The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Coisas que dão náuseas

1. A barbearia que proíbe a entrada a mulheres. Pensava que já estava no século XXI, que era suposto ir de mochila a jacto para o trabalho e ir fazer uma escapadinha de três dias à Lua. Em vez disse, temos smartphones, gurmê e vintage. Tudo muito inofensivo – se não fosse a vaga de machismo vintage integrada numa recuperação geral de tradições ofensivas e imbecis só porque parece cool. Se esses barbeiros lumbersexuais¹ invocam a liberdade de expressão, então espero que percebam que a coisa anda para os dois lados e vão ter que passar boa parte das horas de expediente a ouvir gente a chamar-lhes troglodita ou pior. E se estiverem a sentir-se muito oprimidos, espero que alguém lhes lembre de todas as mulheres que foram presas, espancadas ou mortas por defenderem coisas tão simples como puderem votar. Mas o que é isso comparado com o direito a escanhoarem-se uns aos outros sem fémeas por perto?

Não tenho uma borrifadela de paciência para gente que acha que a luta por direitos está “resolvida” e agora é preciso defender os homens de uma suposta opressão feminina, gay, imigrante ou o que seja. Ouvir gente machista a usar argumentos feministas para defender o direito a continuar a ser machista está ao nível de cantar com a cara pintada de preto.

2. Ver o Prós e Contras sobre a Grécia e perceber que há gente que acha que o ajustamento Grego e Português foram um sucesso, que a crise se deve à compra de televisores de plasma e BMWs e ao despesismo do Estado, que não há alternativa para austeridade, etc.

1. Calculo que o termo signifique que são híbridos de humano e cepo.

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Sizolatria

É bastante cansativo: já umas tantas vezes me queixei por aqui do design de Siza Vieira, seja ele gráfico ou de equipamento. Em alguns casos, é tecnicamente atabalhoado (as sinaléticas de Serralves; a tipografia dessas sinaléticas), é arrogante (o facilitismo minimalista de insistir em sinalética de emergência branca), desconfortável (as cadeiras que produziu para os anfiteatros das Belas Artes, por exemplo), kitsch até (as sinaléticas de casa de banho a meio caminho entre o Mondrian mal esgalhado e o bracito no ar do Modulor). Para um designer ou quem não se deixe ofuscar pelo argumento de autoridade (“Ai que é do Siza!”), o culto devotado a estas traquitanas é incompreensível, a menos que se vejam como relíquias do santo, que é como quem diz merchandising, tralhas coleccionáveis para colocar o mestre ao alcance dos fieis que não lhe podem encomendar uma casa. Há uns anos, lembro-me dos meus amigos arquitectos aparecerem um dia todos de velinha debaixo do braço. Era um jornal diário que andava a distribuir um castiçal do Siza à peça. Enfim.

Quando alguém me diz que gosta do Siza pela atenção ao pormenor, só posso assumir que se trata de pormenores de construção, porque se esse pormenor é uma peça de mobília, uma sinlética ou uma letra, é uma desgraça. Faz-me ficar com dúvidas quanto ao resto.

Esta semana a propósito de uma exposição sobre esse mesmo design, discutiu-se nas redes sociais (e mais uma vez) os méritos do design do Siza. Naturalmente, argumentou-se que só se critica o design do Siza porque é um arquitecto. Sinceramente, é-me indiferente se alguém tem o curso de design ou não (ou de arquitectura), do mesmo modo que sou indiferente aos argumentos de autoridade. Não me interessa de todo um discurso crítico assente na ideia de autores sobre os quais é obrigatório manter uma reverência beata.

Infleizmente, a tendência é essa: a arquitectura (tal como a arte e o próprio design) vão-se convertendo a esta beatice. Preferindo sempre que possível alcançar posições de autoridade “inquestionável” do que ir assegurando um discurso crítico saudável.

 

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Alternativas

Uma pessoa envelhece não apenas para a frente, com os anos vividos a acumularem-se, mas também para trás, porque usamos esses anos não apenas para viver mas para saber um pouco mais de história. No caso do design que é uma coisa de modas, a história é sempre uma coisa difícil. Quando digo modas, por exemplo, não falo de fontes, cores, papéis ou tipos de encadernação mas de coisas mais imperceptíveis: de como o designer se pensa a si mesmo, se organiza, onde acha que deve trabalhar, como e para quem. Por detrás das pequenas modinhas que os iritam (e que são inevitáveis) a própria ideia do que é um designer vai mudando.

Por exemplo, há quinze anos atrás, o “designer como autor” era considerado uma aberração, agora um designer fazer trabalho sem um cliente à partida, montar o próprio negócio é uma coisa banal – o design abraçou o empreendedorismo com a falta de espírito crítico com que costuma abraçar tudo o resto. Calculo que os gurus do costume já digam que o design sempre foi assim.

Ainda assim, é possível ver alguns sinais no design da época onde foi criado. Falo do modernismo, como é óbvio. Certa tendência para preferir a bidimensionalidade e as cores planas. Modularidade. Termos que vão sendo repetidos com sentidos bastante diferentes: forma/função, less is more, a própria palavra “design” – se já foi possível traduzi-la por “projecto” (os arquitectos ainda o fazem), agora tornou-se num género, como em literatura se usa o policial ou a ficção científica.

Fala-se de design quando se fala de empresas, de inovação, de luxo, etc. Pelo caminho, ficaram as velhas intenções políticas e sociais. Só é possível falar de design político ou social quando se fala da empresarialização de cada uma destas coisas: privatização da caridade ou marketing político.

Mas para quem se dá ao trabalho de ir ver como as coisas se faziam, percebe que há outras possibilidades. A conclusão é esta: se há alternativas para a austeridade, também as há para o sucedâneo redutor a que se insiste em chamar “design”. Basta querer.

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Xerifes e Índios

Às vezes, o que basta para fazer de uma série de televisão ou de um filme algo “experimental”, “difícil”, “alternativo” é simplesmente insistir em silêncios ou planos um pouco mais longos. Distribuindo as mesmas coisas em dosagens um pouco distintas tem-se um Jarmusch ou uma treta completamente trivial. Não gostei de True Detective, por exemplo, porque tudo nela parecia uma lista de supermercado do que deveria ser uma série de culto. Os silêncios, a música, as intermináveis reflexões sobre tudo e mais alguma coisa. As referências literárias obscuras. Os actores vindos do cinema e a levaram-se a sério. A paisagem rural e degradada.

Agora, imaginem que em vez de silêncios têm uma série onde mais de dois terços de um episódio são ocupados com dois personagens à porrada dentro de uma mesma sala. Ou que outro episódio começa com alguém a lavar um Rolls Royce à frente de uma mansão, e da vegetação salta a rodopiar um tomahawk que lhe entra pelo ombro adentro, começando uma cena de pancadaria que dura uns dez minutos, que destrói o carro inteiro e termina quando um dos lutadores mata o outro enterrando-lhe a estatueta alada do radiador na garganta. Outras vezes, é uma bazuca disparada dentro de uma sala. Uma única vez houve um episódio em que não aconteceu nada até cinco minutos do fim, só conversa, reflexão e câmara-lenta com raios de luz a fazer efeitos sobre a lente (True Detective) e uma pessoa começa a preocupar-se porque ainda não viu pancadaria de meia-noite (será que estão a perder o pedal?) e então, do nada, rebenta tudo outra vez. E há velhos boxers e cadávers eliminados em fábricas de salsichas e patriarcas do crime tão gordos que se deslocam num apartamente dentro de um camião TIR. Quero através destes exemplos dizer que se a porrada fosse como o silêncio, Banshee seria um objecto experimental ao limite. Nunca se sabe o que vai acontecer, excepto que será superlativo. Como o mítico amplificador de Spinal Tap, vai regularmente aos onze. E nem se espera outra coisa.

Sinto tanta culpa com o prazer que tenho a seguir esta coisa xunga como a vergonha que os seus criadores têm a fazê-la — ou seja: nenhuma. Não conheço entre os meus amigos mais ninguém que a veja. Mas não me admirava que houvesse. Não é coisa de que se possa falar. Falta-me vocabulário para falar sobre porrada num nível tão épico.

Fiquei com vontade de escrever de novo sobre ela porque pela primeira vez em três temporadas dei com uma referência cinematográfica explícita, um episódio inteiro construído à semelhança de Assault on 13 Precint, de Carpenter. Meia dúzia de almas cercadas à noite numa esquadra de polícia. O filme inspirava-se nos westerns de Hawks. A série, passada em 2015 ou cá perto, devolve a refência em espelho e amplificada. O anti-herói, ladrão e presidiário tornado falso xerife, está cercado por uma gangue (contemporãnea) de índios armados até aos dentes. Os seus adjuntos incluem um índio, um ex-neo-nazi coberto de tatuagens. Numa cela, está o vilão, um gangster ex-amish, dono de bordéis e fábricas de salsichas. O sangue gela-nos quando a mulher polícia que ama o falso xerife lhe pergunta qual o seu verdadeiro nome, num intervalo entre chuvas de balas. Não temos outro remédio senão gelar, porque em 13 Precint o presidiário só o revelava na hora da morte. E aqui é a mesma coisa e a moça morre.

É o delírio.

 

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Logos para a Austeridade

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Uma pessoa pensa que já ouviu tudo. Ou pelo menos que já nada nos surpreende. Que se pode reagir intelectualmente ao que nos vão atirando, olhar para cada bojarda friamente, encaixando-a com rapidez entre as anteriores e esperar pela seguinte, como um inspector na linha de montagem de uma fábrica monstruosa, onde só por acaso sai uma peça que cumpre os mínimos. Mas, mesmo entre os monstros, há sempre espaço para pior.

Quando o Primeiro Ministro diz que se deve “fazer tudo para salvar vidas, mas não custe o que custar.” A frase já é má em si mesma, mas torna-se pior quando se desenterram outras, a propósito do memorando da Troika: “Nós, simplesmente, como gente adulta e madura, vamos cumprir o que lá está, custe o que custar. E custa, custa muito, não haja dúvida quanto a isso, mas vamos cumprir.”

A conclusão do silogismo é simples: pagar a dívida, mesmo que isso custe vidas.

Na verdade, nem sequer se trata de pagar a divida, porque ninguém, nem sequer os credores, acreditam que possa ser paga na totalidade, apenas de ser punido por ela, de fazer as chamadas “reformas estruturais”, que mais não são que a cristalização da austeridade (que ainda se anunciava como um estado transitório a caminho de uma melhoria que não aconteceu) – são a austeridade enquanto modelo de sociedade.

É isso que se tenta demonstrar agora com a Grécia: que não se trata de deixar um país ou uma pessoa melhorarem mas de os colocarem no seu lugar merecido na hierarquia das coisas. Se não merece nada, não terá nada. Não tem a ver com razão ou sequer sensatez, mas simplesmente com moralidade e imposição pela força.

Daí que esta semana me tenha ocorrido que a capa do Design em Tempos de Crise seja o melhor comentário possível para o carácter totalitário desta economia da depressão: um gráfico descendente desenhado com a mesma arrogância do ´simbolo das SS ou da própria suástica. Na altura em que foi concebido por mim, pela Isabel Carvalho e pelo Pedro Nora, em 2008, ainda não se falava de austeridade. Entrava-se nos subúrbios da Grande Recessão. Parecia-me quase demasiado forte. Neste momento, parece-me só justo.

 

 

 

 

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Emancipar o público

Demorei anos a perceber um dos mal entendidos mais convenientes do discurso das artes: a chamada autonomia do artista.    É uma daquelas coisas que se usa por tudo e por nada, tornou-se menos até que um formalismo, uma formalidade, ou até uma superstição, como dizer “santinho” quando alguém espirra. Para alguns, é uma espécie de deontologia, estabelecendo um tabique entre artista e poder, mas só garante que o seu trabalho pode ser apropriado alegremente pelos poderes mais contraditórios entre si: económico, político, religioso, o que se queira. E depois a actividade do artista é (e sempre foi) tudo menos autónoma, sempre sujeita a encomendas, eventos, aos quais tem que se sujeitar. A autonomia também é uma maneira de desejar o artista como uma profissão liberal, que raramente é ou pode ser.

Tudo isto para dizer que me tem interessado muito mais a autonomia do espectador, que era isso que Kant, por exemplo, queria dizer. A estética não é a ciência das memórias descritivas ou das folhas de sala mas do modo como o público discute a arte. Ou seja, a autonomia ou não do artista interessa sobretudo aos artistas, ao millieu. Mas enquanto o artista se autonomiza, sublinha-se sempre a passividade do espectador, que é preciso sacudir, integrar, pôr a trabalhar. Delira-se com Debord que acha o espectáculo muito mau e portanto o seu sujeito, o espectador, uma lesma. Delira-se com Artaud e com Brecht que não perdem uma ocasião para tratar o público como ovelhas em nome da sua libertação.

Deixem o espectador em paz. Tratem-no como pessoa inteligente, que participa ou não porque quer, e não porque o sacodem, e pode ser que tenham uma surpresa.

Tenho encontrado algum consolo no livro de Rancière, O Espectador Emancipado, que propõe de um modo bastante mais cuidadoso essa ideia revolucionária de não se assumir à partida o público como uma cambada de brutinhos que é preciso libertar.

Naturalmente, estas ideias de uma autonomia do público ou do espectador interessam-me por causa da crítica e da sua função: para mim não se trata nunca de explicar a obra, mas de explicar o espectador, não no sentido de o entender, mas de  lhe dar um discurso.

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Lançamento

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Amanhã na esad de Matosinhos, lançamento de um livro sobre o designer José Brandão, no qual participei.

 

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Lars Müller no Passos Manuel

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Amanhã, o editor Lars Müller, que para quem se interessa por estas coisas do design dispensa apresentações, vai falar amanhã, às 21h30, no Passos Manuel, a convite da Dafne editora.

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Bitter Lake

Vi Bitter Lake (2015), o último documentário de Adam Curtis, que começa por ser sobre o Afeganistão e acaba, conforme o hábito do realizador, por ser sobre quase tudo. Como a América acabou por criar o Afeganistão actual mas também como Afeganistão vai mudando subtilmente os países que lá entram, a Inglaterra, a União Soviética e finalmente a própria América.

As imagens de arquivo são hipnóticas, lindíssimas, sejam elas o registo em Super 8 de uma festa de crianças num enclave industrial americano dos anos 1950, de um helicóptero a aterrar filmado em visão nocturna ou de um afegão brincando ao Kung Fu para a câmara enquanto espalha almofadas numa tenda. A beleza e abstracção destas cenas, apresentadas quase sempre sem comentário, obrigam-nos a olhar para elas, a tentar extrair delas qualquer pista, qualquer sinal, tornando-as um mistério necessário, eficaz, memorável.

O resto são mal entendidos culturais que não são os do costume. Não é a relação entre vítimas impotentes e poderes distantes, bem intencionados e/ou arrogantes, mas algo mais complicado onde os poderes locais aprenderam a manipular a força dos invasores para os seus próprios fins, usando-a para eliminar rivais, para encorajar ódios e alianças.

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Marmota Dinheiro

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Só para cumprir a tradição. E para dizer que ainda estou vivo. Passei as últimas semanas a ler trabalhos e a adiantar leituras em geral. Como de costume enquanto estou na época de avaliações praticamente tudo o que leio é nostalgia – comics da Marvel, as Oeuvres Completes do Moebius, mas também alguma coisa nova – Annihilation, a Novel, de Jeff Vandermeer, que lembra muito Piquenique à Beira da Estrada, a história de onde tiraram Stalker, mas muito estranha à sua maneira. De filmes, vi o Cavalo Dinheiro, de Pedro Costa. Demorei um dia a perceber que tinha gostado. No  momento, apreciei-o intelectualmente mas sem emoção. Há um pormenor, ou antes uma coisa que está em cada plano dos filmes de Costa mas não costuma ser comentado. Costa lembra-me sempre o Pós Modernismo como estilo. do qual o exemplo máximo em Portugal é talvez Tomás Taveira – mas também o Independente ou a revista Kapa. Não falo da filosofia mas de um conjunto de tiques gráficos que apareceram na arquitectura, na fotografia ou na ilustração. No design gráfico, havia uma espécie de Neo Construtivismo onde se usavam referências ao construtivismo original (geometria tridimensional, perspectivas cavaleiras ou épicas) de modo pop, em Costa encontra-se ainda o mesmíssimo gosto – a que se associa também certa imagem granulada enquadrada ao ponto da abstracção que havia também em Nozolino ou em Inês Gonçalves, bem como em quase toda a fotigrafia editorial da época, sobretudo a de moda, onde o Soviet Chic, os queixos alçados a olhar para o horizonte eram comuns.
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Curiosamente, aos pós-modernos quando envelhecem bem, já só se lhes chama modernos, o que também acontece com Siza, mas não deixa de ser um mau serviço crítico.

 

 

 

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Quiz

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Por tédio, preenchi um quiz no The Guardian em que pediam para associarmos a acção “artística” de protesto russa ao que era reinvidicado. Conhecia quase todas as imagens e reconheci o nome da maioria dos grupos. Só acertei em cinquenta por cento. A performance tinha ficado na memória; as causas quase nada. No fim, já estava a responder à sorte.

Se calhar a culpa é minha. Devia ter usado cada uma dessas ocasiões em que um artista pregou os testículos ao chão de uma estrada, em que um grupo pintou uma pila gigante numa ponte levadiça, em que uma banda de raparigas com passa-montanhas de lã colorida invadiu uma missa, para saber um pouco mais sobre o que defendiam. Mas a ousadia, o espectáculo, a agressão acabam por ofuscar tudo o resto, como um foco apontado à cara durante a noite.

A beleza, o espanto, o medo, a coragem, são coisas fáceis, dão boas histórias, independentemente de quem as conta. Dá mais trabalho ir além da publicidade e perceber o produto, mas não é para isso que somos treinados. Na experiência estética, tal como é institucionalizada não apenas por museus e escolas mas também por chavões e hábitos, é natural atirar-se fora o bébé, ficar-se com a água do banho e gastar tempo e energia a discutir se expô-la é museificá-la ou a menosprezá-la porque não funciona lá muito bem enquanto bébé.

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Mau gosto

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Não sei quem o fez. Não sei quem o encomendou. Tenho a certeza que deu muito trabalho. Que foi difícil. Acredito que sim, porque é sempre difícil. Mas não chega dizer-se que deu muito trabalho, que foram precisos compromissos, que se não fosse por isso seria melhor. Não são grandes argumentos. Na maioria dos casos falhar dá tanto trabalho como conseguir. Destruir a floresta Amazónica, por exemplo, exige muito trabalho e capacidade de compromisso. Defendê-la pode parecer quase preguiçoso por comparação.

Também não chega defender-se uma coisa destas dizendo que se trata de uma questão de gosto. Uns gostam outros não, portanto acaba por não fazer diferença se é este ou outro qualquer – se não faz diferença, é porque é mau ou, pior ainda, indiferente. Um bom logo presta-se ao uso, à apropriação e à subversão. Presta-se a ser discutido. Quase todos os logos se prestam a ser atacados. Entre estes só os bons se prestam a ser defendidos. Por estranhos, por rivais, por gente que não tem nada a ver. Fica-se triste quando mudam. Duvido que alguém o faça em relação a este, sem recorrer a falácios de apelo aos sentimentos: deu muito trabalho, é só um logotipo, etc.

Ao contrário do que se diz, o gosto discute-se e muito. Foi feito para isso. Não há tal coisa como um gosto completamente privado – ou se declara o gosto por actos ou palavras, ou não faz diferença nenhuma; é como se não existisse. O gosto é sempre um debate, com facções, guerras, querelas, tradições, subversões e compromissos. Cada logotipo que se concebe, posiciona-se quer queira quer não dentro dentro desta arena, onde é avaliado por uma série de questões. Por exemplo: como se posiciona em relação a outros logos de eventos semelhantes; como se posiciona em relação ao que está a ser feito actualmente dentro deste formato; como funciona em termos técnicos; etc.

Este é um logotipo formalmente desequilibrado, com uma grande misturada de pesos, tamanhos e cores de letras, com uma ilustração que parece ter sido construída à pressa a partir de dingbats encaixados num cálice parcialmente desenhado. A própria composição parece limitar-se a ir encaixando o que é preciso onde houver espaço. O alinhamento do texto às vezes é ao centro, outras quando couber. O espaçamento entre letras é completamente incoerente. O alinhamento do pé com a haste do A e o esporão do L não funciona e só sublinha o ar desconjuntado do todo. A paleta de cores anda à volta do cor-de-burro quando foge ferido de morte. Alinhar este logo com o que quer que seja é um pesadelo. Reduzi-lo será uma aflição. Na faixa de apoios de um cartaz irá fazer o papel de um Grande Superfície instalada num centro histórico.

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Design no Porto, Concursos, Trapalhadas, Crispação, etc.

O Porto parece mais vivo, não há dúvida, até no design gráfico. Mudou de identidade e, por arrasto, umas outras tantas instituições mudaram também de identidade. Desde há uns meses, quase todos os meus amigos designers debatem quem será o novo designer do Teatro Nacional São João. É um sítio com tradições, Foi lá que trabalhou João Nunes, mais tarde o João Faria, que saiu há uns anos mas teve uma presença de tal modo forte que os cartazes ainda se parecem um pouco (não o suficiente) com os dele.

No fim do ano passado, abriu-se discretamente um concurso a 20 de Novembro, através de uma notícia no site da instituição. Sei que concorreram mais de duas centenas de designers até 27 de Novembro. O prazo era curto mas essencialmente pedia-se currículo e portfolio. A 10 de Dezembro anunciava-se que se tinham seleccionado 5 finalistas – que não eram identificados, tal como não se identificava quem iria fazer a selecção (era um júri externo? eram pessoas do próprio teatro?) e mesmo qual o valor da avença que estava a ser oferecida.

Nada disso é claro. Daí que os designers especulem. O São João é uma instituição pública e como tal espera-se um pouco mais de transparência, especialmente numa altura destas, quando muitos dos estúdios de design do Porto têm fechado por falta de grandes clientes públicos – embora o design se veja a si mesmo como actividade empresarial, privada, etc. por trás de cada estúdio de design com alguma fama há sempre uma avença com uma instituição pública qualquer (daí que se possa descrevê-lo como uma espécie de função pública externa).

A nova vitalidade do Porto, que muito deve à nova presidência da Câmara com a sua ênfase na cultura, parecia anunciar mais trabalho para os designers neste modelo clássico de colaboração. Contudo, depois de anos de negligência a crispação e a fome são grandes. O concurso para a marca da cidade, por exemplo, foi marcado pela polémica quando um dos estúdios que perderam divulgou a sua proposta pouco antes da oficial ter sido apresentada. A seleção de designers para o teatro Rivoli também foi interrompida de repente, cancelando-se reuniões com os designers que se candidatavam, para algum tempo depois se anunciar que o estúdio seleccionado era o mesmo da identidade da cidade.

Ou seja, e em cada um dos três casos, há uma sensação de trapalhice processual, de falta de diplomacia, mesmo alguma displicência das instituições para com os designers (S. João, Rivoli) ou dos designers para com as instituições (identidade do Porto).

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Hábitos

Já não me consigo afligir mais com o Governo (e a Europa e o resto), porque é irremediável. Leio os artigos, concordo, discordo, argumento. Tirando isso, só espero o momento da sua saída, fazendo figas para que estraguem o mínimo possível pelo caminho.

O remédio, acredito, está nas pequenas coisas, que parecem estar no avesso do Governo mas não estão. Dou um exemplo: no ensino superior é comum ver gente a queixar-se dos efeitos dos cortes orçamentais, de como isso é terrível, enquanto dizem que é preciso mais empreendedorismo, investigação aplicada, com resultados práticos. Ora as duas coisas acabam por estar ligadas. Corta-se no orçamento usando como justificação o incentivo à captação de recursos próprios através de investigação orientada para o mercado. Usa-se o trabalho gratuito de alunos e professores para os alcançar, etc.

Ou seja, acredito que, a mudar alguma coisa, será antes de tudo o resto, nas coisinhas. O discurso neoliberal instalou-se durante décadas nos hábitos e serão precisas décadas para o erradicar, e está tudo por fazer.

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Figura Humana

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Espreitei uma das aulas de figura humana, e vi que ainda se desenha modelo nu a carvão ou a tinta. Calculo que, mais uns anos de Bolonha e de ensino orientado para as empresas, para inovação e para o resto, os alunos se dediquem a retocar a gordura e as imperfeições da pele dos modelos.

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As Ideias Também Mexem

Às vezes uma pessoa esquece-se que mesmo as ideias mais básicas e aparentemente óbvias se mexem. Por exemplo, deve haver pouca gente que discorde que a propriedade privada se estabelece por oposição à pública. As duas excluem-se mutuamente. Mas nem sempre foi assim: na Idade Média a propriedade implicava por parte do seu senhor um conjunto de deveres públicos (prestação de serviços, justiça, etc.) Hoje pelo contrário assume-se que a posse de algo o subtrai ao escrutínio público e mesmo ao civismo básico – “isto é meu e faço o que quero com ele.”

Por isto se percebe que a ideia de liberdade se tornou também numa espécie de privatização do eu – somos livres na medida  em que nos conseguimos autonomizar como individuos. Por oposição seria possível propor a recuperação de uma liberdade com raízes colectivas. Uma liberdade como a que propõe Murray Bookchin onde: “a personalidade do individuo não se opõe ou se isola do colectivo mas é significantemente formada – e, numa sociedade racional, concretizada – pela sua própria existência social.”¹

Bookchin opõe a esta liberdade o conceito de autonomia, na definição de Paul Goodman, a “habilidade de iniciar uma tarefa e de a fazer à sua maneira”, argumentando que quando grande parte da esquerda radical e em particular o que ele chama “lifestyle anarchists” clamam:

“por autonomia e não liberdade, estão a lançar fora as fecundas conotações sociais do conceito de liberdade. Na verdade, o apelo constante por autonomia mais do que liberdade social não pode ser desvalorizado como um acidente, particularmente nas estirpes Anglo-Americanas de pensamento libertário. onde a noção de autonomia mais se aproxima da liberdade pessoal. As suas raízes encontram-se na tradição imperial da romana da libertas, onde o ego tem a “liberdade” para ter a sua propriedade pessoal – e para gratificar a sua luxúria pessoal. Hoje, o individuo dotado de ‘direitos soberanos’ é visto por muitos lifestyle anarchists como antitético não só em relação ao Estado mas à própria sociedade.”²

Esta última oposição, entre liberdade pessoal e sociedade aproxima-se evidentemente das crenças neoliberais e em particular da conhecida bojarda de Margaret Thatcher, que “Não existe sociedade” – apenas indivíduos. Para Bookchin (e eu concordo), uma acção política baseada no romântismo de uma busca individual, da expressão de um eu, que não se sujeita a qualquer autoridade alheia, por pequena que seja, não é minimamente eficaz porque acaba por assumir como premissa os valores de base prezados pelos neoliberais.

Por outras palavras, só se vai lá com organização, com discussão, com trabalho seca. Grandes acções à moda dos Situacionistas, King Mob, Up Against The Wall Motherfucker, do Punk, são bonitas, provocam, ficam na memória, mas pouco deixam para além de catarse.

(Note-se que esta crítica da autonomia individual pode ser transposta directamente para a autonomia do artista que também se define frequentemente por oposição a responsabilidades sociais.)

 

 

1. Murray Bookchin, “Social Anarchism or Lifestyle Anarchism An Unbridgeable Chasm”

2. Idem

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Contra o realismo

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Chegou a estação dos Oscars, prémios dados se possível a gente bonita maquilhada por fora para parecer feia e por dentro para parecer doente. Benedict Cumberbatch é um dos favoritos este ano. Interpreta Alan Turing, um dos inventores do computador, homossexual, que se terá suicidado por ter sido condenado pelos tribunais a uma “cura” via terapia hormonal. Já só esta descrição garantia o Oscar mas, só para ter a certeza, para barrar bem a manteiga, Cumberbatch representou-o também como sofrendo de Aspergers – que Turing não tinha. Espero que num futuro próximo, lá para os lados de Hollywood, seja tão ofensivo ver gente bonita e sã a ganhar prémios por parecer feia e doente como cantar com a cara pintada de preto ou pôr umas penas de índio na cabeça.

Daí que goste cada vez mais de ver cinema onde apareça gente careca, com os dentes desalinhados e defeitos de pronúncia. Daí que certa filmografia dos anos 70 inícios de 80 se tenha tornado essencial para mim. Já não me chega sequer Cutter’s Way onde o personagem mais carismático, que dá o nome ao filme, seja um amputado zarolho do Vietnam – interpretado por John Heard com uma pala e o braço escondido debaixo da roupa. Prefiro El Topo, de Alejandro Jodorowsky, de 1970, com anões e um cowboy sem pernas às cavalitas de um cowboy sem braços.

Evitei El Topo até ontem porque me diziam que era estranho, “fora”. Surpreendeu-me ter gostado tanto. É um western delirante, com pistoleiros santos no meio do deserto, assombrado por coelhos e favos de mel. Pôs-me a pensar no que será um western realista. Afinal, nunca fui ao Oeste, nem vi duelos, outlaws ou xerifes com os meus próprios olhos. Não sei como viviam, falavam, morriam ou matavam. Ou seja, uma coboiada de Eastwood ou de Ford é tão artificial ou tão realista como os filmes de Jodorowsky. Cinema apenas.

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Mitos

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Um dos textos mais influentes da década de 1960 foi sem dúvida a Morte do Autor, de Roland Barthes. É um ensaio curtíssimo mas sumarento, que contradizia uma das ideias mais incontestada da crítica: quando se tem dúvidas quanto à interpretação a dar a uma obra qualquer, deve-se ir perguntar ao Autor. É isso mesmo que faz Woody Allen numa das cenas mais conhecidas do filme Annie Hall (1977). Na fila para o cinema a discutir a Marshall McLuhan com outro espectador, perde a paciência e tira o próprio McLuhan de trás de um poster, como se fosse o argumento definitivo para calar alguém: Tenho aqui o autor! Mas pouca gente se lembra do que McLuhan exclama: “You know nothing of my work. You mean my whole fallacy is wrong. ” – classificando o que ele próprio diz como sendo uma falácia. Faz lembrar o Rashomon de Kurusawa, onde mesmo o morto, invocado através de um espírita, não ajuda a resolver o crime, contando a versão da história que mais o favorece. Ou seja, fica sempre bem ir beber uns copos com o autor mas pouco mais do que isso.

No que diz respetio à interpretação da obra, leitor e autor estão em pé de igualdade. Não vivem um sem o outro – um ponto de vista literalmente anti-autoritário. O próprio ensaio de Barthes publicado na revista Manteia em 1968 juntar-se-ia à imensa bibliografia revlucionária desse ano. Mas até isso tem o seu quê de lendário: na verdade tinha sido publicado um ano antes nos Estados Unidos, no número minimalista da Aspen, a “revista numa caixa”, juntamente com a Estética do Silêncio, de Susan Sontag.

Inconveniente, mas até as revoluções precisam da sua autoridade.

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Name Dropping

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The Miraculous, de Raphael Rubinstein, merece o seu título. É uma sessão de pequenos textos, às vezes umas linhas, outras uma ou duas páginas, onde o autor limita-se a descrever arte sem usar nomes. O número usado como título identifica o artista num pequeno índice no fim do livro como a solução para um puzzle. O número 9, por exemplo:

An artist takes a blank canvas and paints “$1.00” on it. As well as being the subject of the work, $1.00 is also the price of the painting, and he soon finds someone who buys it. The next canvas he paints reads “$2.00”, which is also its price. This, too, sells, allowing the artist (who is not primarily a painter but a free-ranging conceptual artist) to make a third canvas marked “$4.00.” The rules of the project are simple: each canvas doubles the price of the preceding one and doesn’t get exhibited until the preceding one has sold. As of this writing, the artist is in possession of a canvas carrying the price “$65,536.00.” It has been waiting nine years to find a buyer.

Lendo-as assim, como se fossem pequenas parábolas, genéricas, modernistas, as obras tornam-se de facto em pequenos milagres, sobretudo se lidas em contraponto com o discurso habitual produzido sobre a arte, seja ele académico ou crítico, onde o nome, de pessoaou de instituição, é o enunciado base. O nome é uma abreviatura que tudo parece resumir, expicar, filiar ou legitimar. Estas pequenas histórias económicas, tão abstractas como um conto modernista, revelam por oposição a estopada em que a escrita sobre a arte se tornou, sempre demasiado ansiosa de demonstrar a sua seriedade, a sua legitimidade, os seus precedentes.

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Não se conseguiria evitar a poesia

Prefiro ler as notícias do que ver as notícias. Ler o relato estruturado, argumentado, minimamente digerido, de uma notícia de jornal é bastante melhor do que assistir ao semi-improviso sensacionalista dos telejornais. Na maioria das vezes nem estamos sequer a ver notícias mas jornalistas à espera de qualquer coisa, a fazerem directos perfeitamente arbitrários: a fachada de uma prisão, de umm hospital, de um prédio.

Ocorreu-me que até estas pseudo-notícias ficariam a ganhar se fossem escritas e não mostradas: um telejornal seria constituído por descrições de calçadas, portões, passeios, janelas. Mesmo que a linguagem fosse utilitária, não se conseguiria evitar a poesia.

Filed under: Crítica

Mário Moura

Esta é a minha biografia.

Se a estão a ler para tentarem perceber se "eu sou alguém", se acreditam que só depois de lerem o meu cv é que podem levar-me a sério, concordar ou não comigo, nem vale a pena continuarem a ler. Se vieram aqui por isso, leiam os meus textos: todos os argumentos importantes estão lá.

Dito isto: escrevo sobre design, cultura, política há uns nove anos. Faço-o regularmente aqui. Menos regularmente em jornais (Público, i), revistas e livros. Alguns dos meus textos foram reunidos no livro Design em Tempos de Crise, editado pela Braço de Ferro (está esgotado).

Dou também conferências regularmente. Nas Belas Artes do Porto, nas Belas Artes de Lisboa, na Esad das Caldas da Rainha, na Esad de Matosinhos, na Experimenta Design, no ciclo Ag – Prata, por exemplo. Dei um ciclo de 6 conferências sobre Livros na Culturgest de Lisboa entre 2011 e 2012.

Tenho uma tese de mestrado sobre a estética da programação (já soube fluentemente dezasseis linguagens de programação – Java, C++, Basic, Javascript, ActionScript, Lingo, Starlogo, PostScript, Proce55ing (quando ainda se escrevia assim), etc. Mas é preciso praticá-las, e eu não tenho feito isso; suponho que acabei por enjoar, mas de vez em quando sinto o chamamento; faço o que posso por ignorá-lo).

Fiz uma tese de doutoramento sobre autoria no design.

Já ensinei perto de vinte cadeiras distintas, distribuídas pelas Belas Artes do Porto e Lisboa, e pela Faculdade de Engenharia do Porto: gostei de uma que dei sobre Autoria; gosto de ensinar edição e bookdesign; também gosto de história e crítica. Tipografia e criação de tipos, dou quando tem que ser (não desgosto).

Se alguém quiser uma bio mais resumida, respeitável e copy/pastável:

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.


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