The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Falando no diabo

 Querem saber o que é um artista do regime?

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Rescaldo

O texto de ontem sobre o muito provável plágio à identidade da Câmara do Porto foi o 2000º escrito aqui no blog. Estava a planear pôr um textito sobre o assunto, a fazer um ponto da situação, etc. Em vez disso, tive mais de 13000 visualizações, quase 9000 visitantes e mais de três mil partilhas. Bateu o record anterior por mais do dobro, atingido durante uma das polémicas da Joana Vasconcelos. Uma maneira muito mais gratificante de comemorar uma efeméride.

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Porto Ponto da Situação

Entretanto, a página de facebook da iniciativa alemã cuja identidade gráfica é quase idêntica à da Câmara do Porto está em baixo. Tudo indica que o design alemão foi feito depois do Português.

Entretanto, apareceram mais exemplos de identidades semelhantes, mas uma coisa é falar de tendências ou de estilo, outra é copiar quase literalmente uma aplicação particular deste estilo. Pense-se por exemplo no Estilo Suíço. Usar Helvetica em caixa baixa alinhada à esquerda não é caso para processos legais. Copiar um cartaz específico, usando Akzidenz Grotesk, pondo a serra da Estrela em vez do Monte Branco, já começa a ser bastante suspeito. Em algumas situações, ainda se pode alegar que é uma homenagem ou pastiche, como o famoso anúncio da Swatch onde Paula Scher copiou Herbert Matter, ou o capa dos New Order roubada aos futuristas.

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A diferença entre isto e um plágio? Subtil. Trata-se de usar um trabalho feito umas tantas décadas antes. Saul Bass, por exemplo, é dos designers mais “citados” de todos os tempos. O que dizia ele sobre isso? “‘Homenagem’ significa roubar os mortos. E eu não estou morto.”

 

 

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Berlim.

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Faz lembrar qualquer coisa, não faz? O meu alemão não é fantástico. Aliás é quase inexistente. Mas tenho a certeza que Porto não se diz assim.

Apanhei isto hoje de manhã a circular pelo facebook. É de uma iniciativa de turismo sustentável em Berlim cujo design foi feito (?) pela firma 3BKE. A página do facebbok do projecto apareceu no começo deste mês, o que parece indicar que o design alemão apareceu depois. Adorava ter mais informação quanto a datas, mas para já penso que é tudo demasiado próximo para ser coincidência. As identidades gráficas construídas através de sistemas modulares apoiados em ícones lineares estão na moda (só este mês vi duas), mas as cores e o ponto final não deixam muitas dúvidas.

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Opiniões

É comum, quando encontro ao vivo um leitor, dizerem-me que não concordam com tudo ou até com a maioria do que escrevo. É inevitável e nunca me incomodou. Não escrevo para que concordem comigo, pela aprovação. Nos meus melhores dias, escrevo para que me levem a sério. Talvez pareça uma excentricidade dizer isto, no ambiente político português actual, em particular o da esquerda, onde ou se concorda em tudo ou adeus, mas eu acredito que ninguém muda radicalmente de opinião do dia para a noite. Mas as opiniões afinam-se e afiam-se umas contra as outras.

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Crash

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Andei atrás dela durante anos. Foi difícil apanhá-la por um preço quotidiano porque é uma primeira edição americana de Ballard. Não a procurava pela história, que já tinha lido, mas pela capa, que é brilhante, um desenho a lápis grosso quase monocromático, no limite do psicadelismo, de um carro-corpo de unhas dos pés cor-de-rosa, atrás do volante uma figurinha humana com a cara esborratada de um quadro de Francis Bacon, tudo aquilo aquilo a escorrer pelo papel lustroso da sobrecapa como uma gota viscosa de líquido branco. Ao canto acima, contrastando com as gradações de cinza, em grandes letras negras numa letra saída de um quadro pop, o título, a onomatopeia, CRASH. A sublinhá-lo num traço fino, light, a mesma espessura do contorno do carro, o nome do autor que já deixava de ser a identificação de umnescritor mas a de um género literário inteiro, só dele. Ballard já não escrevia ficção científica, histórias fantásticas; J.G. Ballard escrevia J.G. Ballard. Contaminava tudo em que tocava, até o designer, um tal Lawrence Ratzkin, designer de livros, autor de capas em geral boas mas não memoráveis. Não era um David Pelham.

Mas em Crash produziu uma obra prima. Admire-se o minimalismo desconjuntado, trémulo do desenho. Admire-se a estreita língua do topo das páginas pintadas no mesmo tom de rosa das unhas dos pés, a espreitar entre as dobras da sobrecapa e da encadernação. O Mody Dick de Melvile imaginava um universo onde livros e baleias se intersectavam. Imagine-se as possibilidades de um erotismo extremo onde se misturam carros, sexo e literatura. É essa a proeza desta capa.

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Idiotices

Apanhei isto ontem no facebook. Já tinha feito um share rápido mas resolvi deixá-la pendurada aqui no blog para que todos vissem. É o texto de alguém que se identifica “mestre em gestão” e “seguidor da meritocracia” e é mais outra variação do “eles emigram porque não querem trabalhar; preferem fazer um trabalho de merda lá fora do que aqui em Portugal.”

Infelizmente, já não me espanta ver alguém formado em Gestão a não saber aquela coisa mais básica do trabalho: ainda há quem espere ser pago por ele. Há até países onde se paga a pessoas para trabalhar. Estranho, mas verdadeiro. Pode ser que no P3 ainda dediquem um slideshow a essa coisa do salário.

Resumindo: uma versão gurmê do Miguel Gonçalves (o que provavelmente só o piora).

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Mais de quinze anos a falhar o alvo

Lembro-me bem da trepidação quando escrevi aqui no blogue o meu primeiro texto sobre estágios, faz neste Verão nove anos. Era a coisa mais obviamente politizada que tinha publicado. Lembro-me de um colega meu me ter dito no corredor que eu “me tinha transformado num sindicalista” – ele empregava estagiários regularmente.

Era um assunto que eu nunca tinha visto ser debatido, nem sequer a nível internacional. Na altura, o debate do trabalho gratuito resumia-se ao chamado spec work, as ocasiões em que uma firma ou um freelancer se dispunham a fazer trabalhos gratuitos em orçamentos ou concursos. Os estágios, pelo contrário, eram considerados uma etapa esperada da formação de um designer. Ainda agora há quem assim pense – sobretudo do lado de quem os “oferece”; do lado de quem os recebe, é na melhor das hipóteses “uma coisa pela qual se tem que passar”.

O meu texto em retrospectiva parece-me cru e até ingénuo em alguns pontos, embora o essencial não só mantenha a actualidade como ainda me parece tímido. Por exemplo, eu ainda usava a palavra estágio entre aspas para os distinguir dos estágios curriculares, que considerava positivos. Neste momento, qualquer estágio só com muita sorte não é totalmente prejudicial – à sociedade, ao estagiário, etc.

Mas pelo menos já via ali um problema. Em 2003, Mike Kippenham propunha-se na revista Emigre revitalizar a crítica de design, assumindo um modelo inspirado no Ídolos, um concurso que é muito literalmente um estágio de emprego glamorizado, onde candidatos competem nem sequer por um prémio mas por uma oportunidade, enquanto sofrem os abusos verbais de um júri de entrevistadores. Era a crítica enquanto entrevista de emprego. Já só se falava dos objectos como um atalho para criticar a pessoa reduzida a uma espécie de mercadoria dela mesma.

Mais de uma década depois, a ideia de Kippenham é a norma. O estágio domina o design e a própria sociedade.

A conclusão que se impõe: a discussão política dentro do design manteve-se completamente a leste dos assuntos mais quentes. Na altura em que eu escrevia sobre estágios, ainda se debatia o First Things First 2000, um tiro ao lado, um manifesto que se resumia a acreditar que um designer é eticamente bom se os seus clientes e os assuntos que trata forem bons. Deposita-se a responsabilidade fora da disciplina que se acredita ser neutra, enquanto se pode ir contratando e descartando estagiário atrás de estagiário, porque as “coisas são assim”.

Mas o design não é neutro. O First Things First, com o seu apelo a que se pratique um design de causas, serviu sobretudo de justificação a que se aplicassem os formatos habituais do design – logótipos e identidade corporativa – a iniciativas de caridade, dando-lhes o mesmo visual de uma empresa. A ideia era torná-las mais atraentes aos mecenas privados; o efeito secundário foi, como deveria ser evidente, uma subtil privatização.

Este Toque de Midas do design, de conseguir tornar o que quer que fosse numa empresa, passou também quase completamente despercebido dentro da discussão disciplinar – apesar de Naomi Klein ter publicado um crítica feroz destes processos de privatização com o nome nada subtil de No Logo, o design continuou a sua vidinha como se nada se tivesse passado. Quando muito, embarcou de armas e bagagens na onda do empreendedorismo individual, a fazer logotipos para as massas como se nada fosse. O único queixume: agora toda a gente podia fazer os seus próprios logotipos e isso era concorrência desleal aos designers que tinham tirado um curso, etc. Toda a gente podia ser uma empresa de uma pessoa só, desde que fosse o designer a produzir o logotipo. Como de costume, a ética disto deve andar por aí em qualquer lado, não sei bem onde.

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Lixo

Mudei-me com os meus pais para Vila Real no fim da década de 1970. Por comparação com Lisboa, onde nasci, ou até Coimbra, onde passava o Verão com os meus avós, era um sítio pequeno e rural. Em pleno centro da cidade ainda havia vinhas, vacas e rebanhos de cabras. Desde essa altura, cresceu torrencialmente e sem grandes preocupações.

Quando cheguei, o Circuito, uma circunvalação de sete quilómetros de perímetro onde no Verão se realizavam ruidosas provas de automóveis, limitava pastos, bosques e quintinhas. Entretanto encheu-se de casas, vivendas e centros comerciais. Em pleno centro do Circuito, a ocupar o que já foi uma das zonas mais bonitas da cidade, está um dos maiores e mais feios centros comerciais do país. Acabado de falir, está virado para um enorme hotel abandonado desde os anos 1980, coberto de musgo e grafitti.

Quando vim estudar para o Porto em 1989 fui-me distanciando de Vila Real. Só há muito pouco tempo descobri que tinha alguma nostalgia por aquilo. Nem tanto pelo que lá passei mas pelo que não sei e vou descobrindo. Quase todas as histórias que vou apanhando são vestígios de ambição, empreendedorismo e falhanço.

No vídeo acima fala-se da primeira central eléctrica de iluminação pública do país, agora uma ruína nos desfiladeiros do rio Corgo, mesmo abaixo do centro da cidade. Não se pode dizer que Vila Real, Trás-os-Montes, ou até o país não tenham tentado inovar, empreender ou o que seja, mas o resultado sempre foi um acumular de ruínas, traquitanas, descartados levianamente em favor do próximo brinquedo, lixo preso nos arbustos à beira do rio.

Passear pelas ruínas de Vila Real tem-me lembrado o Anjo da História de Benjamin:

“Há um quadro de Klee intitulado Angelus Novus. Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar de qualquer coisa que olha fixamente. Temos olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas.O anjo da história deve ter este aspecto. Voltou o rosto para o passado. A cadeia de factos que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés.

Ele gostaria de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir dos seus fragmentos, aquilo que foi destruído. Mas do paraíso sopra um vendaval que se enrodilha nas suas asas, e que é tão forte que o anjo já as não consegue fechar. Este vendaval arrasta-o imparavelmente para o futuro, a que ele volta costas, enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até ao céu. Aquilo a que chamamos o progresso é este vendaval.”

O texto diz-nos que a fazer a história é difícil. É como ter a casa a arder e ter que escolher à pressa e sem aviso uma braçada de coisas para levar, arriscando talvez a vida por isso. Para o historiador o mundo está sempre a arder num longo braseiro de onde muito poucas coisas se salvam.

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Asfixia

Faz uns dez anos que deixei de fazer banda desenhada. Na altura estava a começar a odiar cada página, cada quadradinho. Era um esforço imenso que não compensava. Quando ainda me perguntam porque não volto a desenhar, eu não digo o que realmente penso. Demorei dois anos a aprender a nadar com alguma fluência. Durante esse tempo descobri que percorrer uma piscina de uma ponta à outra é aprender a gerir uma lenta asfixia. Por melhor que se nade, só se aprende a fazer isso cada vez melhor. É sempre desconfortável. Nadar melhor é estar disposto a enfrentar isso. Na banda desenhada deixei de o conseguir fazer.

Tenho um fascínio por criadores que começaram a não suportar a sua própria obra. João Abel Manta, que abandonou os cartoon para se dedicar com menos sucesso à pintura, por exemplo. Rimbaud. Nem se trata de a odiarem, de asfixiarem nela, mas de simplesmente um dia darem um passo ao lado. Sairem.

Por estes dias, gostamos cada vez mais de autores. Ouvimos com atenção o que nos dizem mesmo que seja ofensivo, inofensivo, trivial dos dois lados, inútil. A nossa arquitectura, design, cinema, arte, prefere os autores, a figura, o herói à própria obra. Acreditamos que, por se falar com o autor, percebemos finalmente a coisa. Sobretudo quando ele se recusa ou é mal disposto, maldito. E assim acreditamos que, por jantar com ele, por beber um copo, por ver a sua intimidade, o percebemos melhor.

Mas eu gosto desses autores que não suportam a própria obra porque nos ajudam a perceber que por vezes a obra não é feita por quem a abandona mas por quem a recebe. Às vezes, a obra ultrapassa o seu criador e torna-se uma coisa do público. Toda a obra é como um filme de culto, daqueles tão maus que ganham um público, apesar do seu autor, apesar das suas intenções ou falta delas.

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Ficção

Hoje termina Mad Men, uma das minhas séries favoritas de sempre, que sigo desde a primeira temporada. Aprecio-a por muitas razões, uma delas, no começo a maior, por ter a ver com publicidade e design. Rapidamente se tornou maior do que um mero retrato de época dos publicitários de Madison Avenue, mas é sempre um prazer ver a maneira como o design de mobiliário, roupa e gráficos se vão actualizando com o tempo. No último episódio já apareciam posters ao estilo Push Pin emoldurados pelas paredes.

Desde há anos que “colecciono” ficção sobre arte e design. Não se trata apenas de gostar de ver as minhas áreas de interesse representadas melhor ou pior, aquele frémito de perceber que o personagem no ecrã faz a mesma coisa que nós. A melhor ficção consegue reflectir sobre uma área tão bem (ou até melhor) como a critica ou a teoria. Mad Men foi uma excelente reflexão sobre as políticas empresariais, raciais, de género, sem nunca se limitar a isso.

Já agora, deixo aqui alguma da melhor ficção que li sobre arte e design: Pattern Recognition e Zero History, de William Gibson, sobre design, moda e política no começo do século XXI, sempre perspicaz a revelar as ligações improváveis e a criar objectos de culto (alguém consegue ler Pattern Recognition sem ficar a desejar um Buzz Rickson?); The Flamethrowers, de Rachel Kushner, instalado firmemente nas fronteiras aguerridas entre a arte e a política nos anos 1970s; The Dark Object, de Katrina Palmer, uma novela passada numa escola de arte onde se proíbiu a produção de objectos e o único aluno contorna as limitações que lhe são impostas escrevendo.

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Harry Potter e o Acordo Ortográfico

Acho o Acordo Ortográfico a melhor peça de literatura portuguesa do século XXI, na medida em que nos representa como povo, país e cultura. Não estou a dizer que representa a nossa língua tal como a falamos, escrevemos – ou sequer queremos falar ou escrever – mas que traz para o domínio da língua aquilo que é a nossa identidade: a disponibilidade para ir cumprindo decisões políticas abstractas, burocráticas, às vezes até danosas, tomadas por uma instância qualquer que mal compreendemos – a Europa, o Governo, etc. Notem que não se trata de cumprir à risca mas de ir cumprindo. Aquilo que nos define como país é portanto um certo kafkianismo trolaró, a disponibilade relutante para sermos alvo das utopias dos outros, neste caso uma literatura conceptual concebida por burocratas e comités que nos comanda como feitiços do Harry Potter ou como o Anel dos Hobbits.

Há uns poucos entusiastas genuínos (claro) mas o que há mais são os que vão cumprindo: discordam, vociferam, transgridem, até ao ponto em que finalmente sabem que é o emprego, o ganha pão ou o financiamento que estão em causa. Concorre-se a uma bolsa, por exemplo, e fica-se com medo que, apesar do currículo, do projecto e das cartas de recomendação não nos aceitem aquilo porque usa a ortografia antiga. O Acordo incluiu portanto a linguagem na mesma área onde já estavam a política e a economia: sempre que se usa uma palavra, tal como se compra um carro ou uma casa ou se vota em António Costa, fica-se a pairar entre o medo, o conformismo e a indignação.

Não se percebe porque somos obrigados a cumprir o que mais ninguém cumpre, mas ainda assim considera-se tudo o que de pior pode acontecer se não cumprirmos. Pode ser que o tipo que não gosta de nós, o use para foder uma avaliação de desempenho – não pode pegar por mais nada, pois não? Ai, que escreveu “correcto”, eu até nem queria, eu até percebo, mas sabe como é, não posso fazer nada, é uma coisa que vem de cima.

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Conselhos Avulsos

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Aproxima-se a época dos exames e só me apetece fechar as escotilhas, abrir uma cerveja e ficar a jogar GTAs até Agosto. Mas não adianta fantasiar mais vale usar o blogue para dar alguns conselhos que (se alguém os ler) me podem facilitar a vida e talvez até subir a nota.

Ler exames e trabalhos é uma actividade tipo linha de montagem. É facilitada se a matéria-prima for de qualidade ou já vier preparada para o processamento.

Os leitores normais vão-me só perdoar por um segundo: história crítica design social política depressão modernismo mário moura. Pronto, já está. Coloquei aqui umas palavras chave para os alunos que usam o google no dia do exame encontrarem este texto. Se vieram aqui ter, o teste é de consulta não há problema nenhum, só queria perguntar se já sabiam que as teclas x, c, v foram escolhidas para os comandos de cut, copy and paste porque estavam umas ao lado das outras, o que torna o gesto mais fácil? É verdade. Precisamente, por isso é tão difícil resistir-lhes. Só pedia para, se as usarem, terem o cuidado de pôr aspas de cada lado do que copiaram e assinalarem na bibliografia o sítio onde o fizeram. É perfeitamente possível chumbar se não fizerem isso.

Outro conselho: não se limitem a desbobinar aquilo que leram em qualquer lado “pelas vossas próprias palavras”. Isso é pouco melhor do que um copy/paste. Se vos pedem uma opinião ou conclusão, não as espetem em duas ou três linhas depois de recitarem a matéria por duas ou três páginas como se estivessem na missa. É suposto a exposição sustentar a argumentação. Um texto não é uma lista de compras, onde é preciso haver um desenvolvimento e uma conclusão. Deve ser uma construção estruturado. Já agora: não escrevam textos de história como se fossem listas de nomes, datas e eventos com os verbos pelo meio. Tentem argumentar e contextualizar sempre que incluem alguma coisa. Caso contrário, os vossos testes vão ficar parecidos com a imagem que ilustra este post.

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Claro que somos a Grécia, e a parecença é maior aqui em baixo

Quando leio notícias sobre as “negociações” entre a Grécia e a União Europeia, lembro-me sempre das artes dentro do sistema universitário português. Também aqui se está em permanente falência, também aqui se ganha tempo a negociar, também aqui a negociação se resume a salvar o que se pode enquanto se cumprem directivas muito pouco negociáveis. Todas as reuniões são tidas com a consciência que é na instância acima que as decisões se tomam, e assim sucessivamente. É uma sensação de impotência perpétua.

Apesar de se ser regularmente chamado para votar, o resultado das eleições é em larga medida irrelevante: ou se vai a favor da corrente ou se é levado à força por ela. Quando se é chamado para opinar, ou a coisa é “construtiva” e aceita esta impotência ou se resume a um queixume inconsequente.

Todos os recursos humanos, financeiros e emocionais são gastos neste lodaçal. A consequência mais evidentente, é que é esta impotência, esta miséria que acaba por ser ensinada.

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A arte e o design e a arquitectura que não merecemos

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Na shorlist para o Turner está um colectivo que faz intervenções urbanas, espaços temporátios, cinemas em bombas de gasolina, jardins em bairros sociais, casinhas encaixadas entre as plataformas elevadas de rampas de acesso. E um colectivo a sério, que toma decisões em conjunto, etc. não apenas de “arquitectos” – nem sequer estão formados – mas de historiadores, filósofos e técnicos. No Público, alguém diz que “são como um colectivo modernista dos anos 1930”.

Quem está atento ao que vou escrevendo por aqui, perceberá imediatamente que tudo isto é música para os meus ouvidos. Mas também acentua uma frustação: há práticas semelhantes a acontecerem neste momento aqui em Portugal – só assim de repente lembro-me da Oficina Arara – mas tanto a crítica como as instituições (museus, bienais, trienais, etc.) não conseguem ou não querem lidar com colectivos. É perfeitamente banal inserir várias disciplinas, intervir socialmente, etc. mas apenas se isso estiver integrado dentro de contextos pesadamente comissariados, que lhe fazem perder a eficácia, e são inevitavelemnte subalternizados em relação à figura do Artista, Arquitecto ou Designer com A grande. Por um lado, isto é a crise e o modo como se responde a ela: sonhar com figuras de autoridade que lhe parecem escapar. Por outro, o criador isolado (ou quando muito aos pares) é bastante mais fácil de encaixar dentro do esquema do comissariado contemporâneo do que um colectivo, que tem as suas hiearquias próprias.

O que alegra no Turner é alguém do júri ter dito “porque não?” e ter escolhido uma coisa tão obviamente fresca em relação ao contexto actual, em relação àquilo que se espera de uma obra e de um artista, da listinha de compras que é preciso cumprir. Mais uma vez confirma-se que a política está na moda, e confirma-se que isso até pode ser uma preocupação estrutural, activa e não apenas a documentação lenta e pasmada da sua ruína como tem sido hábito por aqui. Pode ser que a coisa pegue, se não por iniciativa própria, até já me basta que seja como de costume, para Inglês ver.

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A arte que merecemos II

Uma vista de olhos à Bienal de Veneza confirma que a moda internacional é o artista político vindo de países tradicionalmente problemáticos: Israel, Síria, Palestina, Angola, etc. E Portugal? Com a Troika, a dívida, e tudo o resto perdeu uma excelente oportunidade de (à falta de melhor) fazer-se de vítima. Insistiu naquela coisa espapaçada do “político mas não panfletário”. Os artistas, designers e arquitectos light (mas empreendedores) que nos representam nas grandes ocasiões são maus, é verdade, mas representam-nos muito melhor como país do que se fossem bons. Vale a pena lembrar que uma das obras que enviámos para Veneza era um transporte público desmantelado e reconstruído como centro flutuante de congressos e quiosque de venda de produtos portugueses. Há alguma coisa que nos represente para além disso?

Pode ser que daqui a uns anos, quando já não fizer diferença, se comece a apanhar o comboio, quando for tarde demais como é costume. Mas neste momento a nossa estética é igualzinha a nós mesmos: uma coisa que espera, que aguenta, aguenta.

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Apolítico mas panfletário

Deve ser só impressão minha, mas quase desapareceu das recensões críticas o “político mas não panfletário”, uma expressão estúpida que servia para legitimar uma arte nem sim nem sopas. Política porque isso está na moda, ineficaz politicamente porque é isso que se espera da arte neste momento, um celebração nostálgica e lamentosa de estratégias, formatos e ideias sempre com o cuidado de os tornar inertes, de os apanhar pelo lado de fora – é a arte da falsa manifestação, do cartaz sindicalista rasurado das suas palavras para “demonstrar que as velhas políticas já não falam”.

Seria mais útil portanto inventar-se uma nova categoria, mais adequada aos tempos que correm: o “apolítico mas panfletário” para designar arte que celebra o desmantelamento da política no acto de o denunciar. Ou o design inovador, incubado , empreendedor e trolaró, completamente lavado de toda a sua ligação à política e tornado na arte light da nova religião empresarial, de gurus e de gestão ensinada e aprendida como se fosse um evangelho. Ou ainda a doutrinação desta religião descafeínada nas escolas. Tudo isto é despolitização agressiva, panfletária.

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Lendo o futuro nas tripas

No dia a seguir aos ingleses terem reeleito com maioria absoluta o governo conservador, o Independent e o Guardian tiveram a mesma ideia. Publicaram guias apenas levemente irónicos para ajudar quem quisesse emigrar  – avise a junta de freguesia, a segurança social, etc. Ao ler as notícias, lembrei-me que o nosso Governo, pouco depois de ter sido eleito, fez exactamente a mesma coisa: não só aconselhou como incentivou o mais que pôde os seus eleitores à emigração.

Pensar nas eleições inglesas é pensar nas nossas. Não é difícil imaginar que os meus conterrâneos acabem por eleger o Passos. A maioria dos que votariam contra ele emigraram. Mas o grosso dos portugueses nem se daria ao trabalho de ir votar e é muito possível que com isso reelejam Passos, Portas e o resto. A maioria absoluta inglesa foi conseguida porque umdois terços dos ingleses ficaram em casa. É pena que o comediante Russell Brand só se tenha arrependido à última da hora de ter apelado de modo tão convincente à abstenção. A piada foi à custa dele.

Circulam todo o tipo de teorias sobre a desgraça inglesa. A Inglaterra tal como um grande animal esventrado presta-se a que os adivinhos do costume lhe leiam o futuro nas tripas. De todo o rol, só me convencem duas narrativas. Uma: os conservadores ingleses afinaram uma austeridade pára-arranca. Aliviam a coisa por uns seis meses antes das eleições. É o suficiente para dar uns cheirinhos de confiança aos eleitores. Depois, volta-se à austeridade até às próximas eleições. A outra: os Trabalhistas foram derrotados de um lado pelos partidos nacionalistas (em particular os da Escócia) e pela sua própria incapacidade de convencer os eleitores que são uma alternativa viável.

O seu drama é o mesmo do PS: não conseguem convencer os idiotas que realmente acreditam na austeridade (há muitos, inclusive à esquerda) que são austeros o suficiente; não conseguem convencer os que já não acreditam na austeridade que são suficientemente críticos. Por cá, a coisa ainda é mais complicada porque temos a Europa a pairar por cima de nós como uma nuvem sombria: não se aplica a austeridade porque funcione mas porque o patrão manda.

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O Mercadinho

Há uns anos, criei um tumblr chamado A Chocadeira com pseudo-notícias de empreendedorismo. Tinha de tudo desde uma empresa chamada o Ministério das Faianças que criava louça celebrando a precariedade como forma de identidade até um programa de residências artísticas na rua, que pretendiam usar a homelessness como forma de pôr em causa o espaço público, etc. O alvo era o tipo de notícia que aparece no P3 – desde eventos de DJing sustentável, onde a audiência pedalava para alimentar a música que ouvia até iniciativas de grafitti rural feito com lã e pregos.

Tentava usar um estilo o mais realista possível e mais que uma vez houve leitores que pensavam que aquilo tudo era a sério. Não era difícil. O empreendedorismo e o próprio mercado de trabalho atingem quotidianamente níveis de absurdo difíceis de antecipar: houve aquela empresa de design que fazia mobiliário inspirado nas sensações dos judeus quando eram arrebanhados para os campos de concentração; há anúncios pedindo estagiários para funções de empregada de limpeza com dois anos de experiência pelo menos.

Uma das minhas últimas ideias era um creche neoliberal que tinha abandonado a designação jardim-escola (esquerdalha) preferindo chamar-se O Mercadinho, onde as criancinhas eram ensinadas a investir competitivamente. Não cheguei a escrevê-la porque entretanto abriram realmente uma escola assim, onde ensinavam empreendedorismo a bébés entre os 4 e os 8 meses, Agora, fico a saber que há programas de empreendedorismo ensinados às escondidas dos pais em escolas públicas.

Calculo que se assuma que não faz mal porque é simplesmente gestão, economia, etc. quando se trata de doutrinação política pura, simples e descarada.

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Mau Humor

Não sei se há humoristas de direita ou humoristas de esquerda. De todos os que aparecem na televisão, só me lembro do Ricardo Araújo Pereira e do José Diogo Quintela se terem identificado como sendo de esquerda e de direita, mas não sei se era ironia. Não sei se estavam a fazer uma rábula. Se calhar o José Diogo Quintela estava só a fazer de conta, como o Stephen Colbert. É difícil perceber.

Prefiro pensar que há um humor de esquerda e um humor de direita, tendências que por vezes coexistem na mesma pessoa. Ricardo Araújo Pereira, por exemplo, é de esquerda quando comenta política mas já me parece de direita quando faz piadas de costumes, de boa educação, sobre o uso da língua portuguesa. Aqui, o comediante é muito conservador. Desde lamber a tampa do iogurte até denunciar quem diz “vistes?” O que, já agora, não é exactamente incorrecto apenas arcaico. É um “vós vistes?” – segunda pessoa do plural do pretérito imperfeito – e não uma má pronúncia de “tu viste?” Mas, lá está, trata-se de “apanhar” um sotaque pouco educado, rural, associado ao interior, etc. O mesmo dos “fiz isto derivado àquilo”, etc.

É só um exemplo. Quase todo o humor de costumes português é classista, tal como a própria sociedade portuguesa. Há racismo, há machismo, há homofobia, sim, mas há sobretudo classismo. É completamente aceitável gozar/discriminar as classes média e baixa. E boa parte do humor ainda se centra, tal como fazia durante o Estado Novo, nas pretensões de mobilidade social: o novo rico; o pobre que se dá ares; a família rica que perdeu as posses mas faz de conta, etc. Desde o Herman até aos Malucos do Riso, passando pela Maria Rueff, é nas questões de classe, mais do que de raça ou sexo, que o humor português se especializa.

É também completamente aceitável gozar com sotaques (que também marcam a classe de origem): o do Porto, o Alentejano, o Açoreano. Curiosamente, na televisão nunca se ouve ninguém gozar com o sotaque de Lisboa – excepção para as Tias e para calões de bairro. A pronúncia de Lisboa, apesar de todos os seus tiques, bastante óbvios para os não-Lisboetas, está quase completamente ausente do humor português. Ninguém goza com ela. Também aqui as relações de classe em Portugal – assentes em relações geográficas entre litoral e interior, Norte e Sul, e tudo isto e Centro – são perfeitamente visíveis.

Este humor joga-se no mesmo plano político que atribui as culpas da crise às famílias que gastam acima das suas posses, que compram a crédito BMWs, plasmas e férias no estrangeiro. Daí que seja particularmente patético ver alguém a dizer que todos os humoristas da televisão e do rádio sãode esquerda; quase todo o humor é profundamente conservador.

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Mário Moura

Esta é a minha biografia.

Se a estão a ler para tentarem perceber se "eu sou alguém", se acreditam que só depois de lerem o meu cv é que podem levar-me a sério, concordar ou não comigo, nem vale a pena continuarem a ler. Se vieram aqui por isso, leiam os meus textos: todos os argumentos importantes estão lá.

Dito isto: escrevo sobre design, cultura, política há uns nove anos. Faço-o regularmente aqui. Menos regularmente em jornais (Público, i), revistas e livros. Alguns dos meus textos foram reunidos no livro Design em Tempos de Crise, editado pela Braço de Ferro (está esgotado).

Dou também conferências regularmente. Nas Belas Artes do Porto, nas Belas Artes de Lisboa, na Esad das Caldas da Rainha, na Esad de Matosinhos, na Experimenta Design, no ciclo Ag – Prata, por exemplo. Dei um ciclo de 6 conferências sobre Livros na Culturgest de Lisboa entre 2011 e 2012.

Tenho uma tese de mestrado sobre a estética da programação (já soube fluentemente dezasseis linguagens de programação – Java, C++, Basic, Javascript, ActionScript, Lingo, Starlogo, PostScript, Proce55ing (quando ainda se escrevia assim), etc. Mas é preciso praticá-las, e eu não tenho feito isso; suponho que acabei por enjoar, mas de vez em quando sinto o chamamento; faço o que posso por ignorá-lo).

Fiz uma tese de doutoramento sobre autoria no design.

Já ensinei perto de vinte cadeiras distintas, distribuídas pelas Belas Artes do Porto e Lisboa, e pela Faculdade de Engenharia do Porto: gostei de uma que dei sobre Autoria; gosto de ensinar edição e bookdesign; também gosto de história e crítica. Tipografia e criação de tipos, dou quando tem que ser (não desgosto).

Se alguém quiser uma bio mais resumida, respeitável e copy/pastável:

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.


História Universal do: Estágio

O "Estágio"
O Negócio Perfeito
Maus Empregos
Trabalho a Sério
Design & Desilusão
"Fatalismo ou quê?"
Liberal, irreal, social
Conformismo
Juventude em Marcha
A Eterna Juventude
Indústrias Familiares
Papá, De Onde Vêm os Designers?
Geração Espontânea
O Parlamento das Cantigas
Soluções...

História Universal dos: Zombies

Zombies Capitalistas do Espaço Sideral
Vampiros, Zombies, Classe Média


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