The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Papelada

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É cada vez mais comum ouvir arquitectos a carpir a burocratização da arquitectura – a vida de um arquitecto tornou-se numa longa resma de formulários, licenciamentos, dossiês de aprovação, um longo etc. Sentem-no (e quem não sentiria isso) como um afastamento do que consideram ser a arquitectura “a sério” – que seria fazer casas, projectar, edificar.

A culpa é, até certo ponto, deles. A sua ambição como classe cumpriu-se: só um arquitecto pode exercer legalmente a arquitectura. Infelizmente, a Arquitectura, assim com A grande, tal como eles a definem, ultrapassa-os. Diz  respeito a toda a gente: inclui não apenas tudo o que está a ser projectado e edificado mas tudo o que já foi construído, tudo o que se sonhou construir, tudo o que se construiu apenas como figura de estilo ou especulação diagramática, e por aí adiante. É uma imensa responsabilidade. Desta, a parte mais chata é a responsabilidade legal. Tudo o que é construído deve passar por um arquitecto. Tudo o antigamente se fazia “artesanalmente” – casas, palheiros, armazéns, mudar uma parede de sitio, o que quer que seja – precisa de ser assinado por um arquitecto. Portanto é natural que a vida da maioria dos arquitectos se tenha tornado na de um notário. Têm toda a razão ao dizer que a Arquitectura é uma coisa inerente à condição humana, um direito. O problema é que se instítuiram como os únicos guardiães legais e científicos dele. Daí toda a papelada.

O caso é semelhante aos artistas plásticos ou aos designers, quando também se instituem como únicos produtores legítimos de coisas que dizem respeito a toda a gente. Muitos designers tentam também inscrever isso na lei. Tal como alguns artistas menos avisados também tentam de vez em quando criar uma Ordem dos Artistas. Felizmente nunca deu certo.

Seria o equivalente a legislar uma questão de gosto. Há quem acredite que a arquitectura, o design e até a arte estão acima do gosto. Que, quando são bem feitos, são coisas universais e incontestáveis, contudo não é difícil perceber que, por melhor que seja um artista, um designer ou um arquitecto, haverá sempre muita gente com a opinião perfeitamente legítima que não é assim tão bom.

Mas, voltando aos arquitectos: têm uma imensa melancolia pela arquitectura que – sentem – deviam estar a fazer. A última trienal de arquitectura de Lisboa, por exemplo, num dos seus textos introdutórios refere esse sufoco burocrático e tenta encenar um regresso ao que considera serem os verdadeiros actos e espaços da arquitectura: a obra, o edifício, o gabinete, regressa-se até ao tijolo, ao cimento, às vigas de aço dos arranha-céus. É um fetichismo por algo que já não existe, sobretudo aqui por Portugal onde boa parte dos arquitectos se dedicam à requalificação, um eufemismo para reorganizar o interior de fachadas de acordo com as tendências do mercado imobiliário.

É natural também que a arquitectura portuguesa se dedique a deificar o Arquitecto com A grande, os Sizas e os Souto Mouras, que se tornaram em argumentos vivos de autoridade, que se conseguem elevar da interminável discussão onde a maioria dos arquitectos sentem estar atolados. É uma fantasia, claro. O sonho de alcançar a incontestabilidade de um Pritzker é o sonho de ter uma arquitectura que já não responde a nada que não a ela mesma – onde uma barragem deixa de ser uma catástrofe ecológica e social para encontrar um destino superior em ser projectada por Souto Moura.

O tema desta Trienal é A Forma da Forma, o que deixa uma primeira impressão de Formalismo, uma doutrina que, na arte ou na literatura, coloca a sua ênfase no modo como as formas evoluem, se organizam, como habitam cada época ou contexto, obedecendo apenas às suas próprias regras. Implica quase sempre uma defesa da arte pela arte, de uma expressão resumida ao que se considera ser o mínimo essencial de uma dada disciplina, e portanto um certo fechamento, um afastamento da política, do social. Curiosamente em Inglês diz-se The Form of Form. E, olhando para a sua identidade gráfica, com aqueles grandes Ós quadrados tornados em superfícies onde se pode inscrever o que se quiser (um pouco como num impresso), percebe-se que Form também quer dizer Formulário. A papelada acaba sempre por voltar. É talvez um regresso do reprimido.

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Facebook

Quando vim para o facebook faz uns cinco anos percebi que, por comparação com os blogs, isto era bastante mais fechado. Entrava-se por convite e eram comuns os grupos fechados dentro de um grupo já de si fechado. A isso juntavam-se os algoritmos que escolhiam as notícias que podiam agradar. Agora, com a eleição do Trump, há uma rejeição extrema disto tudo. Denuncia-se  as pessoas que vivem dentro da sua bolha do facebook. Que, se não fosse por isso, saberiam que Trump podia ganhar e mobilizar-se-iam.

É uma suposição optimista. As pessoas sabiam que Trump podia ganhar mas apesar de tudo não se mobilizaram. Ou até se mobilizaram no sentido de o deixar ganhar. Por despeito. Ou para agitar as águas. O problema não é o twitter, o facebook ou a internet mas a fragmentação do voto à esquerda. Para muitos dos que escolheram Bernie, Hillary era pior que Trump. Até Obama era colocado no mesmo saco. Se quiserem, o problema foi mais que, para quase toda a gente nesta eleição, todas as opções eram igualmente más, o que se traduziu num voto populista contra o sistema. Enquanto à direita havia um candidato para votar, à esquerda isso traduziu-se em abstenção. O populismo é o mesmo; o efeito de superfície é distinto.

Não se vota em Trump por falta de informação credível. Vota-se nele apesar da informação credível e contra a informação credível. Daí que o apelo a que Zuckerberg censure as falsas notícias no facebook seja essencialmente um apelo encapotado a que se corte o acesso das bases da direita ao facebook. Não vai dar certo e, se der, vai colocar muito directamente o problema da neutralidade da internet. Será uma censura que muito facilmente se voltará contra a própria esquerda. Ainda agora é comum considerar-se como fantasias qualquer alternativa ao discurso económico neoliberal – e isto até em notícias, não apenas nas colunas de opinião. Porque se deve censurar o criacionismo e não outras crenças religiosas?

Não é o facebook que isola as pessoas, elas fazem-no muito bem sozinhas – trocadilho. Fazem-no artesanalmente. A tendência para se organizarem em grupos, com crenças próprias, vestuário seu, hábitos únicos, um discurso incompreensível para quem já não o conheça, é o que as pessoas fazem por natureza. A ideia que o facebook é o culpado por isso é mais outro exemplo de uma fé inflacionada nas virtudes da tecnologia.

E é também – talvez –  mais outro exemplo da desconfiança extrema que se tem pela ideia de colectivo. Ou pelo menos pela ideia de colectivo que não seja constituído por gente que se assume acima de tudo e contra tudo como um indivíduo. Fala-se de redes sociais mas estas são construídas para ampliar a ideia do indivíduo contra a de colectivo. A ideia de um facebook neutro é a sua redução a um conjunto de indivíduos.

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Só por causa das coisas

Só pedia uma coisa simples: não me venham acusar de censura ou de superioridade moral ou de não respeitar os pontos de vista alheios (ou outras tretas do género) quando não me apetece ficar preso numa discussão em loop no blog, no facebook ou em outro sítio qualquer. Podem falar o quanto quiserem, do que quiserem, até quando quiserem, mas não caiam na chantagenzinha de obrigar alguém a ficar a ouvir-vos. Não é censura, nem falta de respeito encerrar uma discussão sem haver um “lado vencedor”. Fazem-me impressão as discussões em que alguém não deixa o interlocutor ir embora. Já vi ao vivo várias vezes isso acontecer e é um sufoco.
Eu não discuto sob a premissa que estou a mudar os princípios ou sequer as opiniões do interlocutor. Assumo que quem discute comigo tem tantas convicções naquilo que acredita como eu creio nas minhas. Mudar de opinião ou de princípios não é impossível mas é raro. Discute-se para refinar e aprofundar os pontos de vista mútuos não para os aniquilar. Não assumam que por dizerem os vossos pontos de vista de um modo educado, estruturado e competente, isso levará o interlocutor a mudar de ideias, quando muito só levará a sério aquilo que estão a defender – o que não é, nem devia ser, o mesmo. Não assumo que as pessoas discordam de mim por ignorância e espero a mesma delicadeza. Há muitos, muitos anos, numa aula de estética o meu professor Álvaro Lapa disse que havia uma altura na vida em que se acredita que se pode mudar a opinião dos outros em discussões de café. Na altura não percebi mas ficou-me.
Assumo também que quem participa numa discussão tem as suas razões para falar. Não é isso que põe em causa o que defende. Não é por alguém ser de esquerda, de direita, não acreditar em partidos, ser homem, ser mulher, ser de Lisboa ou do Porto que dá legitimidade ou não a um argumento. Tento nunca assentar a validade de um ponto de vista nas intenções de quem o profere. Toda a gente tem um motivo para falar. Por isso, para mim quando se chega à parte da discussão em que se acusa o outro com base nas suas intenções, na psicologia ou na sua superioridade moral é sinal que a discussão já devia ter acabado. Quando se discutem as intenções já se anda nos territórios do insulto.

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Demonizações

Há opiniões que descobri, no último ano, dão-me vómitos literais. Uma delas é a demonização em curso dos eleitores que votaram no Brexit. Em muitos casos, tem-se o cuidado e a decência de salvaguardar que não, nem todo o voto foi xenófobo ou racista, que houve gente que votou porque tinha dúvidas legítimas em relação ao projecto europeu. Em outros, apanhei gente a dizer que o voto no Brexit era por definição xenófobo, na melhor das hipóteses por cumplicidade.
Houve gente ligada a comunidades imigrantes de fora do espaço europeu que foi acusada de xenofobia porque votou na saída porque consideravam a europa como um espaço xenófobo.
Nem se trata, no meu caso, de ser a favor ou contra a europa mas de deixar, nem que seja em possibilidade, um espaço de discussão para a europa, onde as opiniões críticas não sejam demonizadas, atiradas à pazada para a vala comum dos racismos, das xenofobias, da ignorância. Interessa a muito boa gente que o Brexit seja uma desgraça social e económica, que a Inglaterra seja realmente um fosso de racismo, sobretudo para servir como comparação que a Europa é melhor.
Note-se que por mais instrumentalizado que tenha sido pela extrema-direita, o voto era sobre a Europa e demonizar em bloco quem votou por convicções que nada têm que ver com xenófobia só entrega de mão beijada esses resultados e a vitória na mão da extrema direita.
Para muita gente isto não passou de uma discussão inconsequente de facebook, um divertimento intelectual onde se acusou levianamente das piores coisas gente que votou pela saída da Inglaterra da Europa por todo o tipo de razões com as quais de pode discordas mas não são monstruosas (razões laborais, económicas, etc.). Ao fim de algum tempo percebi (ou melhor senti) que não tenho grande consideração por gente que tem tão pouca consideração pelas opiniões de tantos. Não me interessa discutir este assunto nestes termos. Não tenho abertura de espírito que consiga abarcar a redução a lixo do voto, da opinião e das convicções de tanta gente.

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Viagens no Tempo

Hoje é o meu regresso tardio à escola. Dar aulas no contexto do design mudou bastante nos quinze anos desde que comecei. Em primeiro lugar porque o ensino mudou por pressão de Bolonha e por pressão da falta de dinheiro. Tornou-se bastante mais difícil ter tempo porque há mais aulas, mais alunos, mais relatórios, mais medo. Em segundo porque o próprio design mudou sem se dar conta. Adaptou-se ao ao contexto do empreendedorismo, das startups sem se dar conta que estava a mudar, com a falta de consciência histórica que o caracteriza (tende a ver a história como uma sucessão de personalidades, estilos e – quando muito – de técnicas).
 
Para demonstrar essa mudança basta ver as reacções extremas que ainda se tinha há pouco mais de dez anos quando apareciam designers que criavam os seus próprios projectos sem um cliente à partida. Quando muito tolerava-se a auto-promoção. Agora, mesmo quando se trata de um estúdio são raros os designers que não têm o seu projecto auto-iniciado. É até mais comum serem reconhecidos por esse trabalho.
Ter uma consciência histórica e crítica destas mudanças é difícil porque elas tendem a ser mudanças relativamente rápidas e totais de paradigma. Passa-se de um estado ao outro como naqueles filmes de viagens no tempo em que uma pequena mudança no passado altera o presente e só algumas pessoas se lembram como era dantes.
É a mesma coisa com o ambiente social que nos rodeia. Ontem ouvi uma música de hip hop americano onde se usavam os termos “AirBnB” e “hostel”, uma novidade para mim. Contudo, a palavra “hostel” já me parece datada. Usava-se de um modo insistente na segunda metade da década passada mas agora fez mais do que normalizar-se. É tão evitada como a palavra pensão.

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O Novo Populismo em Portugal

Apareceu um artigo bastante míope no Público defendendo que o populismo em Portugal não tem representação política. Vai tendo. O problema é que se assume que o populismo tem determinadas características que não são essenciais mais acessórias, nomeadamente a xenofobia, a promessa de mundos e fundos ou a existência de políticos que se apresentam como estando fora e contra o sistema político, os partidos, etc. Há mais fobias para além da xenofobia, há modos de política populista que passam pela promessa de empobrecimento selectivo de partes da população, há modos de prometer uma política fora da política que não passam por movimentos de rua.

O PàF neste momento percebeu que não irá alcançar facilmente a maioria absoluta pelos meios tradicionais. Ser-lhe-á cada vez mais difícil coligar-se com o PS, que há anos anda a associar ao despesismo, à irresponsabilidade. Assim, desde que perdeu as eleições legislativas tem produzido e encorajado um discurso extremo anti-esquerda que pinta toda e qualquer medida do actual governo como se fosse uma invasão soviética.

A estratégia, que devia ser evidente, é captar algum do voto abstencionista/populista de direita, gente que não vota porque os partidos são todos iguais e os políticos são os ladrões mas que até pode ir pôr o papelito na urna para afastar a esquerda “estalinista” do poder.

Acresce a isto também uma cobardia evidente em assumir que voltando ao poder, voltará a austeridade. Portanto na impossibilidade de apresentar o seu próprio programa dedica-se a demonizar o do governo do modo mais irresponsável. A diabolização que refiro é literal – o próprio Passos Coelho avisa que vem aí o diabo. E não é um acto retórico isolado. É reforçado por outdoors a apresentar o governo e os seus aliados como se fossem sovietes. Não se trata de um fenómeno reduzido às redes sociais mas estratégico.

Lembro-me perfeitamente das manifestações de direita que houve quando o PàF perdeu, com bandeiras portuguesas e cachecóis da selecção e uma ou outra bandeira monárquica a exigir a Cavaco um governo de gestão. E lembro-me do anti-esquerdismo primário evidente nas entrevistas aos seus organizadores. Lembro-me do movimento amarelo dos colégios privados e dos slogans e imagens a ele associado.

Antes disto tudo, a austeridade assente num discurso de diabolização de parte da população e do sistema político – “os priviligiados que vivem à conta dos nossos impostos” – já tinha características populistas. Não assentava numa promessa de mundos e fundos mas prometia a economia como uma espécie de bypass do sistema político tido como corrupto. Neste discurso, a Europa não é vista como um problema (o que aconteceu no Brexit) mas um aliado exterior contra os supostos maus hábitos nacionais.

Ou seja, temos um populismo que não é marcadamente anti-imigração mas sobretudo classista; anti-esquerda e até anti-direita mas que acaba por embarcar no modelo do empreendedorismo que o acaba por encaixar na nova direita neo-liberal; que vê a Europa de Merkel como uma oportunidade. E que se naturalizou ao ponto de nem se dar conta da sua existência.

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Subterrâneo

Sonhei certa vez que caminhava por uma estrada de terra cavada numa paisagem plana, pelo meio de um bosque de árvores pequenas e torcidas que não eram nem pinheiros nem sobreiros. Ao olhar para as lâminas de xisto esboroado do talude raso que ladeava a estrada, reparei que na verdade eram livros, atados em maços com cordel como aqueles restos de bibliotecas e arquivos que se encontram em aterros. Toda aquela paisagem, aquelas árvores, aquela vegetação rasteira, tinham sido plantados sobre livros, uma quantidade impossível de livros.

Lembrei-me desse sonho a pensar no que vou ouvindo nos encontros que tenho tido relacionados com a ephemera. O que já ouvi do próprio Pacheco Pereira, da Manuela, do Joao Lafuente, dos antigos resistentes do Luar, fazem-me pensar que a história das lutas de antes do 25 de Abril nos chegam de um modo tão seco, tão resumido, nos livros de História, mesmo os especializados. Ouvir estas pessoas, ver os seus objectos, recupera por momentos uma memória mais texturada, mais viva, que mesmo a melhor História não consegue descrever inteiramente.

Diz-se que é um período mitificado. Mas na verdade é ao contrário. O pouco mito que há desautoriza toda esta época. Silencia-a. É condescendente. Mas há uma grande história oral que brota sempre que estas pessoas se encontram, mas é muito difícil ter um acesso aos pormenores, à textura, àquilo a que mesmo os protagonistas não ligam muito. Coisas efémeras, que é um grande nome.

Depois destas ocasiões, cai-me em cima sempre como aquelas pessoas, aquele professor universitário que já assaltou bancos, aqueles historiadores que já tomaram parte de uma revolução, aquele senhor que comenta na televisão e que já atravessou fronteiras clandestinamente com livros às costas, como não é possível saber o passado, como ele é tão bem disfarçado debaixo do presente, como se os livros debaixo daquela paisagem inóspita tivessem por sua vez dentro deles um fogo permanente. É difícil voltar a olhar para um velhote no autocarro sem pensar que ele passou por essa mesma história extrema, que desempenhou um papel qualquer, por pequeno que fosse. Resistente? Retornado? Bufo? Pide? Funcionário? Nem interessa, apenas que logo abaixo do dia-a-dia, do suposto “Fim da História”, há esse braseiro.

Nota: Este texto foi publicado previamente no facebook.

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Em Directo da Praça da Alimentação

Há um género narrativo que eu respeito muito — em parte por ser quase sempre mal compreendido. Assume-se que é apenas um truque. Ou que é apenas comédia, sátira. Mas sinto-o sempre como algo mais subtil e duro do que isso. É ou deveria ser talvez um género como o Western, o filme de Gangsters ou a Space Opera. Falo de histórias sobre pessoas que trabalham em parques temáticos, feiras medievais, disneylandias.

O meu exemplo favorito na literatura é Pastoralia, de George Saunders, com um protagonista que trabalha num diorama vivo a fazer de homem das cavernas. É cómico, brutal, mas nem tudo o que é cómico é necessariamente uma comédia. Há mais exemplos: Choke, de Chuck Palahniuk; a webseriesAsk a Slave, baseada na experiência de uma comediante negra a trabalhar como actriz em reconstituições históricas. O efeito mais simples e directo que se pode tirar da situação é o contraste entre a História (que é uma coisa épica) e um emprego habitualmente precário e humilhante.

Pensar-se-á que este é um género tipicamente americano. A América vê-se a si mesma como o país do parque temático, onde tudo é um pequeno museu, recriação, versão de outra coisa qualquer. Mas o género tende a aparecer um pouco por todo o lado. Um bom filme sobre gente a levar vidas duras em parques temáticos é O Mundo, de Jia Zhangke, passado num parque temático de Beijing que reproduz em escala pequena monumentos e paisagens do mundo inteiro. É uma narrativa melancólica sobre existências miseráveis, em cenários absurdos. Imaginem que o Neo Realismo italiano não tinha como cenário cidades destruídas pela guerra, fábricas e bairros operários mas parques temáticos onde a Torre Eiffel está apenas a uma curva do caminho de Nova Iorque. Já agora: morre toda a gente no fim, de modo triste e repentino.

Eu respeito o género porque põe em causa uma série de ideias feitas sobre o que é o realismo, sobre o que é autenticidade. E — claro — porque alguns sítios em Portugal se estão a transformar em parques temáticos, onde a distinção entre habitante, figurante e funcionário hoteleiro se esbate. Daí que sinta a falta de ficção que lide com isso. Não ao modo dos novos Pátios das Cantigas e Canções de Lisboa mas que consiga ver esta nova vida com um mínimo de rigor. Preciso de uma modalidade de realismo que consiga descrever o sítio onde vivo.

Há uma necessidade básica de histórias sobre o sítio onde se vive e como se vive. Por várias razões, em certos sítios isso é mais difícil. Durante o Estado Novo, por exemplo, aquilo que podia ser contado sobre o país era fortemente condicionado. Contar histórias alternativas era um acto de resistência. Mesmo agora boa parte da nossa ficção é importada, o que não é um problema (o mundo é sempre maior e mais rico que uma das suas partes) mas coloca sempre a interrogação de como falar sobre estar “aqui”. É sempre possível usar o que nos chega como metáfora, mas o que fazer quando se vive dentro de uma metáfora? Que tipo de realismo nos é possível quando se vive dentro de um parque temático?

David Foster Wallace escreveu em 1993 um ensaio sobre a relação entre ficção literária americana e televisão (“Et Unibus Pluram: Television and U.S.Fiction”) onde defendia que o Pós Modernismo literário (mistura de géneros, pastiches, histórias dentro de histórias, realismo mágico, etc.) era uma forma de realismo para quem passava a vida não só passava a vida a ver televisão como construía a sua identidade pela televisão. Não se podia pensar em ser realista, deixando de fora a televisão. Era eliminar o modo como as pessoas se viam a si próprias, como viam o mundo em geral, as piadas que repetiam, os estereótipos que, de modo mais ou menos irónico, encarnavam.

Wallace insistia que: “If we want to know what American normality is — what Americans want to regard as normal — we can trust television. For television’s whole raison is reflecting what people want to see. It’s a Mirror. Not the Stendhalian mirror reflecting the blue sky and mud puddle. More like the overlit bathroom mirror before which the teenager monitors his biceps and determines his better profile.” É uma descrição mais apropriada, literal até, do facebook ou do instagram que da televisão.

Em 1993, as pessoas construíam as suas imagens a partir do que viam na televisão, e a televisão produzia e distribuía essas imagens tentando adivinhar o que as pessoas queriam. Era um ciclo, um espelho apontado a milhares de espelhos. Era um processo assimétrico na sua escala que concentrava o poder de produzir imagens numas poucas pessoas, enquanto assumia a relativa passividade e impotência de quem as via.

Com a internet, qualquer um pode produzir as suas próprias imagens. Aliás, é esperado que as produza. Se há trinta anos só um grupo relativamente restrito de pessoas podia ter uma identidade pública que excedesse o alcance do grupo de pessoas que conhecia pessoalmente, neste momento espera-se que toda a gente o faça, num grau menor ou maior. Um adolescente avulso, mediano, com uma conta do facebook ou um canal no Youtube pode ter tanto ou mais público que um colunista de jornal inglês por volta de 1800. Ou um empregado de escritório. Ou um arquitecto. Ou quem quer que seja.

Trocou-se meios distantes, indirectos, por uma produção, reprodução e partilha de imagens permanente, que não é superficial mas identitária. Determina o que se é em público, o nosso género, a nossa cor política, etc. Já não é a resposta a imagens construídas centralmente e transmitidas em massa mas um processo muito mais distribuído e aguerrido, onde se pode responder às imagens que nos são atiradas dos centros de poder com outras. Dizer que é distribuído não significa que seja justo, igualitário, etc. As pressões, as censuras e os abusos são constantes. Ou seja, para representar de modo realista uma vida, não se pode deixar de fora os facebooks, os instagrams, os sms, etc. É o oposto do aforismo de Debord: Tudo o que era apenas uma imagem é agora directamente vivido.

Muita da crítica moderna das imagens — Debord, por exemplo — perdeu ainda mais a sua utilidade. Os narradores pós-modernos perceberam que o desejo de ir além das imagens, de encontrar uma verdade, uma autenticidade, que elas nos ocultam se estava a tornar irrelevante. A desconfiança moral, platónica,da ficção moderna em relação às imagens, a crença que mentem, que escondem a realidade, esquece que a realidade inclui as imagens. A rejeição liminar da imagem não permite uma crítica eficaz da imagem. Assume que o espectador é essencialmente estúpido apenas pelo facto de ser espectador. Isso nem sequer era verdade quando se concebia o espectador como um receptor passivo — as pessoas respondem àquilo que vêem. Sempre. Mas agora, essa resposta tornou-se visível e integral às vidas de cada um.

Se aceitarmos que contar histórias e produzir imagens é inevitável, o verdadeiro nunca foi mais do que um momento do falso, não é um desenvolvimento recente, como insistiam os situacionistas. Quando se vive dentro de um parque temático, uma ficção que não o reconheça, que nos mostre o mundo sem isso, vai ser sempre insincera.

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Onde

Vila Real. As janelas da casa estão fechadas por causa do calor. A internet anda pastosa. No facebook, polémicas avulsas. O costume em Agosto. A propósito de uma exposição, alguém pergunta ao outro se a viu mesmo. Uma pergunta interessante. O livro de etiqueta aconselha a que não se discuta exposições que não se viu. O que reduz significativamente quem pode discutir arte em Portugal. Para quem vive em Vila Real, por exemplo, mais vale esperar que a arte passe confortavelmente à história e possa finalmente ser discutida. A actualidade cultural, tal como nos aparece pelos jornais, está fora do alcance.

Não é paradoxo nenhum. Arjun Appadurai defendia que enquanto nos centros a modernidade é percebida no tempo (novidade, futuro, etc.) na periferia é percebida como distância em relação ao centro. A cultura que é produzida no centro enquanto actualidade é consumida na periferia enquanto monumentalização da distância, do atraso, etc.

A coisa não se resolve produzindo na periferia, quando tudo o resto (distribuição, recepção, etc.) continua a ser feito no centro. Trazer um artista do centro para uma residência; filmar no interior. Nada disso funciona excepto como glorificação do centro. É isso que se sabe quando se cresceu em sítios como Vila Real.

É preciso não necessariamente uma cultura produzida na periferia mas uma cultura que possa ser consumida na periferia como se isso não fizesse diferença. Interessa a portabilidade: um livro, um filme que se vê pela internet, música. Coisas que não seja preciso ver ao vivo. Ou melhor cujo consumo ao vivo não é exclusivo. Que permitam a toda a gente participar delas como se fosse a primeira vez. Daí que a música de dança, por exemplo, seja uma coisa que se dá bem com as periferias.

Quanto à crítica, aquela que trata a qualidade presencial da cultura como essencial, essa não interessa mesmo nada. Walter Benjamin já o sabia , quando assinalou a Aura, a tal qualidade presencial da arte como uma coisa negativa. Ele acreditava que o cinema ou a fotografia podiam dissolver a aura, eliminando a necessidade, a autoridade, de ir ao local, ao centro. Mas não contava com a reinvenção do cinema como liturgia (é preciso vê-lo em sala, com um projector xpto, qualidade de som, etc.) e a fotografia como índice das experiências, como prova que se esteve lá (não há nada de mais reacionário que uma selfie).

Interessa mais a crítica que trata dos filmes, dos livros e dos sons tal como são consumidos em todo o lado. Por exemplo, de coisas que possam ser vistas no youtube, que possam ser tiradas da Amazon, que possam ser feitas em casa.

Voltando ao exemplo do começo, a crítica de arte quando se assume como a recensão de uma exposição é virtualmente inútil quando transportada para longe da exposição que a motiva. Não se lhe pode responder porque não se viu. Daí que um suplemento cultural lido em Vila Real ou até no Porto acabe por ser uma coisa a meio caminho entre a ficção, a coluna social e a imprensa local de um sítio onde não se vive. Não interessa realmente, excepto aos exilados temporários ou permanentes. Se é levada a sério, é por provincianismo.

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No Terraço

Escrevo este texto num terracinho com vista para o Marão nos subúrbios de Vila Real. Uso o meu portátil, um mac. Está ligado à internet através de um router também portátil. Enquanto escrevo, vou dando olhadelas ao facebook. Corre uma polémica sobre estágios de arquitectos, que começou nos jornais. Também vou lendo o Público, que prefiro “folhear” em pdf. Ando a ler vários livros ao mesmo tempo. Quando estou em viagem, ganhei o hábito de ler usando a app do Kindle do telemóvel. É prático. Quando estou à espera, que a viagem chegue ao fim, que o autocarro chegue, ponho-me a ler. Nas últimas semanas, tenho lido a biografia de Murray Bookchin – da qual já falei aqui ontem.

Bookchin é conhecido sobretudo pelo seu trabalho pioneiro ligando a ecologia à luta política. Hoje é uma ligação óbvia, mas quando a propôs no final da Segunda Grande Guerra era uma novidade. Mesmo a palavra “Ecologia” era  quase desconhecida.

Quando Bookchin se decidiu por um modelo anarquista de sociedade, fê-lo com a convicção que era a única maneira de impedir uma catástrofe ecológica que iria pôr em causa a sobrevivência humana. Contudo, ao contrário do que é habitual não propunha uma rejeição da tecnologia. Não acreditava que um regresso a modelos arcaicos de produção sustentasse uma sociedade mais livre e justa. A ideia de austeridade levava necessariamente a uma escassez que inevitavelmente castigava os mais pobres, aumentando a desigualdade. Para Bookchin, a igualdade só podia ser sustentada pela abundância, no que chamava a sociedade “pós-escassez”.

Com a automatização, por exemplo, seria possível libertar as pessoas de trabalhos repetitivos, perigosos, mal pagos, desde que se reivindicasse uma distribuição mais justa de rendimentos. Com a miniaturização, seria possível sustentar comunidades mais pequenas. O uso de combustíveis fosseis ou da energia nuclear só se justificava para alimentar cidades cada vez maiores. Numa escala mais modesta, onde a produção fosse local ou distribuída por pequenos ajuntamentos, seria possível usar energias renováveis. Não seria preciso gastar tanto dinheiro a transportar matérias primas, a transmitir a energia à distância, a deslocar os trabalhadores das suas casas para os empregos, etc. O municipalismo libertário de Bookchin assentava nisso.

Ao ler isso, neste terracinho em Vila Real, apercebo-me que sim, que há realmente a possibilidade real de ter a existência descentralizada com que Bookchin sonhava. Em Vila Real há hospitais, há um tribunal, há segurança social e correios. Mas aqui mesmo ao lado há aldeias onde os autocarros só passam (se passam) duas vezes ao dia. A “província” ainda é o sítio de onde se foge. Ou onde se volta de vez em quando como turista. As relações entre campo e cidade – a própria divisão – é de classe. Ganha quem tem a mobilidade suficiente para circular livremente.

A esta clivagem ajuda a cultura que é sobretudo urbana. Numa altura em que se pode aceder a quase tudo valoriza-se o que só pode ser visto ao vivo. Mesmo formatos que se transmitem facilmente pela net como o cinema são relançados como experiências que só se podem viver nas melhores condições, num cinema, com o melhor som. A arte é a dos grandes objectos e das grandes exposições. Qual o sentido de ler em Vila Real uma crítica sobre a importância da exposição x ou y em Lisboa ou Porto? Mais vale ler sobre o que se passa em Nova Iorque ou Londres, é quase o mesmo. Tão distante que podia ser ficção.

Nem sequer acho que a coisa se resolva com itinerâncias ou residências, que mais não fazem do que publicitar uma cultura de centralidade por sítios que não lhe podem responder. Se calhar era melhor coisas que não se limitassem a fazer circular o centro pela periferia. Valorizar por exemplo a portabilidade, a distribuição, o pequeno formato. Fica a sensação que se fala de edições, mas porque não investir em coisas que se possam aceder através do youtube, do bandcamp, e não apenas em cinemas, festivais ou museus. Porque não?

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Vidas Subversivas

Ainda por causa do projecto Páginas Inquietas, ando a ler Ecology or Catastrophe: The Life of Murray Bookchin. Cheguei a Bookchin porque era considerado uma influência pelos Up Against That Wall Motherfucker. A curiosidade aumentou quando soube que também tinha sido uma influência na criação do sistema político usado pelos Curdos do PKK (uma forma de municipalismo, um derivado do anarquismo). Na biografia, também são visíveis outras ligações, a Judith Malina, do Living Theatre, por exemplo. E algumas colisões: com os Situacionistas, por quem a antipatia era evidente mútua era evidente: Bookchin seria tipicamente insultado ao tentar mediar um encontro entre Morea (dos Motherfuckers) e Vaneigem. Finalmente os Situacionistas ingleses seriam expulsos em bloco por se darem com Bookchin, Morea, etc. Uma telenovela que só sublinha o lado autoritário e mais irritante do Situacionismo.

Bookchin considerava o que os Motherfucker faziam como uma forma de teatro de rua:

«Morea thought he could incite people to a revolution with artistic antics, but street theater “rarely makes [people] think, and it can get out of control and undermine serious organizations.” Above all, it could make you lose sight of politics, which had to be the top priority. “However personalized, individuated, or dadaesque may be the attack upon prevailing institutions, a liberatory revolution always poses the question of what social forms will replace existing ones”— that is, what concrete institutions, what forms of freedom. Art cannot answer that question. Serious revolutionary thought must “speak directly to the problems and forms of social management.”»

O percurso de Bookchin começou pelo Comunismo, continuou pelo Trotskismo, passou pelo anarquismo e terminou no seu municipalismo libertário. Abandonou o anarquismo porque considerava que a própria expressão se tinha tornado sinónimo de não-adesão, de estilo de vida, etc. A anarquia como logotipo inconsequente para chatear os papás popularizada pelo punk.

A biografia é um verdadeiro “quem é quem” dos movimentos de intervenção política em Nova Iorque no século XX e do modo como se foram ligando aos do resto do mundo: aparecem os anarquistas espanhóis da Guerra Civil, os Provo, o Maio de 68. Como texto e como documento, cai demasiadas vezes numa apologia acrítica de Bookchin que é sempre apresentado como mais sensato e sábio que quase toda a gente que encontra.

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Linhas fechadas

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Ontem cumpri parcialmente um dos meus mais velhos sonhos – e estou a falar mesmo de sonhos, dos que se têm à noite: percorri a pé a Linha do Corgo entre as antigas estações de Alvações e de Povoação. Já tinha esse sonho no fim da década de oitenta, quando ia e vinha do Porto para Vila Real de comboio, que demorava entre três e quatro horas e portanto era tão lento como as carreiras quando ainda não havia a IP4. Agora, ir até ao Porto de autocarro demora pouco menos de uma hora (medida entre a garagem em Vila Real e o Hospital de S. João). Os comboios acabaram quando o Governo de Passos Coelho subiu ao poder. Meses antes, Passos tinha lutado pela sua manutenção durante a campanha eleitoral. Seis anos depois a linha é um rasto empoeirado que só se distingue dum caminho por causa do cascalho grosso onde assentavam as travessas misturado na terra batida, pelas estações e apeadeiros emparedados e por algum parafuso ou rebite enfurrajado que ainda se encontra no meio da terra. Continua a ser uma paisagem incrível, surpreendentemente variada, mesmo no espaço dos quatro quilómetros que fizemos: vinha, socalcos antigos de antes da praga da Filoxera, sobreiros, oliveiras, floresta nativa que ia reaparecendo em troços sem cultivo. Cruzaram-se por nós mais três turistas, em sentido contrário, descendente, um casal estrangeiro mais velho e uma ciclista. É provável que tivessem saído de Vila Real ao começo do dia e fossem até à Régua. Não é mau a linha estar aberta aos caminhantes e ciclistas mas imagino o que seria se o velho comboio ainda funcionasse.

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Rasuras

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No Público, lado a lado, duas notícias sobre comboios na Régua.

Numa, dá-se conta da vandalização do Comboio Histórico, provavelmente por taggers como tantos outros que andam por aí a enfiar a assinatura deles em tudo quanto é lado. Ainda há uns dias, rabiscaram por cima de um mural do Nuno Saraiva na Mouraria. Criticar este género de acções é complicado porque leva quase inevitavelmente a acusações de censura. Defende-se que o grafitti é uma espécie de liberdade de expressão e portanto um direito. Contudo, ao contrário de um discurso escrito ou falado, a própria natureza do grafitti implica que se sobrepõe a outros discursos. Rasura-as. Podem ser outros desenhos, como os de Nuno Saraiva, ou pode ser por exemplo um elemento arquitectónico. No Porto, a maioria da arquitectura Brutalista, feita em betão sem revestimento, está neste momento pintada de cinzento. Tendo em conta que a intenção dos Brutalistas era enfatizar a natureza dos materiais, pode-se dizer que o grafitti eliminou a arquitectura Brutalista. Onde ficou a liberdade de expressão de quem fez ou de quem gosta deste tipo de arquitectura?

A liberdade de expressão é um direito mas também uma responsabilidade, um compromisso de garantir que aquilo que dizemos em público não limita ou apaga a liberdade de expressão dos outros. Muitos grafitters têm essa ética cívica, que leva a que só actuem com autorização dos donos, sobre edifícios devolutos, sem estragar outros grafittis. Mas a grande maioria limita-se simplesmente a deixar uma marca desleixada e rápida, uma rubrica a tomar posse de um lugar, quanto mais difícil o acesso melhor – veja-se o caso da grafitter americana que vandalizou irremediavelmente Parques Naturais com pinturas só para poder pôr selfies ao lado da sua obra no instagram (foi apanhada por isso).

O grafitti já tem muito pouco de resistência ou de contracultura. Se tem um mínimo de qualidade já é encorajado por Câmaras Municipais e Governos. Ainda é um instrumento de luta poderoso mas na maioria dos casos limita-se a uma agressão fútil, impulsiva e arbitrária. Tornou-se talvez a marca mais óbvia da degradação dos valores públicos em nome de uma expressão individual absoluta, que não admite limites. Aliás, a discussão sobre grafitti reduz-se em grande medida ao combate entre o direito de propriedade de quem tem a parede e o direito de expressão de quem assina – uma luta entre duas formas de propriedade privada, sem qualquer tipo de consideração para com o comum, o público, etc.

Curiosamente, a segunda notícia sobre Comboios na Régua tem a ver com património público histórico, um certo tipo de linha do qual só sobram poucos vestígios em Portugal, que foi eliminado pela Infraestruturas de Portugal (antiga Refer), sem se dar ao trabalho de consultar outras entidades ou sem dar ouvidos ao interesse do público, a atitude comum por estas bandas. E não deixa de ser irónico que enquanto se lamente a vandalização do Comboio Histórico se destrua levianamente património.

A linha destruída era um resto da Linha do Corgo que o governo de Passos se encarregou de encerrar definitivamente (meses depois do próprio Passos ter lutado para a manter aberta quando ainda estava na Assembleia Municipal de Vila Real). Tal como a Linha do Tua, era um troço extremamente pitoresco que poderia muito facilmente ser promovido turisticamente. Contudo, tem-se preferido investir em barcos. O problema dos barcos é que não são um transporte público, não levam estudantes às escolas ou gente ao hospital – são só turísticos e mais nada. Num comboio pode-se ler, adiantar trabalho, descansar, coisas que é difícil fazer quando se está a guiar um carro. Para muito gente ter um carro é sinónimo de liberdade, mas para muita gente um carro é uma limitação: é o tempo perdido a conduzir quando se podia estar a ler, a escrever, a trabalhar. Ou seja, o automóvel ou o turismo da maneira como estão a ser promovidos também rasuram outras possibilidades de vida.

 

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Com grande poder vem uma grande poesia

O que mais aprecio neste momento numa história de super-heróis é o lirismo. Não falo dos filmes mas dos comics, e quando digo “momento” estou a ser rigoroso: esta nesguinha de Verão enquanto já não tenho de dar aulas mas as férias ainda não começaram. Só me resta tempo para ler ou reler coisas curtas e rápidas. Assim, todos os anos tendo a voltar a um pequeno grupo de histórias, coisas obscuras e excêntricas. Mini-séries ou séries canceladas à margem dos intermináveis eventos que organizam agora as histórias de super-heróis: salva-se os universos, a realidade, a parada é sempre alta como aquelas músicas que parece que estão sempre a subir mas não vão a lado nenhum. Contra isso prefiro os super-heróis que salvam o universo mas de um modo mais intimista, mais alternativo. As coisas continuam a ser épicas e cruciais mas há poesia e absurdo. Exemplos. Seven Soldiers, escrito por Grant Morrison e desenhado por muita gente. Uma ameaça cósmica ameaça a realidade e só um grupo de super-heróis que nem sequer sabe que é um grupo de super-heróis lhe pode pôr cobro. Assim temos sete histórias auto-contidas que só se relacionam tangencialmente. O leitor no final fica na posse da história toda. Os personagens nem por isso. Marvel Boy, também de Morrison. Um soldado adolescente de um império anarco-fascista é o único sobrevivente de um naufrágio interdimensional na Terra. Caçado por um milionário coleccionador de absurdos e por agências governamentais, decide tomar a iniciativa e conquistar o planeta sozinho. Outro exemplo, o que ando a reler este ano: Defenders (2012), de Matt Fraction e (salvo erro) Terry Dodson. Embora Morrison seja o mestre do género, Fraction não fica atrás. Com Defenders aproxima-se ao que seria ler uma história de super-heróis escrita por Rimbaud – ou pelo menos António Maria Lisboa. Criam-se constantemente imagens e ideias a partir de justaposições inesperadas de linguagem. A cada quadradinho um universo, um superpoder ou uma sensação inédita.

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Páginas Inquietas

Este texto é a folha de sala da exposição Páginas Inquietas, patente no Espaço Mira, Campanhã. Tal como a exposição, foi concebido por Susana Gaudêncio e Mário Moura. Para já, disponibilizamo-lo online sem grandes imagens para que não concorra com a exposição, para que quem não foi tenha um estímulo para ir, e quem foi possa consultar facilmente o comentário do que viu. Com o tempo acrescentaremos mais imagens.

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Doze anos

Faz hoje doze anos que comecei a escrever aqui no blog. Lembro-me que foi num dia da semana, que ainda não tinha internet. Lembro-me que escrevia os textos em casa num iMac vermelho, transparente, os gravava num cd e publicava na escola. Era um processo lento. Mas a decisão foi rápida, demorou um instante. Foi como abandonar uma dieta. Ou cair de um prédio. Demorou um instante mas tudo mudou. Na altura, não pensei assim tanto no assunto. Foi excitante. Será que alguém ia ler? Não, na verdade assumi (com demasiado optimismo, é verdade) que alguém me estava a ler. Claro. Ia colocando cada texto com a certeza que estava a ser lido, mesmo sem ter os comentários ligados, mesmo sem acesso a estatísticas de uso. Não fazia ideia de quem me lia, mas alguém me estava a ler. Como podia ser de outro modo?

Não tinha sequer ideia do tipo de pessoa para quem estava a escrever. Designers? Estudantes de design? Pessoas? Se tinha na cabeça a imagem de alguém, era como uma coisa difusa, uma sobreposição de rostos e lugares genéricos, uma cara que se vê num sonho ou pelo canto do olho. Ou nem sequer isso. Uma abstracção. Via um público, apenas isso, a palavra “público”, que é como um x, como a incógnita numa equação. Um símbolo perfeitamente definido que esconde uma pergunta, uma expectativa.

Na altura, eu diria (convicto) que fazia crítica, agora digo que escrevia em público – o que não faz diferença nenhuma excepto sublinhar que nem sempre fazia recensões. Não tentava avaliar objectos ou eventos. Não escrevia com um objectivo definido, mas ia encontrando esse objectivo à medida que ia escrevendo.

O meu assunto favorito eram os hábitos dos designers, o modo como falavam, vestiam, liam, faziam, os locais que frequentavam, etc. Percebi que o design e os designers eram também abstracções, abreviaturas para coisas que se assumiam como certas mas eram de todos os feitios e tamanhos. Discutiam entre si. Tinham convicções absolutas do que eram e de como eram que não batiam certo. Falavam através de chavões – resolviam problemas, eram inovadores, queriam uma Ordem (como os arquitectos), não gostavam da Comic Sans, etc. Também os designers tinham as bordas esbatidas. Também eram uma incógnita, símbolos perfeitamente definidos que escondem uma pergunta, uma expectativa (doze anos depois, ainda são).

Entretanto comecei a falar mais sobre arte, cultura, política, não porque o design se estivesse esgotado, mas porque as coisas estão ligadas. Não escrevo para circunscrever o design, para determinar o que é ou não design e quem o pode fazer. Talvez o faça para perceber qual a importância pública do design. Qual a diferença que o design faz para quem o faz e quem não o faz. Daí que não limite, nem possa limitar o que escrevo ao design. Se não o vejo como uma coisa definida à partida, não posso definir à partida os limites do que escrevo. Não vejo a cultura, a arte, a política, o design, o cinema, como coisas separadas.

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Sempre o mesmo dia

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Tenho andado pouco por aqui. Para os textos curtos, uso o facebook, para os longos, o medium, o que deixa pouco espaço para o blogue. Mesmo assim, há tradições que importa manter, a do post do Dia da Marmota, por exemplo.

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Slideshow Chris Marker

Alguns leitores sugeriram que o artigo do Chris Marker ficaria melhor com imagens. Estou a guardar uma versão mais “integrada” para um livro impresso mas posso deixar aqui o slideshow da conferência respectiva.

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Chris Marker, o autor em fuga

Aqui fica mais outro ensaio de longo formato, desta vez sobre os guias Petite Planète. Serviu de base a uma conferência dada no âmbito do evento Travelogue Summer School, na Fbaup.

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2015

Como toda a gente, nesta altura do ano ando bastante entretido (e arreliado) a ler listas. A minha reacção foi escrever isto. É um texto mais longo que o costume (daí não o publicar aqui mas no Medium, que me dizem ser mais adequado ao long form). Não o leiam atrás de uma lista de compras ou de tendências. Espero que gostem.

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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

História Universal do: Estágio

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