The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Privatizações da alma

Tem havido um monte de privatizações óbvias, outras menos evidentes. Já nos habituamos a elas de tal modo que já as vemos como naturais. Nem as vemos. Para mim, a mais evidente de todas é a privatização da imagem de órgãos públicos. Até há bem pouco tempo, uma ou duas décadas, ainda era escandaloso para a maioria das pessoas que um Governo contratasse um designer para tratar da sua imagem. Ainda não se tinha substituído o brasão, selo ou emblema por um logótipo. Ou seja, ainda não se tinha assumido que uma insituição pública se deveria apresentar ao mundo do mesmo modo que uma empresa. Mas há outras: o mecenato, por exemplo. Não se trata, como tantas vezes é dado a entender, de um presente desinteressado. Em troca de um investimento nas artes, perdoa-se um x de impostos a gente rica. Ou seja, em vez de um investimento público, dependente de uma decisão feita por representantes eleitos, delega-se essa decisão em privados e ainda por cima perdem-se impostos com isso. Não me interessa uma arte patrocinada exclusivamente patrocinada por bancos ou supermercados. Tende a ser conservadora, formalista e silenciosa.

Em torno desta cultura de mecenato, também aconteceu outra privatização subtil. Tende-se a eliminar, subalternizar e despolitizar as instâncias de poder democráticas substituindo-as por mediadores cujo principal talento é garantir e administrar patrocínios e apoios aos seus próprios eventos: Joanas Vasconcelos, Gutas Moura Guedes, etc. São os projectos supostamente já financiados destas pessoas que atraem o financiamento ad hoc do Estado, sem concurso, sem qualquer avaliação crítica, política, etc. Ou seja, quem já tem meios privados, recebe o dinheiro público. Tudo o resto, ou se integra nestes insufláveis inflacionados, em geral pagando a participação do próprio bolso em troca de visibilidade, ou vai morrendo.

É significativo que se desvalorizem as críticas a estas políticas, seus resultados ou protagonistas, como partindo de gente ressabiada, invejosa, porque ficou de fora. Mas quase toda a gente – criadores, público – fica sistematicamente de fora, seja do apoio, seja do próprio interesse por estas coisas. Não nos dizem respeito, excepto quando se trata de as pagarmos, seja através de impostos, seja através de contas da luz privatizadas ou de resgates bancários feitos à custa de investimento público (impostos de novo).

São coisas deliberadamente concebidas para excluir o maior número de pessoas dos seus processo de decisão. Não é falta de transparência, porque isso implicaria que assumem uma responsabilidade para com o público, mas simplesmente uma privatização da decisão. Para compensar por esta inacessibilidade, refugiam-se no “acessível”, no “popular”, no “light”, nos símbolos fáceis, nos chavões, que toda a gente compreende. Tapando a opacidade do processo, um camuflado de Galos de Barcelos, de rendas de bilros, de design em cortiça, com azulejos, etc.

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Princípios

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Estou a meio das avaliações mas ainda consigo tempo e desafogo para o ler. Para a semana será mais difícil. Foi das primeiras coisas que li quando comecei a dar aulas, mas passei muito tempo afastado dele. Agora, uma década depois volto a ele e percebo como me influenciou. Ao ver outra vez a primeira página, aquilo que sublinhei nela (na altura, ainda sublinhava) é como regressar a casa, a um design político porque escolhe não servir de mascote ao poder, ao empreendorismo, à precariedade criativa, ao luxo, ao gurmê, etc. (clicar para aumentar)
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Poder

Quanto ao papel do artista profissional? Não tenho dúvidas que ele é treinado e/ou afinado para representar o poder. Então e os que contestam, os que se põem à margem, os que fazem arte pela arte? O erro aqui é pensar no poder como uma coisa monolítica. Mesmo numa sociedade totalitária, há vários tipos de poder, que se opõem, apoiam, etc. Numa sociedade democrática, idealmente haverá a necessidade de representar diversos tipos de identidades, experiências, reinvindicações, valores, etc. Por defeito, o artista está afinado para representar o poder económico, produzindo obras que podem circular o mais facilmente possível como mercadorias, tendo como ambição a consagração de representar o Estado.

Há uma crença, na verdade um dogma, que o artista se deve manter afastado do poder sob pena de ficar associado a um determinado lider, doutrina, etc. Fico sempre com a ideia que isso só serve para garantir que a obra, sendo políticamente neutra, pode ser consumida mais facilmente como mercadoria. Ou seja, a arte pela arte é uma espécie de deontologia da arte enquanto prática comercial – o “cliente tem sempre razão” disfarçado debaixo da “autonomia do artista”. E, se virmos a arte pela arte pelos olhos de uma crítica marxista, percebemos que o que parecem decisões formais ou iconográficas são sempre também decisões bastante pragmáticas na relação com um mercado, assegurando a circulação da obra, etc.

Mas esta deontologia do artista assume que ele tem a última palavra a dizer sobre o destino da sua obra, quando na verdade ela é disputada/interpretada desde o primeiro momento. A obra mais panfletária pode sobreviver enquanto objecto puramente formalista e vice-verso. Uma das funções da crítica e da história de arte é precisamente este género de reinterpretação. Dizer como uma pintura religiosa ainda tem valor hoje em dia, etc. Trata-se de subtilmente ir acrescentando valores enquanto se enuncia que se procura um valor original – que na verdade é sempre múltiplo, etc.

Daí que não faça a mínima diferença se o artista se mantém afastado ou não do poder. É o mesmo.

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O que acho neste momento sobre concursos de design

Ontem, chegou-me através do facebook a notícia que abriu um concurso para a concepção de um logotipo para o ministério público. Prémio mil euros. Acho pouco. Há uns anos, na famosa bronca do centenário da república eram três mil pelo logotipo. Já parecia pouco na altura, sobretudo em relação aos 180.000 cobrados pelo estúdio do Henrique Cayatte pela sua aplicação.

Depois desse triste exemplo, quando vejo um valor como este para uma coisa tão próxima do governo, fico sempre a imaginar que existe escondido na sombra um mega-atelier de design que vive da aplicação (não sujeita a concurso) do logo resultante do concurso público. Havia todo um ecossistema que se alimentava do concurso público: o Centro Português de Design que organizava o concurso e ateliers de design com contactos mas fora de moda que se encarregavam de ficar com a parte lucrativa do trabalhos. As migalhas eram esfareladas democraticamente sobre os jovens, os esperançosos, etc.

Agora, que se faz gala de não haver dinheiro para essas coisas, desconfio que a única razão pela qual ainda se encomendam logotipos pelas bandas do governo é porque não há maneira mais simples de sublinhar a eficiência “empresarial” de um organismo público do que fazer-lhe um logo. Para sublinhar ainda mais essa natureza empresarial compra-se um logo da mesma maneira que uma empresa contrataria um designer: põem-se uns milhares de designers a trabalhar no mesmo projecto e escolhe-se o melhor. Que todos os designers menos um estejam a deitar o seu tempo à rua, não incomoda absolutamente ninguém. Cada concurso deste género é um estágio não remunerado à distância. Feito no aconchego da casa de cada um.

Naturalmente, a melhor maneira de fazer um concurso deste género seria avaliar os currículos e os portfolios dos designers envolvidos. Perceber se têm a hipótese de fazer bem o trabalho. Escolher uma dezena ou menos e pedir-lhes uma proposta provisória, pagando-lhes um x pelo incómodo. Dessas escolhia-se a proposta melhor. Assim, ninguém trabalhava em vão.

Mas para isso acontecer seria necessário algum respeito pelo trabalho, e derivado disso uma competência que desapareceu quase completamente do mercado: a capacidade e a responsabilidade por parte de quem contracta de escolher alguém para um serviço. De escolher num tempo razoável, demorando menos de um mês, com base em informação incompleta. Fala-se muito das competências que alguém deve ter quando vai a uma entrevista de emprego mas, significativamente, ninguém fala das competências que alguém deve ter para a fazer.

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Valha-nos o design

Quando comecei a escrever há uns doze anos, pensava que a competência mais importante da crítica de design era um conhecimento o mais completo possível da história e do presente do design. Rapidamente conclui que para pouco serve se não se tiver também um sentido de ética e de política. Sem isso, a recensão mais informada não passa de um anúncio publicitário.

Há dez anos escrevi um texto, o meu primeiro, sobre o que me parece ser o problema ético crucial do design contemporâneo (fica aqui um link para a tradução portuguesa): o design pela sua mera presença pode ser usado para dar a entender que situações impossíveis, calamidades e autoritarismos não são assim tão maus. Quando sabemos que num país em guerra, ocupado, falido, abriu um estúdio ou melhor ainda uma bienal de design é porque as coisas melhoraram. É comum dizer-se que o design não é neutro, que tem responsabilidades políticas, éticas e sociais, mas o design tem neste momento uma função trivializadora que é política em si mesma.

Mal eu imaginava que, pós-crise, Portugal seria o melhor sítio para testar essa intuição. Somos um dos campeões da precariedade, do pseudo-emprego, do estágio não-remunerado, etc. Obviamente, uma das empresa mais representativas deste tipo de práticas é uma firma de design, a Menina Design Group, que inclui a etiqueta Boca do Lobo (já desisti de fazer piadas sobre a falta de ironia evidente destes nomes). Embora apareçam regularmente em posts e até reportagens televisivas de denúncia, aparecem mais regularmente ainda em “reportagens” sobre design. Tem aspas porque ninguém se deu ao trabalho de investigar como é que os objectos são feitos, por quem e como.

Sim, Portugal está uma merda. Mas podia ser pior, ainda temos design.

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“Gosto do Sebastião Rodrigues”

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É comum ouvir isso, a frase que serve de título a este texto. Em geral, são pessoas a dizer que gostam do trabalho dele. Tal como eu, nunca o conheceram- Gostam, como eu, do trabalho dele. Nunca o viram vivo, nem a ele nem ao trabalho. Só o conhecemos como artefacto, como coisa que se partilha no facebook, como referência essencial da história. Mas a história do design quando é feita por designers, tende para a decoração. Tende para ser utilitária da maneira mais preguiçosa, para meter paizinhos num pedestal, ou como catálogo de tendências para inspiração.

Formalmente, o trabalho do Sebastião Rodrigues é de tirar o folêgo. Compro livros dele pela capa. Fico pasmado a olhar para os catálogos que fez para a Gulbenkian. Mas não sei nada sobre ele. Trabalhou para o governo de Marcello Caetano, por exemplo, com uns catálogos anuais lindíssimos, pelo menos aos olhos actuais. Não é trabalho que costume aparecer nas suas bibliografias. Nem sei se estava satisfeito ou não, com isso, com esse trabalho. Às vezes, há objectos que somos nós, o público, que elevamos a alturas inesperadas para os seus próprios criadores.

Era um artista exímio mas dele pouco sobra da parte que me interessa mais, a que tomava decisões éticas, políticas, comerciais. Sem isso, por mais bonita que seja, a sua obra reduz-se ao melhor dos papéis de embrulho.

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O Design já não é o que era

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Este é dos livros mais bonitos que tenho. O design é do Jan TSchichold (já falei de um da colecção aqui). O interior é tão sóbrio e elegante como a capa. Mas nada disso é tão importante como o preço: era um objecto perfeito concebido para ser barato. Não confundam isso com “low cost” – que significa degradar um serviço para poder vendê-lo a um fracção do preço, a gente disposta a fazer o sacríficio para poupar uns trocos, enquanto se eleva o serviço normal a “premium” ou até a “gold”.

Pode-se comprar uma edição mais cara, de luxo, uma primeira edição, mas nenhuma delas funcionaria melhor ou seria mais bonita do que esta. Ao alcance dos pobres, o melhor dos serviços. Era isso o design.

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Porque deve um designer saber argumentar em público?

Hoje na aula de História do Design perguntaram-me porque achava eu impotante que um designer soubesse argumentar em público. Usei como exemplo o caso de plágio da semana passada. É crucial que um designer saiba articular as suas posições, invocando precedentes, paralelos, etc. Sem essa competência, penso que não vale a pena ensinar a disciplina no ensino superior. Um simples estágio resolvia o problema da formação. Infelizmente, e como demonstrou o mesmo caso, boa parte dos designers argumentam como crianças de dez anos a discutir um golo num intervalo do secundário.

Mas entretanto ocorreu-me outro exemplo de utilidade, por coincidência também ligado a um suposto caso de plágio, o da autarquia de Miranda do Corvo. Quando escrevi hoje sobre o assunto acabei por não referir o que mais me chocou no caso todo. Se calhar é preconceito da minha parte, mas fiquei de boca aberta ao saber que no interior do país havia um presidente de Junta que tinha um estúdio de design gráfico! Uma das razões pelas quais um designer deve saber argumentar em público é precisamente porque pode vir a ocupar cargos públicos. Enquanto há vida há esperança e ainda hei de ver um designer Ministro ou até Primeiro Ministro. Infelizmente, este primeiro exemplo acontece ligado a um daqueles caso onde alguém se desculpa dizendo que “não é ilegal” – o que, dependendo do optimismo ou pessimismo de cada um, pode demonstrar que a) os designers ainda não estão preparados b) já estão demasiado preparados.

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Design Rural

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Mandaram-me esta notícia para comentar. O caso é simples de explicar: a maioria socialista de Miranda do Corvo comprou por 3500 euros um novo logotipo para a Câmara a uma empresa que pertence a um presidente de junta também do PS. O logo é igual a um que está à venda na internet por 27 euros.

A oposição do PSD ameaça apresentar queixa no ministério público – não pela falta de qualidade evidente do logo mas por se ter contratado os serviços de um autarca, com assento na assembleia municipal, conflito de interesses. O presidente da Câmara diz que não foi ilegal. Fez-se concurso a três firmas, ganhou a que ofereceu condições mais vantajosas, etc.

Vale a pena dividir o caso em partes: o conflito de interesses e o logotipo que se parece com um que está à venda na internet.

Quanto ao conflito de interesses, não sou advogado mas, no que me diz respeito, basta alguém dizer “não é ilegal” para eu suspeitar que esse alguém andou a fazer a ética o que os guerrilheiros do Isis andam a fazer pelo Médio Oriente. Sou daquelas pessoas que acha que a ética é mais importante que a lei. É graças ao contacto continuado com pessoas que alternam a criação de leis com acções pelas quais se desculpam dizendo que não fizeram de ilegal que percebo que nunca hei de ser político profissional.

Para além disso, os concursos a três firmas vencidos por um amigo/colega do cliente são uma marosca de tal modo recorrente dentro do folclore do “não é ilegal” que se devia fazer um festival nacional dedicado ao assunto, com pau de sebo, prova de vinhos e venda de artesanato.

Quanto aos dois logotipos, a parecença não quer dizer nada, nem prova nada. Se as grandes cabeças pensam de modo semelhante, as mais pequenitas então chegam às mesmas soluções em segundos. Às vezes até com o clique de um rato. Porém, quem roubou quem, copiou quem, ou comprou clipart a quem? Há uns anos houve uma escandaleira internacional relacionada com firmas que copiavam logotipos de empresas para os venderem online como cliparte por um preço ridículo. Só posso dizer que se a Câmara Municipal tivesse comprado o seu logo por 27 euros, devia ter pedido troco.

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Entusiasmo

Tenho pensado bastante sobre entusiasmo. Já não me lembro da última vez que vi um design que me deixasse a cambalear por dentro como se tivesse levado um estalo. O mais habitual é ficar a coçar a barba durante um segundo com os olhos semicerrados enquanto penso “Se calhar até é interessante” – no dia seguinte, o mais provável é ter-me esquecido.

Trabalho “interessante”, há-o aos pontapés. Murros no estômago são mais raros. Lembro-me das tonturas que tinha nos anos noventa quando via uma Ray Gun ou um disco da 4AD. Lembro-me de ler a revista Kapa. Lembro-me de ficar embasbacado com a banda desenhada The Killing Joke, de Alan Moore e Brian Bolland. Das aplicaçõezinhas de John Maeda no final da década de noventa. Do primeiro iMac. Ou da desconfiança visceral que tive das primeiras Dot Dot Dots. Da capa da primeira Nada.

É daquelas coisas que é difícil registar na história. Boa parte das histórias do design são demasiado sérias ou comprometidas. Picam o ponto e tentam não chatear os vivos. Ai, uma história do design mais parecida com certas histórias da música: England’s Dreaming, de Jon Savage, por exemplo, que transmite o entusiasmo e a animosidade à volta do nascimento do Punk. Tragam-me coisas para amar e o odiar. Para o resto, mais vale estarem quietos.

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Original é usar a palavra “original” na mesma frase que Câmara Municipal

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Não deve haver maneira mais simples e barata para uma instituição pública mostrar obra do que mudar de imagem gráfica. Não é preciso construir nada; não é preciso fazer muita coisa e tudo fica diferente. Aliás, é preciso fazer cada vez menos: o próprio acto de desvelar uma nova identidade é um acontecimento que pode ser ordenhado durante meses. Entrevista-se o designer antes, durante e depois. Faz-se umas conferências. Foi esse o modelo de Sagmeister na Casa da Música. Não se trata de ter feito escola, simplesmente de se perceber que não é só vender o logo mas tudo aquilo pode ser um evento. E o evento é a maneira mais simples e barata de mostrar trabalho. O que antigamente se resolvia discretamente agora é público, tem um cartaz, um site e um beberete.

A nova identidade da Câmara do Porto tentou isso desde o primeiro momento e desde o primeiro momento se viu em aflições. Uns dias antes de ser revelada, um dos outros três concorrentes do concurso decidiu revelar a sua, colocando uma pressão acrescida sobre a escolhida. Deu discussão.

Agora, esta semana, mais discussão ainda, quando se descobriu uma imagem alemã quase igual, incluindo até um ponto final estratégico. O site do projecto alemão, que se podia verificar facilmente ser posterior, foi tirado rapidamente do ar. Entretanto apareceram também exemplos com grafismos semelhantes, de uma escola de verão em Praga (feito antes), de uma identidade para a cidade de Nova Iorque, de uma cidade na Rússia. Arrisco que aqui pode entrar um grande “etc.”

A identidade alemã, “fair.kiez”, uma campanha para promover um turismo bem comportado,tinha bastantes pontos em comum com a do Porto – o sinal de pontuação usado como branding, a colocação do texto sobre a textura modular formada por ícones. Mas só quem não esteve atento ao design produzido nos últimos anos podia considerar originais o desenho dos ícones, assim como a cor azul usada. É um estilo ou uma moda.

É habitual os designers gráficos terem relaçoes ambivalentes mas extremas em relação a modas. Se são adeptos de uma, defendem-na como se fosse uma lei da física ou a solução para a fome no mundo. Não é só uma estratégia formal mas torna-se numa filosofia, numa ideologia e numa religião. Há uns anos um amigo meu ficava de boca aberta quando começou a usar molduras rectangulares com um canto cortado, semelhantes aos cartões de telemóvel, para tudo e mais alguma coisa. Garantia que vinha resolver uma série de problemas de composição. Onde isso já vai.

Quem não é adepto, abana a cabeça em vão a todo aquele exército de zombies de olhos vidrados, a fazer em coro a mesma coisa estúpida. Se for um pouco mais velho, é provável que, enquanto abana a cabeça, continue a produzir trabalho no estilo imediatamente anterior. Quem acha que os anos oitenta e noventa já passaram é porque não convive muito com designers gráficos.

Tudo isto para dizer que, se um estilo gráfico chega ao ponto de identificar um governo local ou nacional é porque atingiu o seu pico. Pode-se argumentar que a Câmara do Porto poderia ter escolhido uma imagem mais “edgy”. Podia ir buscá-la ao design mais experimental que em geral trabalha para os clientes igualmente mais extremos: as artes, a música, a vida nocturna, o grafitti (ha ha). Mas uma instituição camarária não precisa de ser extremamente fresca, só precisa de ser fresca o suficiente – sucedendo a Rui Rio, não é preciso muito para parecer fantástico.

O processo não tem nada de novo. Quem se consiga lembrar das últimas imagens da câmara e fizer um esforço para as integrar no que se fazia na época, há-de admitir que nenhuma prima pela originalidade. A da esquerda, por exemplo, fazia parte daquela primeira onda da logotipização das instituições públicas quando ainda não se sabia muito bem o que representar portanto punha-se a fachada da sede. Na segunda, já tiveram a coragem de pôr outra coisa qualquer, embora dentro de uma elipse (que na altura já era a maneira mais cansativa com que um designer podia enquadrar um logo). Agora, temos um sistema modular de iconezinhos lineares combináveis. Lembrem-se que a outra proposta conhecida para o mesmo trabalho era um sistema modular de iconezinhos lineares combináveis.

A nova imagem datará tão depressa como as antigas. Talvez daqui a uns cinquenta anos se ache qualquer uma delas típica da sua época sem que isso seja um problema. Não tenham ilusões: a função do trabalho de um designer não é a originalidade absoluta mas produzir algo que se enquadra na sua época. Até o que é considerado um estilo intemporal muda regularmente com os anos.

A originalidade absoluta, extrema, interessa a pouquíssima gente.

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Falando no diabo

 Querem saber o que é um artista do regime?

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Rescaldo

O texto de ontem sobre o muito provável plágio à identidade da Câmara do Porto foi o 2000º escrito aqui no blog. Estava a planear pôr um textito sobre o assunto, a fazer um ponto da situação, etc. Em vez disso, tive mais de 13000 visualizações, quase 9000 visitantes e mais de três mil partilhas. Bateu o record anterior por mais do dobro, atingido durante uma das polémicas da Joana Vasconcelos. Uma maneira muito mais gratificante de comemorar uma efeméride.

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Porto Ponto da Situação

Entretanto, a página de facebook da iniciativa alemã cuja identidade gráfica é quase idêntica à da Câmara do Porto está em baixo. Tudo indica que o design alemão foi feito depois do Português.

Entretanto, apareceram mais exemplos de identidades semelhantes, mas uma coisa é falar de tendências ou de estilo, outra é copiar quase literalmente uma aplicação particular deste estilo. Pense-se por exemplo no Estilo Suíço. Usar Helvetica em caixa baixa alinhada à esquerda não é caso para processos legais. Copiar um cartaz específico, usando Akzidenz Grotesk, pondo a serra da Estrela em vez do Monte Branco, já começa a ser bastante suspeito. Em algumas situações, ainda se pode alegar que é uma homenagem ou pastiche, como o famoso anúncio da Swatch onde Paula Scher copiou Herbert Matter, ou o capa dos New Order roubada aos futuristas.

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A diferença entre isto e um plágio? Subtil. Trata-se de usar um trabalho feito umas tantas décadas antes. Saul Bass, por exemplo, é dos designers mais “citados” de todos os tempos. O que dizia ele sobre isso? “‘Homenagem’ significa roubar os mortos. E eu não estou morto.”

 

 

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Berlim.

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Faz lembrar qualquer coisa, não faz? O meu alemão não é fantástico. Aliás é quase inexistente. Mas tenho a certeza que Porto não se diz assim.

Apanhei isto hoje de manhã a circular pelo facebook. É de uma iniciativa de turismo sustentável em Berlim cujo design foi feito (?) pela firma 3BKE. A página do facebbok do projecto apareceu no começo deste mês, o que parece indicar que o design alemão apareceu depois. Adorava ter mais informação quanto a datas, mas para já penso que é tudo demasiado próximo para ser coincidência. As identidades gráficas construídas através de sistemas modulares apoiados em ícones lineares estão na moda (só este mês vi duas), mas as cores e o ponto final não deixam muitas dúvidas.

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Opiniões

É comum, quando encontro ao vivo um leitor, dizerem-me que não concordam com tudo ou até com a maioria do que escrevo. É inevitável e nunca me incomodou. Não escrevo para que concordem comigo, pela aprovação. Nos meus melhores dias, escrevo para que me levem a sério. Talvez pareça uma excentricidade dizer isto, no ambiente político português actual, em particular o da esquerda, onde ou se concorda em tudo ou adeus, mas eu acredito que ninguém muda radicalmente de opinião do dia para a noite. Mas as opiniões afinam-se e afiam-se umas contra as outras.

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Crash

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Andei atrás dela durante anos. Foi difícil apanhá-la por um preço quotidiano porque é uma primeira edição americana de Ballard. Não a procurava pela história, que já tinha lido, mas pela capa, que é brilhante, um desenho a lápis grosso quase monocromático, no limite do psicadelismo, de um carro-corpo de unhas dos pés cor-de-rosa, atrás do volante uma figurinha humana com a cara esborratada de um quadro de Francis Bacon, tudo aquilo aquilo a escorrer pelo papel lustroso da sobrecapa como uma gota viscosa de líquido branco. Ao canto acima, contrastando com as gradações de cinza, em grandes letras negras numa letra saída de um quadro pop, o título, a onomatopeia, CRASH. A sublinhá-lo num traço fino, light, a mesma espessura do contorno do carro, o nome do autor que já deixava de ser a identificação de umnescritor mas a de um género literário inteiro, só dele. Ballard já não escrevia ficção científica, histórias fantásticas; J.G. Ballard escrevia J.G. Ballard. Contaminava tudo em que tocava, até o designer, um tal Lawrence Ratzkin, designer de livros, autor de capas em geral boas mas não memoráveis. Não era um David Pelham.

Mas em Crash produziu uma obra prima. Admire-se o minimalismo desconjuntado, trémulo do desenho. Admire-se a estreita língua do topo das páginas pintadas no mesmo tom de rosa das unhas dos pés, a espreitar entre as dobras da sobrecapa e da encadernação. O Mody Dick de Melvile imaginava um universo onde livros e baleias se intersectavam. Imagine-se as possibilidades de um erotismo extremo onde se misturam carros, sexo e literatura. É essa a proeza desta capa.

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Idiotices

Apanhei isto ontem no facebook. Já tinha feito um share rápido mas resolvi deixá-la pendurada aqui no blog para que todos vissem. É o texto de alguém que se identifica “mestre em gestão” e “seguidor da meritocracia” e é mais outra variação do “eles emigram porque não querem trabalhar; preferem fazer um trabalho de merda lá fora do que aqui em Portugal.”

Infelizmente, já não me espanta ver alguém formado em Gestão a não saber aquela coisa mais básica do trabalho: ainda há quem espere ser pago por ele. Há até países onde se paga a pessoas para trabalhar. Estranho, mas verdadeiro. Pode ser que no P3 ainda dediquem um slideshow a essa coisa do salário.

Resumindo: uma versão gurmê do Miguel Gonçalves (o que provavelmente só o piora).

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Mais de quinze anos a falhar o alvo

Lembro-me bem da trepidação quando escrevi aqui no blogue o meu primeiro texto sobre estágios, faz neste Verão nove anos. Era a coisa mais obviamente politizada que tinha publicado. Lembro-me de um colega meu me ter dito no corredor que eu “me tinha transformado num sindicalista” – ele empregava estagiários regularmente.

Era um assunto que eu nunca tinha visto ser debatido, nem sequer a nível internacional. Na altura, o debate do trabalho gratuito resumia-se ao chamado spec work, as ocasiões em que uma firma ou um freelancer se dispunham a fazer trabalhos gratuitos em orçamentos ou concursos. Os estágios, pelo contrário, eram considerados uma etapa esperada da formação de um designer. Ainda agora há quem assim pense – sobretudo do lado de quem os “oferece”; do lado de quem os recebe, é na melhor das hipóteses “uma coisa pela qual se tem que passar”.

O meu texto em retrospectiva parece-me cru e até ingénuo em alguns pontos, embora o essencial não só mantenha a actualidade como ainda me parece tímido. Por exemplo, eu ainda usava a palavra estágio entre aspas para os distinguir dos estágios curriculares, que considerava positivos. Neste momento, qualquer estágio só com muita sorte não é totalmente prejudicial – à sociedade, ao estagiário, etc.

Mas pelo menos já via ali um problema. Em 2003, Mike Kippenham propunha-se na revista Emigre revitalizar a crítica de design, assumindo um modelo inspirado no Ídolos, um concurso que é muito literalmente um estágio de emprego glamorizado, onde candidatos competem nem sequer por um prémio mas por uma oportunidade, enquanto sofrem os abusos verbais de um júri de entrevistadores. Era a crítica enquanto entrevista de emprego. Já só se falava dos objectos como um atalho para criticar a pessoa reduzida a uma espécie de mercadoria dela mesma.

Mais de uma década depois, a ideia de Kippenham é a norma. O estágio domina o design e a própria sociedade.

A conclusão que se impõe: a discussão política dentro do design manteve-se completamente a leste dos assuntos mais quentes. Na altura em que eu escrevia sobre estágios, ainda se debatia o First Things First 2000, um tiro ao lado, um manifesto que se resumia a acreditar que um designer é eticamente bom se os seus clientes e os assuntos que trata forem bons. Deposita-se a responsabilidade fora da disciplina que se acredita ser neutra, enquanto se pode ir contratando e descartando estagiário atrás de estagiário, porque as “coisas são assim”.

Mas o design não é neutro. O First Things First, com o seu apelo a que se pratique um design de causas, serviu sobretudo de justificação a que se aplicassem os formatos habituais do design – logótipos e identidade corporativa – a iniciativas de caridade, dando-lhes o mesmo visual de uma empresa. A ideia era torná-las mais atraentes aos mecenas privados; o efeito secundário foi, como deveria ser evidente, uma subtil privatização.

Este Toque de Midas do design, de conseguir tornar o que quer que fosse numa empresa, passou também quase completamente despercebido dentro da discussão disciplinar – apesar de Naomi Klein ter publicado um crítica feroz destes processos de privatização com o nome nada subtil de No Logo, o design continuou a sua vidinha como se nada se tivesse passado. Quando muito, embarcou de armas e bagagens na onda do empreendedorismo individual, a fazer logotipos para as massas como se nada fosse. O único queixume: agora toda a gente podia fazer os seus próprios logotipos e isso era concorrência desleal aos designers que tinham tirado um curso, etc. Toda a gente podia ser uma empresa de uma pessoa só, desde que fosse o designer a produzir o logotipo. Como de costume, a ética disto deve andar por aí em qualquer lado, não sei bem onde.

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Lixo

Mudei-me com os meus pais para Vila Real no fim da década de 1970. Por comparação com Lisboa, onde nasci, ou até Coimbra, onde passava o Verão com os meus avós, era um sítio pequeno e rural. Em pleno centro da cidade ainda havia vinhas, vacas e rebanhos de cabras. Desde essa altura, cresceu torrencialmente e sem grandes preocupações.

Quando cheguei, o Circuito, uma circunvalação de sete quilómetros de perímetro onde no Verão se realizavam ruidosas provas de automóveis, limitava pastos, bosques e quintinhas. Entretanto encheu-se de casas, vivendas e centros comerciais. Em pleno centro do Circuito, a ocupar o que já foi uma das zonas mais bonitas da cidade, está um dos maiores e mais feios centros comerciais do país. Acabado de falir, está virado para um enorme hotel abandonado desde os anos 1980, coberto de musgo e grafitti.

Quando vim estudar para o Porto em 1989 fui-me distanciando de Vila Real. Só há muito pouco tempo descobri que tinha alguma nostalgia por aquilo. Nem tanto pelo que lá passei mas pelo que não sei e vou descobrindo. Quase todas as histórias que vou apanhando são vestígios de ambição, empreendedorismo e falhanço.

No vídeo acima fala-se da primeira central eléctrica de iluminação pública do país, agora uma ruína nos desfiladeiros do rio Corgo, mesmo abaixo do centro da cidade. Não se pode dizer que Vila Real, Trás-os-Montes, ou até o país não tenham tentado inovar, empreender ou o que seja, mas o resultado sempre foi um acumular de ruínas, traquitanas, descartados levianamente em favor do próximo brinquedo, lixo preso nos arbustos à beira do rio.

Passear pelas ruínas de Vila Real tem-me lembrado o Anjo da História de Benjamin:

“Há um quadro de Klee intitulado Angelus Novus. Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar de qualquer coisa que olha fixamente. Temos olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas.O anjo da história deve ter este aspecto. Voltou o rosto para o passado. A cadeia de factos que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés.

Ele gostaria de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir dos seus fragmentos, aquilo que foi destruído. Mas do paraíso sopra um vendaval que se enrodilha nas suas asas, e que é tão forte que o anjo já as não consegue fechar. Este vendaval arrasta-o imparavelmente para o futuro, a que ele volta costas, enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até ao céu. Aquilo a que chamamos o progresso é este vendaval.”

O texto diz-nos que a fazer a história é difícil. É como ter a casa a arder e ter que escolher à pressa e sem aviso uma braçada de coisas para levar, arriscando talvez a vida por isso. Para o historiador o mundo está sempre a arder num longo braseiro de onde muito poucas coisas se salvam.

Filed under: Crítica

Mário Moura

Esta é a minha biografia.

Se a estão a ler para tentarem perceber se "eu sou alguém", se acreditam que só depois de lerem o meu cv é que podem levar-me a sério, concordar ou não comigo, nem vale a pena continuarem a ler. Se vieram aqui por isso, leiam os meus textos: todos os argumentos importantes estão lá.

Dito isto: escrevo sobre design, cultura, política há uns nove anos. Faço-o regularmente aqui. Menos regularmente em jornais (Público, i), revistas e livros. Alguns dos meus textos foram reunidos no livro Design em Tempos de Crise, editado pela Braço de Ferro (está esgotado).

Dou também conferências regularmente. Nas Belas Artes do Porto, nas Belas Artes de Lisboa, na Esad das Caldas da Rainha, na Esad de Matosinhos, na Experimenta Design, no ciclo Ag – Prata, por exemplo. Dei um ciclo de 6 conferências sobre Livros na Culturgest de Lisboa entre 2011 e 2012.

Tenho uma tese de mestrado sobre a estética da programação (já soube fluentemente dezasseis linguagens de programação – Java, C++, Basic, Javascript, ActionScript, Lingo, Starlogo, PostScript, Proce55ing (quando ainda se escrevia assim), etc. Mas é preciso praticá-las, e eu não tenho feito isso; suponho que acabei por enjoar, mas de vez em quando sinto o chamamento; faço o que posso por ignorá-lo).

Fiz uma tese de doutoramento sobre autoria no design.

Já ensinei perto de vinte cadeiras distintas, distribuídas pelas Belas Artes do Porto e Lisboa, e pela Faculdade de Engenharia do Porto: gostei de uma que dei sobre Autoria; gosto de ensinar edição e bookdesign; também gosto de história e crítica. Tipografia e criação de tipos, dou quando tem que ser (não desgosto).

Se alguém quiser uma bio mais resumida, respeitável e copy/pastável:

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.


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