The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Conformismo

Ontem fiz greve. Fui à escola mas não assinei nem dei a aula. Os funcionários disseram-me que estavam a faltar mais alunos do que professores e realmente só me apareceram cinco para a aula que não dei. Voltei a pé para casa pelo caminho mais longo e a cidade não me pareceu diferente do habitual. Não vi grandes ajuntamentos; de vez em quando vi autocarros que nem me pareceram muito cheios. Nos Aliados, podia-se ouvir música de luta junto à câmara, mas pouca gente a assistir. Mais tarde, disseram-me que houve uma manifestação de gente do teatro junto ao S. João.

Das coisas que fui lendo sobre a greve (ou sobre a crise, ou sobre o país), o tom tem sido quase sempre de resignação: vamos perdendo, como país e como indivíduos, a capacidade para decidir por nós mesmos. Os mercados fazem agora o papel das gripes dos outros anos, coisas invisíveis e contagiosas que se vão propagando pelo mundo fora, matando aqui e ali, sem que se possa fazer nada. Fatalismo, conformismo e pessimismo: não vale a pena protestar, porque a crise não depende de nós; não vale a pena contestar o governo porque, embora culpado, já não pode fazer nada – e outro qualquer seria igual. As greves (ou qualquer tipo de protesto) assumem o ar de um ritual mais ou menos supersticioso para afastar os maus espíritos ou disfarçar a impotência.

A coisa mais optimista que li, uma crónica de Rui Tavares, defendia que,  não tendo a greve benefícios imediatos, um adversário ou mesmo uma reivindicação definida, pelo menos servia para demonstrar a vontade de participação das pessoas na vida pública – o que é bastante melhor que nada. Um título no Público de ontem resumia: “Fazer greve para ter uma palavra a dizer no futuro”.

E mesmo a greve pode ser um luxo, como qualquer pessoa a trabalhar a recibos verdes sabe bem. Sem um horário, local de trabalho fixo ou mesmo um contrato, a própria ideia de greve deixa de fazer sentido (mais outro título do Público, desta vez no de hoje: “A Greve não é para quem quer, é para quem pode”).

Também ontem se falava no Público da emigração crescente entre as camadas mais jovens e qualificadas, uma autêntica geração perdida. Como professor, isso é perfeitamente óbvio, a grande maioria dos melhores alunos acaba por sair do país, mesmo que temporariamente. Este ano, quando entrevistei candidatos ao programa Inov-Art, surpreendeu-me a quantidade de pessoas dispostas a trocar um emprego relativamente seguro aqui pela oportunidade de um estágio lá fora – uma geração inteira entalada entre os recibos verdes e a emigração.

E quanto aos designers? Quando voltava para casa, uma manchete no Diabo, junto a um grande plano do Primeiro Ministro: “Ele gasta milhões em propaganda”. Calculo que parte desse dinheiro seja dedicado não apenas às agências de publicidade, mas também a todo o design, cuja pouca qualidade – gráfica e ética – foi paga a peso de ouro nos últimos anos, afundando rapidamente a credibilidade pública da profissão. Não li o artigo em questão, mas calculo que caia na demagogia do costume: gastar dinheiro em design é, numa época de crise, completamente desnecessário. Seria mais correcto dizer que é sempre mau gastar dinheiro em mau design.

Design e crise não são coisas incompatíveis: foi durante o período de crise e de inflação a seguir à  1ª Grande Guerra que o design alemão se impôs, criando o modelo definitivo do que viria a ser o ensino e a prática do design através da Bauhaus, uma escola que não teve uma vida fácil, mas que deixaria resultados duradouros. As notas de milhões de marcos desenhadas por Herbert Bayer que agora se vendem no eBay por muito mais dinheiro do que valiam na altura, demonstram bem como nunca é má altura para fazer bom design.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Economia, Política

One Response

  1. rui diz:

    Que os autocarros tivessem andado vazios isso compreende-se. As pessoas estavam em greve! Dessa forma havia poucos utentes. Mas as lojas e mercearias, cafés e restaurantes não fizeram greve… pelo menos a grande maioria ficaram abertos a receber quem não trabalhou. Por que motivo iriam fechar? Para incomodar quem? Logo num dia em que mais de 70% da população não trabalha eles iam fechar? E terá sido um dia de grande lucro para esses estabelecimentos.

    Pessoalmente, não fiz greve, pois trabalho por conta própria. Ou seja, como não tenho patrão, mas sim clientes, os únicos a quem devo justificações, trabalhei. A greve é para aqueles que ao faltarem ao trabalho incomodem alguém: os patrões e o governo. O Estado terá perdido alguns milhões só em descontos e IVAs por apenas este dia.

    Em compensação, este ano teve muito poucos feriados que não calhassem ao fim-de-semana, o que faz com que as perdas não tenham sido assim tantas. Desta forma, em termos económicos, esta greve só serviu para fazer cócegas. E eles devem-se estar a rir nesta altura por causa disso.

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