The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

«Mansa é a tua tia.»

REGRAS-METODICAS-PARA-APRENDER-A-ESCREVER_16258-_A_720x
Graças à leitura labial básica, ficou-se a saber que certo dia no parlamento José Sócrates disse de Francisco Louçã que «mansa é a tua tia». Pouco depois, Ricardo Araújo Pereira reparou num pormenor interessante, Louçã e Victor Gaspar são primos, logo Sócrates estava a insultar directamente a mãe de outro político. Portugal é um país tão endogâmico, que nem se pode insultar a tia de alguém sem com isso ofender a mãe de outro. É uma espécie de álgebra da pequenez.

O design é o mesmo. Ainda há pouco escrevia eu sobre o título do livro de Erik Spikermann, Stop Stealing Sheep, que o próprio dizia ter sido adaptado de uma citação de Frederic Goudy, que dizia que quem espaçava blackletter era capaz de roubar ovelhas – para não dizer pior. O «A t l a s  Calligraphico» de Ventura da Silva (1804) é um dos livros mais sagrados do património reclamado pelo design de tipos português. Até há uma fonte do Dino dos Santos em sua homenagem. Sabem que mais? Segundo o Goudy e o Spikermann, o Ventura era bem capaz de roubar ovelhas. Ou pior.

Anúncios

Filed under: Crítica

Livros B, Alda Rosa

livro B
Os Livros B, da Estampa, uma das mais carismáticas colecções de livros que se lançaram em Portugal, foi relançada. Aqui faz-se uma pequena história da colecção e da sua reedição.

Os originais eram objectos subtilmente físicos, com as suas capas alongadas de cartolina parda, só com letras e ornamentos estampados a prata, a fazer contraste com o miolo azul, tudo muito bem equilibrado, sobretudo a composição puramente tipográfica da capa, construída de ingredientes difíceis, que dariam cliché em olho menos hábil. Leia o resto deste artigo »

Filed under: Crítica

Kazuo Koike (1936 – 2019)

lone-wolf-and-cub-1619150
Foi dos primeiros autores de manga a chegar a Portugal via Brazil, penso que ainda na década de oitenta, muito mal distribuído, em revistas de péssima qualidade. Lone Wolf & Cub, uma história de vingança no Japão Feudal, desenhada por Goseki Kojima, e Crying Freeman, com Ryoichi Ikegami, e que é indescritível – o melhor que se pode tentar é ser redutor, descrevendo-a como uma mistura de 007, de história de gangsters, de thriller erótico, à volta da história de um oleiro que se torna num assassino perito em artes marciais controlado por hipnotismo. Uma medida aproximada do talento narrativo de Kazuo Koike é o modo como consegue extrair gravitas e um sentido trágico desta premissa absurda.
Leia o resto deste artigo »

Filed under: Crítica

Designers, às vezes durante décadas

Tem-se discutido aqui e ali o «escândalo» dos ensaios de João Pedro George na Sábado sobre a Imprensa Nacional Casa da Moeda, sobre um director, Duarte Azinheira, que edita obras do seu tio, António Mega Ferreira, e onde se mete ao barulho o editor João Paulo Cotrim e o designer Jorge Silva. Antes de continuar, uma declaração de interesse: já trabalhei para a INCM através do Jorge Silva (escrevi para a Colecção D) e já trabalhei com o João Paulo Cotrim (numa publicação sobre o centenário da República).

O que me interessa na polémica é levantar-se de novo o problema de como um designer se relaciona com uma instituição pública – e mais uma vez perder-se a oportunidade de discuti-lo com seriedade.

Leia o resto deste artigo »

Filed under: Crítica

As narrativas visuais de Erik Nitsche

IMG_5122.jpg

A fazer investigação para um ensaio de grandes dimensões, passei outra vez os olhos pela colecção de história publicada na década de 1960 pela editora suíça Rencontre, com design de Erik Nitsche. Pouco depois, a Morais Editora lançou uma versão brochada, impressa também em Lausanne. Têm diferenças mínimas.

Leia o resto deste artigo »

Filed under: Crítica

Para além das intenções do designer

Li em qualquer lado, talvez num dos muitos artigos que marcaram o seu centenário, que na Bauhaus o estilo não era um objectivo a atingir mas um subproduto, um resíduo, uma escória. Numa peculiar reviravolta, a sobra acabou por secundarizar o produto – da Bauhaus conhecemos mais o estilo de design do que o seu processo.  Não admira. É mais fácil conhecer os objectos e os slogans do que todo os manifestos, programas educativos, discussões, polémicas que lhes serviram de base.

De toda a obsessão vintage em que o design se tem tornado – velhas fontes, velhas prensas, velhas edições –, o mais difícil de desenterrar é o design enquanto sistema de pensamento, enquanto disciplina. Exige método, exige teoria, e não apenas senso comum. É fácil saber que tipo de máquinas se usavam para imprimir um álbum em 1940, mas é bastante mais difícil perceber o pensamento de projecto que o orientou (se é que havia algum).

Esta ideia do estilo como algo que polui o design, dando mais valor às formas à custa do conteúdo é algo que herdámos da Bauhaus e da sua época. Todo o designer é treinado para desconfiar da modinha, do formalismo efémero inconsequente. Mas não é só o designer que pensa sobre o design. O historiador, o crítico, o curador, também têm uma palavra a dizer. Se para o designer o estilo pode ser secundário, para estes outros – para os teóricos – é uma informação valiosa. Permite ver padrões que apenas pela análise das intenções dos designers seriam invisíveis.

Para o historiador e para o crítico, é fundamental ir além das intenções do designer. Estas são apenas mais um dado entre muitos outros.

Filed under: Crítica

Cinquenta Anos

Pioneers

Em 2019, faz cinquenta anos um dos meus livros de design favoritos de todos os tempos, o Pioneers of Modern Typography, de Herbert Spencer, também editor da Typographica, uma das melhores revistas de design de todos os tempos, e dos Penrose Annuals durante a sua melhor década (1964 – 1973). Já escrevi sobre ele um monte de vezes. Dediquei-lhe uma conferência na Culturgest. É capaz de ser dos livros mais influentes da história do design. Foi o livro que Peter Saville levou para a sua entrevista de emprego com Tony Wilson. Era o livro de referência de Étienne Robial. Era uma das influências assumidas do grande Luís Miguel Castro, um dos melhores directores artísticos portugueses. Percebe-se a sua influência que teve na seminal revista Kapa (1990 – 1993).
Leia o resto deste artigo »

Filed under: Crítica

Fernando Bureau, 1940

IMG_5094
IMG_5096

IMG_5095

Uma selecção das fotomontagens que Fernando Bureau concebeu para a revista Comércio Português, da Associação Comercial de Lisboa. Trata-se de um número extraordinário descrevendo a exposição do Mundo Português. Comprei-o nem sei onde, «só para o caso». Quando o «caso» chegou, estava desprevenido. Tinham-me um ensaio sobre Leitão de Barros e o álbum Portugal 1934. Lembrei-me das fotomontagens da revista e pensei que pudessem ter que ver. Não me lembrava nem do nome da revista, nem do autor das imagens. Encontrei-a, como costuma acontecer, uns dias depois de entregar o ensaio. As fotomontagens tinham sido impressas na Neogravura, onde foi impresso o Lisboa Cidade Triste e Alegre, também em rotogravura – o fundador da Neogravura e também importador da rotogravura para Portugal foi Leitão de Barros. O nome do autor, Fernando Bureau, não me dizia nada. Não sei se já o encontrei em qualquer leitura. Estarei atento.

Filed under: Crítica

Designers que duram e duram

Por volta das quatro e meia da manhã do dia 17 de Janeiro de 1994, ocorreu o pior sismo registado até hoje numa área urbana nos Estados Unidos da América. Durou menos de vinte segundos. Teve o seu epicentro no San Fernando Valley, em Reseda. Devastou toda a área de Los Angeles, destruindo casas, viaturas, viadutos, matando perto de setenta pessoas (não se sabe ao certo) e ferindo mais de oito mil. Nesse dia, o designer Peter Saville tinha três dólares no bolso. Era tudo o que tinha. Ainda era dos designers de capas de discos mais famosos do mundo. Quinze anos antes, tinha desenhado a capa de Unknown Pleasures para os Joy Division. Nos últimos meses, visitava editoras de música na esperança que lhe oferecessem vinis que pudesse vender em segunda mão.

É uma boa história para contar aos alunos. O que digo a seguir é que um designer que nasça agora tem uma expectativa de vida de cerca de oitenta anos. Nesses oitenta anos, terá muita sorte se estiver na moda uns quinze anos, cinco à primeira e outros dez se por acaso se alguém se lembrar dele mais tarde e ainda for vivo – uso o masculino porque ainda são raros os casos de mulheres designers que chegam à segunda fase, a do revivalismo. A maioria dos designers nunca chega a estar na moda. Quando muito faz parte de uma ou duas.
Leia o resto deste artigo »

Filed under: Crítica

Design e Edição?

No design, como em outros sítios, há coisas que até interessam mas já nem apetece falar nelas. Dá vontade de mudar de passeio. Já não tenho grande paciência para as pequenas editoras portuguesas do fim do Estado Novo. É assunto que não está esgotado mas é quase sempre tratado da mesma maneira, como uma recolha corajosa de um património quase esquecido, de anedotas de fuga à censura, de tricas, querelas e inimizades, dos velhos tempos em que a edição era realmente a sério, etc. Luíz Pacheco, Vitor Silva Tavares, Afrodite, etc.

Leia o resto deste artigo »

Filed under: Crítica

Sorrisos Ensaiados

41GWVMM88GL._SX305_BO1,204,203,200_

Em  1993, o designer Erik Spiekermann lançou um pequeno manual de tipografia com um nome excêntrico, Stop Stealing Sheep & Find Out How Type Works. Era um livro simples, de bolso, com mensagens simples, passadas através de imagens e texto combinados num design acessível. Foi dos primeiros livros de design que consegui comprar. Era barato e portátil numa era em que mesmo um número da Eye podia custar uma parte substancial da mesada (durante o curso só comprei dois). Foi dos primeiros livros de design do qual deixei de gostar. A mensagem simples parece-me hoje condescendente, o tom simpático nunca me pareceu sincero. Ao começo, parecia-me o tipo de boa disposição ensaiada que se vê nas Ted Talk. Com o tempo percebi que, por baixo dos sorrisos forçados, havia também intolerância e conservadorismo quanto baste. Nem sequer estavam escondidos. O título do livro anunciava-os.
Leia o resto deste artigo »

Filed under: Crítica

Dia-a-dia

401016TP

Ter uma filha no meu caso significa sair menos. As aulas ocupam-me dois dias da semana. No resto do tempo, acordo cedo, com a minha filha. Preparo-a para a escolinha. Levo-a no carrinho. Ao fim da tarde, vou buscá-la. Brinco com ela. Dou-lhe de jantar. Preparo-a para dormir. Não faço estas tarefas sozinho. É um trabalho de equipe, mas o ritmo é este. Às 22h30, costumo estar a dormir. No tempo em que ela está na creche, leio, preparo aulas, escrevo. Tenho poucos passatempos. Cumpro-os como um dever sagrado. Tenho lido mais ficção, mais banda desenhada. Atraem-me formatos que já não se usam como a tira diária. Para a semana vai sair a última temporada do Game of Thrones, cada episódio inchado de mortes, de volte-faces, de cliff-hangers. Antes mesmo de acabar, já foi retalhado em memes, em recaps, em reviews. Já se preparam sátiras. Cada episódio é como um circo que chega a um baldio nos limites da cidade, em minutos monta-se a tenda e é como se estivesse estado sempre ali e em minutos desmonta-se e é como se nunca estivesse estado, uma cidade temporária no limite da cidade. Comparada uma tira diária é uma unidade mínima de drama, uma história constrói-se no tempo que uma gota de água esculpe um estalactite. As melhores tiras são um momento único isolado no tempo e uma acumulação lenta de momentos que nunca hão-de chegar ao fim. São maravilhas concentradas. No fim do século XVIII, deu-se a moda de usar em medalhões pequenos desenhos em aguarela dos olhos de amantes. Uma boa tira tem esse grau de minúcia e essa emoção intensa mas partida aos pedaços. Na tira Terry and Pirates, de Milton Caniff, há um desses momentos. É a comum tira de aventuras, colocando os heróis em enrascadas atrás de enrascadas, em ciclos encadeados que parecem nunca ter início ou fim. Em toda a série, há um único momento em que tudo parece parar. Uma das personagens principais é atirada de um camião em movimento no meio do deserto, e não há como salvá-la. Não há cavalaria. Não há salvação de último momento. É uma morte prosaica e realista. No fim só há um enterro, um luto, num silêncio que dura dois dias – tempo do leitor. Numa última tira, os sobreviventes fazem-se ao caminho, gastam um momento antes que uma curva da estrada lhes tape a vista do túmulo improvisado. Foi uma morte tão chocante e tão discutida como as mortes do Game of Thrones. Não houve ressurreições. Um ano depois, a tira continuava o seu caminho. Um outro personagem, um aviador abatido no deserto, cruzava-se com uma campa improvisada na beira da estrada.
421225TP

Filed under: Crítica

Mont Blanc

IMG_5066

A livraria fechou. Diz a minha irmã que a dona ainda vem quando alguém toca a campainha. Vende papel de carta, carimbos, lápis, tudo o que está exposto pelas prateleiras transparentes da montra. A rua agora é pedonal. Quando me mudei para Vila Real, ainda passavam carros. Era hábito darmos uma volta por lá depois do jantar. Parava sempre na livraria para ver as capas de álbuns do Spirou alinhados numa esquadria. Devia ser ainda o fim da década de 1970. O pico da minha obsessão pelo Spirou só chegaria uns anos depois. Lembro-me de andar a reler o Z de Zorglub no dia em que a minha irmã nasceu em Julho de 1983.

Pouco depois disso descobri os super-heróis da Marvel que me ocupariam por uns anos, até redescobrir a chamada banda desenhada Franco Belga. Nunca deixei de verdade o Spirou de Franquin. É como se em algum lado ainda estivesse uma história deixada aberta, a meio de uma releitura, enquanto fui preparar um pão com manteiga ou um copo de leite com Ovomaltine. Voltei em parte quando Fabien Vehlmann começou a escrever as novas histórias do Spirou, mas nunca mais reli as antigas. Pior do que isso, nunca mais as vi na montra da livraria entretanto fechada, que tem outro nome, mas que eu conhecia por «Mont Blanc» por causa de um anúncio luminoso.

Era uma sensação maravilhosa, difícil de descrever, a maneira como cada uma daquelas capas, com todos os seus pormenores, era como que um trailer estático para tudo que vinha lá dentro. Hoje, ver trailers (ou capas de livros de bd) é um esforço colectivo. Há sites que se dedicam à sua análise pormenorizada, extraindo pequenos detalhes e spoilers de cada pormenor. Na altura, só havia uma sensação de haver ali qualquer coisa concebida com todo o cuidado para encerrar todo o significado possível.

Ando a mudar de casa desde Setembro. Hoje chegou o dia de abrir o caixote dos velhos Spirous. Não resisti a alinhá-los numa esquadria sobre a mesa. Sei mais alguma coisa sobre eles do que quando tinha oito anos. Sei que estas capas com o caixilho negro são típicas da edição portuguesa. Pode ser que se tenha escolhido reenquadrar as imagens a negro para evitar o problemas de reproduzir o lettering colorido dos álbuns originais. É mais provável que se tenha decidido enfatizar uma ideia de colecção. As capas do Spirou eram preparadas de origem para se adaptarem facilmente a traduções.

Vendo os álbuns alinhados de novo numa esquadria, ganham de novo um pouco do seu poder. Mesmo depois destes anos todos ainda se repara em pormenores, possíveis segredos. Na capa do Ditador e o Cogumelo, em segundo plano, uma silhueta encapuçada com um sombrero e um poncho saí do enquadramento e avança um pouco pela margem. Quem será?

Filed under: Crítica

Bauhaus

Um pequeno filme sobre a Bauhaus para o qual fui entrevistado.

Filed under: Crítica

Bauhaus 1919-2019

IMG_4956

A data oficial da inauguração da Bauhaus é 1 de Abril de 1919. Faz hoje cem anos, portanto. Não foi a primeira escola de design. A Government School of Design de Londres foi criada em 1837 – tornar-se-ia muito mais tarde no Royal College of Art. A esta juntou-se no ano seguinte a Manchester School of Design. Nestas instituições, já se esboçava o design como uma ideia de projecto que, tomando como base e inspiração a arquitectura, tinha uma ambição total, desde a construção de casas à impressão de livros, desde a criação de padrões têxteis à solução dos problemas sociais criados pela Revolução Industrial.

A Bauhaus obscureceu tudo o que veio antes e muito do que veio depois. Instalou-se como uma origem para o design moderno – fazendo deste sinónimo de design. Tanto o design pré-moderno como o pós-moderno se tornaram correntes alternativas, minoritárias. Não foi uma instituição original por ter sido a primeira mas pelo maneira como se instituiu enquanto origem. De modo consciente ou não, cada novo praticante precisa de se posicionar contra ou a favor dela. Quando um designer se queixa de uma modinha, quando acha péssimo o excesso de estilo pessoal, quando defende a universalidade de um pictograma,  a Bauhaus está a falar através dele. Quando diz que os designers resolvem problemas está a assumir a identidade que o modernismo, e a Bauhaus em particular, lhe determinaram há um século.

Com a Bauhaus, o design passou a ver cada projecto, cada objecto, como um problema a resolver de modo novo, sem recorrer à tradição ou às filiações do estilo. A maior novidade da Bauhaus foi – sem tautologia nenhuma – a novidade, a intuição de que se lidava melhor com novos materiais, novos processos, esquecendo a tradição, esquecendo o vaivém das modas e estilos, e apostando numa nova linguagem universal da forma casada com um conhecimento directo dos materiais. Cada um dos primeiros alunos da Bauhaus era ensinado por dois mestres, um teórico e um prático, um vindo da academia das artes, outro da escola de artes ofícios. O primeiro ensinava teoria da forma, da cor, o segundo o conhecimento dos materiais. Durante o curso preliminar, os aprendizes deveriam descobrir a sua expressão individual, livre de modas ou estilos – que eram proibidos. Partilhando princípios comuns, organizados numa linguagem universal, estariam preparados para colaborar colectivamente em projectos. Seriam estas as contribuições cruciais da Bauhaus para o ethos do designer: uma teoria universal das formas e uma desconfiança extrema do estilo e da moda. O resto do que nos ficou resume-se a um estilo e uma moda, a um rol de objectos e personalidades marcantes.¹

 

–––––––––––––––––––––––––––––

  1. Já em 1930 Walter Gropius tentava reconciliar a existência aparente de um estilo da Bauhaus com estas intenções de universalismo. Via a Bauhaus como anti-académica no sentido de anti-historicista, mas também de anti-estilo e anti-moda: «notwithstanding individual differences among the collaborators, bauhaus products had a certain similarity in appearance, as may be seen in this book. this was not the result of following slavishly a stylized esthetic convention, since it was against just such imitativeness that the bauhaus revolted. it was the outcome of a unified conception of art developed by all the workers in common. at the same time, however, it was necessary to combat imitators and unintelligent admirers who thought that every unornamented building or implement was derived from the bauhaus “style” and who thus threatened to cheapen the meaning of bauhaus work. expressly stated: the goal of the bauhaus is not a “style,” system, dogma, canon, recipe or fashion. it will live as long as it does not depend on form, but continues to seek behind changing forms the fluidity of life itself. the bauhaus was the first institution in the world with this anti-academic trend. it assumed the responsibilities of leadership in order to assure the victory of its ideas and to maintain the vitality of its own community, but the development of a bauhaus “style” would mean a return to academic stagnation and inertia. may it be preserved from such a death!» Herbert Bayer, Walter & Ise Gropius, Bauhaus 1919-1928, Secker & Warburg, Londres, 1975, p. 204.

 

Filed under: Crítica

Década e meia

Foi a 26 de Março de 2004 que publiquei aqui o meu primeiro post. Foram quinze anos bons. Dei conferências. Publiquei três livros. Participei numa prateleira deles. Escrevi para jornais e revistas. Fui citado em artigos, dissertações e teses. Há um grafitti que me cita que ainda apanho por aí. Há uma pintura no tecto de uma das salas da Fbaup que inclui frases minhas. (Ainda é estranho ler o que escrevi em sítios inesperados, interpretado de maneiras que não me ocorreriam) Comissariei exposições. Passei-me de armas e bagagens para o facebook, experimentei o twitter e o medium. Voltei sempre aqui. Escrevi sobre design, tipografia, política, arte, cinema, literatura, banda desenhada, viagens, natação. Regressei sempre ao design, que continua a ser dos meus maiores prazeres. Regressei sempre à crítica, que ao contrário do que se costuma lamentar, está viva e de boa saúde. Não é difícil encontrar boa crítica, fresca, nova, essencial.

Excepto, claro, se estivermos à procura de crítica de design em Portugal.

Costumo dizer que criticar a Comic Sans é a Comic Sans da crítica de design. É como falar do tempo, algo que se faz quando não se tem nada para dizer. No design, há resmas de assuntos assim, que se pensa serem da mais extrema importância mas se resumem a desbloqueadores de conversa. Diz-se logotipo ou logótipo? Fonte ou tipo? O design precisa de reconhecimento? Se os médicos e os arquitectos têm uma ordem porque não têm os designers? Bem tratados, estes temas até poderiam ter interesse – mas raramente são tratados como se fizesse diferença. São como os advérbios de modo longos, que se põem ao começo da frase para dar tempo para pensar, ou para dar tempo a que a ocasião para falar acabe, ou que o elevador chegue ao seu destino, ou que a conferência termine, ou o artigo alcance um número mínimo de palavras.

Podem ser também falsas discussões, que se tem para calar outras pessoas, para as disciplinar. Há uma linha ténue entre a conversa de circunstância e o silêncio imposto pelos argumentos de autoridade. Não falem porque não são designers, ou porque não são designers a sério. Não falem do que não sabem. Porque só se fala do que se sabe, porque há coisas que se sabe. Sabe-se que o Sebastião Rodrigues é um grande designer. Sabe-se que o Paul Rand também. Sabe-se que o Tschichold era o melhor designer de livros. Que a Sabon é uma boa fonte, das melhores. Sabe-se que a revista Almanaque é bonita. Sabe-se que o design é inovação, empreendedorismo. Sabe-se que também é tradição. Sabe-se que o design é muito importante. Sabe-se que na pré-história já havia design. Sabe-se que o design é político. Sabe-se que pode ser político  mas é preciso cautela. Sabe-se que os designers até podem ser políticos mas o melhor design aspira à universalidade. Sabe-se tanta coisa. Sabe-se que era bom os designers aprenderem a fazer orçamentos. Sabe-se que deviam aprender gestão. Sabe-se que deviam escrever mais e ser mais críticos. Sabe-se que deviam escrever menos e ser mais práticos. Sabe-se tanta coisa. E muito pouco disto que sabe interessa, se não for realmente o ponto de partida para uma discussão.

Tenho realmente saudades do design enquanto discussão.

Filed under: Crítica

Um erro, dois erros…

Chamou-me a atenção o leitor Fernando Sousa para um caso curioso. Já referi algumas vezes a discussão que tive com Vasco Rosa do Observador por causa de um erro que ele publicou sobre mim e que se recusou a corrigir. Publicou nos comentários uma vaga admissão onde me culpava pelo próprio engano. Preferiu vir moer-me a cabeça via mail. Entretanto também barafustou com vários leitores entre os quais o próprio Fernando Sousa, que me diz que os comentários desapareceram. Não aparecem assinalados sequer. Diz que quando se tenta publicar dá erro. Um erro que se junta a todos os outros já habituais por aquelas bandas. Acha o Fernando Sousa que eu devia escrever para lá a assinalar o erro. Para quê?

Filed under: Crítica

Comunidade Cultura e Arte

Escrevi o meu primeiro texto para o blog Comunidade Cultura e Arte.

Filed under: Crítica

A Biblioteca na Biblioteca

54353963_10157198587113656_349539260480618496_o

Exposição que reúne livros, revistas, fanzines, múltiplos e materiais gráficos (cartazes, folhetos, flyers) editados de forma independente no Porto entre 1999, ano de abertura do Museu de Arte Contemporânea de Serralves, e a atualidade. Além de refletir a vitalidade e diversidade dos muitos espaços artísticos independentes que funcionaram na cidade nos últimos 20 anos – uma parte dos materiais apresentados foi concebida para acompanhar, divulgar e em alguns casos para financiar a programação destes projetos –, “Biblioteca na Biblioteca” dedica-se, em grande medida, a apresentar objetos realizados noutras áreas, especialmente exploradas no Porto – banda desenhada, design, arquitetura e música, nomeadamente.

Os materiais que constituem a mostra são, além de expostos, consultáveis pelo público. Espera-se que o diálogo com determinados colecionadores (que cederam parte dos seus espólios) que ajudou a definir a exposição possa ampliar-se durante o período em que esta estará aberta ao público, e que novos interlocutores possam contribuir com mais materiais para esta “Biblioteca na Biblioteca” em permanente expansão.

Comissariado:
Ricardo Nicolau, adjunto da direção artística do Museu de Serralves e Mário Moura, Professor de design gráfico na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto

Filed under: Crítica

Design e tradição

Quando comecei a escrever sobre design, o meu tema era o que via à minha volta, o design, as revistas, os livros, o trabalho, os recibos verdes, as conferências. Com o tempo, passei quase por completo para a história do design. Fiz a passagem em parte porque havia procura, encomendas, em parte porque a «actualidade» do design era (e é) uma seca – variações infindas do «design é para os designers», queixumes sobre a Comic Sans, o «problema» dos concursos públicos, a ordem dos designers, etc.

Percebi de imediato que a minha formação de base enquanto designer era muito fraca no que diz respeito à história. As noções de histórias dadas durante o curso eram dispersas, pouco sistemáticas, assentes em relatos anedóticos e histórias pessoais – o que não era de todo estranho, porque a história do design internacional que nos chegava através de livros e revistas era o mesmo. Por comparação com as metodologias de história geral ou da história de arte, a história do design era grosseira e amadora, feita sobretudo para consumo interno da disciplina (repisar os praticantes heróicos, repisar a cronologia aceite do design português, etc.) É uma história isolada, conservadora ao nível dos métodos, cuja grande função é legitimar o design como uma área disciplinar. Para resumir, há tantos chavões na história do design português como nas suas «actualidades».

Tem havido cada vez mais excepções, sobretudo ao nível da academia, mas só raramente passam para os trabalhos de divulgação. Estou-me a lembrar, mais uma vez, do trabalho de Vitor Almeida sobre a institucionalização do design português que apareceu numa história do design que saiu com o Público.

Dentro da história do design, tenho trabalhado sobretudo dentro de uma área que talvez se pudesse descrever como a história do design enquanto disciplina: o seu discurso, as suas instituições, os seus métodos, que são entendidos não como características intemporais mas conceitos que mudam ao longo do tempo, às vezes radicalmente. É uma história não dos objectos ou dos praticantes, mas do próprio design enquanto conceito.

Neste momento, interessa-me sobretudo o design pré-moderno, uma área bastante negligenciada. Tende-se a confundir a totalidade do design com o seu período moderno que se iniciou entre o fim do Arts & Crafts e o começo da Bauhaus. Porém, há uma história rica mas pouco conhecida da disciplina antes desse tempo. Para ter uma ideia do que ficou esquecido, entre o aparecimento dos primeiros cursos de design em Inglaterra na década de 1830 e a Bauhaus vai quase tanto tempo como o que nos separa do fim dessa escola. Foi um período onde o design funcionou no contexto da revolução industrial, do Império Britânico e da reflexão política, moral e religiosa sobre a sociedade inglesa. Era um design que já assumia características próximas das do design moderno mas com diferenças fundamentais – que tendem a ser desvalorizadas como excentricidades que haveriam de ser eliminadas posteriormente. Uma delas é a ligação entre o design e a tradição histórica – que o modernismo (como o nome indica) procurou eliminar.

Os problemas de relacionamento do design com a sua história derivam do desprezo modernista da tradição, que se tornaria identitário – desde a Bauhaus, a história não seria uma parte central mas secundária na formação dos designers. Desde o começo, que isso não garantiu realmente uma capacidade crítica em relação à tradição, antes a criação mítica de uma nova, instituindo o modernismo como modelo identitário para o design – fazendo dele uma tradição histórica.

Vendo a cronologia largada do design desde os seus começos como disciplina na primeira metade do século XIX até hoje, é possível verificar o período modernista, embora influente, foi mínimo. No caso do design gráfico, já havia tentativas de sintetizar o modernismo com abordagens historicistas ainda estava a funcionar a Bauhaus (veja-se o Novo Tradicionalismo britânico; veja-se Tschichold depois de renegar a Nova Tipografia). Em termos temporais, a maioria do design é pré ou pós-moderno.

.

Filed under: Crítica

Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico.

Autor do livro O Design que o Design Não Vê (Orfeu Negro, 2018). Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

História Universal do: Estágio

O "Estágio"
O Negócio Perfeito
Maus Empregos
Trabalho a Sério
Design & Desilusão
"Fatalismo ou quê?"
Liberal, irreal, social
Conformismo
Juventude em Marcha
A Eterna Juventude
Indústrias Familiares
Papá, De Onde Vêm os Designers?
Geração Espontânea
O Parlamento das Cantigas
Soluções...

História Universal dos: Zombies

Zombies Capitalistas do Espaço Sideral
Vampiros, Zombies, Classe Média

Comentários

Comentários fora de tópico, violentos, incompreensíveis ou insultuosos serão sumariamente apagados.

Comentários Recentes

Lia Ferreira em Por um lado
Jose Mateus em Censura em Serralves
L. em Lisboa Cidade Triste e Al…
Mário Moura em Livro
João Sobral em Livro

Arquivos

Categorias