The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Toque de Midas

A propósito do texto anterior, houve quem dissesse que era uma análise política por oposição a uma análise do design. Eu não vejo diferença. Dizer que um logotipo feito para um serviço público está mais ou menos conseguido é irrelevante. O que interessa verdadeiramente é que está a ser feito um logotipo para um serviço público. É uma preocupação política mas o design também é uma actividade política – decide como se devem apresentar graficamente instituições, serviços e pessoas. Neste momento, o que está na moda é apresentar tudo isto com as mesmas ferramentas com que se identificam empresas. Não é um desenvolvimento inevitável. Já houve épocas em que o design representou outras coisas, de outras maneiras. Mas, neste momento, aquela parte do design que representa empresas confunde-se com a totalidade do design.

Se quiserem uma comparação, com a Arte passa-se o mesmo. É uma área que reclama uma universalidade mas na prática legitima preferencialmente objectos feitos por profissionais (artistas, curadores) mediadas por uma gama reduzidíssima de instituições (galerias, museus, revistas). Nietzche defendia na Genealogia da Moral, que a origem das qualidades morais começava por ser uma descrição das qualidades das elites – tal sujeito é um cavalheiro, etc. A estética tem uma genealogia semelhante. O design, idem. As qualidades do design gráfico, quando isolado de preocupações políticas óbvias, quando não é político, quando é apenas design, são as que representam o poder, neste caso um poder que recria o mundo à imagem de uma empresa.

O risco de ignorar esta política por defeito do design é incorrer num cinismo corporativo involuntário, acreditar que não há alternativa, que o design é aplicar logos a tudo o que mexe. Tal como dizia Benjamin, o papel político do designer não reside em fazer trabalhos de temática política para clientes políticos em situações políticas mas perceber qual o papel político que o design desempenha. Sem isso, corre-se o risco de vestir sem ironia nenhuma causas e iniciativas com as cores e os valores do adversário.

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Mau Sinal

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Apanhei este esquema na internet a demonstrar a progressão da identidade gráfica dos correios. Calculo que muito designer (se semicerrar os olhos a eventuais problemas de pormenor) verá uma evolução geral positiva, em direcção a uma imagem cada vez mais moderna e descontraída – que já vi descrita como menos “autoritária e institucional”. Ora, eu prefiro os “meus” correios autoritários e institucionais, que é como quem diz confiáveis e públicos. O esquema mostra perfeitamente bem a evolução de um serviço público usando emblemas e selos (até 1983) para um serviço público a fazer de conta que é uma empresa (de 1991 em diante). Depois de apresentar assim um serviço público durante uns anos, privatizá-lo é bastante simples. Antigamente tinhamos serviços públicos sisudos que nos serviam; agora temos serviços privados mais caros, menos confiáveis que se apresentam de cara alegre e moderna. Independentemente das suas características, o logo mais à direita poderia ser facilmente o de uma marca de sapatilhas.

Dirão os designers que produzir identidades é isto, do mesmo modo que a solução dpor defeito de um arquitecto será sempre construir e só muito raramente deixar as coisas como estão. A ética embutida nas decisões dos designers é tendencialmente empresarial – tudo em que tocam, pessoas, cães, livros ganha o aspecto de uma empresa, se for feito sem reflexão. Nos tempos que correm, estremeço sempre que vejo um logo a assinalar um serviço público. É literalmente mau sinal.

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Logo se vê

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Habitualmente uma empresa só muda de imagem quando faz merda. Merda escandalosa, catastrófica¹ ou merda simplesmente porque ficou parada no tempo, ² e (em qualquer dos casos) precisa de uma maneira pronto-a-vestir de mostrar que mudou, que já não é a mesma. Depois há aquelas ocasiões em que uma empresa não fez merda menhuma, aliás até está bastante bem, mas foi privatizada, portanto precisa de mostrar que mudou mas (não se assustem) porque tudo ficou na mesma. A sério. Gastou-se um dinheirão numa nova imagem (concepção e actualização) mas está tudo na mesma. É dinheiro bem gasto. A sério. É um grande investimento para sossegar os clientes e garantir que está tudo na mesma, mais coisa menos coisa.

Ou seja, a privatização é uma merda e este logo só serve para discretamente demonstrar que supostamente não fez diferença. Mas, se isto for como a PT, desconfio que um novo logo se adivinha e há-de ser muito diferente deste.

Dizia o Princípe de Lampedusa que, para que as coisas fiquem como estão é preciso que tudo mude. Sábias palavras às quais só faltaria talvez um logo.

1. Bes/Novo Banco.

2. Quase todas as novas identidades.

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Uma segunda opinião, se faz favor

Quando ouvi falar da demissão do David Santos e li as primeiras notícias, a minha reacção foi de princípio: uma colecção pública devia ficar num Museu Nacional. Com o desenrolar da polémica, lendo o que cada lado ia escrevendo, a minha posição tornou-se mais complexa – que é o que costuma acontecer nas boas discussões públicas e nas melhores polémicas; é raro mudar-se de opinião mas os nossos pontos de vista são postos à prova e obrigados a refinarem-se de encontro a ideias diferentes e/ou opostas.

Neste caso, se por um lado acredito que o que é público deve ser tutelado por organismos o mais públicos possível, e que portanto um museu nacional é preferível a uma fundação para ter uma colecção pública, também percebo que protocolos e contratos devem ser cumpridos. Se é razoável que o Museu do Chiado perca a paciência por uma Secretaria de Estado mudar de ideias no espaço de meses, deve-se esperar uma reacção idêntica quando um protocolo de trinta anos é cancelado antes do tempo.

Quanto ao resto: se a fundação fez queixinha ao Primeiro Ministro ou se o Museu Nacional assobiou para que artistas e curadores viessem fazer pressão, é colorido mas pouco relevante, excepto como demonstração que, nestas áreas, amigos e influência valem muito. Não é novidade nenhuma. Toda a gente sabe.

Que se diga que apareceu de repente bom jornalismo, quando habitualmente não se vê nada, também soa mal. O bom jornalismo é um estado, uma condição mais ou menos regular. Vai-se tendo. Quando aparece jornalismo mais agressivo e empenhado para desaparecer logo a seguir, a pergunta que se faz é, inevitavelmente, porquê agora? Porquê este caso em particular?

Digo-o mais uma vez: este é um problema muito literal de curadoria – usando a palavra no seu sentido clássico: a gestão de uma colecção. É um problema de gestores, de direcções, de patrões, de instituições de grandes dimensões. Não admira que movimente recursos, mas não se caia no erro de acreditar que é subversivo ou contra-corrente. Não resolve ou raspa sequer nos problemas quotidianos da cultura portuguesa. Até podia resolver, mas só os piora.

Defende-se que esta colecção fique num museu público mas entretanto descredibiliza-se a tutela pública desta colecção ao longo dos anos. A ideia é talvez dar a entender que ninguém percebe muito bem se dado objecto “é” de Serralves, ou do Iac ou do Chiado. O efeito é desacreditar o que é público. É isso que fica nas caixas de comentários destes artigos: o dinheiro desbaratado pelo Estado, primeiro a comprar arte, depois a administrá-la mal e finalmente a cedê-la a privados. Culpado por ter cão e culpado por não ter.

Esta foi uma colecção começada como estímulo económico ao comércio da arte, teria corrido melhor se tivesse sido também um estímulo à sua conservação ou à sua criação – um pouco mais de dinheiro público bem aplicado permitiria ter mais e melhores técnicos, e mais e melhores artistas. Mas agora tudo o que é estímulo público ainda ficou mais mal visto.

E fica uma ideia completamente territorial das instituições, pequenos feudos rezingões incapazes de colaboração entre si. Isto num país que uma furgoneta cheia de obras de arte pode percorrer de uma ponta à outra em meio-dia. Suponho que todas as vezes que estive sentado em conferências a ouvir gabar museus organizados em rede mais valia ter estado a ver filmes de ficção científica. Eu adorava que o património público fosse administrado por uma destas redes. Acredito que haja todo o tipo de contra-argumentos contra isso pelas pessoas sérias que conhecem bem o meio. Vendo o modo como esta polémica tem sido gerida, acho que preferia ouvir uma segunda opinião.

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Debaixo do cubo branco a praia?

Da polémica que envolve Museu do Chiado e Serralves, já se disse quase tudo. Um resumo rapido: o Secretário de Estado da Cultura prometeu o mesmo espólio a uma instituição e deu-o a outra, deu o dito por não dito. Ainda assim, ninguém o consegue acusar de incoerência – continua a exercer o seu cargo tão mal como quando começou.

Os argumentos que se esgrimem de cada lado são os mais variados, desde a coerência programática ao precedente histórico e legal, até à descentralização, ao Porto vs. Lisboa, para além das inevitáveis intrigas, contagem de espingardas, etc. É interessante, discutem-se opções de curadoria em público como se fosse futebol. Quem me dera que fosse sempre assim.

Mas, mais interessante ainda, há um pormenor que não foi muito comentado: a manifestação dos artistas e curadores a boicotarem a inauguração do Museu do Chiado. Interessa-me porque sou um nerd das manifestações. Coleccionava-as, se pudesse. E esta é das raras, artistas a manifestarem-se. Não aconteceu muito ou quase nada durante toda esta crise. Vi artistas em manifestações gerais, mas numa manifestação pela arte contemporânea? Isso, meus caros, é inédito.

Mais inédito ainda, se virmos que não é exactamente um assunto de matar ou morrer. O espólio do Sec não está em perigo. Não é como o Crivelli ou os Mirós. Não vai desaparecer. Nenhuma das duas instituições vai desaparecer. Aliás, o Mnac até foi ampliado. Pode-se argumentar que esta trapalhada foi a gota de água, que finalmente as pessoas perderam a paciência com as políticas culturais deste governo, mas como gota de água, é uma gota de água cheia de significado. Um millieu que não se mobilizou para praticamente nada agita-se agora em torno de um problema de curadoria, de uma guerra de curadores, directores, instituições. Ilustra bem as prioridades, marca com um grande X o local onde se concentra o poder do mundo da arte. Já há uns anos tinha dito que os artistas só se iam mobilizar quando os curadores se mexessem, e este caso só o demonstra.

Tem sido um debate intelectualmente estimulante mas nunca crucial. Era o tipo de discussão que devia ser rotineira. O que seria crucial? Alguém, a dada altura na discussão, disse que se certa instituição queria apoiar os artistas contemporâneos devia era comprar obras de artistas vivos. Uma rica ideia. Ora, na grande maioria das insituições portuguesas, o mais comum é pagar-se os custos de produção e o artista trabalhar de graça. É um meio muito precário, etc. E as instituições são subfinanciadas, é verdade, quase só conseguem pagar às suas equipas, etc. Mas quase ninguém paga aos artistas. É curioso que já se considere isso como um mal necessário e se passe directamente ao que (evidentemente) interessa.

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Leituras

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Ainda não estou de férias, antes pelo contrário. Aproveito para pôr as leituras em dia. Ando a ler e reler clássicos acumulados da história do design.

The Form of The Book, de Jan Tschichold, uns dez anos depois. Agora, parece-me mais um ensaio de deontologia do que de book design. Não dá dicas formais (aumentem a entrelinha, etc.) mas identitárias e morais. Sempre que é dado um conselho é dado inscrito num código moral. O subtítulo não engana: “An Essay on the Morality of Good Design.”

Outro tratado de moral: “Good Design is Goodwill” de Paul Rand. Inscreve-se na longa tradição de prosa de auto-ajuda para designers. Coisas muito críticas, da clientela, do mundo, das hierarquias, mas que para os próprios designers funcionam como um copo de leite quentinho depois de um dia mau. Ai que somos tão importantes! Se mais alguém percebesse! Não tenho paciência para estas coisas que andam entre a lamúria e o gabarolanço.

Mais interessante tem sido o Theory and Design in The First Machine Age, de Reyner Banham, mais centrado na arquitectura e com uma obsessão datada pelo cimento, mas que consegue ligar o que os livros de história habitualmente separam em quadros e caricaturas confortáveis, fáceis de memorizar. É uma história assente em detalhes concretos, em pessoas credíveis e não apenas em anedotas heróicas.

Fora do design, tenho tentado perceber as tendências que vou observando no mundo da arte. Afinal, já há um nome para isso: Post Internet Art. Arte produzida quando a internet já não é uma coisa nova. Inclui o virtual, o branding, a moda, etc. Como de costume, é mais interessante quando descrito por quem desconfia da coisa. Neste último caso, resume-se a tendência como obras de galeria que são produzidas para que sejam o mais fotogénicas possível na internet ou no catálogo – objectos relativamente insonsos que ganham vida com uma boa fotografia (ver o exemplo acima). Parece-me duro demais, mas deixa pistas: é uma arte que, apesar de supostamente irreverente, enquadra sempre essa irreverência no contexto expositivo do museu ou da galeria e insiste nessa continuidade entre o online, o virtual e a instituição artística. Conservadora e calculista, é a conclusão do crítico. Eu acrescentaria que é uma arte que interioriza a maior preocupação estética dos últimos anos, as estratégias e conceitos de exposição, o comissariado, a curadoria, mantendo o seu referente óbvio – o espaço expositivo – no enquadramento, enquanto aponta outras possibilidades – o virtual, o online, etc.

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Jiu Jitsu

Usar o peso e o movimento do adversário contra ele. Sun Tzu garantia na sua Arte da Guerra que nunca se deve interferir com um adversário que se autodestrói. Segundo consta, é o princípio das melhores artes marciais. Com a crise fui aprendendo que também é o princípio usado pelos mais eficazes e mortiferos dos idiotas – João Miguel Tavares fá-lo, Pedro Passos Coelho fá-lo, os mais grunhos de entre os designers fazem-no, os meus piores alunos também.

Somos treinados para assumir que há outro lado, outro ponto de vista na discussão. Para o interiorizar no nosso próprio argumento. A ideia é demonstrar que percebemos o ponto de vista da pessoa com quem estamos a discutir, tornando a nossa posição mais informada, mais complexa, etc.

O problema é quando se discute com anti-intelectuais. Aí, na grande maioria dos casos acabamos por ficar a fazer o trabalho deles para além do nosso. Percebemos ao fim de algum tempo que estamos a discutir com a nossa ideia do ponto de vista deles, com as coisas que projectamos neles. Se num momento de lucidez fazemos as contas, concluímos que o João Miguel Tavares não tem um argumento que se aproveite e só estamos a responder ao que pensamos que ele disse.

Acontece porque assumimos abertura de espírito e inteligência dos nossos interlocutores. Simplesmente ouvem-nos, acham piada, e continuam a fazer e a dzer o mesmo – é a austeridade, os estágios curriculares, a Ordem dos Designers, “os novos designers nem sabem quem é o Sebastião Rodrigues”, etc.

O meu voto para os próximos anos é deixar de fazer o trabalho por eles. Estou farto de tentar ser o Padre Américo.

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Tese

Há uma semana ou duas alguém (não me lembro quem) pediu-me a minha tese. Adiei a resposta, porque entretanto foram as entregas e já não consigo encontrar o mail com o pedido. Fica aqui o link.

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Theory and Design in the First Machine Age

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Já houve tempos em que me enervava com quem achava que a história do design era essencial porque vinha dar outra legitimidade à área, porque é importante os novos praticantes saberem quem era este ou aquele fulano, este ou aquele artefacto. Agora, só me apetecia ter uma máquina do tempo e chumbar esta gente antes de começar a debitar asneiras.

Não me interessa minimamente a história como pedigree ou como palmadinha nas costas. Aliás, como fonte de legitimidade é embaraçosa e não me espanta que acabem por ser os próprios designers a produzi-la: nenhum historiador digno desse nome faria história sob essas premissas. Contar anedotas fixes sobre nós mesmos e o que fazemos só se justifica em certas festas depois da sexta cerveja ou das quatro da manhã.

Felizmente, há exemplos de outro género de história: ando finalmente a ler o Theory and Design in the First Machine Age, de Reyner Banham, um clássico, uma história do modernismo. Não se limita a passar em revista os “génios” mas explica o processo como se tornaram conhecidos, como certas obras se propagam enquanto outras caem no esquecimento. Coisas pragmáticas: o comprimento e a eloquência concisa dos parágrafos em certo tratado de arquitectura garantia a sua citabilidade e portanto a sua circulação; certa obra de arquitectura foi considerada a primeira casa moderna em grande medida pelo modo como foi fotografada – de um ângulo apenas parecia radicalmente nova para a época. Não há aqui singularidade ou génios incontestáveis, que denotam apenas a preguiça do crítico ou do historiador, mas uma atenção constante ao pormenor, ao contexto.

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O limite da gentrificação

Para mim o limite da gentrificação no Porto ficava na Rua D. João IV. Vindo do centro, dos bares, dos hostels, das esplanadas, de repente chegava-se lá e tudo parava. Entrava-se num Porto mais antigo, um enclave dos anos noventa entre as Antas e as fontainhas com o epicentro em Campanhã: mini-preços delapidados, ilhas porta sim, porta não, os gunas, as velhotas a arrastar carrinhos de compras ao xadrez. Até os autocarros parecia que ficavam laranja como dantes.

Agora, começaram a renovar pisos térreos na Rodrigues de Freitas. Descobri que a gentrificação tem um cheiro: serradura. Até há uns anos, renovar era alúminio. Agora é madeira torneada. Olha-se lá para dentro e depois da fachada apainelada de madeira ainda crua, um grande recinto de granito à vista, com desníveis, o que significa que se demoliram um monte de paredes e revestimentos em nome da “autenticidade”.

Acho que foi o cheiro da serradura que me fez atingir também o limite da gentrificação: de um momento para o outro deixei de acreditar nela. Aquilo que se passa no Porto não é gentrificação. Tenho que começar a deixar de usar esse termo para o descrever. Gentrificar significa muito literalmente enobrecer ou aburguesar: subir a classe de uma zona. Substituem-se pobres por artistas, em seguida pela classe média, e se a coisa funciona por ricos a sério.

Não me parece que seja isso que acontece no Porto. Não se está a substituir uma classe por outra, mas a substituir um modo de vida, um modo de habitar, por um uso muito distinto, que tem muito pouco a ver com viver. O que se passa no Porto é uma consequência da transformação quase total do espaço numa forma de mercadoria. Dantes a especulação imobiliária era uma coisa lenta, à qual só tinham acesso os ricos. Agora tem uma escala micro, ao nível do sofá alugado por umas horas. Graças ao AirBnB, qualquer metro quadrado pode ser posto a render modularmente.

É ingénuo pensar que esta mercantilização total do espaço não é uma mercantilização total da vida. Lembrem-se daquele anúncio da OLX onde clicar num objecto transforma-o numa pilha cadente de moedas. Agora, há quarteirões gentrificados em Nova Iorque que se tornaram tão caros que, por baixo dos apartamentos de luxo, as mesmas lojas que contribuiram para subir os preços são obrigadas a fechar porque já não podem pagar as rendas. Primeiros andares entaipados; daí para cima, apartamentos fechados que foram comprados para render. Antes da crise, havia bairros inteiras de prédios novos para venda nos arredores de Lisboa e do Porto. Vazios ou quase. Mercadoria quase em forma de casa.

O mesmo se pode dizer dos cafés, todos autênticos e todos iguais, das esplanadas, dos hostels, do resto. Da nova classe de jovens profissionais com uma hipoteca que regressam para casa dos pais porque alugaram a casa no AirBnB.

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Três ou quatro coisas sobre o prémio Novos Artistas Fundação EDP

Não conheço o trabalho da Mariana Silva, que ganhou o prémio Novos Artistas Fundação EDP. Fico curioso por o ver. Pelo que tenho lido e ouvido parece-me que (independentemente da sua qualidade) cumpre rigorosamente três ou quatro requisitos ou tendências. Um: assenta em Novos Media, representações 3D, etc. – uma tendência que já era bastante óbvia na Trienal do New Museum que tive oportunidade de visitar em Abril. Dois: já nessa ocasião tinha reparado que quase todos os objectos juntavam uma reflexão sobre o virtual, o cibernético, o sistema ecológico ou social, a reflexões identitárias ou intervencionistas em zonas problemáticas. Três: envolve também uma reflexão historicista sobre estratégias de exposição, que é como quem diz é uma arte que reflecte sobre o comissariado enquanto tema – a maior obsessão do mundo da arte nos últimos anos. Tinha dito “ou quatro”: pelo que me disseram a artista é uma editora na e-flux que tem estabelecido as tendências nestes três ou quatro assuntos.

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Privatizações da alma

Tem havido um monte de privatizações óbvias, outras menos evidentes. Já nos habituamos a elas de tal modo que já as vemos como naturais. Nem as vemos. Para mim, a mais evidente de todas é a privatização da imagem de órgãos públicos. Até há bem pouco tempo, uma ou duas décadas, ainda era escandaloso para a maioria das pessoas que um Governo contratasse um designer para tratar da sua imagem. Ainda não se tinha substituído o brasão, selo ou emblema por um logótipo. Ou seja, ainda não se tinha assumido que uma insituição pública se deveria apresentar ao mundo do mesmo modo que uma empresa. Mas há outras: o mecenato, por exemplo. Não se trata, como tantas vezes é dado a entender, de um presente desinteressado. Em troca de um investimento nas artes, perdoa-se um x de impostos a gente rica. Ou seja, em vez de um investimento público, dependente de uma decisão feita por representantes eleitos, delega-se essa decisão em privados e ainda por cima perdem-se impostos com isso. Não me interessa uma arte patrocinada exclusivamente patrocinada por bancos ou supermercados. Tende a ser conservadora, formalista e silenciosa.

Em torno desta cultura de mecenato, também aconteceu outra privatização subtil. Tende-se a eliminar, subalternizar e despolitizar as instâncias de poder democráticas substituindo-as por mediadores cujo principal talento é garantir e administrar patrocínios e apoios aos seus próprios eventos: Joanas Vasconcelos, Gutas Moura Guedes, etc. São os projectos supostamente já financiados destas pessoas que atraem o financiamento ad hoc do Estado, sem concurso, sem qualquer avaliação crítica, política, etc. Ou seja, quem já tem meios privados, recebe o dinheiro público. Tudo o resto, ou se integra nestes insufláveis inflacionados, em geral pagando a participação do próprio bolso em troca de visibilidade, ou vai morrendo.

É significativo que se desvalorizem as críticas a estas políticas, seus resultados ou protagonistas, como partindo de gente ressabiada, invejosa, porque ficou de fora. Mas quase toda a gente – criadores, público – fica sistematicamente de fora, seja do apoio, seja do próprio interesse por estas coisas. Não nos dizem respeito, excepto quando se trata de as pagarmos, seja através de impostos, seja através de contas da luz privatizadas ou de resgates bancários feitos à custa de investimento público (impostos de novo).

São coisas deliberadamente concebidas para excluir o maior número de pessoas dos seus processo de decisão. Não é falta de transparência, porque isso implicaria que assumem uma responsabilidade para com o público, mas simplesmente uma privatização da decisão. Para compensar por esta inacessibilidade, refugiam-se no “acessível”, no “popular”, no “light”, nos símbolos fáceis, nos chavões, que toda a gente compreende. Tapando a opacidade do processo, um camuflado de Galos de Barcelos, de rendas de bilros, de design em cortiça, com azulejos, etc.

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Princípios

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Estou a meio das avaliações mas ainda consigo tempo e desafogo para o ler. Para a semana será mais difícil. Foi das primeiras coisas que li quando comecei a dar aulas, mas passei muito tempo afastado dele. Agora, uma década depois volto a ele e percebo como me influenciou. Ao ver outra vez a primeira página, aquilo que sublinhei nela (na altura, ainda sublinhava) é como regressar a casa, a um design político porque escolhe não servir de mascote ao poder, ao empreendorismo, à precariedade criativa, ao luxo, ao gurmê, etc. (clicar para aumentar)
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Poder

Quanto ao papel do artista profissional? Não tenho dúvidas que ele é treinado e/ou afinado para representar o poder. Então e os que contestam, os que se põem à margem, os que fazem arte pela arte? O erro aqui é pensar no poder como uma coisa monolítica. Mesmo numa sociedade totalitária, há vários tipos de poder, que se opõem, apoiam, etc. Numa sociedade democrática, idealmente haverá a necessidade de representar diversos tipos de identidades, experiências, reinvindicações, valores, etc. Por defeito, o artista está afinado para representar o poder económico, produzindo obras que podem circular o mais facilmente possível como mercadorias, tendo como ambição a consagração de representar o Estado.

Há uma crença, na verdade um dogma, que o artista se deve manter afastado do poder sob pena de ficar associado a um determinado lider, doutrina, etc. Fico sempre com a ideia que isso só serve para garantir que a obra, sendo políticamente neutra, pode ser consumida mais facilmente como mercadoria. Ou seja, a arte pela arte é uma espécie de deontologia da arte enquanto prática comercial – o “cliente tem sempre razão” disfarçado debaixo da “autonomia do artista”. E, se virmos a arte pela arte pelos olhos de uma crítica marxista, percebemos que o que parecem decisões formais ou iconográficas são sempre também decisões bastante pragmáticas na relação com um mercado, assegurando a circulação da obra, etc.

Mas esta deontologia do artista assume que ele tem a última palavra a dizer sobre o destino da sua obra, quando na verdade ela é disputada/interpretada desde o primeiro momento. A obra mais panfletária pode sobreviver enquanto objecto puramente formalista e vice-verso. Uma das funções da crítica e da história de arte é precisamente este género de reinterpretação. Dizer como uma pintura religiosa ainda tem valor hoje em dia, etc. Trata-se de subtilmente ir acrescentando valores enquanto se enuncia que se procura um valor original – que na verdade é sempre múltiplo, etc.

Daí que não faça a mínima diferença se o artista se mantém afastado ou não do poder. É o mesmo.

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O que acho neste momento sobre concursos de design

Ontem, chegou-me através do facebook a notícia que abriu um concurso para a concepção de um logotipo para o ministério público. Prémio mil euros. Acho pouco. Há uns anos, na famosa bronca do centenário da república eram três mil pelo logotipo. Já parecia pouco na altura, sobretudo em relação aos 180.000 cobrados pelo estúdio do Henrique Cayatte pela sua aplicação.

Depois desse triste exemplo, quando vejo um valor como este para uma coisa tão próxima do governo, fico sempre a imaginar que existe escondido na sombra um mega-atelier de design que vive da aplicação (não sujeita a concurso) do logo resultante do concurso público. Havia todo um ecossistema que se alimentava do concurso público: o Centro Português de Design que organizava o concurso e ateliers de design com contactos mas fora de moda que se encarregavam de ficar com a parte lucrativa do trabalhos. As migalhas eram esfareladas democraticamente sobre os jovens, os esperançosos, etc.

Agora, que se faz gala de não haver dinheiro para essas coisas, desconfio que a única razão pela qual ainda se encomendam logotipos pelas bandas do governo é porque não há maneira mais simples de sublinhar a eficiência “empresarial” de um organismo público do que fazer-lhe um logo. Para sublinhar ainda mais essa natureza empresarial compra-se um logo da mesma maneira que uma empresa contrataria um designer: põem-se uns milhares de designers a trabalhar no mesmo projecto e escolhe-se o melhor. Que todos os designers menos um estejam a deitar o seu tempo à rua, não incomoda absolutamente ninguém. Cada concurso deste género é um estágio não remunerado à distância. Feito no aconchego da casa de cada um.

Naturalmente, a melhor maneira de fazer um concurso deste género seria avaliar os currículos e os portfolios dos designers envolvidos. Perceber se têm a hipótese de fazer bem o trabalho. Escolher uma dezena ou menos e pedir-lhes uma proposta provisória, pagando-lhes um x pelo incómodo. Dessas escolhia-se a proposta melhor. Assim, ninguém trabalhava em vão.

Mas para isso acontecer seria necessário algum respeito pelo trabalho, e derivado disso uma competência que desapareceu quase completamente do mercado: a capacidade e a responsabilidade por parte de quem contracta de escolher alguém para um serviço. De escolher num tempo razoável, demorando menos de um mês, com base em informação incompleta. Fala-se muito das competências que alguém deve ter quando vai a uma entrevista de emprego mas, significativamente, ninguém fala das competências que alguém deve ter para a fazer.

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Valha-nos o design

Quando comecei a escrever há uns doze anos, pensava que a competência mais importante da crítica de design era um conhecimento o mais completo possível da história e do presente do design. Rapidamente conclui que para pouco serve se não se tiver também um sentido de ética e de política. Sem isso, a recensão mais informada não passa de um anúncio publicitário.

Há dez anos escrevi um texto, o meu primeiro, sobre o que me parece ser o problema ético crucial do design contemporâneo (fica aqui um link para a tradução portuguesa): o design pela sua mera presença pode ser usado para dar a entender que situações impossíveis, calamidades e autoritarismos não são assim tão maus. Quando sabemos que num país em guerra, ocupado, falido, abriu um estúdio ou melhor ainda uma bienal de design é porque as coisas melhoraram. É comum dizer-se que o design não é neutro, que tem responsabilidades políticas, éticas e sociais, mas o design tem neste momento uma função trivializadora que é política em si mesma.

Mal eu imaginava que, pós-crise, Portugal seria o melhor sítio para testar essa intuição. Somos um dos campeões da precariedade, do pseudo-emprego, do estágio não-remunerado, etc. Obviamente, uma das empresa mais representativas deste tipo de práticas é uma firma de design, a Menina Design Group, que inclui a etiqueta Boca do Lobo (já desisti de fazer piadas sobre a falta de ironia evidente destes nomes). Embora apareçam regularmente em posts e até reportagens televisivas de denúncia, aparecem mais regularmente ainda em “reportagens” sobre design. Tem aspas porque ninguém se deu ao trabalho de investigar como é que os objectos são feitos, por quem e como.

Sim, Portugal está uma merda. Mas podia ser pior, ainda temos design.

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“Gosto do Sebastião Rodrigues”

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É comum ouvir isso, a frase que serve de título a este texto. Em geral, são pessoas a dizer que gostam do trabalho dele. Tal como eu, nunca o conheceram- Gostam, como eu, do trabalho dele. Nunca o viram vivo, nem a ele nem ao trabalho. Só o conhecemos como artefacto, como coisa que se partilha no facebook, como referência essencial da história. Mas a história do design quando é feita por designers, tende para a decoração. Tende para ser utilitária da maneira mais preguiçosa, para meter paizinhos num pedestal, ou como catálogo de tendências para inspiração.

Formalmente, o trabalho do Sebastião Rodrigues é de tirar o folêgo. Compro livros dele pela capa. Fico pasmado a olhar para os catálogos que fez para a Gulbenkian. Mas não sei nada sobre ele. Trabalhou para o governo de Marcello Caetano, por exemplo, com uns catálogos anuais lindíssimos, pelo menos aos olhos actuais. Não é trabalho que costume aparecer nas suas bibliografias. Nem sei se estava satisfeito ou não, com isso, com esse trabalho. Às vezes, há objectos que somos nós, o público, que elevamos a alturas inesperadas para os seus próprios criadores.

Era um artista exímio mas dele pouco sobra da parte que me interessa mais, a que tomava decisões éticas, políticas, comerciais. Sem isso, por mais bonita que seja, a sua obra reduz-se ao melhor dos papéis de embrulho.

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O Design já não é o que era

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Este é dos livros mais bonitos que tenho. O design é do Jan TSchichold (já falei de um da colecção aqui). O interior é tão sóbrio e elegante como a capa. Mas nada disso é tão importante como o preço: era um objecto perfeito concebido para ser barato. Não confundam isso com “low cost” – que significa degradar um serviço para poder vendê-lo a um fracção do preço, a gente disposta a fazer o sacríficio para poupar uns trocos, enquanto se eleva o serviço normal a “premium” ou até a “gold”.

Pode-se comprar uma edição mais cara, de luxo, uma primeira edição, mas nenhuma delas funcionaria melhor ou seria mais bonita do que esta. Ao alcance dos pobres, o melhor dos serviços. Era isso o design.

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Porque deve um designer saber argumentar em público?

Hoje na aula de História do Design perguntaram-me porque achava eu impotante que um designer soubesse argumentar em público. Usei como exemplo o caso de plágio da semana passada. É crucial que um designer saiba articular as suas posições, invocando precedentes, paralelos, etc. Sem essa competência, penso que não vale a pena ensinar a disciplina no ensino superior. Um simples estágio resolvia o problema da formação. Infelizmente, e como demonstrou o mesmo caso, boa parte dos designers argumentam como crianças de dez anos a discutir um golo num intervalo do secundário.

Mas entretanto ocorreu-me outro exemplo de utilidade, por coincidência também ligado a um suposto caso de plágio, o da autarquia de Miranda do Corvo. Quando escrevi hoje sobre o assunto acabei por não referir o que mais me chocou no caso todo. Se calhar é preconceito da minha parte, mas fiquei de boca aberta ao saber que no interior do país havia um presidente de Junta que tinha um estúdio de design gráfico! Uma das razões pelas quais um designer deve saber argumentar em público é precisamente porque pode vir a ocupar cargos públicos. Enquanto há vida há esperança e ainda hei de ver um designer Ministro ou até Primeiro Ministro. Infelizmente, este primeiro exemplo acontece ligado a um daqueles caso onde alguém se desculpa dizendo que “não é ilegal” – o que, dependendo do optimismo ou pessimismo de cada um, pode demonstrar que a) os designers ainda não estão preparados b) já estão demasiado preparados.

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Design Rural

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Mandaram-me esta notícia para comentar. O caso é simples de explicar: a maioria socialista de Miranda do Corvo comprou por 3500 euros um novo logotipo para a Câmara a uma empresa que pertence a um presidente de junta também do PS. O logo é igual a um que está à venda na internet por 27 euros.

A oposição do PSD ameaça apresentar queixa no ministério público – não pela falta de qualidade evidente do logo mas por se ter contratado os serviços de um autarca, com assento na assembleia municipal, conflito de interesses. O presidente da Câmara diz que não foi ilegal. Fez-se concurso a três firmas, ganhou a que ofereceu condições mais vantajosas, etc.

Vale a pena dividir o caso em partes: o conflito de interesses e o logotipo que se parece com um que está à venda na internet.

Quanto ao conflito de interesses, não sou advogado mas, no que me diz respeito, basta alguém dizer “não é ilegal” para eu suspeitar que esse alguém andou a fazer a ética o que os guerrilheiros do Isis andam a fazer pelo Médio Oriente. Sou daquelas pessoas que acha que a ética é mais importante que a lei. É graças ao contacto continuado com pessoas que alternam a criação de leis com acções pelas quais se desculpam dizendo que não fizeram de ilegal que percebo que nunca hei de ser político profissional.

Para além disso, os concursos a três firmas vencidos por um amigo/colega do cliente são uma marosca de tal modo recorrente dentro do folclore do “não é ilegal” que se devia fazer um festival nacional dedicado ao assunto, com pau de sebo, prova de vinhos e venda de artesanato.

Quanto aos dois logotipos, a parecença não quer dizer nada, nem prova nada. Se as grandes cabeças pensam de modo semelhante, as mais pequenitas então chegam às mesmas soluções em segundos. Às vezes até com o clique de um rato. Porém, quem roubou quem, copiou quem, ou comprou clipart a quem? Há uns anos houve uma escandaleira internacional relacionada com firmas que copiavam logotipos de empresas para os venderem online como cliparte por um preço ridículo. Só posso dizer que se a Câmara Municipal tivesse comprado o seu logo por 27 euros, devia ter pedido troco.

Filed under: Crítica

Mário Moura

Esta é a minha biografia.

Se a estão a ler para tentarem perceber se "eu sou alguém", se acreditam que só depois de lerem o meu cv é que podem levar-me a sério, concordar ou não comigo, nem vale a pena continuarem a ler. Se vieram aqui por isso, leiam os meus textos: todos os argumentos importantes estão lá.

Dito isto: escrevo sobre design, cultura, política há uns nove anos. Faço-o regularmente aqui. Menos regularmente em jornais (Público, i), revistas e livros. Alguns dos meus textos foram reunidos no livro Design em Tempos de Crise, editado pela Braço de Ferro (está esgotado).

Dou também conferências regularmente. Nas Belas Artes do Porto, nas Belas Artes de Lisboa, na Esad das Caldas da Rainha, na Esad de Matosinhos, na Experimenta Design, no ciclo Ag – Prata, por exemplo. Dei um ciclo de 6 conferências sobre Livros na Culturgest de Lisboa entre 2011 e 2012.

Tenho uma tese de mestrado sobre a estética da programação (já soube fluentemente dezasseis linguagens de programação – Java, C++, Basic, Javascript, ActionScript, Lingo, Starlogo, PostScript, Proce55ing (quando ainda se escrevia assim), etc. Mas é preciso praticá-las, e eu não tenho feito isso; suponho que acabei por enjoar, mas de vez em quando sinto o chamamento; faço o que posso por ignorá-lo).

Fiz uma tese de doutoramento sobre autoria no design.

Já ensinei perto de vinte cadeiras distintas, distribuídas pelas Belas Artes do Porto e Lisboa, e pela Faculdade de Engenharia do Porto: gostei de uma que dei sobre Autoria; gosto de ensinar edição e bookdesign; também gosto de história e crítica. Tipografia e criação de tipos, dou quando tem que ser (não desgosto).

Se alguém quiser uma bio mais resumida, respeitável e copy/pastável:

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.


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