The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Público Ilustrado

Sobre o Público ilustrado de ontem, só duas coisas.

Primeira: como muita gente apontou, os ilustradores não foram pagos. Já participei umas tantas vezes nesta iniciativa e é triste ver como isso continua a acontecer. Ainda se assume que ilustradores vão trabalhar a troco de visibilidade e ainda se fica à espera que agradeçam. Como é evidente, o Público também lucra com uma edição que, mesmo que marginalmente, vai ser comprada por colecionadores, curiosos e aficionados.

Segunda: quando participei, pensava que aquilo realmente iria acabar por provar que um jornal pode ficar a ganhar com a presença de mais ilustração. Mas isso não é uma lição que seja ou possa ser, ou queira ser aprendida. Os jornais pura e simplesmente não sabem o que fazer com a ilustração e muitos ilustradores não sabem o que fazer com um jornal.

Nesta última edição, percebe-se o carácter ad-hoc de quase todos os desenhos, encaixados conforme se pode numa base concebida com a fotografia em vista. Poucos faziam um bom par com as cores e tipografia densas. Muitos limitaram-se a ilustrar os temas dados com graçolas que pouco acrescentam – não vou dizer nomes, porque a coisa me parece sistémica. Já era assim no meu tempo e o problema é andar a põr-se por um dia um carro a gasolina a funcionar a electricidade. Vale pelo gesto ou nem isso.

Continua a ser um pouco triste ver bons ilustradores sujeitos a isto.

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A Nova Fundação

Da nova série inspirada na Fundação, de Isaac Asimov, o que gosto menos é a narrativa que rodeia a fundação própriamente dita. Sempre que se corta para o inóspito planeta Terminus onde fica fica sediada, dá-me logo vontade de fazer pause.

Em contrapartida, o que gosto mais nem aparecia sequer nos livros, o imperador tricéfalo, dividido em três clones com idades distintas. Via de bom grado uma série só sobre isto. É política, é governo, é pós-humanismo, é poder através do tempo, é inventivo, tem word-building e time-building. Tem, em suma, as melhores qualidades da série original.

A fundação, pelo contrário, é só gente aos tiros e a correr dum lado para o outro e a esfaquear-se e a arrancar olhos. Uma das citações mais conhecidas dos livros sentenciava que a violência é o último refúgio dos incompetentes. Quem a dizia era Salvor Hardin, que nos livros ultrapassou uma crise militar pela inteligência diplomática. Na série, Hardin anda sempre aos tiros, aos pontapés e a abrigar-se de explosões.

Não sou um purista. Não acho que um livro deva ser transposto tal qual para o ecrã. Marcou-me a mim, como a muita gente, que o protagonista dos primeiros livros da Fundação fosse a História, mas mesmo Asimov se cansou e tornou os últimos livros em Space Opera, que se lêem bem, mas nos deixam a pensar se tivesse levado a premissa até ao fim: o que sucederia se a filosofia da história fosse realmente uma ciência exacta. O que daí deriva é que a História muda de direcção e olha para o futuro. Foi coisa que já se tentou, por exemplo com o marxismo, mas que se desfez precisamente nos anos em que a Fundação foi escrita, entre os primeiros livros na década de cinquenta e o segundo ciclo, já na década de 1980.

Agora, recupera-se a Fundação no século XXI e é natural que a sua premissa duma fórmula matemática que dite a história já é impossível de se vender por si mesma. Precisa de todo o tipo de agência humana a conspirar em segredo para a apoiar, o que lhe retira a razão de ser. Suponho que isto ilustra a descrença recente nas ciências humanas, que se estende até a quem as pratica e se mostra cada vez mais disposto a acreditar em teorias de conspiração do que na existência de sistemas económicos, sociais e políticos que organizam os assuntos humanos de um modo que não pode ser realmente ditado pela vontade dos indivíduos. Aqui também se cai na facilidade narrativa equivalente a resolver problemas sistémicos disparando mísseis contra eles.

Ironicamente, os únicos personagens que têm uma visão sistémica dos problemas acabam por ser os imperadores.

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O Novo Dune

Resisti ao novo Dune durante quase toda a primeira hora, não por ser mau, mas por me parecer que vibrava, como se fossem três impressões a cores diferentes um pouco desfasadas entre si.

Já tinha visto quase as mesmas cenas com outros actores pelo menos mais duas vezes, no filme de Lynch e na mini-série. E, sem os actores, mais duas vezes, na novelização do primeiro filme escrita por Joan D. Vinge e editada pela Europa-América, e no livro original de Frank Herbert. Três, se contar o documentário sobre Jodorowski. Cada diálogo vibrava de familiaridade, até que o filme de Villeneuve se focou para mim como uma moeda que acaba de girar sobre uma mesa, e percebi que tinha aquela qualidade de estranheza que nos põe a sonhar à noite com certa narrativa. A violência alienígena, pós-humana de tudo aquilo, de como os cenários habitam tão bem a estreiteza do ecrã.

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Unseen by design

Magazine online sobre forma, política, estética e ética. Versão beta.

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Não ver cores

Nas últimas presidenciais, repetiu-se um fenómeno que seria curioso, não fosse ele assustador. Todos os candidatos de esquerda evitaram dizer o que quer que fosse de substantivo sobre racismo ou discriminação sobre pessoas lgbtq. Quando interpelados saiam-lhes chavões e generalidades. Nada de concreto, nada de incisivo, e também nada que pudesse sequer ser concentrado num slogan ou numa palavra de ordem.

A iniciativa de qualquer discurso político sobre estes assuntos continuou a sempre a ser da extrema direita. Há um embaraço geral da esquerda para falar sobre discriminação de minorias — as desculpas são muitas, porque aliena o eleitorado, porque dá força à extrema direita, porque divide a esquerda – e o resultado é que a extrema direita, define as linhas de força do campo de batalha.

A estratégia geral da esquerda, incluindo o PS, é dar o mínimo protagonismo ao que chamam políticas de identidade. É comum tomarem-se atitudes extremas em relação estas, fazendo-as equiparar em gravidade e perigo à extrema direita. O que são políticas de identidade? Anti-racismo protagonizado acima de tudo por minorias racializadas, feminismo protagonizado acima de tudo por mulheres, anti.discriminação LGBTQ protagonizada por pessoas LGBTQ.

Está-se num ponto em que se aceita pessoas racializadas, lgbtq e mulheres desde que não chamem a atenção para isso. É como que uma extensão do velho chavão do velho chavão homofóbico «Ninguém tem nada que ver com o que fazem na vossa vida privada» e isso é, como deveria ser evidente, a imposição de uma privatização.

Dirão que não é uma «privatização» sentido económico, mas esse uso é um estreitamento político do termo, que reduz o seu âmbito com consequências importantes. A principal delas é que certas lutas são isoladas a partir de fora, tornando-se pessoais e individuais, o que quer apenas dizer que lhes é negada a possibilidade de reclamarem comunidades, pontos em comuns, a posibilibilade de serem uma «coisa pública», uma res pública.

A economia tem-se revelado uma maneira de isolar certas lutas mais incómodas, mesmo à esquerda. Um exemplo típico é a versão de esquerda das trickle down economics. À direita, é a crença que favorecendo economicamente os mais ricos, os benefícios «escorrem» para baixo, não sendo necessário fazer mais do que isso pelas classes mais oprimidas. À esquerda é a crença que favorecendo economicamente as classes mais oprimidas, os benefícios «escorrem» para baixo eliminando preconceitos raciais, xenofobia, lgbtqfobia, misogínia, etc.

A experiência e a história desmentem qualquer uma destas crenças. Todas as tentativas de resolver a discriminação racial e de género como um problema de segunda ordem têm sempre falhado, porque não resolvem nada. Só varrem para debaixo do tapete. Desde as tentativas norte-americanas de resolver o racismo, tornando-o invísivel, às tentativas estalinistas de administrar politicamente etnias, à marginalização da homossexualidade, à laicização e desracialização forçada do Estado francês, tudo deu e dá espectacularmente para o torto.

Nunca é possível resolver questões de discriminação às cegas, fazendo de conta que não se vê cores, ou exigindo a minorias que sejam discretas, desaparecendo do espaço público. Este imperativo de supressão é, em si mesmo, um acto de opressão, percebido como tal pelas comunidades alvo.

Tem apenas a virtude de sinalizar o carácter visual da discriminação. Ou posto de outro modo, o seu carácter «invisual». Como aponta de modo muito certeiro WJT Mitchell, o racismo contemporâneo exprime-se como uma invisualidade: «eu sou cego às cores». O que tem como consequência e objectivo que o ónus e a culpa de ver o racismo cai em cima das minorias racializadas e dos seus aliados. São estes que vêem racismo em todo o lado.

O campo do anti-racismo contemporâneo é o de uma visualidade específica, de uma partilha do sensível, em termos Rancerianos, entre quem não vê e quem vê. O mesmo se poderia dizer do feminismo e do activismo lgbtq.

Dir-se-á que é uma questão de linguagem, mas a verdade é que ao recusar uma visibilidade política específica a minorias, uma representação, acaba por se reduzir estas lutas a áreas incómodas mas toleráveis porque já são tratadas como ghettos de qualquer dos modos. Estou a falar das artes e da cultura em geral. Poderíamos dizer que estas são as áreas onde se organiza oficialmente a percepção. É aqui um dos poucos sítios onde se tem valorizado a representação de minorias através de quotas, onde estas podem falar pela sua própria voz não mediada.

O resultado é a sua visibilidade percebida de modo hipertrofiado pelos que se recusam a ver. As artes são tratadas como um ghetto, e a função do ghetto não é apenas isolar mas também amplificar a percepção da existência de uma minoria, exacerbar a sua visualidade como com uma lupa. O ghetto torna visível a minoria, marca-a para ser discriminada, se essa marca já não for perceptível.

A limitação de práticas de igualdade à cultura sem que isso tenha eco no resto da sociedade, por exemplo na esfera da representação política, tem como consequência a percepção que as exigências de igualdade da minoria são despropositadas, tendo em conta que, por virtude, da própria discriminação essa minoria já parece ter destaque suficiente.

A solução será tornar essas discriminações visíveis em todas as esferas.

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Segunda edição

Como coleccionador de livros, ando sempre atrás de primeiras edições. Como autor, interessam-me mais as segundas.O meu livro «O Design que o Design Não Vê» está esgotado na editora. A Orfeu Negro vai lançar uma nova edição nas feiras do Livro. Aproveito para mais uma vez lhes agradecer pelo excelente trabalho e dedicação.

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Mini Reviews 01

Este é um primeiro ensaio de mini review em vídeo.

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Sobre a Tinta da China

Novo post no meu novo blogue.

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Aniversário

Hoje faz dezasseis anos que escrevo em público sobre design. Comemorei a ocasião com um texto sobre debates no meu novo blogue.

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Novo blogue

Tenho um novo blogue, dedicado sobre história recente do design, sobretudo no contexto português (mas não só). Chama-se monumentânea.

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Ano Novo

Decisões de ano novo: ter mais cuidado a comer; sair mais com a Rosa; continuar a ler mais ficção e revistas de design; ir a mais exposições. E, o mais importante, dedicar-me acima de tudo a design deste século.

Em termos de crítica dedicar-me a objectos concebidos e pensados agora. A conjunção «e» da última frase é crucial à sua compreensão. A grande maioria dos objectos mais públicos do design português podem ter sido concebidos agora, mas são pensados da década de noventa para trás.

Podem até ser grandes objectos, cheios de interesse, mas não são contemporâneos. Aparecem-nos agora, mas são feitos no século passado. E não há falta de quem fale sobre eles. Têm as suas monografias, as suas biografias, as suas exposições, as suas teses de mestrado e doutoramento.

O que é pior: muita da conversa em torno destes objectos também é feita com as vozes e os métodos do século passado. A monografia de design, acompanhada da biografiazinha do designer, é um formato chato, triste, quase inútil, na era da wikipedia e do pinterest.

Há formatos mais actuais, mais urgentes. Pegar-se na biografia de um modo subalterno. Em vez de fazer pela enésima vez a biografia do gajo branco criativo e pioneiro, porque não fazer biografias no feminino, ou de géneros de comunicação visual que não são considerados design precisamente por serem praticados fora dos moldes brancos e masculinos?

Porque não falar do design em termos de formas em vez de o agrupar pelo autor, pelo estúdio ou pelo cliente? Porque não falar de design feito em escolas não como um proto-design feito fora do mundo real mas como algo em si mesmo? Porque não falar desse design como um lado B (uma expressão feliz de Pedro Bandeira)?

Em todo o caso, o meu manifesto para 2020 é que os meus interesses, as minhas prioridades históricas e críticas começam depois de uma barreira traçada com o Porto 2001. Foi nesses anos que se revelou uma nova geração de designers: João Faria, os R2, os Barbara Says. Será aí que começa a história que é mais urgente tratar.

Estou farto do período heróico da edição de 1960, 1970. Estou farto da Almanaque. Estou farto do Luíz Pacheco. Estou farto da Afrodite. Estou farto da Assírio & Alvim. Venham coisas novas.


 

P.S. – E, como é evidente, muita desta história feita no século passado e sobre o século passado é tóxica, agressiva e exclusiva. Se me dessem uma moedinha por cada vez que uma luminária me veio pregar contra o que consideram não ser design ou quem não consideram serem designers. O que fica de fora? O design que correu espectacularmente mal: o design racista do Estado Novo praticado por «heróis» fundadores. O design praticado por mulheres. O design praticado fora do esquema liberal do estúdio a trabalhar para clientes de renome (instituições públicas ou Estado) e de formatos populares (identidade corporativa, capa de livro, cartaz).

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O Objecto do Ano

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Já disse qual foi o meu objecto de design português da década. Os meus objectos do ano são o livro História do Crime, de João Louro, com design dos Barbara Says, e Moer, de Ricardo Valentim e Ana Jotta, com design da Márcia Novais.

Foram finalistas do prémio do design de livro do qual fui júri. Não foram premiados, mas foram os que me assombraram mais. Um prémio é uma decisão coleciva e estou satisfeito com a que tomámos. Gosto de participar em júris porque me levam a decisões que não tomaria sozinho.

Mas fiquei a pensar nas possibilidades de um design português onde se premiasse por unanimidade estes dois livros. Que coisa gloriosa seria esse design!

Cada um desses livros é uma apropriação cuidada, sentida, de um outro formato. A História do Crime rouba um dicionário cujas entradas e imagens foram trocadas de modo maníaco. Moer é um livro de artista encenado como um parasita das colecções da Gulbenkian (curiosamente editado pela própria Gulbenkian).

Não sendo livros de design, são livros que põem em causa as expectativas do que deve ser o design e as suas tarefas: cumprem à letra a vontade dos seus clientes; ao fazê-los, o designer apaga o seu próprio estilo e mesmo identidade; mas revelam também que dentro do design a suposta neutralidade funcionalista nunca existiu; espera-se sempre um estilo, uma identidade, uma originalidade. São livros de artista que revelam cruelmente a inconsistência crucial do designer como deve ser, aquele que se diz humilde, aquele que se diz cumpridor, aquele que depois até gosta que lhe dediquem uns prémios e uns livros.

Sendo menos cruel, são objectos que expandem alegremente os limites do design, quando muito desse design prefere fechá-los ainda mais, perguntando se quem faz objectos destes é realmente um designer (retoricamente, porque acreditam numa resposta negativa).

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Apanhado do ano

A maior tarefa do ano foi a mesma de 2018: a Rosa. O resto orbitou à volta. Já não sei onde começa ela e termina a minha própria existência. Ter menos tempo é uma certeza à qual ainda não me habituei. Talvez por isso, disse que sim a todas a quase todos os desafios.

Comissariei duas exposições e publiquei dois livros, um dos quais escrevi na totalidade.

Em colaboração com o Ricardo Nicolau, comissariei A Biblioteca na Biblioteca, no Museu de Arte Contemporânea de Serralves. Comissariei A Força da Forma na Porto Design Biennale. Escrevi o livro A Força da Forma (livro e exposição com design do infatigável Rui Silva). Editei finalmente, com a Susana Gaudêncio, a Sofia Gonçalves, o livro Páginas Inquietas, com colaboração da Catarina Botelho, da Helena Sofia Silva, do António Guerreiro, do Ricardo Nicolau, da Isabel Carvalho, da Oficina Arara e da Márcia Novais.

Foi, sem dúvida, o período mais atarefado da minha vida, mas também o mais vital.

Com A BIblioteca na Biblioteca, decidi começar a concentrar-me menos na história do design e mais na sua contemporaneidade. Assim, vejo A Força da Forma como o encerramento de um ciclo, uma tentativa de produzir uma história revisionista do design gráfico português, onde mesmo ao nível do método se secundariza as unidades habituais – Onde o designer foi menos importante que as suas influências, onde a forma é tida como mais política que a função.

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Vaughan Oliver

4 AD Front Cover Vinyl LP - VA - Lonely Is An Eyesore

Quando comecei a estudar artes no secundário, na segunda metade da década de noventa, ainda sem saber se iria estudar arquitectura ou design, o trabalho que se via em todo o lado tinha cores vivas, contornos claros, e o traço de uma banda desenhada franco-belga. Eram as Amoreiras, o espremedor do Starck e o mobiliário Memphis, o desenho retro-futurista de Daniel Torres ou de Moebius, os arabescos geometricos de Neville Brody.

Quando entrei para a faculdade, sem o saber articular, já queria outra coisa, o oposto disso tudo. Já me tinha aparecido o Eraserhead de Lynch, as banda desenhadas de Bill Sienkewicz e de Dave McKean, a pintura de Francis Bacon, as fotos de Joel Peter Witkin, tudo ambientes texturados, depositados em camadas de contornos esbatidos. Era textura contra cor plana, fotografia contra desenho, atmosfera contra espaço arquitectónico.

Há realmente um pêndulo formalista – depois de uma época cartoon vem uma era sombria e a preto-e-branco – que não se limita ao grafismo. Contra a euforia pop e new wave do começo dos anos 80 veio o som íntimo e solene da 4AD. E, para lhe dar matéria vísivel, carne, o design de Vaughan Oliver – que rapidamente idolatrei. O meu primeiro livro de design, o Album Cover Album 6, tinha-o como um dos autores, juntando-o num trio improvável com Roger Dean e Storm Thorgerson (era o equivalente a juntar os Yes e os Dead Can Dance, ou os Pink Floyd e os Pixies).

Adorava os ambientes texturados de Oliver, muitas vezes produzidos em colaboração com Nigel Grierson. Os primeiros discos que comprei foi pelas suas capas.

Pelo que soube, acabou de morrer. Nunca tive particular vontade de conhecer os meus heróis, primeiro por timidez, depois por perceber que conhecer a pessoa é muitas vezes matar o mistério. Ainda assim, fiquei com inveja quando uma aluna me disse que tinha estagiado em Erasmus com ele, depois de lhe ter mostrado coisas de Oliver. Não fazia ideia da sua importância, mas ficou satisfeita por o saber.

Oliver construiu o ambiente de uma parte importante e formativa da minha vida. Ainda me comove e ainda desejo que o pêndulo caprichoso do formalismo vá de visita a paisagens sombrias e texturadas semelhantes, mas não tem acontecido.

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Filme da Década

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A minha escolha para filme da década é An Oversimplification of Her Beauty, de Terence Nance (2012). Não sei se estreou em Portugal. Vi-o há alguns anos na net. É um dos meus filmes favoritos e, sem dúvida, aquele que para mim representa melhor esta peculiar dezena de anos.

Uma década é um corte arbitrário. Impõe sobre um número certo de anos uma unidade artificial, uma profecia invertida, impossível à partida, óbvia apenas no fim. É decidindo os seus melhores filmes, livros, pessoas e acontecimentos que se define afinal a década. Antes disso, era apenas caos e aspirações. Tempo em cru.

Escolho um filme que não há-de aparecer em muitas listas mas representa para mim e com um eficácia minoritária os anos 2010. Está na intersecção perfeita, certeira, do feixe das características. Não o consigo imaginar em qualquer outro período. É um filme do hipsterismo, da austeridade e da precariedade mas propondo também e de um modo único uma identidade afro-americana.

É intimista ao ponto de parecer um empreendimento solitário: escrito, realizado e interpretado pelo próprio. É ferozmente, mas também delicadamente, independente. Pelo modo ensaístico, documental e poético como vai destrinçando com obsessão um estado de espírito lembra a sinceridade rigoroso e anti-irónica da geração de David Foster Wallace – que transbordou da década anterior. Inscreve-se num espaço próximo mas não equivalente do cinema mumblecore. É demasiado intrincado, inventa demasiado a sua próxima linguagem para isso. Não se filia. Pela profusão de recursos narrativos, e pelo seu rigor poderia ser uma espécie de Wes Anderson.

Contudo, é também uma visão e uma consciência especificamente afro-americana – aproxima-se da série de televisão Atlanta, de um afro-surrealismo lírico (Nance fez também a sua própria série de televisão, a belíssima Random Acts of Flyness). É um filme que junta a sensibilidade urbana, precária, da crise económica – aquilo a que se chama depreciativa e injustamente hipster – com a consciência identitária da segunda metade da década.

Não digo que o meu filme português da década é As Mil e Uma Noites porque habita a primeira metade da década, a da austeridade, da Troika, do desemprego. O filme de Miguel Gomes já parecia um pouco impossível nos tempos da Geringoça. Parece simplesmente utópico, agora, nos tempos do Ventura.

Pelo mesmo raciocínio, não é possível escolher uma só figura política para esta década, a que reuniu Obama e Trump. Aqui em Portugal, escolho Pedro Passos Coelho, santo patrono da austeridade, desemprego e emigração. Seria ele a provocar a aliança das esquerda a que se chamou Geringonça (e não o Livre, como Rui Tavares tem defendido). Seria ele a legitimar politicamente André Ventura e o seu programa.

(Ironicamente, penso ter sido o Livre, e em particular Joacine Katar-Moreira, o pretexto para o enterro definitivo de toda e qualquer geringonça ou entendimento entre as esquerdas, a maioria das quais estão cobardemente dispostas a ignorar o racismo em nome de uma luta de classes esbranquiçada, em nome de não alienar os piores instintos do seu eleitorado. A esquerda portuguesa, tal como o centro e a direita, decidiu que lhe incomoda mais chamarem-lhe racista do que dizer ou fazer coisas racistas.)

O texto termina abrupto. Escrevo-o no comboio, enquanto viajo com a minha esposa e filha. O sol bate-me no ecrã e na cara da minha filha que não consegue dormir. Um idiota no lugar da frente recusa-se a baixar a cortina porque pagou para ver a vista. O revisor diz que não há nada a fazer. Tudo dependeria, alegoricamente, do civismo.

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A década da imagem

Esta também foi a década onde o design de comunicação português se consolidou ainda mais como um serviço clerical.

Embora ainda sonhe com os altos vôos do branding, e fique muito orgulhoso e sonhador com os Porto Ponto que ainda vão havendo, a verdade é que o logotipo é cada vez algo feito pela agência publicitária.

A agência vai penetrando nos territórios onde o design gráfico se tinha refugiado, a câmara municipal e as instituições de cultura. Em resposta, vai-se fesejando as poucas e pouco representativas vitórias em contra-corrente – como o já referido Porto Ponto.

O design tem-se tornado numa actividade funcionária e nada o revela melhor do que a obsessão central desta década pela tipografia, pelo editorial, pelos interfaces e experiência de utilizador – organização da informação em letras e páginas, sejam elas físicas ou virtuais.

A obsessão pela tipografia é tanta que se perdeu, quase sem dar conta, a capacidade para lidar com as imagens.

Numa das melhores conferências a que assisti este ano, Sofia Gonçalves (na PDB) falou de dois territórios que seriam impossuíveis pelo design: o meme e o cartaz de protesto. Para um designer os fazer precisa de abandonar a sua identidade de designer. Eu acrescentaria que outro território é o da imagem.

Dei conta disso ao pedir aos meus alunos para conceber uma publicação sem tipografia e eles me terem perguntado como se avaliava isso. Por contraste, quando eu era aluno só começávamos a trabalhar com tipografia no último trabalho do primeiro ano, e mesmo assim de modo muito limitado. Esperava-se de quase todos os designers que fossem fotógrafos ou ilustradores. Neste momento, essas são duas especializações quase fora do território do design.

O resultado é que, na década onde qualquer pessoa sabe discutir através da imagem, onde as eleições e as guerras se vencem e se perdem através da desinformação via meme, o design parece fantasticamente mal preparado para lidar com este problema. Num dos melhores textos da década, Can Jokes Bring Down Governments?, os Metahaven já avisavam para estas imagens que se movimentam quase totalmente do lado de fora do design.

Para ser franco, também se movimentam fora do jornalismo e do discurso político tradicionais que as vêem com a maior desconfiança. As boas análises têm sido raras e quase todas fora da esfera do design.

Na verdade, o design tem sido tão incapaz de produzir imagens marcantes como de produzir análise crítica pertinente sobre imagens – o que é triste, na década onde se começou a comunicar e a discutir através da imagem. O gif animado e o meme estão, dentro do design, ao nível da Comic Sans, um território chunga sobre o qual se empina o nariz.

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A década, então.

No design português, se formos pela simples quantidade, nunca se escreveu tanto. Papers, teses de mestrado, doutoramentos. Incentivada pelos indicadores de produção académica, a produção de pensamento sobre design massificou-se. Não melhorou, nem se tornou mais pública. São comuns os papers que antigamente seriam simples notas de leitura. O mesmo com dissertações e teses. Já estive em defesas onde se faz questão de contar as palavras ou apontar em público se o candidato citou ou não teses da instituição onde se está a formar. É um mau hábito, uma espécie de sistema de quotas para gerar citações. Com a quantidade actual de produção, deveria ser criticado como uma espécie de incentivo ao provincianismo.

O pior é toda esta produção não ter qualquer eco na sociedade em geral. Nunca se escreveu tão pouca e tão má crítica de design em Portugal. Nos jornais, a crítica de design gráfico limita-se ao que sempre foi: uma nota de rodapé à crítica literária. O gosto é conservador quando não mesmo mau. O tipo de objectos que se louva são quase sempre maus ou, quando não são, estão desactualizados.

Na imprensa, o que se gosta são monografias sobre designers já falecidos. O que se gosta é de edição das décadas de sessenta, setenta. O que se gosta é da Imprensa Nacional Casa da Moeda. O que se gosta são aqueles pastelões vaidosos, álbuns mais ou menos comemorativos que parecem caixas de bombons.

O que não se consegue sequer comentar é uma das melhores décadas em termos de edição independente aqui em Portugal. Ainda por cima edição feita ou ajudada por designers. Uma das décadas mais diversas, também. Nunca houve tanto design feito por mulheres. Lendo o que se escreve sobre design, ninguém notaria. Onde estão Sofia Gonçalves, Márcia Novais, Maria João Macedo, Inês Nepumuceno, Cláudia Lancaster? Onde está Marco Balesteros? Onde está a Oficina Arara?

Mas nem tudo é um deserto na crítica de design aqui em Portugal. Como objecto fundamental da década, escolho os catálogos das exposições de finalistas da Fbaul, em geral dirigidos por Sofia Gonçalves. Foram a única publicação pela qual valeu a pena ansiar. A única em Portugal que pareceu ter sido feita nesta década, já para não falar deste século. A única que fala de desinformação, de identidade, de política, dentro do design. Não é uma revista mas vou tratá-la como um revista anual, a bem do que resta da dignidade do design nacional.

(Ao nível internacional, o texto mais importante do design foi Can Jokes Bring Down Governments? dos Metahaven, escrito dois anos antes de Trump. Profético mas falhado, ainda assim foi o local, a tangente, onde o design esteve mais próximo de acertar).

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Páginas Inquietas

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Já saiu.

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A Garrafa

Desmontei na terça a exposição. Os livros e revista já estão de volta nos seus caixotes. A Porto Design Biennale chegou ao fim. Vou sentir falta. Aliás, já sentia. Por causa do meu emprego e dos meus deveres de pai recente, foi-me impossível ir a todos os eventos, todas as exposições e conferências. Foram tantos. Os que tive a boa fortuna de assistir foram sempre estimulantes. Alguns porque iam ao encontro das minhas preocupações, mostrando-me mais possibilidades. Outros porque embatiam contra as minhas preocupações, ainda assim de modo estimulante.

Um dos eventos que mais me pôs a pensar foi um dos que me irritaram, uma conferência dupla do editor da Dezeen. A Dezeen, como o seu próprio editor referiu, descende da Ícon que por sua vez descende da Blueprint, centrando-se todas, deliberadamente, no designer enquanto celebridade.

Agora, a Dezeen acumula essas funções com um tipo de activismo tablóide, denunciando conferências e ateliers onde não há diversidade, ou revelando que processos ou empresas tidos como ecológicos na verdade não fazem o suficiente. Pareceu-me, não sei se pelo tom da apresentação, boas intenções engarrafadas. Perdão: da torneira, servidas numa garrafa de vidro desenhada por uma celebridade.

Há discussões bem mais complexas e bem mais pensadas. A verdade é que eu beberia de vontade uns quantos copos da tal garrafa de vidro. Quem me dera que houvesse cá em Portugal uma imprensa de design com a mesma vitalidade (mesmo que só falasse de celebridade). Quem me dera que aqui se praticasse a mesma wokeness por defeito da Dezeen. Já estaríamos uns furos acima.

A maior tristeza da bienal foi ter ilustrado o miserável estado do discurso público do design em Portugal. Ninguém escreve. Ninguém fala. Ninguém faz. É mais fácil montar uma boa exposição do que sustentar crítica com interesse e actualidade.

A quantas décadas vamos de correntes contemporâneas da crítica de design? Das interrogações interessantes que são levantadas sobre a relação entre ficção e design? Porque não se consegue relacionar a descolonização do design com discussões em tudo semelhantes sobre representação, identidade e extrema direita em Portugal?

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A Força da Forma

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Já saiu. Podem comprá-lo aqui.
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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico.

Autor do livro O Design que o Design Não Vê (Orfeu Negro, 2018). Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

História Universal do: Estágio

O "Estágio"
O Negócio Perfeito
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Trabalho a Sério
Design & Desilusão
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Liberal, irreal, social
Conformismo
Juventude em Marcha
A Eterna Juventude
Indústrias Familiares
Papá, De Onde Vêm os Designers?
Geração Espontânea
O Parlamento das Cantigas
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História Universal dos: Zombies

Zombies Capitalistas do Espaço Sideral
Vampiros, Zombies, Classe Média

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