The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Aniversário

Estava em viagem e quase me esquecia: nesta quinta foi o décimo primeiro aniversário deste blog. Se ainda vale a pena continuar? Claro que sim. O design anda numa fase irritante. Há um termo para isso, muito literal e muito irritante: tornou-se pós-crítico. Embora haja uma versão optimista (o design como modo de unir e não dividir, de apelar e sustentar ao consenso), eu acho péssimo. Não me parece que se viva numa época onde o conformismo se tenha tornado raro ao ponto de precisar de incentivo. A não ser que se esteja a falar do nosso governo, claro, e de outras sensibilidades parecidas. Aí, calculo que haja bastante procura para quem queira participar numa espécie de utopia pós-política, pós-crítica, consensual, etc. Parece pacífico mas é cada vez mais claro que se trata de uma forma de extremismo. Tariq Ali chama-lhe o Centro Radical. O design em maior que o grau que o resto tem-se mostrado disponível a participar da coisa. Daí que a crítica seja mais necessária mas também mais difícil de concretizar do que não.

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Nova Iorque

Percebi que é obrigatório ter uma primeira opinião sobre Nova Iorque, mais do que uma primeira impressão. É preciso dizê-lo em voz alta ou usando o teclado, porque nos perguntam isso a cada passo. Não podemos guardá-lo só para nós. Mesmo antes sequer de chegar. Vais sentir isto. Vais sentir aquilo. Que é como nos filmes. Que é familiar e não é. Que é vibrante, grande e o resto. É difícil não se vir sem um preconceito.

O que me tem impressionado (para já) são coisas simples que não poderia perceber sem estar cá. A paisagem nesta altura do ano é castanha escura e de aparência seca da cor do tijolo das casas. Todas as coisas parecem ter um aviso que é também uma instrução. Não me espantaria ver um sinal numa porta alertando para o facto de ela abrir. As notas de dólar têm um aspecto artesanal. Por comparação com as notas de euro –  que me fazem lembrar janelas de abertura de programas como o Photoshop ou o Freehand – os dólares parecem papel de embrulho para sabonetes vintage. A maioria dos aparelhos de uso público tendem a estar amolgados e distorcidos. Numa curta viagem de carro e depois como peão senti a condução muitíssimo mais agressiva do que em Portugal. Ouvi mais a buzina em dez minutos do que no último ano inteiro. Chegando do aeroporto de Newark, no meio dos imensos blocos de apartamentos, de prisões atarracadas, de fábricas, de  igrejas de torres afiadas sente-se, mais do que se vê ou se sabe, as silhuetas geométricas, enormes da cidade, tornadas planas e distantes pelo nevoeiro.

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Viajar

Viajar costumava ser uma tortura por antecipação. Pensava em tudo e voltava a pensar em tudo e voltava a pensar em tudo. Mesmo para as deslocações mais básicas. Ir visitar os meus pais por três dias implicava levar livros que chegavam para três meses, pelo menos. E uma vez lá acabava por ir buscar uma bd à minha velha estante e ficava satisfeito. Agora, é quase só sair. Andar entre Porto e Lisboa por uns anos fez-me isso. Habituei-me às malas. A lidar com as coisas que se esquece. Com as filas de aeroporto. Com esperar. Agora gosto.

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O Meu Primeiro Anti-Herói

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Não sei em que ano foi. É capaz de ter sido no final dos anos 1970. Eu apanhei uma  infecção dolorosa e febril num ouvido e fui obrigado a estar de cama por uns dias. Foi o meu pai que tratou de mim e não a minha mão como era habitual. Por alguma, razão, fiz a minha convalescência na Régua e não em Vila Real onde já morávamos na altura. Fiquei num quarto da casa grande da minha Tia-Avó onde nunca tinha dormido, talvez porque fosse mais ensolarado. Com os medicamentos, umas gotas para pôr de tanto em tanto na orelha, o meu pai trouxe-me dois livros. Um era o Como Funciona? que eu adorei, um album grosso com fotografias a cor cheias de grão acompanhada de gráficos explicando as entranhas de máquinas que muitas das vezes eu não sabia sequer que existiam. Havia de tudo, desde campainhas de porta até reactores nucleares e fornos industriais. Ainda o tenho, com a lombada coberta a fita cola. O outro era O Demónio da Torre Eiffel. Era daquelas histórias que metiam medo quando ainda não se tinha dez anos. Havia mortos inoculados deliberadamente com a peste. Havia perseguições. Ainda por cima, era o segundo volume da série. O meu pai tinha-me tentado com ele no Pão de Açucar em Lisboa, mas eu preferi uma história do Petzi. Entrar assim na história, a meio, apesar do laborioso resumo ao começo, ainda a tornava mais inquietante. O enredo andava à volta de uma estatueta assíria do Demónio pazuzu (que na altura andava na berra porque também tinha aparecido no Exorcista). Uma seita parisiense tentava deitar-lhe a mão por todos os meios possíveis. O que me atraía mais era a justaposição de paisagens melancólicas, quotidiano corriqueiro e mesquinho (incompetência policial, ambição política, traições idiotas) e o sobrenatural numa Paris onde, enquanto se perseguia um assassino vestido de demónio, podia saltar dos arbustos  inesperadamente um tiranossauro. No final, os bons eram obrigados a fugir. O vilão principal ficava com os louros. Era tudo estranhamente amoral e muito diferente de tudo o que eu lia por essa altura.

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Acima de tudo

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Ontem, pouco antes de chegar ao Porto de autocarro avistei na Circunvalação um outdoor do PSD. Não o consegui fotografar. Dizia “Acima de tudo, Portugal”. Pensei que era pena que só o Bloco se tivesse lembrado de inventar slogans em alemão. Este ia ficar no ouvido: “Portugal über alles”. Assim escrevi no facebook.

Para um partido que se tem colado sistematicamente às posições alemães, é uma máxima apropriadamente derivativa. Mas, ainda assim, o original “Deutschland über alles” tem uma vantagem. Composto numa folha de papel, a Deutschland fica realmente “über alles” – acima ou antes do resto. Na versão do PSD, apesar do que se garante, Portugal fica abaixo de tudo – com o próprio PSD ao topo. É um bom exemplo de paradoxo.

Até passava por uma gafe, mas depois de anos a ouvir estas pessoas a dizerem uma coisa e a fazerem o oposto (e vice versa) até acho que acaba por se ajsutar como uma luva.

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Irresponsabilidade

Outro dia, li ou ouvi alguém a chamar irresponsável ao novo Governo grego. Foram eleitos com um mandato muito específico e andam a tentar cumpri-lo. Se o fazem são irresponsáveis perante quem manda na Europa, os credores e a maioria dos colunistas portugueses. Se por acaso se desviam ou aceitam compromissos, esses mesmos colunistas os acusam  de irresponsabilidade para com o seu mandato e para com os seus eleitores. É uma posição impossível essa, de ter que escolher entre duas responsabilidades, onde até pedir uma posição intermédia é considerado uma forma de extremismo.

Já o nosso Governo está em outra posição impossível. Enquanto acusam a Grécia de irresponsabilidade, eles mesmos recusaram o mandato com que foram eleitos, substituindo-o por um completamente distinto. Foram irresponsáveis perante os seus eleitores. Disseram que a situação era má e que portanto eram precisas novas estratégias. Curiosamente, tudo o que alguma vez disseram ou prometeram ou garantiram falhou. Todas as vezes que um deles foi apanhado em falta se escusou com desculpas de circunstãncia. Todas as vezes que um dos seus foi apanhado a fazer o que eles próprios reprovam e reprimem duramente em outros, eles invocam o perdão. Como pode esta gente ser levada a sério quando fala de responsabilidade?

Durante os quatro anos, atribuiram a responsabilidade de tudo e mais alguma coisa ao Governo anterior. Ainda agora o fazem. Dizem que é preciso impedir os Socialistas de destruírem o país. Lembram o Sócrates. O despesismo.

Ora, eu lembro-me de me manifestar contra o Sócrates e não foi por causa do “despesismo” mas por já estar a cortar na cultura e no ensino superior mais do que na altura parecia possível (entretanto piorou). Por causa da precarização geral, que já era perfeitamente visível antes sequer da crise. Por causa da degradação do debate político. Da invisibilidade da maioria das questões que me preocupam. Ou seja: não vejo grande diferença positiva entre o Governo de Sócrates e este Governo. Quando muito vejo uma mudança para pior.

Houve e ainda há uma enorme arrogância intelectual assente em ideias e premissas que já pareciam erradas de início, moralmente e cientificamente, e entretanto foram, uma a uma, demonstradas como sendo perniciosas e falsas. Os exemplos são muitos: as privatizações virtuosas,  a austeridade expansionista, etc. Abandonada a pretensão de ciência, sobra apenas o argumento da força: ou cumprimos ou não nos dão dinheiro. As ideias pouco interessam. Diz-se que afinal o debate não era técnico, científico, mas político. O que significa neste caso a imposição de interesses poderosos (a Alemanha, a banca) sobre tudo o resto. Até isso é uma degradação, agora da ideia de política, porque não é debate nenhum, apenas um totalitarismo cobarde, que pára apenas no momento de se assumir às claras.

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Prémios e Transparência

‘When you have prizes for art, you will always have people complaining that prizes are just politics, or that they reward in-group popularity or commercial success, or that they are pointless and offensive because art is not a competition. [James] English believes that contempt for prizes is not harmful to the prize system; that, on the contrary, contempt for prizes is what the system is all about. “This threat of scandal,” as he puts it, “is constitutive of the cultural prize.” His theory is that when people make these objections to the nature of prizes they are helping to sustain a collective belief that true art has nothing to do with things like politics, money, in-group tastes, and beating out the other guy. As long as we want to believe that creative achievement is special, that a work of art is not just one more commodity seeking to aggrandize itself in the marketplace at the expense of other works of art, we need prizes so that we can complain about how stupid they are. In this respect, it is at least as important that the prize go to the wrong person as that it go to the right one. No one thinks that Tolstoy was less than a great writer because he failed to win the Nobel. The failure to win the Nobel has become, in the end, a mark of his greatness.’

De um artigo que li há uns anos na New Yorker sobre a natureza inevitavelmente escandalosa dos prémios nas artes e que poderia ser perfeitamente aplicado à tradicional peixeirada que é a ida bienal de Veneza. Enquanto andava a catar artigos sobre Veneza encontrei este, onde se começa logo com: “Uma coisa foi o processo de escolha – talvez o mais polémico de sempre, até hoje -, outra coisa, bem distinta, foi a escolha, em si – infinitamente mais consensual e geradora de expectativas.” É sobre Paiva & Gusmão em 2009. Podia ter sido escrito este ano.

Evidentemente, uma coisa é a natureza escandalosa dos prémios, outra é a incapacidade pura e simples de descrever publicamente um processo de selecção, qualquer que seja ele – o grau zero de transparência. Este ano penso que se atingiu um nível que só pode ser piorado se algum responsável político por alguma selecção futura disser (depois de pressionado pelos jornalistas) que acha que alguém foi escolhido, sim, foi mesmo alguém, embora não possa avançar pormenores, como podem compreender.

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Opacidades, Transparências e Espelhos

Independentemente dos méritos que possa ter ou não a obra de João Louro, o processo através do qual se selecciona artistas para representarem Portugal está-se a tornar ele próprio mais representativo do estado das coisas do que qualquer obra que se possa escolher – incluindo a de Joana Vasconcelos, que como já defendi em outra ocasião (aqui, por exemplo) é o espelho perfeito do poder que nos governa (um transporte público desactivado usado como centro de congressos, loja gurmê e cenário para apresentação de uniformes de equipes de futebol patrocinado por dinheiros público-privados).

No Público desta quinta, depois de um artigo sobre as considerações do artista em relação ao evento, à obra, chega-se nos últimos parágrafos ao que realmente interessa: quem paga, quanto, e quem é o responsável pela selecção. As resposta são curiosas. O artista começa bem, escusando-se “a revelar o orçamento previsto para toda a obra” – já no caso de Vasconcelos era necessário contratar um auditor só para ter uma ideia dessa coisa básica.

Do processo de selecção, só se pode ficar com a boca aberta. O artista enviou por sua iniciativa uma proposta: “Apresentei um currículo, lancei-me para a frente. Acho que muita gente o fez e eu fui mais um dos que fez[.] Por algum motivo a minha proposta, o meu currículo, as minhas obras foram escolhidas em detrimento das outras e portanto é um processo muito simples.”

“Por algum motivo”. Boa. Fiquei esclarecido. E quanto aos outros candidatos? A DGArtes esclarece: “Ao longo dos anos temos recebido alguns artistas a autoproporem-se para Veneza. Um número pouco significativo.” Devem estar a gozar.

O editorial desse mesmo Público opina que “o processo deveria começar pela nomeação de um comissário que depois procederia, com transparência, a uma selecção. Mas a falta de dinheiro parece empurrar a iniciativa para os próprios artistas, que ‘se candidatam’ e acabam por ser aceites porque já conseguiram o essencial: financiamento de mecenas. O Estado acrescenta o resto (que é pouco) e lava daí as mãos.”

Ou seja, estamos perante o esplendores da vida privatizada. Embora se vote num governo para nos representar, esse governo delega essa representação em interesses privados que, em troca de um alívio de impostos, patrocinam e na prática decidem, quem nos representa numa dada área cultural.

Se não há dinheiro para fazer as coisas com transparência, devia-se pura e simplesmente não as fazer: a alternativa é muito evidentemente turva.

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Quatro anos

Ainda tenho a sorte de ensinar num curso com quatro anos. Olho para os meus alunos do último ano e imagino: podiam estar lá fora. E em geral até estão. No segundo semestre mandam-nos estagiar e eles diligentemente lá vão, como se estivessem a trabalhar a sério. A maioria não está preparada. Tanto enquanto designer gráfico como enquanto trabalhador. Neste último caso, nunca há-de estar porque a nossa sociedade actual foi deliberadamente afinada para apanhar em falso quem trabalha. Não se pode preparar ninguém para isto porque as regras mudam de modo a que não sejam favoráveis.

Enquanto designer, a mesma coisa. A profissão foi obrigada a mudar. Tornou-se num secretariado de pequena dimensão. Ainda é ensinada como se pudesse ser mais do que isso: os velhos designers trabalhavam sobretudo para o Estado, indirectamente como gabinetes de consultadoria externa. Com menos Estado tudo isto secou. Os grandes gabinetes fecham. Tudo o que seja grande projecto municipal, governamental, com fundos europeus, é rapidamente consumido como uma carcassa no meio do deserto.

A solução seria formar gente com capacidade para corrigir tudo isto onde realmente interessa, que é a nível político. Mas os cursos pequenos, utilitários, orientados para o mercado, não chegam nem querem chegar para isso. E tendem a ser subservientes a quem manda. Diz-se que se vai fazendo o que é preciso para garantir o dia-a-dia, mesmo que isso seja nocivo, para garantir que num futuro próximo se pensa a sério em mudar as coisas, é preciso engolir sapos, etc. Ouço-o desde há anos. Deixei rapidamente de ligar.

Não me interessa muito mudar as coisas através de grandes planos generalistas (para isso já houve Bolonha, ou o Euro, ou a União Europeia). Interessa-me que as coisas funcionem no dia-a-dia. É aqui que se percebe se cada um destes grandes planos funciona ou é um entrave.

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Aquiles e o Vasco Pulido Valente

Olhando com atenção para certos fenómenos naturais consegue-se inferir padrões: nas marés, nas movimentações dos astros, no Vasco Pulido Valente. No seu texto de hoje no Público, por exemplo, argumenta que:

“O desenvolvimento económico depende dos recursos naturais (antigamente do carvão e do ferro), da situação geográfica, das comunicações, dos capitais disponíveis, do mercado interno actual ou potencial, das vantagens no mercado externo, da estabilidade social e política, da eficácia do Estado e por aí fora. Não depende da educação e formação do povo. Pelo contrário, a educação e formação do povo dependem de um desenvolvimento regular e crescente.”

Parece-me curioso que consiga isolar “as comunicações, [os] capitais disponíveis, [o] mercado interno actual ou potencial, [as] vantagens no mercado externo, [a] estabilidade social e política, [a] eficácia do Estado e por aí fora” da “educação e formação do povo”. Fica a sensação que, para Pulido Valente, estas últimas são uma espécie de extravagância, um bónus, em última análise inúteis.

Ver o desenvolvimento como uma causa e a educação como um efeito lineariza uma relação que na verdade tudo indica ser circular: o desenvolvimento e as condições materiais alimentam a educação que por sua vez alimenta o desenvolvimento e as condições materiais, etc. Perguntar o que veio primeiro é tão inútil como fazê-lo em relação a ovos e galinhas.

A mudança é cumulativa e lenta. Nem há nada sequer que garanta que é uma melhoria. Apenas que as coisas mudam. O problema de Pulido Valente é uma espécie de imobilismo conservador: toda a mudança lhe parece a degradação artificial de uma condição original. É como o paradoxo de Zenão: Aquiles precisa de percorrer metade da distância que o separa da tartaruga, mas a tartaruga entretanto avança sempre mais um pouco e o processo recomeça. Para Zenão era um paradoxo mas apenas porque não tinha as ferramentas intelectuais para o desfazer. O processo era cumulativo. Repetido uma infinidade de vezes, a acumulação levava Aquiles até à tartaruga. Na verdade, não há paradoxo nenhum.

Já paradoxal quanto baste é todo o acumular de contradições de Pulido Valente, que termina  avisando que, antes de se pensar outra vez na educação como algo útil ao desenvolvimento “seria bom que, por uma vez, [se pensasse] primeiro.” – o que se parece muito com assumir que se calhar até seri útil ter educação e formação antes do resto.

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Amigos amigos

Tenho andado mais irritável. Para não me chatear, isolo-me. Não de toda a gente. Reservo-me aos amigos amigos. Todos os dias me aparece gente a mendigar o meu entusiasmo. Têm um projecto. Têm uma ideia. Precisam de uma participação num congresso ou num debate qualquer. Nunca sei  se ao entusiasmo que pedem corresponde algum entusiasmo que realmente sintam, ou se é apenas o protocolo destas coisas, do empreendedorismo, que exige de quem o queira praticar como pré-requisito um discurso que parece que tem açucar a mais no sangue talvez até alguma coca no nariz.

O entusiasmo já me parece monstruoso. Sou supersticioso em relação a ele. Não acredito.

Gosto que me expliquem bem as coisas. Gosto de concisão e de economia, de gestos, de palavras ditas ou escritas, mas sobretudo escritas – nos outros mas também em mim mesmo. Se pudesse reduzia as minhas interacções públicas à escrita. Tirando o que faço em público, reservo-me aos amigos amigos.

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“Heróis”

A minha “especialidade” – o assunto da minha tese de doutoramento – é a autoria no design, portanto para mim é bastante claro: quando se reflecte sobre o passado do design português, tende-se a traduzir tudo para nomes próprios. O que quero dizer com isto? Temos o estúdio ou o gabinete ou o organismo X, que foram importantes, fizeram isto e aquilo, mas quando se quer falar sobre o assunto, isola-se o designer, arquitecto ou ilustrador Y. Na pior das hipóteses, faz-se dele um herói, um Siza.

É uma questão de método. Treina-se as pessoas para perguntar quem é o autor, como se isso explicasse tudo. Depois, cai-se em situações embaraçosas: faz-se um trabalho sobre um colectivo e não há autores; diz-se que é autoria colectiva, o que no fundo é definir pela negativa uma situação onde se rejeita a autoria (porque seimboliza uma forma de autoridade, porexemplo) em termos daquilo que rejeita. Não é um erro mas é uma posição ideológica e acrítica.

O desnorte pelo qual passam o design, as artes e a arquitectura aqui em Portugal fica espelhado neste louvor dos heróis. Quando não se consegue reflectir ou experimentar sobre modos de organização acaba por se cair no indivíduo como unidade. Personaliza-se porque não é possível fazer mais nada. O “herói”, o “grande homem” é apenas sintoma de uma incompetência disciplinar generalizada. Onde não há sistema, sobram pessoas. Na pior das hipóteses como focos de autoritarismo.

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Hoje

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Participo com um texto. Inaugura hoje.

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O património por quem não percebe peva da coisa

Uma coisa que disse hoje numa aula e só me lembrei agora. Era sobre a importância da história para um designer. Não apenas da do design mas da história em geral. Disse que há agora uma grande pressão sobre os jovens designers e não só para serem empreendedores, inovadores, pensarem fora da caixa, etc. O que significa não ligarem muito à história, às tradições e aos hábitos. Mas por outro lado há também uma pressão igualmente grande para que se use essas qualidades ao serviço do turismo. Designers, arquitectos e outros empreendedores são incentivados a construir, para turista ver, uma coisa que pareça autêntica, tradicional, com o recurso a ferramentas vindas do marketing, da gestão, do design thinking e outras tretas do género. O resultado é, como seria de esperar, monstruoso. Pensem na Baixa Pombalina, pensem no quarteirão das Cardozas. Pensem em cada tasca/bistrógurmê com uma pipa à porta e cozinha de fusão. É a tradição falsificada em massa, do modo mais preconceituoso e arrogante possível, por uma sociedade que foi treinada para a desprezar, e que portanto acha que é fácil.

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Os tempos mudam, o design nem por isso

É verdade que à primeira vista a relação do design (e já agora da arquitectura) com os estágios é antiga. Desde os primeiros tempos, quando o design ainda mal se chamava isso, que se parte do princípio que a maioria dos profissionais terão que passar por um período de estágio num atelier estabelecido, para aprender a coisa na prática, para se integrar no mercado de trabalho, etc. No fundo, era uma continuação da tradição anterior de aprendizado. Nunca foi uma solução perfeita mas ia funcionando, melhor ou pior.

Contudo, mesmo um observador desatento já se devia ter dado conta que os estágios já não são que eram – provavelmente nunca foram. A razão de ser do estágio consistia em trabalhar de graça ou quase em troca de aprendizagem. Agora assume-se que qualquer tipo de trabalho é uma forma de aprendizagem, logo deverá ser feito de  graça. O estágio massificou-se. É aplicado a todo o tipo de profissões e situações. Resume-me muito simplesmente a obter trabalho a custo zero. Se há realmente algum tipo de aprendizado, só depende da boa vontade do patrão, mas na grande maioria dos casos não passa de uma espécie de praxe profissional, bem pior que as académicas porque pode nunca terminar.

As histórias de horror são muitas.

Por tudo isto, deveria haver bastante cautela por parte de designers cada vez que invocam a importância do estágio, etc. Os tempos mudaram; seria bom que a ética do design os acompanhasse.

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Enjomin

Aprecio o trabalho de editor de Vítor Silva Tavares, gosto de o ouvir falar, gosto do que escreve. Depois de ler o que Hugo Pinto Santos escreveu no Público sobre ele, quase que me arrependia disso tudo. Por temperamento prefiro crítica que fala de obras e não da vida dos autores. É difícil fazer isso com gente como Rimbaud, João César Monteiro, Luiz Pacheco ou o próprio Vítor Silva Tavares, que tiveram vidas deliberadamente rocambolescas, mas é possível. E, mesmo que se acabe por falar de vidas, algum distanciamento seria útil nem que fosse para evitar o enjoo do leitor.

Ora vejam uma pequena amostra (com a graxa e a verborreia mais embaraçosa a bold):

“Com uma generosidade que não escancara a sua nobreza – porque, nesse triste caso, deixaria de o ser –, Vitor Silva Tavares enviou mais poemas do que os dois que deveriam figurar na revista. Assim se chegou, após a publicação inicial, a um conjunto poético que perfazia oito composições, que deixou nas mãos, até hoje gratamente sideradas, de Ricardo Álvaro. Com ele ficou ainda o título que é hoje o mesmo: Púsias. É ele devedor da ironia de Vitor Silva Tavares, e da sua graça (maior e mais total do que o humor). “Tinha-as para aí, mas não sei onde púsias”, terá dito.

A ideia de uma plaquette começou então a fermentar no espírito destes agentes secretos da agitação poética. Aos dois primeiros poemas de Vitor Silva Tavares vindos a lume no referido número da publicação (Je suis prêt e Era uma vez), juntavam-se, assim, os que este príncipe dos editores legava ao espanto crescente dos que iam rodeando este milagre.”

É bastante apropriado que nesta temporada particularmente conformada do nosso país se vote um culto babado aos não-alinhados e aos malditos – sem que se corra sequer o risco (claro) de lhes seguir o exemplo. Caso alguém o quisesse fazer, desconfio que uma boa estratégia seria não andar a debitar tamanhas doses de sacarina em público.

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Social Mistrust

Hoje dormi até mais tarde, até às nove e meia, o que nesta altura do ano me traz sempre sonhos muito vívidos, cheios de pormenores. Num deles conduzia por uma estrada estreita de Trás-os-Montes onde o carro mal cabia. Em outro, ouvia José Rodrigues dos Santos na televisão a criticar um post aqui no blog. Alguém me dizia que eu me devia sentir irritado, que devia responder imediatamente, mas não conseguia senão estar indiferente. Rodrigues dos Santos ia enumerando coisitas, gralhas, repetições de palavras, coisas que ele via como defeitos de escrita, e foi assim que percebi quando acordei que tinha amalgamado numa só figura António Araújo do Malomil e José Rodrigues dos Santos cujos livros criticou com o seu olho clínico para a picuinhice.

O sentimento de indiferença importunada era-me familiar. Sinto-o quase todos os dias sempre que penso na esfera púbiica do meu país, sempre que assisto ao prós e contras, sempre que ouço alguém a defender os estágios, ou a gabar Bolonha, a queixar-se do despesismo, a lamentar a irresponsabilidade dos gregos, etc. Já só peço que este passe e venha o idiota seguinte. Já não os consigo distinguir. Nem sei se é pior a direita neoliberal que ainda garante que isto é tudo um sucesso, ou a esquerda “moderada” que acha que é possível melhorar tudo sem mudar quase nada, o menos possível.

A minha irmã diz-me que isto é “social mistrust”, que é muito mau, e tem toda a razão. Desconfiar do próximo como habitualmente se desconfia de um Governo ou de um Primeiro Ministro.

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Pastar

Tenho tido mais vontade de escrever sobre design nos últimos tempos e demorei algum tempo a perceber porquê. Afinal é bastante simples.

A política nacional tem sido um desconsolo. Não tem havido falta de debate, de opinião informada, mas as instituições não tiram as devidas conclusões. Não falo do caso da Segurança Social por pagar (ou outro caso qualquer) mas de coisas mais graves. A austeridade falhou em toda a linha, só serviu para dar graxa à Europa. Mas ainda se discute como se fosse um problema de afinação ou de aplicação. As privatizações é o mesmo. Todos dias se percebe como são um mau negócio. Mas insiste-se sempre em colocar o plano da discussão num ponto onde ainda parece que se leva a sério esta possibilidade. Interessa encerrar a discussão porque já não há paciência. Neste momento, importa lembrar a todos os opinadores e decisores que tomaram e defenderam estas posições que garantir lá fora a seriedade nacional através da aplicação de políticas erradas e destrutivas não as torna certas ou positivas. Importava entender que não interessa ouvir gente que se enganou sistematicamente. E mesmo ouvir gente que mudou de ideias não interessa tanto como prestar atenção aos que tiveram razão desde o começo.

Deixei de escrever tanto sobre política nacional aqui no blogue porque há poucos indícios de isto acontecer. Ainda se insiste numa discussão que na minha opinião já devia ter passado.

Quanto à arte e a cultura em geral, é quase o mesmo. É uma área depauperada, com algumas responsabilidades de representação. Contudo, depois de anos de crise, a resposta tem sido anémica, para não dizer nula. Resume-se em grande medida a exercícios formalistas, que conseguem a proeza de reduzir a intervenção política a um jogo inconsequente de citações. O político é aqui o que sabe citar antecedentes políticos. A recepção crítica (artigos, prémios, iniciativas) também não ajuda de todo, insistindo em recompensar a ambiguidade e o formalismo reverente. Quem vá ver arte em Portugal guiado pelos jornais, terá bastante dificuldade em reconhecer um país em crise. Em geral, a resposta que ouço a estas inquietações é qualquer coisa como “Mas nem tudo pode ser político.” – como se houvesse sequer excesso de política na arte e na cultura portuguesa.

Assim, volto ao design, não porque esteja mais interessante – tornou-se no braço armado do empreendedorismo bacôco, inovador, gurmê e pechisbeque – mas simplesmente porque comecei a fazer uma espécie de transumância desiludida. Abandono uma pastagem imbecil e desesperante na esperança que outra esteja um pouco melhor. Até agora nada.

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Será que já é isto?

Até agora o Ano do Design tem sido uma valente desilusão. Ou melhor: indefinição. Que começa logo com o ano propriamente dito. Não se percebe muito bem quando a coisa começa ou acaba. É 2014? É 2015? Já acabou? Será que já é isto?

As próprias iniciativas, seguindo a deixa do ano, também não se percebe muito bem onde começam e acabam. A exposição A Liberdade da Imagem, por exemplo, queria ser a um tempo sobre o design de uma época mas também se quis colar às comemorações dos quarenta anos do 25 de Abril (talvez para aproveitar  financiamento?) e depois também se dispersou por um conjunto de locais que obrigavam o espectador a uma autêntica estafeta. E porque se expunha design dos anos 70/80 em espaços medievais, românticos, oitocentistas? Os objectos (que tinham interesse) diluiam-se dentro dos espaços, muitas vezes já sobrecarregados, onde estavam expostos (o Museu Guerra Junqueiro é o caso mais flagrante).  Fica a impressão que se tentou cumprir demasiados compromissos à custa da integridade do próprio tema.

Apesar de tudo, fui dando o benefício da dúvida. À falta de mais informação – posição sobre os colonatos, por exemplo –, boicotei a iniciativa seguinte, uma exposição feita em parceria com a Embaixada de Israel. Tal como evito colaborar com o Governo de Portugal, também o faço com o Governo de Israel. Outras iniciativas como o site do Design Português, já me queixei delas em outras ocasiões. Tal como já me cansei de o fazer em relação ao design de Siza Vieira, quase todo muito fraco, que não justifica a atenção de uma exposição num ano do design que não faço ideia se está a terminar ou não. Será que só é isto?

Como iniciativa mais ou menos directa deste Governo na cultura, percebe-se porque foi escolhido o design. À vista pouco informada, parece sempre mais útil, inovador, empreendedor e orientado para exportação que o resto das artes (para não dizer com complexos de inferioridade e ansioso de agradar). No resto das artes, pode-se sempre patrocinar uma Joana Vasconcelos que se ponha a jeito mas não se pode chamar a isso o “Ano da Arte” sem cair no ridículo.

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Espacialização

Já se tornou habitual dizer isto todos os anos mas já nem consigo revirar os olhos quando me falam do ensino pós-Bolonha como valorizando a especialização, entre outras inanidades do género. Que era uma treta, soube-o desde o primeiro momento, ainda antes de começar a dar aulas, antes ainda de Bolonha começar a sério, quando tirei o meu mestrado. Era suposto ser uma especialização. Na prática, a necessidade de captar e integrar alunos das mais diversas áreas tornava-o num curso de generalidades, nem sequer de cultura geral.

Mais tarde, quando Bolonha começou a funcionar, o padrão repetiu-se nas licenciaturas: cadeiras minúsculas, modulares, de modo a suportar a mobilidade dos alunos, o ideal Bolonhês que qualquer pessoa poderá frequentar o que quer que seja. E por favor não invoquem as precedências. Até as cadeiras com precedências são obrigadas a estruturarem-se à semelhança das outras: pequenas, rápidas, etc. Portanto o estrago é quase o mesmo.

Ao nível dos conteúdos, a impossibilidade crescente de dar matéria com algum nível de profundidade leva a uma epidemia de cadeiras genéricas: cadeiras de antologia, onde cada aula é dada por um professor convidado diferente; cadeiras de metodologia, que se resumem a auto-ajuda para burocratas.

Junte-se a isto falta de dinheiro, que quer dizer: as maiores turmas que se possam enfiar numa sala ou num buraco qualquer do horário – e depois venham-me falar de especialização.

Isto do ponto de vista do aluno. Do ponto de vista do professor, o problema é o mesmo. Eu sou obrigado a dar uma tal quantidade de cadeiras distintas que há uns anos fiz as contas e concluí que estava praticamente a dar um ano inteiro de curso. Os conteúdos são (neste momento) edição e paginação; design de tipos; crítica de design; história do design; e (claro está) metodologia (porque nenhuma distiribuição está verdadeiramente completa se não estivermos a dar pelo menos uma cadeira com a existência da qual nem sequer concordamos). Como é possível ser especialista nisto tudo?

Filed under: Crítica

Mário Moura

Esta é a minha biografia.

Se a estão a ler para tentarem perceber se "eu sou alguém", se acreditam que só depois de lerem o meu cv é que podem levar-me a sério, concordar ou não comigo, nem vale a pena continuarem a ler. Se vieram aqui por isso, leiam os meus textos: todos os argumentos importantes estão lá.

Dito isto: escrevo sobre design, cultura, política há uns nove anos. Faço-o regularmente aqui. Menos regularmente em jornais (Público, i), revistas e livros. Alguns dos meus textos foram reunidos no livro Design em Tempos de Crise, editado pela Braço de Ferro (está esgotado).

Dou também conferências regularmente. Nas Belas Artes do Porto, nas Belas Artes de Lisboa, na Esad das Caldas da Rainha, na Esad de Matosinhos, na Experimenta Design, no ciclo Ag – Prata, por exemplo. Dei um ciclo de 6 conferências sobre Livros na Culturgest de Lisboa entre 2011 e 2012.

Tenho uma tese de mestrado sobre a estética da programação (já soube fluentemente dezasseis linguagens de programação – Java, C++, Basic, Javascript, ActionScript, Lingo, Starlogo, PostScript, Proce55ing (quando ainda se escrevia assim), etc. Mas é preciso praticá-las, e eu não tenho feito isso; suponho que acabei por enjoar, mas de vez em quando sinto o chamamento; faço o que posso por ignorá-lo).

Fiz uma tese de doutoramento sobre autoria no design.

Já ensinei perto de vinte cadeiras distintas, distribuídas pelas Belas Artes do Porto e Lisboa, e pela Faculdade de Engenharia do Porto: gostei de uma que dei sobre Autoria; gosto de ensinar edição e bookdesign; também gosto de história e crítica. Tipografia e criação de tipos, dou quando tem que ser (não desgosto).

Se alguém quiser uma bio mais resumida, respeitável e copy/pastável:

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.


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