta a imagens construídas centralmente e transmitidas em massa mas um processo muito mais distribuído e aguerrido, onde se pode responder às imagens que nos são atiradas dos centros de poder com outras. Dizer que é distribuído não significa que seja justo, igualitário, etc. As pressões, as censuras e os abusos são constantes. Ou seja, para representar de modo realista uma vida, não se pode deixar de fora os facebooks, os instagrams, os sms, etc. É o oposto do aforismo de Debord: Tudo o que era apenas uma imagem é agora directamente vivido.

Muita da crítica moderna das imagens — Debord, por exemplo — perdeu ainda mais a sua utilidade. Os narradores pós-modernos perceberam que o desejo de ir além das imagens, de encontrar uma verdade, uma autenticidade, que elas nos ocultam se estava a tornar irrelevante. A desconfiança moral, platónica,da ficção moderna em relação às imagens, a crença que mentem, que escondem a realidade, esquece que a realidade inclui as imagens. A rejeição liminar da imagem não permite uma crítica eficaz da imagem. Assume que o espectador é essencialmente estúpido apenas pelo facto de ser espectador. Isso nem sequer era verdade quando se concebia o espectador como um receptor passivo — as pessoas respondem àquilo que vêem. Sempre. Mas agora, essa resposta tornou-se visível e integral às vidas de cada um.

Se aceitarmos que contar histórias e produzir imagens é inevitável, o verdadeiro nunca foi mais do que um momento do falso, não é um desenvolvimento recente, como insistiam os situacionistas. Quando se vive dentro de um parque temático, uma ficção que não o reconheça, que nos mostre o mundo sem isso, vai ser sempre insincera.

Filed under: Crítica

Onde

Vila Real. As janelas da casa estão fechadas por causa do calor. A internet anda pastosa. No facebook, polémicas avulsas. O costume em Agosto. A propósito de uma exposição, alguém pergunta ao outro se a viu mesmo. Uma pergunta interessante. O livro de etiqueta aconselha a que não se discuta exposições que não se viu. O que reduz significativamente quem pode discutir arte em Portugal. Para quem vive em Vila Real, por exemplo, mais vale esperar que a arte passe confortavelmente à história e possa finalmente ser discutida. A actualidade cultural, tal como nos aparece pelos jornais, está fora do alcance.

Não é paradoxo nenhum. Arjun Appadurai defendia que enquanto nos centros a modernidade é percebida no tempo (novidade, futuro, etc.) na periferia é percebida como distância em relação ao centro. A cultura que é produzida no centro enquanto actualidade é consumida na periferia enquanto monumentalização da distância, do atraso, etc.

A coisa não se resolve produzindo na periferia, quando tudo o resto (distribuição, recepção, etc.) continua a ser feito no centro. Trazer um artista do centro para uma residência; filmar no interior. Nada disso funciona excepto como glorificação do centro. É isso que se sabe quando se cresceu em sítios como Vila Real.

É preciso não necessariamente uma cultura produzida na periferia mas uma cultura que possa ser consumida na periferia como se isso não fizesse diferença. Interessa a portabilidade: um livro, um filme que se vê pela internet, música. Coisas que não seja preciso ver ao vivo. Ou melhor cujo consumo ao vivo não é exclusivo. Que permitam a toda a gente participar delas como se fosse a primeira vez. Daí que a música de dança, por exemplo, seja uma coisa que se dá bem com as periferias.

Quanto à crítica, aquela que trata a qualidade presencial da cultura como essencial, essa não interessa mesmo nada. Walter Benjamin já o sabia , quando assinalou a Aura, a tal qualidade presencial da arte como uma coisa negativa. Ele acreditava que o cinema ou a fotografia podiam dissolver a aura, eliminando a necessidade, a autoridade, de ir ao local, ao centro. Mas não contava com a reinvenção do cinema como liturgia (é preciso vê-lo em sala, com um projector xpto, qualidade de som, etc.) e a fotografia como índice das experiências, como prova que se esteve lá (não há nada de mais reacionário que uma selfie).

Interessa mais a crítica que trata dos filmes, dos livros e dos sons tal como são consumidos em todo o lado. Por exemplo, de coisas que possam ser vistas no youtube, que possam ser tiradas da Amazon, que possam ser feitas em casa.

Voltando ao exemplo do começo, a crítica de arte quando se assume como a recensão de uma exposição é virtualmente inútil quando transportada para longe da exposição que a motiva. Não se lhe pode responder porque não se viu. Daí que um suplemento cultural lido em Vila Real ou até no Porto acabe por ser uma coisa a meio caminho entre a ficção, a coluna social e a imprensa local de um sítio onde não se vive. Não interessa realmente, excepto aos exilados temporários ou permanentes. Se é levada a sério, é por provincianismo.

Filed under: Crítica

No Terraço

Escrevo este texto num terracinho com vista para o Marão nos subúrbios de Vila Real. Uso o meu portátil, um mac. Está ligado à internet através de um router também portátil. Enquanto escrevo, vou dando olhadelas ao facebook. Corre uma polémica sobre estágios de arquitectos, que começou nos jornais. Também vou lendo o Público, que prefiro “folhear” em pdf. Ando a ler vários livros ao mesmo tempo. Quando estou em viagem, ganhei o hábito de ler usando a app do Kindle do telemóvel. É prático. Quando estou à espera, que a viagem chegue ao fim, que o autocarro chegue, ponho-me a ler. Nas últimas semanas, tenho lido a biografia de Murray Bookchin – da qual já falei aqui ontem.

Bookchin é conhecido sobretudo pelo seu trabalho pioneiro ligando a ecologia à luta política. Hoje é uma ligação óbvia, mas quando a propôs no final da Segunda Grande Guerra era uma novidade. Mesmo a palavra “Ecologia” era  quase desconhecida.

Quando Bookchin se decidiu por um modelo anarquista de sociedade, fê-lo com a convicção que era a única maneira de impedir uma catástrofe ecológica que iria pôr em causa a sobrevivência humana. Contudo, ao contrário do que é habitual não propunha uma rejeição da tecnologia. Não acreditava que um regresso a modelos arcaicos de produção sustentasse uma sociedade mais livre e justa. A ideia de austeridade levava necessariamente a uma escassez que inevitavelmente castigava os mais pobres, aumentando a desigualdade. Para Bookchin, a igualdade só podia ser sustentada pela abundância, no que chamava a sociedade “pós-escassez”.

Com a automatização, por exemplo, seria possível libertar as pessoas de trabalhos repetitivos, perigosos, mal pagos, desde que se reivindicasse uma distribuição mais justa de rendimentos. Com a miniaturização, seria possível sustentar comunidades mais pequenas. O uso de combustíveis fosseis ou da energia nuclear só se justificava para alimentar cidades cada vez maiores. Numa escala mais modesta, onde a produção fosse local ou distribuída por pequenos ajuntamentos, seria possível usar energias renováveis. Não seria preciso gastar tanto dinheiro a transportar matérias primas, a transmitir a energia à distância, a deslocar os trabalhadores das suas casas para os empregos, etc. O municipalismo libertário de Bookchin assentava nisso.

Ao ler isso, neste terracinho em Vila Real, apercebo-me que sim, que há realmente a possibilidade real de ter a existência descentralizada com que Bookchin sonhava. Em Vila Real há hospitais, há um tribunal, há segurança social e correios. Mas aqui mesmo ao lado há aldeias onde os autocarros só passam (se passam) duas vezes ao dia. A “província” ainda é o sítio de onde se foge. Ou onde se volta de vez em quando como turista. As relações entre campo e cidade – a própria divisão – é de classe. Ganha quem tem a mobilidade suficiente para circular livremente.

A esta clivagem ajuda a cultura que é sobretudo urbana. Numa altura em que se pode aceder a quase tudo valoriza-se o que só pode ser visto ao vivo. Mesmo formatos que se transmitem facilmente pela net como o cinema são relançados como experiências que só se podem viver nas melhores condições, num cinema, com o melhor som. A arte é a dos grandes objectos e das grandes exposições. Qual o sentido de ler em Vila Real uma crítica sobre a importância da exposição x ou y em Lisboa ou Porto? Mais vale ler sobre o que se passa em Nova Iorque ou Londres, é quase o mesmo. Tão distante que podia ser ficção.

Nem sequer acho que a coisa se resolva com itinerâncias ou residências, que mais não fazem do que publicitar uma cultura de centralidade por sítios que não lhe podem responder. Se calhar era melhor coisas que não se limitassem a fazer circular o centro pela periferia. Valorizar por exemplo a portabilidade, a distribuição, o pequeno formato. Fica a sensação que se fala de edições, mas porque não investir em coisas que se possam aceder através do youtube, do bandcamp, e não apenas em cinemas, festivais ou museus. Porque não?

Filed under: Crítica

Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

História Universal do: Estágio

O "Estágio"
O Negócio Perfeito
Maus Empregos
Trabalho a Sério
Design & Desilusão
"Fatalismo ou quê?"
Liberal, irreal, social
Conformismo
Juventude em Marcha
A Eterna Juventude
Indústrias Familiares
Papá, De Onde Vêm os Designers?
Geração Espontânea
O Parlamento das Cantigas
Soluções...

História Universal dos: Zombies

Zombies Capitalistas do Espaço Sideral
Vampiros, Zombies, Classe Média

Comentários

Comentários fora de tópico, violentos, incompreensíveis ou insultuosos serão sumariamente apagados.

Arquivos

Categorias