The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Oferecer facas

Há quem acredite que dá azar oferecer facas como presente. A solução é vendê-las por um cêntimo. Deixou de ser uma prenda e passou a ser um serviço. Nos últimos anos, uma superstição semelhante tornou-se viral: basta pagar um cêntimo a alguém que nos fez um serviço para essa pessoa estar – para todos os fins estatísticos – empregada. Na maioria das vezes, nem é preciso gastar o tal cêntimo: basta pagar com experiência, que nem sequer é o empregador que fornece mas o próprio empregado que adquire. Ou então é o Estado que paga por nós através do IEFP, chamando o azar a si mesmo.

João Miguel Tavares é um dos que acredita nesta nova superstição. Para ele, ou se está empregado ou não, sim ou sopas. E escandaliza-se que se use categorias como “os ‘desempregados ocupados’ (que são, na verdade, empregados subsidiados), os ‘inactivos desencorajados’ (que incluem aqueles que por opção de vida não querem trabalhar, como Kiki Espírito Santo), os ‘activos migrantes’ (mais conhecidos por emigrantes) e o ‘subemprego’ (trabalhadores a tempo parcial que gostariam de trabalhar mais horas).”

Já muita gente lhe respondeu com mais paciência do que o colunista merece – aqui, por exemplo. Se escrevo sobre o assunto é porque me ocorre mais um argumento para justificar a relevância das categorias que João Miguel Tavares acha tão absurdas: elas não avaliam apenas a simples existência ou não de emprego mas a sua qualidade.

Já há muito tempo que não ouço ninguém dizer nada sobre os – em larga medida auto-intitulados – criadores de emprego: os empresários, empreendedores, investidores, banqueiros. É bem provável que esse chavão tenha desaparecido da discussão pública porque apesar de todos os incentivos que lhes são dados (menos impostos, “flexibilização” dos contractos, etc.) o emprego tarda em aparecer. O pouco que aparece é via subsídio do Estado que paga os salários através do IEFP.

Lembrando a tal aposta do nosso e de outros governos em apoiar incondicionalmente os tais criadores de emprego, seria importante averiguar não apenas se a tal criação de emprego pura e simplesmente existe. Se assumirmos que sim (como faz o Governo), seria ainda mais importante averiguar a qualidade do emprego criado. Já estão a ver onde quero chegar, espero.

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Filed under: Crítica

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