The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Biblioteca na Biblioteca

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Exposição que reúne livros, revistas, fanzines, múltiplos e materiais gráficos (cartazes, folhetos, flyers) editados de forma independente no Porto entre 1999, ano de abertura do Museu de Arte Contemporânea de Serralves, e a atualidade. Além de refletir a vitalidade e diversidade dos muitos espaços artísticos independentes que funcionaram na cidade nos últimos 20 anos – uma parte dos materiais apresentados foi concebida para acompanhar, divulgar e em alguns casos para financiar a programação destes projetos –, “Biblioteca na Biblioteca” dedica-se, em grande medida, a apresentar objetos realizados noutras áreas, especialmente exploradas no Porto – banda desenhada, design, arquitetura e música, nomeadamente.

Os materiais que constituem a mostra são, além de expostos, consultáveis pelo público. Espera-se que o diálogo com determinados colecionadores (que cederam parte dos seus espólios) que ajudou a definir a exposição possa ampliar-se durante o período em que esta estará aberta ao público, e que novos interlocutores possam contribuir com mais materiais para esta “Biblioteca na Biblioteca” em permanente expansão.

Comissariado:
Ricardo Nicolau, adjunto da direção artística do Museu de Serralves e Mário Moura, Professor de design gráfico na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto

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Filed under: Crítica

Design e tradição

Quando comecei a escrever sobre design, o meu tema era o que via à minha volta, o design, as revistas, os livros, o trabalho, os recibos verdes, as conferências. Com o tempo, passei quase por completo para a história do design. Fiz a passagem em parte porque havia procura, encomendas, em parte porque a «actualidade» do design era (e é) uma seca – variações infindas do «design é para os designers», queixumes sobre a Comic Sans, o «problema» dos concursos públicos, a ordem dos designers, etc.

Percebi de imediato que a minha formação de base enquanto designer era muito fraca no que diz respeito à história. As noções de histórias dadas durante o curso eram dispersas, pouco sistemáticas, assentes em relatos anedóticos e histórias pessoais – o que não era de todo estranho, porque a história do design internacional que nos chegava através de livros e revistas era o mesmo. Por comparação com as metodologias de história geral ou da história de arte, a história do design era grosseira e amadora, feita sobretudo para consumo interno da disciplina (repisar os praticantes heróicos, repisar a cronologia aceite do design português, etc.) É uma história isolada, conservadora ao nível dos métodos, cuja grande função é legitimar o design como uma área disciplinar. Para resumir, há tantos chavões na história do design português como nas suas «actualidades».

Tem havido cada vez mais excepções, sobretudo ao nível da academia, mas só raramente passam para os trabalhos de divulgação. Estou-me a lembrar, mais uma vez, do trabalho de Vitor Almeida sobre a institucionalização do design português que apareceu numa história do design que saiu com o Público.

Dentro da história do design, tenho trabalhado sobretudo dentro de uma área que talvez se pudesse descrever como a história do design enquanto disciplina: o seu discurso, as suas instituições, os seus métodos, que são entendidos não como características intemporais mas conceitos que mudam ao longo do tempo, às vezes radicalmente. É uma história não dos objectos ou dos praticantes, mas do próprio design enquanto conceito.

Neste momento, interessa-me sobretudo o design pré-moderno, uma área bastante negligenciada. Tende-se a confundir a totalidade do design com o seu período moderno que se iniciou entre o fim do Arts & Crafts e o começo da Bauhaus. Porém, há uma história rica mas pouco conhecida da disciplina antes desse tempo. Para ter uma ideia do que ficou esquecido, entre o aparecimento dos primeiros cursos de design em Inglaterra na década de 1830 e a Bauhaus vai quase tanto tempo como o que nos separa do fim dessa escola. Foi um período onde o design funcionou no contexto da revolução industrial, do Império Britânico e da reflexão política, moral e religiosa sobre a sociedade inglesa. Era um design que já assumia características próximas das do design moderno mas com diferenças fundamentais – que tendem a ser desvalorizadas como excentricidades que haveriam de ser eliminadas posteriormente. Uma delas é a ligação entre o design e a tradição histórica – que o modernismo (como o nome indica) procurou eliminar.

Os problemas de relacionamento do design com a sua história derivam do desprezo modernista da tradição, que se tornaria identitário – desde a Bauhaus, a história não seria uma parte central mas secundária na formação dos designers. Desde o começo, que isso não garantiu realmente uma capacidade crítica em relação à tradição, antes a criação mítica de uma nova, instituindo o modernismo como modelo identitário para o design – fazendo dele uma tradição histórica.

Vendo a cronologia largada do design desde os seus começos como disciplina na primeira metade do século XIX até hoje, é possível verificar o período modernista, embora influente, foi mínimo. No caso do design gráfico, já havia tentativas de sintetizar o modernismo com abordagens historicistas ainda estava a funcionar a Bauhaus (veja-se o Novo Tradicionalismo britânico; veja-se Tschichold depois de renegar a Nova Tipografia). Em termos temporais, a maioria do design é pré ou pós-moderno.

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Busca

Nas últimas semanas, andei feito detective atrás da edição experimental que se fez durante os últimos vinte anos no Porto, sobre o Porto ou por pessoas do Porto. Só posso dizer que foi difícil. Encontrar as pessoas é simples, o problema são os objectos. Um colectivo acaba, muda-se de emprego, de cidade, de gosto, e as publicações desaparecem, desagregam-se. Às vezes, mesmo quem os fazia já nem se lembra. Eu próprio fui-me percebendo do que já tinha esquecida. Temos o passado recente como garantido mas é espantosa a velocidade com que desaparece.

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Obrigações

Tem sido um período bastante ocupado mas não queria descuidar certas promessas, mesmo aquelas que já cumpro por tédio. Uma delas era chamar de vez em quando a atenção para o Vasco Rosa ter publicado um erro sobre mim no Observador e nunca o ter corrigido. Escrevi para lá por três vezes. tudo o que recebi em troca foi uma torrente de mails cada vez mais insultuosos do próprio Rosa. Já nem os leio. Acho curioso o tipo de personalidade que, em vez de corrigir um erro, prefere melgar a pessoa sobre quem o praticou. Acho ainda mais curioso isso ser tão comum nos jornais. Soube de outra pessoa a quem aconteceu o mesmo (não com Rosa): um erro factual numa coluna, um pedido de correcção, e em resultado mails a esparvoeirar.

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«Inspirações»

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O livro da direita é o primeiro editado pela Penguin em 1935. Repare-se como o desenho do pinguim é relativamente tosco por comparação com a versão de Jan Tschichold de 1946 (imagem seguinte). O livro da esquerda é o primeiro editado pela alemã Albatross em 1932. Na capa, indica que não pode ser vendido no império britânico ou nos Estados Unidos. A penguin «inspirou-se» no seu aspecto, no seu logotipo, nas colecções organizadas por cores, e aplicou-as dentro do mercado inglês onde não podiam competir. Por comparação até o logo do albatroz é bem mais elegante do que o pinguim de 35, rivalizando em elegância com o de Tschichold.
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A Espada Selvagem da Joana Vasconcelos (não)

O que mais aprecio em Conan Osíris é o mesmo que não gosto em Joana Vasconcelos: o fabrico. Os dois são comparáveis enquanto fenómenos fabricados, estudados, construídos a partir de fragmentos e camadas de cultura popular. O músico tem melhor fabrico e mais frescura que a artista.

A ironia, a ambiguidade, em Vasconcelos é superficial, bruta, expediente, uma maneira de evitar comprometer-se, de vender o mesmo peixe a gregos e troianos. Pode ser política e empresarial, pode ser feminista e conservadora, pode ser tudo e o seu oposto, provocadora e conformista, conforme o contexto – e a maior suspeita é que não seja nada.

A ironia de C. Osiris é mais ambígua e rica. Alcança a proeza equilibrista da extravagância sem pretensão. Tudo aquilo soa a uma construção feita sobre muito pouco, sobre nada até. Letras mínimas, básicas, óbvias, numa câmara de ecos de musica, performance e character design – e funciona. E fica-se com mais alguma coisa no fim do que no começo.

Vai-se a um programa da manhã cantar uma música cujo verso é «Sabias que o clitóris é um orgão cuja única função é dar prazer a uma mulher?»* E até se ouvir aquilo ali, naquele sítio e àquela hora, o sítio dos «vou cheirar teu bacalhau, maria», dos «bacalhau quer alho», dos «sei lá, sei lá, quem é o pai da criança», não passava pela cabeça que fosse tão básico fazer uma música pimba provocante e feminista, politicamente correcta, que responde com uma pergunta insolente, definitiva, a toda a grunhalhice tradicional, aceite, da música pimba, invertendo-lhe os termos.

Dá que pensar.

* Correcção: A música é da Catarina Branco que a cantou em dueto com Osiris.

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Futebol

Da minha casa, por entre os prédios, vê-se um campo de treino de futebol. Vê-se as rajadas de água do poderoso regador que consegue alcançar todos os cantos do relvado, os treinadores a arrastar vários modelos de baliza, desde as mais pequenas aos maiores. Vê-se os rapazes e por vezes as raparigas a repetirem os mesmos exercícios em círculo como se fossem fotogramas do mesmo atleta presos num loop. São tão miúdos que voam mais do que a bola nos remates. À noite, jogam os mais velhos, iluminados por focos que dão ao relvado o tom de uma televisão vista ao longe.

Se eu espetar o dedo na vertical, consigo tapar toda a nesga de futebol que avisto entre os prédios, consigo tapar toda a parte do futebol que gosto, que é pouca e corresponde a corpos a fazer coisas difíceis e que não percebo, uma admiração animal por um esforço ou uma habilidade que me ultrapassam. Sei que só aumentaria se soubesse as regras, os nomes, tanto dos jogadores ou das equipas como dos movimentos. É o que me acontece na natação, onde o pouco conhecimento e experiência que tenho só me deixa mais maravilhado. Só me deixa entrever uma pequena parte do impossível.

Era bom se conseguisse tapar com a mesma facilidade a parte do futebol da qual não gosto, mas está em todo o lado. Na natação, como na corrida, na ginástica ou no atletismo, não há o mesmo tribalismo de espectador. Não se discute, não se debate, com a mesma intensidade. Ou pelo menos não se discute com uma obsessão tão grande que o jogo se torna um pretexto ritual para demonstrar graus cada vez mais absurdos de fidelidade a um grupo.

O jogo é, pelo lado de dentro, um teatro de operações de onde sai um resultado inequívoco: alguém ganha, alguém perde, alguém empata. Pelo lado de fora, é um evento de interpretação extrema, onde cada segundo, cada gesto, cada palavra, e todos os segundos, gestos e palavras que o rodeiam têm o potencial de ser analisados, criticados, debatidos, até se desfazerem, até dizerem o que se entender.

Num documentário sobre os fanáticos que acreditam numa Terra plana, há um momento em que fazem uma experiência destinada a desmentir a curvatura do planeta. E falham. E dedicam os anos seguintes a desacreditar a experiência que eles próprios conceberam. Importa-lhes mais uma posição, uma pertença. Tudo o que a ponha em causa será invisível.

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A Crítica também passa de moda

Fazendo as contas, concluo que leio mais livros do que imaginava. Dos que deixo a meio, sei a quantidade e que é maior. O mesmo das séries de televisão, um vício confinado desde que sou pai. Sei as que só vejo meio episódio e até gosto e depois paro. Escolher um livro ou uma série tornou-se uma disciplina rigorosa, necessária. Leio muita crítica, muitas recensões. Também aqui, na leitura de crítica, é preciso rigor. Não se pode ler toda a crítica, nem se pode assumir que toda a crítica é um guia de consumo.

Há dois clichés sobre crítica que não são verdade. Um deles é o da crítica como guia de consumo. A melhor crítica mostra-nos critérios, uma estética e uma determinada ética. O outro cliché é de que só se pode avaliar a qualidade de uma crítica confrontando-a com os objectos que critica. Não é de todo verdade. Consumindo muita crítica, não se chega a consumir nem uma ínfima parte do que é criticado, mas forma-se uma ideia das qualidades e defeitos do crítico, da sua escrita, dos seus critérios, dos seus preconceitos, da sua capacidade de exposição. Pode-se confrontar cada um dos textos sucessivos que o crítico escreve e pode-se pesá-los contra os textos de outro crítico.

Defender que só se pode apurar a qualidade de um crítico vendo o filme, lendo o livro ou ouvindo a música é um lugar-comum que, num sítio pequeno e com pouca crítica, protege acima de tudo o mau crítico, que dá uma estrela a objectos que não percebe e confia que nunca o terá que justificar porque serão raros os que vão ler o livro.

Neste momento, em Portugal, o crítico de que menos gosto é João Pedro Vala, no Observador. Ontem li a crítica que escreveu à tradução portuguesa de Go, Went, Gone livro de Jenny Erpenbeck. Vala é exímio a descrever com clareza e fluência a sua incapacidade para perceber um tipo muito específico de objecto que, infelizmente para ele, corresponde a muito do que se faz de interessante na literatura actual – aquilo que se designa por literatura politicamente correcta, coisas que envolvam identidade, direitos civis, refugiados. O livro de Erpenbeck é isso tudo, logo Vala não o percebe, tal como não percebeu o Se Esta Rua Falasse, de James Baldwin. Ninguém é obrigado a perceber, claro, e calculo que a perplexidade irritada de Vala represente a do público-alvo do Observador.

Mas compare-se o artigo de Vala com o de James Woods na New Yorker, um crítico que nem é dos meus favoritos embora não pelas mesmas razões que Vala. Ou a crítica que lhe fizeram no New York Times. Dão-se ao trabalho de não ver apenas um mosaico de clichés panfletários, o caso do crítico do Observador, que gasta a sua crítica a ensaiar o encaixe do livro nas fórmulas que conhece e espera, mas de perceber que as aparentes fórmulas se organizam, são narrativa, são literatura, e fazem-no de um modo delicado e complexo. Percebe-se por um lado que o que impede Vala de perceber o livro tem que ver com a sua mundividência, do que sabe sobre refugiados, de política, etc. mas sobretudo do que sabe sobre literatura, da compartimentação que faz entre literatura e política, ignorando que os clássicos, o cânone só não são obviamente políticos para nós, porque a sua actualidade não é a nossa.

Não queria escrever tanto e agora isto precisa de uma conclusão. Aqui vai: a crítica também é um género literário e tem os seus ciclos as suas modas. A crítica que não sabe lidar com o politicamente correcto, com a política, com a sociedade, não interessa muito neste momento.

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Os livros do Jan Tschichold, sobretudo os que escreveu, são objectos inacreditáveis. A mancha de texto, a sua relação com a página, a articulação tonal entre as fontes, o uso da cor, o papel – é tudo incrível. Folhear Die Neue Typographie, de 1928, ou o Typografische Gestaltung, de 1935, são como ver um atleta olímpico a nadar, um corredor de Fórmula 1 a conduzir, sobretudo quando se sabe o suficiente para pressentir a impossibilidade do que vemos, o atrito entre aquilo e o que se vai vendo e o que se vai fazendo, o design do dia-a-dia.

Tschichold é um dos designers mais influentes – o que é curioso, porque destrói por completo quem tenta segui-lo. Tudo o que disse e escreveu sobre design é uma espécie de gigantesca armadilha. Deixou centenas de receitas, esquemas, preceitos, mezinhas, dicas e moralidades. Seguidas à risca, não dão em nada. Não há nada que fique sequer perto.

A maneira de apreciar Tschichold é ficar embasbacado com o seu design e tratar a sua escrita como uma coisa boa para pôr os alunos a fazer exercícios. Depressa perceberão que seguindo a receita não se chega a nada de interesse.

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Coisas Graves

Um engano é uma coisa. O engano torna-se numa mentira quando, depois de apontado, é mantido. Pelo que percebo, é comum nos jornais portugueses fazer-se isso: publicar-se um erro e insistir-se nele, promovendo-o assim a mentira. É um hábito cobarde que assenta na confiança do público, traindo-a. Chateia ver isso à direita, chateia ver isso no Trump, mas chateia bem mais ver isso à esquerda.
Boaventura Sousa Santos publicou um artigo de opinião sobre a Venezuela com erros factuais graves, que qualquer pessoa pode verificar. Descreve Juan Guaidó como sendo «membro de um pequeno partido de extrema-direita, Voluntad Popular». Ora, esse partido está filiado na mesma Internacional Socialista que o Partido Socialista português. Diz também que Henrique Capriles, o mais conhecido líder da oposição venezuelana, afirmou que o «Presidente-fantoche Juan Guaidó está a fazer dos venezuelanos “carne para canhão”». Na conta de Twitter e no site de Capriles, a história é diferente – título de um dos posts: «Maduro: ¡reconoce a Guaidó!»
Se é um engano é grave, se é deliberado, a desinformação é grotesca.

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Design, Identidades

Quando comecei a escrever sobre design, fui-me apercebendo cada vez mais de duas coisas. Um, ao contrário do que muita gente pensa, o design é em grande medida uma actividade triste e precária, mal paga para a maioria dos que a praticam, muito lucrativa para uns poucos. É um mundo de estagiários, funcionários e patrões, e de grandes desigualdades. O design apesar dos macs, dos óculos de massa, das revistas reluzentes, das conferências histéricas de optimismo, tinha o mesmo esqueleto, os mesmos músculos, da exploração capitalista. Havia capitalistas e havia proletários. Dois, boa sorte a quem queira convencer um estudante de design, estagiário, funcionário, que é um proletário. Todos eles pensam que vão ser alegres profissionais liberais, empreendedores que enfrentam os problemas naturais dos primeiros anos a caminho do sucesso. Seria tão fácil resolver muitos dos problemas que afligem os designers reconhecendo simplesmente que são problemas laborais, iguaizinhos aos dos arquitectos, condutores da Uber, etc. Mas é difícil convencer os designers que merecem respeito, pagamento e direitos porque trabalham e não apenas porque o design é uma tarefa muito importante.

O que quero dizer com isto é que, de acordo com o marxismo, uma maneira eficaz de criar uma sociedade mais justa passa por convencer todo o tipo de trabalhadores que, apesar de todas as diferenças das suas profissões, têm uma coisa em comum: são trabalhadores. Porém, a dificuldade que descrevo acima em relação aos designers é a mesma dificuldade que aflige o marxismo. No fundo, trata-se de convencer um monte de gente que têm a identidade comum de um trabalhador. É em parte isso que significa a foice e o martelo, os trabalhadores do campo e os trabalhadores da cidade, todos os trabalhadores. Mas é bastante difícil a um designer rever-se num martelo. É preciso bastante esforço de imaginação. Quando muito funciona como uma metáfora.

Assim, quando ouço gente a dizer que o marxismo e as políticas de identidade estão em pólos opostos, aquilo que penso é que o marxismo assenta numa política de identidade, a ideia que uma série de tarefas podem ser descritas enquanto trabalho, e certas pessoas enquanto proletariado. Mas é só uma identidade, um meio de conseguir que as pessoas se unam em nome de uma causa maior. Juntar a essa identidade outras identidades oprimidas só junta mais gente, não diminui, não fragmenta. Não é uma distracção.

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Comédias

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Soube da maneira como essas coisas se sabem, pelo instagram, que a tradução do primeiro livro do George Saunders é do Rogério Casanova. Tem graça porque andava por estes dias a pensar nos dois, em Saunders e Casanova. Pensava eu que Casanova é um dos melhores representantes do ensaio humorístico português. Que não é só um género mas também um estilo, uma escola, a que pertencem também Ricardo Araújo Pereira ou João Sesinando. É um humor absurdista, cuja matéria-prima é a linguagem e os costumes – no fundo, os formalismos. Sejam os que se dizem, os que se escrevem ou os que se fazem. Lembra-me sempre aquilo que se designa por «humor inglês», que se caracteriza por uma sucessão rítmica, muito rápida, de absurdos, de reviravoltas, de surpresas, até se chegar ao fim do espaço ou da paciência disponível. Casanova é bom porque se dá ao trabalho de ir construindo ao longo do seu texto um fim decente, que tenta transcender ou pelo menos justificar a torrente de piadas. Pensava eu em Casanova e Saunders porque dei conta que sentia a falta de alguém que fizesse humor como Saunders, ou como Denis Johnson, um humor menos inglês (menos português) e mais americano, menos assente no sentido de humor evidente da voz que nos guia, da sua auto-consciência irónica, das suas piadas que o colocam acima da situação mesmo quando esta lhe leva a melhor, mais seco, mais ambiental, e mais assente na construção de um personagem que é ele mesmo uma situação, um problema, e ao mesmo tempo nem pior nem melhor do que nós. Não é um guia, não é um comentador, não é alguém que nos tenta convencer a segui-lo com a sua arenga de humorista, mas alguém que se segue, como se segue um acidente em curso, uma desgraça prestes a acontecer, alguém que faz coisas a mais, que leva demasiadas coisas em equilíbrio. É como um comédia muda mas na alma.

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Paint It Black

Achei penosa a exposição do Pedro Costa em Serralves. Os seus filmes são coisas que me ficam. Uso o termo «coisas» com deliberação, porque demoram a pensar ou a digerir ou a passar pela memória. Nem sei se são coisas que se apreciam ou se gostam. Sei, porque vou lendo sobre isso, que os acompanham uma série de referências, os filmes favoritos de Costa, as fotos de Nozolino, de Jacob Riis. Ver essas referências ali pareceu-me pouco, não sei se redundante, se condescendente, se pretensioso, se simplesmente falhado. Achei penosa a fiada de televisões a desfiarem momentos de filmes favoritos que seriam os favoritos de qualquer outro frequentador da cinemateca. Achei descuidadas e adolescentes as colagens de fotos nas paredes. Não aguentavam a escala de tudo o resto. Um pequeno desenho junto a uma janela fez-me olhar com atenção para uma planta das saídas de emergência que com ele concorria do outro lado. Os melhores momentos eram os de maior escala, os que eram mais obviamente variações do gigantismo obscuro das salas de cinema. Mas a impressão com que fiquei daquele labirinto foi a de um adolescente, de um Adrian Mole, que pintou todo o seu quarto de preto.

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Anedotas

É mesmo fantástico que a direita do Observador se chateie com o Mamadou Ba por ter dito «bosta de bófia». Dizem que foi incendiário e ofensivo. Tem piada, porque deve ser humor. O mesmo Observador que se está sempre a queixar de que já não se pode dizer nada, que é a ditadura do politicamente correcto. Se for um comediante a fazer piadas de pretos, fixe. Se for um jornalista a dizer que não há problema nenhum em chamar cigano a um ladrão, porreiro. Se for um historiador a garantir que a culpa da escravatura é dos africanos, óptimo. É o direito de ofender, é a liberdade de expressão. Tudo isto e muito mais nunca chega a ser racismo para os Observadores. Racismo é ter a lata de soltar um «bosta de bófia» depois de uma vida toda a aguentar tratamento abusivo por parte da polícia – amplamente documentado. Adoraria ver idiotas como José Manuel Fernandes, que estão sempre a ver gulags e Estalines quando se lhes aponta qualquer coisinha, a viver nas mesmas condições que os habitantes do Bairro da Jamaica, que estão condenados a ser presos, interrogados, interpelados na rua, simplesmente pela cor da pele e pelo sítio onde vivem. A vida deles não é um hipotético 1984 que há-de chegar se alguém criticar uma piada sobre gajas, é um 1984 já aqui, agora mesmo. E sim, é racista apontar o dedo a um afrodescendente quando desabafava um «bosta de bófia» em relação a isto tudo, enquanto se acha uma vitória da liberdade de expressão continuar a dizer «piadas de pretos.»

(Republico do meu facebook)

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Destaque

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Artigo no suplemento P2 do Público do Guilherme Sousa, uma das novas vozes mais interessantes da escrita sobre design em Portugal.

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Depois de almoço

Terminei as avaliações tarde, já perto das duas, meio tonto de fome, almocei no primeiro sítio, a primeira coisa. A partir daí, sei o que costuma acontecer. Desço a Passos Manuel em direcção aos Aliados, parando na Fnac para ver os livros. Na secção de História, uma adolescente repetia que até lia um do Hitler, se lho dessem, que lia o Máine Kemf. Um colega disse que tinha. Ela pergunta se vale a pena, porque não ia gastar 26 euros numa coisa que não valesse a pena. Vou à secção de design, que nunca tem nada de novo. Se não fosse o chilrear da jovem, que repetia tantas vezes «Hitler» como um aspirante à direcção do PSD diz «Sá Carneiro», não teria dado conta que havia. Aliás, já lá estava da última vez que lá fui, umas semanas atrás. Na altura, olhei mas não percebi. Só o esforço para filtrar os «Hitlers» ambientes é que me levou a olhar duas vezes para um pequeno livro amarelo que dizia «Dorindo Carvalho». Abrindo-o percebi que se tratava de uma remodelação da Colecção D, de Jorge Silva, e o meu coração descaiu um bocadinho. Eu gostava da Colecção D. Eram livros pequenos, quadrados e atraentes, cada um sobre o seu designer ou estúdio de design. Instalavam-se de um maneira elegante, bem produzida, numa posição escorregadia. Toda a gente acha bem que se façam recolhas dos trabalhos de designers portugueses. Não parece má ideia. O problema é que pouca gente as compra. Para o seu maior público, os estudantes, são caras. Como fonte de pesquisa, o google é mais barato e funciona na maioria dos casos. Para os designers e académicos veteranos que se interessem por história, funcionam como uma lista de compras. Servem para perceber o que se tem e o que não se tem na colecção. Não sei se haverá outro público. Jorge Silva resolvia o problema praticando a história como se fosse uma espécie de direcção de arte.  Fazia com os trabalhos das sumidades do design aquilo que ele sabia fazer com os ilustradores de suplementos como o Mil Folhas, do Público. Recolhendo, tratando, organizando as imagens, não se limitava a um catálogo neutro mas imprimia o seu gosto e a sua visão ao trabalho. Era uma história feita em parte com as ferramentas metodológicas do design prático. E funcionava. Era interessante ver obras organizadas pelo olho de um designer experiente. Folheando este Dorindo Carvalho só conseguia pensar que deve ter terminado o dinheiro ou que o projecto se cansou. Aumentou-se a escala das páginas mas as reproduções pareciam menos nítidas. Mesmo a vaga diferença de tom entre o branco das ilustrações e o das páginas me pareceu inconsequente. Tudo aquilo era bidimensional. Senti falta das fotos de objectos que davam peso e contexto nos volumes anteriores da colecção. Quando entro assim na Fnac, cansado e depois de avaliações, tendo a sair com dois ou três livros. Mais tarde, custa-me a perceber e até a tolerar a sua presença nas minhas prateleiras. Desta vez, saí sem nada.

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Sifting The Trash · A History of Design Criticism

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Saiu em 2017 e chegou-me no começo de 2019. Adiei-o este tempo todo por causa do título e do resumo dado no bookdepository. Desagradava-me a ideia do crítico como alguém que tenta descobrir coisas interessantes no meio do lixo. Parecia elitista. Mandei-o vir porque dizia ser uma história da crítica de design, mesmo que centrada apenas no design de produto. Felizmente que o fiz. O resumo não mente mas dá uma imagem severamente amputada do livro.

Não é uma história completa da crítica de design, porque trata apenas da segunda metade do século XX. O seu âmbito é limitado ao Reino Unido e aos Estados Unidos. Não é uma história contínua mas em cinco momentos. O primeiro, «A Throw-Away Esthetic» (1955-1961), descreve o trabalho de críticos como Deborah Allen, Richard Hamilton, Reyner Banham. O segundo cobre os protestos na conferência de Design de Aspen 1970 (1970-1971), onde reencontramos Banham, que no primeiro capítulo defendia uma estética Pop, de use e deite fora, a enfrentar um modo completamente distinto, político e ecológico, de pensar o design. É destas tensões que vem o trash do título. O terceiro trata da crítica e comissariado de Design no Reino Unido entre 1983 e 1989, um período de expansão subsidiado pelas políticas de estímulo ao empreendorismo neoliberal de Thatcher, cobrindo o trabalho de Deyan Sudjic, Peter York, Stephan Bailey, mais apolítico e celebratório e a crítica contrária e politizada de Dick Hebdige e Judith Williamson.  Aqui cobre-se realmente o crítico como elitista que resgata preciosidades no meio do lixo. No quarto (1998-2001), cobre-se o critical design e no último os blogues na sua época de ouro (2003-2007).

A cronologia é esburacada porque Alice Twemlow prefere (e bem) centrar-se em case studies que podem ser desbastados em profundidade, cobrindo contextos, sociais, geográficos, biográficos, políticos e, sobretudo, sobretudo, pontos de vista distintos e antagónicos. Este é o livro que quase me pôs em paz com o que se vai escrevendo sobre design que, francamente, não tem sido muito interessante.

Sobretudo aqui em Portugal, onde no discurso crítico ainda impera um unanimismo de opinião, de estilo e formato de escrita. Emperrou-se em meia dúzia de lugares comuns: a promoção e defesa do design, a transmissão da «história», entendida como fazer finalmente mais outro livro sobre outro «designer» esquecido, ou como a obsessão hipertrofiada pelo artesanato vintage que são as velhas tipografias ou editoras. O que fica de fora? Quase tudo: a discussão, concepções distintas, paralelas ou antagónicas do que é o design, o que se diz sobre isso e onde, etc. etc. etc.

O livro de Twemlow dá uma ideia do design como uma arena de pensamento vibrante onde uma nova ideia de pensar o design é tão mais interessante e polémica do que as discussões sobre comic sans ou da condenação da modinha e do trendy. Foi a última coisa que li sobre design que não pousei até acabar.

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Vergonha

Dizem-se coisas para calar, o que não é contradição nenhuma, apenas uma forma leve, passiva-agressiva de autoritarismo. Por exemplo, está-se realmente à espera de uma resposta quando se pergunta a Mariana Mortágua porque acha mal a ida de Mário Machado à TVI quando o seu próprio pai «é um terrorista»? Ou o objectivo é apenas confundir, colocando no mesmo plano coisas que só dificilmente se podem comparar. Como muita gente disse, Camilo Mortágua praticou a luta armada como forma de resistência a uma ditadura. Lutou pela liberdade. Machado luta contra uma democracia, luta contra a humanidade de minorias.

Mas se calhar pode-se ir mais longe. Tenho um livro grande velho, daqueles que faz espirrar quando se abre. Comemora a resistência belga durante a segunda grande guerra. No final tem dezenas de páginas em três colunas, letra miúda como a de uma lista telefónica. São mortos. Muitos em acções de combate contra os nazis. Será que esses podiam ir à TVI? Iria aparecer alguém a condenar a ida de terroristas ao Goucha?

O objectivo é mesmo só calar mas por trás disso, ou bem à frente, há uma indiferença à democracia, uma indiferença literal, que não a consegue distinguir de uma ditadura. É um caso leve, sonso, chico-esperto, de Salazarismo. Se realmente apreciam a liberdade de expressão, o direito a ofender, espero que sim, que se sintam ofendidos, se possível envergonhados, com isto.

Se não sentem, paciência. Subtraindo matematicamente a uma democracia o que havia durante o Salazarismo, uma das coisas com que se fica é uma liberdadezinha. A de vos mandar foder, claro.

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Sobre Palavras

Uma das séries de televisão mais interessantes do ano que passou é The Deuce, dos mesmos criadores de The Wire. É uma história à volta de Times Square da década de 70, de chulos, de prostitutas, de donos de bares, de mafiosos, de realizadores de cinema porno, de políticos. No tabuleiro de Nova Iorque, trata dos percursos paralelos, concorrentes, da prostituição, da pornografia e da gentrificação. Não é tão épica e teatral, mas lembra-me Deadwood, que tratava de temas semelhantes no Velho Oeste. Tal como The Wire, são obras que conseguem revelar nas trajectórias dos personagens dinâmicas sociais maiores, a tensão entre as preocupações quotidianas de um dono de bar, navegando à vista entre as pressões dos seus patrões da Máfia, que tentam organizar e massificar tanto a prostituição como o cinema porno e as pressões da administração municipal, com um plano a longo prazo para limpar a cidade através da gentrificação. É fascinante.

Um dos fios narrativos tem que ver com a homossexualidade, algo secreto porque ilegal na época. Num dos episódios, um personagem no armário, casado com filhos, é «engatado» por um homem de negócios em visita, recorrendo a uma linguagem de código. É uma janela breve para um mundo paralelo que em grande medida se perdeu. Em Inglaterra, por exemplo, havia uma linguagem inteira, que permitia a homossexuais comunicarem em público sem que se percebesse. O risco que corriam era serem presos, internados, sujeitos a terapia hormonal forçada.

Não havia falta de palavras sobre a homossexualidade. Não era uma questão de silêncio. Estou a ler neste momento uma reedição de Terry and Pirates, uma banda desenhada de aventuras para rapazes, do fim da década de 1930, e a cada página surge alguém a dizer que não é um «sissy», ou coisas semelhantes. Apanha-se o mesmo em outras tantas tiras, como Gasoline Alley, que também leio neste momento. Do discurso legal e médico da época, também se podem ver muitos exemplos, a descrever essa «perversão» como um «desvio», uma «doença», uma «inversão», etc. As únicas palavras secretas, o único silêncio, era o dos próprios homossexuais, obrigados a criar e manter uma identidades escondidas, paralelas.

A propósito da ida de Mário Machado à tv reiterou-se de novo a distinção entre palavras e violência. Se o discurso de ódio se limitar às palavras, tudo bem. O problema é quando se bate em pessoas, quando se mata, quando se deporta. Mas a verdade é que essa distinção me parece cada vez mais artificial, uma conveniência de quem não é sujeito às palavras, ao discurso, como uma forma de violência constante. Fazê-la é um indício do que se chama agora privilégio.

As palavras moem e matam.

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Glitch

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É real, fica na Turquia. É um empreendimento de luxo que encravou. 732 casas que parecem um glitch de cad que transbordou, derramando-se no mundo real. O estranho é achar-se que esta alucinação só falhou porque o dinheiro acabou.
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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico.

Autor do livro O Design que o Design Não Vê (Orfeu Negro, 2018). Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

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