The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O autor empalhado

A melhor demonstração da ideia de Morte do Autor está na capa das suas edições mais recentes aqui em Portugal. Têm uma fotografia do autor, o próprio Roland Barthes. Numa análise superficial, dir-se-á uma contradição. O autor a aparecer na capa da sua morte. Não só o sujeito que escreveu, mas realmente o Autor, a figura tutelar, que aparece como uma fonte física de autoridade, que, mesmo gordo, careca e o resto, mesmo que ele próprio o proíba, como Salinger e Pynchon, tem que aparecer, tem que se ver a cara dele para confiar no livro.

Mas não, não é uma contradição, só uma confirmação. Barthes está morto, foi atropelado pela carrinha do homem do leite. E, mesmo quando estava vivo, já se podia fazer tudo o que se quisesse com o trabalho dele. O único obstáculo era ele próprio.

As primeiras edições dele em Portugal eram perfeitamente Barthianas. Nas capas tinham padrões quase abstractos. Uma delas tinha a demonstração diagramática de como funciona o formato A4. A geometria recursiva lembrava indirectamente arte islâmica porque o objectivo era próximo: não representar a figura do profeta. Na contracapa não vinha a foto do autor.

Acabo sempre por gravitar para estas edições brancas, as mas antigas de Barthes, não pela fidelidade aos princípios do Autor, mas porque percebi que, apesar de toda a perfeição canónica do design das mais recentes, consigo lê-las bem melhor.

Mas o que sei é que estas novas edições, com a foto do homem na capa, demonstram bem que o Autor morreu, porque até com Barthes se pode fazer o oposto do que ele quereria.

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Os «a-Ha»

Se há coisa mais maçadora, é a análise crítica praticada através dos «a-ha!», como por exemplo: «A-Ha! Dizes que se fala pouco sobre mulheres no design mas no mês passado saiu uma revista sobre mulheres no design!» Não é um grande a-ha, aliás é uma falácia. É como o Trump dizer que não há aquecimento global porque houve um nevão na semana passada. Uma coisa são exemplos pontuais outra coisa são tendências. Tem-se falado mais sobre mulheres tanto no presente como na história do design mas continua a ser insuficiente. É fácil constatá-lo consultando qualquer história do design. Há muito trabalho científico relacionado sobre o cânone do design que incide sobre isso, a começar com os de Martha Scotford ou Erica Nooney.

Outro «a-Ha» comum, no meu caso, é o de ser acusado de fazer biografias quando critico as histórias do design excessivamente centradas em biografias. Para perceber o que quero dizer basta comparar a história do design de Meggs com a de Emily McVarish e Johanna Drucker. Enquanto a primeira estabelece uma linhagem contínua de praticantes, inventores, a segunda faz uma história baseada em conceitos, tecnologias, mudanças sociais, etc.

Voltando aos A-Ha, mesmo quando se faz uma história como a de McVarish e Drucker é impossível excluir os pormenores biográficos, mas enquanto no texto de Meggs são o assunto central, ao ponto de parecer um longo encadeamento de biografias, nesta costumam aparecer nas legendas das imagens e não no corpo de texto. Um pormenor simbólico.

Uma parte da minha investigação doutoral incidiu no modo como os designers representam a sua própria identidade através de dispositivos gráficos como este. O tema foi o uso da biografia e em particular a auto-biografia dentro do design. Se a biografia é comum ao ponto de se tornar a muleta das histórias do design, as auto-biografias são vistas como projectos de vaidade.

Interessa-me a construção de identidade, e interessa-me o modo como os designers constroem a sua própria como praticantes. Gosto bastante do formato enquanto objecto de estudo.

Daí que seja particularmente cómico quando alguém me pergunta porque trabalho ou uso a biografia quando critico histórias do design demasiado centradas na biografias.

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Enfim

Por um lado, toda a gente me diz para nem ligar, por outro confesso que me irritam um bocado os erros de palmatória que foram cometidos na recensão ao meu livro no Observador. O maior deles é, pelas suas próprias palavras, da exclusiva responsabilidade do crítico, que, em relação ao primeiro ensaio do livro diz que embora «não seja declarado como tal, trata-se do relatório de nomeação definitiva na FBAUP». Não é declarado enquanto tal porque não é. São dois textos distintos.

O ensaio é declarado na introdução do livro como inédito. Os relatórios são documentos públicos. Nunca poderia ser inédito depois de apresentado.

Aliás, o relatório é uma lista comentada do trabalho que fiz entre o doutoramento e a contratação definitiva. É um formato definido por lei, que versa publicações, investigação, actividade pedagógica, etc. Eu escolhi fazê-lo num formato de ensaio com anexos.O ensaio do livro trata da relação histórica entre o design e as questões de identidade. Qualquer pessoa que se desse ao trabalho de fazer bem a sua investigação não confundiria estes dois formatos. Aliás, bastaria ter a precaução básica de não inferir afirmações de facto a partir de dados que não as suportam cabalmente.

Não tenho vergonha absolutamente nenhuma nem dum texto nem de outro, sobretudo pelas razões que o Vasco Rosa aponta que se resumem, espremidas, a uma acusação de ser politicamente correcto – desconfio que se lesse o relatório, encontraria razões para a mesma acusação.

Enfim, nem me chateia grande coisa do resto. É um texto onde, na preocupação e pressa de dizer mal, se diz mal de mim pessoalmente, se inventam factos, se pegam em pormenores menores de linguagem, como assumir a minha vaidade porque uso a primeira pessoa. Não o faço em trabalhos académicos ou crítica jornalística. Mas em ensaios, porque não? Há uma longa tradição disso.

Nem sequer vou mandar um pedido de correcção para o Observador. A ideia de escrever para eles, até para corrigir um erro relacionado comigo, traz-me um bocadinho de comida já meio digesta à boca.

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Lentes

Ler a sério sobre feminismo foi para mim um pouco como aqueles óculos que permitem a um daltónico ver as cores que lhe eram invisíveis. Repara-se em coisas que passavam completamente despercebidas. Por exemplo, é muito mais habitual ver chefes a levantar a voz com mulheres do que com homens. Uma amiga dizia-me que certos chefes preferem ter uma empresa com mais mulheres porque é mais fácil berrar com elas sem resposta. Daí que certa «inclusão» não o é. Outra disse-me que foi obrigada a trabalhar como designer com certo crítico literário que lhe levantava a voz de tal maneira que ela só resolveu o problema levando o pai às reuniões. Porque, claro está, e tal como acontece com o piropo, não se manda vir com uma mulher acompanhada do seu «responsável» seja ele o namorado, o marido ou pai. Daí que muitos homens nunca tenham reparado em piropos mais agressivos. Não se faz isso na presença do «proprietário». Nunca tinha reparado até mo chamarem a atenção. Depois disso é difícil não ver.

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Reacções

Uma estrela no Observador e dada pelo Vasco Rosa! Confesso que é motivo de orgulho…

(aproveito só para corrigir um erro: na crítica é dito que o ensaio principal do livro é o meu relatório de nomeação definitiva. Não é. Foi escrito de propósito para o livro – vem assinalado na introdução que é inédito. O meu relatório é um documento burocrático. Gostei de o escrever mas duvido que tivesse grande interesse para o público em geral.)

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ERRATA e PEDIDO Muito Grande de DESCULPAS:

Tenho que pedir desculpa aos meus leitores e ao Luís Miguel Oliveira. A crítica que lhe atribui num post anterior afinal era do Jorge Mourinha. No texto, tentava eu (na minha irritação) demonstrar que as críticas de Luís Miguel Oliveira eram todas iguais. Acabei por demonstrar que não sou uma pessoa muito atenta às minúcias e acabei por descobrir (totalmente sem querer) que também são iguais às do Jorge Mourinha – tanto na estrutura como nos tiques. Peço desculpa também a este último. De futuro, quando me quiser referir à minha embirração com a crítica de cinema do Luís Miguel Oliveira, visarei a minha fonte de irritação correcta que é a crítica de cinema

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Fast food

Mais outra embirração favorita às sextas: a crítica de cinema de Luís Miguel Oliveira. É uma seca porque é sempre a mesma coisa. O homem tem um espaço minúsculo para expor as suas ideias e gasta-o sempre da mesma maneira.

Esta semana dedica uma colunita ao filme A Quiet Place. Esbanja o primeiro parágrafo a admitir que o filme provocou discussão nos Estados Unidos. Há sempre uma parte das críticas do Luís Miguel Oliveira onde se revela que o filme é apreciado ou difamado em outro sítio. O segundo parágrafo é gasto a conceder algumas qualidades que justificam essa discussão, mas que «Nem tanto ao mar nem tanto à terra». A conclusão, que surge no terceiro e último parágrafo, tão inevitável e entusiasmante como uma conta da luz, é que, acabado o visionamento, tudo o que filme tinha de bom se desvanece:

«A prova disso é que, se não há um momento de fastio durante o tempo da sua projecção, cinco minutos depois de terminada a memória começa a ter dificuldades em restitui-la, e o filme vai “desaparecendo” como se não tivesse sido capaz de se constituir em “objecto”, sólido e palpável.»

Espera. Enganei-me. Peço desculpa. Isto é sobre o Ladybird. Sobre o A Quiet Place é isto:

«É uma ideia que [se] aguenta com garra ao longo de todo o filme, mais uma prova de que as lições do cinema mudo andam injustamente esquecidas. Mas, depois da projecção, o rasgo desvanece-se e o que falta no filme começa a vir ao de cima.»

É, no fundo, tal e qual uma crítica do Luís Miguel Oliveira.

Aquilo não chega a ser o McDonalds da crítica de cinema. Aquilo é a versão gourmet e enjoada do McDonald. É uma coisa demasiado pretensiosa para fazer de conta que é McDonald e só consegue fazer de conta que é o H3. O menu é sempre mesmo. Pode-se escolher batata ou arroz. Há a liberdade suprema de optar por limonada ou Coca Cola e de levar um pãozinho minúsculo embrulhado em plástico. No fim, arrota-se, encerrando-se uma experiência desenhada para sossegar snobes que nunca seriam apanhados mortos num centro comercial mas acabam sempre por ir lá ter.

A crítica do Luís Miguel Oliveira é o mesmo. Uma fórmula modular sempre com os mesmos ingredientes mas que quase consegue dar a ideia que só é uma fórmula porque os filmes é que não prestam. É como alguém que come sempre num pseudo-H3 mas consegue dar a ideia que só lá vai porque não encontrou nada melhor, porque não tem tempo. Porque tudo o resto é pior. É um snobismo enlatado.

ERRATA e PEDIDO de DESCULPAS: Tenho que pedir desculpa aos meus leitores e ao Luís Miguel Oliveira. A crítica que lhe atribui neste post afinal era do Jorge Mourinha. No texto, tentava eu (na minha irritação) demonstrar que as críticas de Luís Miguel Oliveira eram todas iguais. Acabei por demonstrar que não sou uma pessoa muito atenta às minúcias e acabei por descobrir (totalmente sem querer) que também são iguais às do Jorge Mourinha – tanto na estrutura como nos tiques. Peço desculpa também a este último. De futuro, quando me quiser referir à minha embirração com a crítica de cinema do Luís Miguel Oliveira, visarei a minha fonte de irritação correcta que é a crítica de cinema

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Publish or Perish

Um detalhe curioso do livro que publiquei agora é que teve a sua origem no meu relatório de nomeação definitiva. Para quem não anda na vida académica, é um documento que se entrega quatro anos e quatro meses depois do doutoramento com o objectivo de convencer a instituição a contratar-nos de vez. Até aí, estamos todos a prazo.

O relatório costuma ser uma lista mais ou menos comentada do que se publicou, conferenciou ou expôs nesse período de tempo. Há quem se limite a entregar meia dúzia de páginas (nada de mal com isso). Eu entusiasmei-me. Passei o Outono de 2015 a escrevê-lo e confesso que me diverti. Foi uma oportunidade para passar em revista o que escrevi em quatro anos e eu próprio fiquei surpreendido. Tinha publicado mais de vinte textos em publicações impressas. No caso deste blog, havia 1671 posts. Muitos eram observações de passagem, mas uma grande percentagem não envergonhava.

Um amigo sugeriu-me que apresentasse uma selecção de textos à Orfeu. Quase de imediato, decidi não construir o núcleo do livro a partir do blog. Através do relatório  apercebi-me também que havia uma grande quantidade de textos dispersos por publicações variadas. Apesar de produzidos por encomenda, seguiam um conjunto de fios condutores, aquilo a que se poderia chamar as minhas preocupações de investigação. A principal são são talvez as questões de identidade no design. Depois de bastante escrita, revisão, selecção, reescrita, o livro reune doze textos sobre esse tema – identidade do design enquanto disciplina, dos designers, de género, étnica, de classe, geográfica, etc. A maioria veio de outras publicações por vezes muito modificados, dois foram escritos de raiz. Apenas um deles teve a sua origem no blog.

Quanto ao relatório, foi também um ensaio que cumpriu com sucesso a sua função principal – consegui a nomeação definitiva com uma óptima nota. Foi também um documento importante para mim, apesar do seu carácter «burocrático», tanto pela oportunidade de fazer um ponto da situação como pelos caminhos que abriu, um deles levando ao «O Design que o Design Não Vê».

Deixo aqui aqui o começo da sua introdução:

“Combining [an] academic job with freelance activities leads to a life in which the de- tour is the tour, as projects are shaped by whatever possibilities there are to finance them partially. I too have tried to make the most of these conditions, and attempted to develop a practice that is embedded and tactical.”

Sven Lütticken

Neste documento, apresento a investigação e intervenção públicas que produzi nos quatro anos e quatro meses que passaram entre a defesa do meu doutoramento e a en- trega deste relatório, enquadrando-a no seguimento do esquema teórico desenvolvido na minha investigação doutoral. Trata-se de integrar num fio narrativo coerente um conjunto de intervenções muito distintas entre si, tanto na forma como nos temas. Este é, afinal, o problema de tentar combinar o ensino e a investigação académicos com oportunidades de investigação, escrita ou comissariado, quase sempre sujeitas a temas e condições que, mesmo quando são generosas, nunca são exactamente as ide- ais. Usam-se as ocasiões mais díspares para ir construindo, lentamente e em público, uma linha de argumentação que se prolonga através de textos, ensaios, posts, folhas de sala, conferências, livros, cada qual sob temas tão diferentes como a biografia de um designer, o design e influência de um determinado livro, uma conferência cuja única obrigação é durar exactamente seis minutos e quarenta segundos, etc. É uma manta de retalhos – ou como descreve elegantemente Sven Lütticken na citação que serve de epígrafe a este texto, uma vida onde o “detour is the tour”, onde o desvio é a via. Mesmo este relatório é uma oportunidade. Uso-o como ocasião para convocar um conjunto de peças dispersas e heterogéneas para, espero, revelar que fazem parte de um todo coerente.

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Voltar

Mudei de ideias e ando vai não vai para voltar ao blog.

Não, a culpa não é do Zuckerberg – pelo menos não neste caso. Quando me juntei ao facebook sabia ao que ia. Há uma piada onde um rato de laboratório está a dizer ao cientista, «Olha, acho muito fixe fazer estes exercícios, andar pelo labirinto, correr na roda, e é óptimo receber queijo no fim, mas às vezes fico a pensar porque me dás isso tudo.» E o cientista escreve no bloco notas, «Queijo deixa rato paranóico.» Para gente como Zuckerberg, a solução para uma questão de ética será – sempre e só – afinar a experiência do utilizador. O problema do facebook é ser uma comunidade cuja ética é um assunto de backoffice, ao qual os membros só têm um acesso muito indirecto. Mas isso já se sabia.

O que me afastou do blog é o design ter, colectivamente, uma atitude muito próxima da do facebook. Em resposta a problemas éticos ou políticos afina-se a experiência do utilizador ou muda-se de cliente. Não se põe em causa os princípios. Aliás, nem se tem muita consciência desses princípios, de como funcionam.

O que me afastou do blog, percebo agora, não foi a minha experiência de utilizador mas ser o local onde eu falava mais sobre design.

Com o tempo, percebi que era possível escrever sobre design sem cair em variações das discussões do costume. Que o estilo é algo a evitar, por exemplo. Quando é muito difícil analisar a política do design sem falar de estilo. Ou, a pior discussão de todas, o equivalente em design a falar sobre o tempo, que são as críticas da Comic Sans e os seus derivados. Criticar a Comic Sans (ou o estilo) é o equivalente teórico de usar a Comic Sans.

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Livro

Não é o meu primeiro livro e se calhar já me devia ter habituado. A sensação é sempre de algo que me pertence e não me pertence, que conheço mas me escapa. A mecânica de escrever na internet é solitária. Tem-se um público mas o acto de escrita é desacompanhado. Editar um livro é uma tarefa colectiva e o autor é só uma pequena parte do processo. Aquilo que foi escrito à solta, é lido, seleccionado, revisto. É afiado e polido. Ficamos surpreendidos que as nossas palavras dêem nisto, neste paralelipípedo de papel e cartolina, que se abre e as formas das letras são tão concretas de outra maneira que quase não é nossa.

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O Design que o Design não vê

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Já saiu o meu livro. Pode ser comprado aqui. É uma colecção de textos longos, a maioria recolhidos de livros e revistas, com alguns inéditos. O ensaio que dá o título trata da relação do design com o assunto que me preocupa mais, a identidade, não só no sentido que os designers habitualmente lhe dão, de construção de imagens de marca, mas no de políticas de identidade, de género, raça e classe. E, claro, da identidade do próprio design, o modo como se constrói e interage com outras identidades. Fica aqui o resumo da editora:
«Especialista por excelência no fabrico de identidades, o design é uma disciplina fundamental do nosso quotidiano. No entanto, a reflexão crítica sobre a sua própria identidade não é abundante. Nos doze ensaios que compõem este livro, Mário Moura convoca a crítica do design para analisar os seus impensados e a cultura contemporânea, à semelhança da melhor tradição da crítica literária e da crítica de arte. Com várias incursões pela literatura, política, história, geografia e pelo cinema, o autor desmonta o património discursivo do design e demonstra como este é formado e reformado por conceitos de raça, classe, género, autoria e periferia, entre outros.»

 

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Livro

Faz hoje 14 anos que comecei a escrever publicamente sobre design. Foi no ressabiator , primeiro no blogger depois no wordpress. Com o tempo tentei outras plataformas como o Facebook. Comecei a preferir textos longos sobre design, que na internet não funcionam tão bem. O meu formato favorito anda entre as 3000 e as 9000 palavras. leva entre duas semanas e seis a escrever. Quase sempre por encomenda. O problema é que tende a dispersar-se por publicações avulsas. O meu próximo livro, que está a ser impresso, recolhe alguns destes textos e acrescenta-lhes alguns inéditos. É significativo que só tenha um ou dois textos do ressabiator, que neste momento já vejo mais como um período da minha vida do que algo actual.

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A Amnésia do Designer

Há uma inocência necessária, essencial, no modo como os designers – mas também outros artistas – seguem uma moda. Apresentam um trabalho que segue uma tendência formal evidente (uma certa fonte, uma certa combinação de cores, um certo padrão, etc.) mas acrescentam que faz todo o sentido, a fonte adequa-se ao tema, as cores à história do cliente, o padrão assemelha-se a azulejos ou a um tapete tradicional, etc. Contudo, tudo se assemelha a outros trabalhos produzidos nesse mesmo momento. Faz parte da capacidade do designer fazer parte de uma moda, de um movimento, como se fosse algo essencial, inescapável. E como tal esquecer que antes desse movimento houve outros e haverá mais a seguir. É uma espécie de amnésia criativa.
 
Quando se fala de valores universais há um mal entendido comum. Acredita-se que o designer deverá trabalhar para que toda a gente entenda o seu trabalho. A amnésia do designer ilustra outro tipo de universalidade mais comum mas, pela sua própria natureza, mais discreta. A capacidade de embarcar numa moda transitória como se fosse eterna, como se fosse a solução para tudo, empresta a essa moda um desejo de universalidade. É o que (por incrível que pareça) Kant descreve na sua ética e na sua estética: só se deve fazer ou gostar de qualquer coisa se conseguirmos desejar que, nas mesmas circunstâncias, qualquer outra pessoa fizesse ou gostasse do mesmo modo. Não é uma garantia que qualquer outra pessoa realmente o fizesse mas é uma garantia da nossa boa fé. Que estamos a fazer ou a gostar da melhor maneira que nos é possível. Esquecendo o carácter transitório da moda, o melhor designer aspira a cada momento à universalidade.

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Aniversário

Hoje são treze anos de blogue. Tenho escrito com mais regularidade no facebook do que aqui. Não sei se é uma tendência apenas minha. Plataformas como as redes sociais prestam-se mais ao apontamento rápido. Pode-se facilmente pôr uma reflexão rápida, um esboço de pensamento. Permitem também a escolha do público, amiga-se e desamiga-se, bloqueia-se , o que não é apenas um detalhe mas também um modo crucial de expressão. O maior defeito é o acesso ao passado. Pode-se fazer buscas mas são penosas. Não há grande catalogação. Neste momento, o blogue é para mim um formato sério, quase clássico, por comparação com o facebook ou o twitter, ao qual nunca me habituei.

Do lado do design, o meio mudou quase por completo nestes treze anos. Conferências, exposições e textos sobre design tornaram-se comuns, quase quotidianos. O modo como o design é exercido e pensado mudou também quase por completo, embora como é característico nesta área a mudança radical é, depois de alguma polémica, vista como uma clarificação. Há muitos exemplos disponíveis, mas o melhor talvez seja  a maneira como se passou de uma situação em que um designer não podia produzir conteúdos ou criar os seus próprios produtos, sem ser visto como um artista, a outra em que se valoriza o designer como empreendedor e não há estúdio que não tenha o seu projecto próprio, para o qual já nem sequer é necessário fazer de conta que existe um cliente. Agora, parece tudo bastante natural, excepto quando se fala com algum designer da velha guarda, que tem escrúpulos terríveis sobre usar o processo do design em proveito próprio e não para um cliente, por mais fantasmagórico que seja.

O próprio design também mudou. Já deixou de ser aquela coisa que durante décadas estava sempre a um passo de se implantar para passar a ser um património ameaçado ou esquecido que é preciso defender – da utopia ao museu de um momento para o outro. Continua a velha tentação de pensá-lo como uma coisa que (caso lhe dessem ouvidos) mudaria o mundo inteiro, sempre para melhor. Se isto, aquilo ou aqueloutro percebessem o  imenso poder do design, o design faria com que isto, aquilo ou aqueloutro tivessem muito mais visibilidade, qualidade, etc. O design sempre foi o comunicador que se, comunicasse eficazmente as usas intenções, conseguiria pôr tudo a comunicar muitíssimo melhor. Mas há sempre qualquer coisa que não deixa.

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Definições Breves de Design

Nunca houve apenas uma definição do que é o design mas várias, nem sequer a correrem em paralelo mas com vida própria. Desde o começo. A ideia mais geral e duradoura foi talvez a do design como uma disciplina organizada em torno do projecto – no sentido em que alguns arquitectos ainda usam o termo –, um modo de pensar usando métodos de manipulação de formas sensíveis, mas (e aí está a inovação) incluindo também formas sociais (aquilo que se resume como função).

O design enquanto disciplina surge quando se tem a ideia de aplicar esta cultura de projecto a todo o tipo de áreas até aí distintas: a projectar uma casa, um livro, uma peça de vestuário, uma exposição. Pensar tudo isto em torno de um mesmo princípio parece agora natural mas exigiu algum esforço e alguma luta.

Hoje o design perde esse princípio geral em função de um conjunto de especializações que se olham desconfiadas. Há outras ideias de o usar como um princípio geral, como o design thinking, que emprega o design como uma ferramenta de gestão de recursos humanos. Onde antes se projectava para a sociedade, agora projecta-se as relações em empresas.

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Tigre Tigre

Nos intervalos de ler gente aqui no facebook a argumentar se o fascismo e o comunismo são simétricos (não acho que sejam), leio a biografia de William Morris, de Fiona MacCarthy. Nos tempos de estudante em Oxford, o seu grupo de amigos descobria (às escondidas que já na altura era mal visto) o Socialismo, que era bastante próximo do que hoje chamamos Comunismo. Ainda mais às escondidas, sentiam o chamamento de algo tão escandaloso quanto isso, o Catolicismo. A nós, parece-nos uma contradição, mas lembrem-se do livro de Weber, A Ética de Trabalho Protestante e o Espírito do Capitalismo. Basta o título. Para Morris e os seus amigos o apelo do Catolicismo era o de ser algo que vinha de antes da Revolução Industrial e do próprio Capitalismo. Deste modo, comunismo e catolicismo. A contradição, a existir, é nossa, no nosso tempo. No deles fazia todo o sentido. Andar a ver simetrias e rimas na história é bonito mas às vezes engana.

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Outros Olhos e a Vida às Camadas

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Desde anteontem que tenho apanhado gente a discutir este anúncio. Ou simplesmente a postar uma foto como se fosse óbvio o interesse positivo ou negativo da imagem. Seria um anúncio completamente banal excepto pelo facto de colocar um homem numa posição onde normalmente é colocada uma mulher. Discutiu-se a objectificação, brincou-se que também podia ser dirigido a homossexuais, o que só mostra como é embaraçoso discutir o corpo masculino como objecto de desejo. Sobretudo entre heterossexuais. Não há vocabulário. Pelo contrário, entre as mulheres boa parte da sua identidade é construída em função disso, o que significa que se vêem a si mesmas em função do modo como os homens as olham. Nada que a teoria feminista já não se tenha fartado de analisar. Mas sempre que aparece um destes objectos o embaraço é o mesmo – desde os metro-sexuais até ao “alto” da estátua de Ronaldo.
Outro detalhe que passa desapercebido a muitos dos meus amigos do facebook, é este mupi só ser uma parte da campanha. Faz pandã com o anúncio de televisão que conta o resto da história (na verdade, a história toda), onde a mulher prefere a margarina ao “pão”. Mais uma vez nada de novo, excepto a auto-ironia fácil. Já não é a primeira vez que fico de cara à banda a olhar para anúncios que não se percebem quando não se vê televisão. E pelos vistos não sou o único. Ontem li em qualquer lado que já há crianças criadas a ver o netflix que não sabem o que é um anúncio publicitário. Não será o fim da publicidade ou sequer do spot publicitário, mas talvez apenas o da campanha concertada com objectos que se reforçam uns aos outros.

O problema menos evidente e mais grave que anúncios como este levantam é político e social. Quando só se tem acesso a uma parte da mensagem, criam-se desníveis e mesmo fracturas de interpretação. O caso mais óbvio é o do clickbait. Quando um jornal faz uma manchete bombástica que empola ou falsifica o conteúdo da notícia, a maioria dos não-assinantes só vê o lado falso e bombástico. Uma notícia verdadeira com uma mau título não é diferente de uma falsa para quem só lhe vê o título. Daí que que o clickbait sistemático seja uma prática perigosa que não é suficientemente avaliada.

(imagem roubada à Gui Castro Felga)

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Bloqueio

Acho extraordinário que haja gente que é bloqueada no facebook e acha que o assunto se resolve com uma conversa ao vivo. Isto do facebook não é a minha vida privada, é a minha vida pública. Ainda vou discutindo aí dentro dos limites da civilidade com gente com pontos de vista que me enjoam. Mas não faço isso em privado, como devem compreender.

Durante muito tempo sentia-me na obrigação de aturar discussões intermináveis, circulares e ofensivas. Cedia à chantagem de que abandonar ou encerrar uma discussão seria uma falta de respeito ou um atentado à liberdade de expressão. O que me obrigava a discutir com gente que acredita que repetir vinte vezes a mesma coisa ou declarar que não está convencido ou que venceu a discussão obriga de algum modo o interlocutor a mudar de ideias. Ou gente que vem para o meu mural dar bitaites sobre o que eu devia escrever ou não. Respeito a opinião alheia até ao momento em que percebo que não é recíproco.

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O Espectador Calado

Outro dia alguém (um crítico) se queixava aqui no facebook de quem dizia que só se era crítico (de arte, cinema, literatura, design, arquitectura, etc.) por que não se podia fazer, porque se era um fazedor frustrado (de arte, cinema, literatura, design, arquitectura, etc.) É uma boca comum, que já ouvi umas tantas vezes, e para a qual já tenho algumas respostas de algibeira. Lewis Mumford, por exemplo, quando o acusavam de não ter legitimidade para falar sobre arquitectura (porque não era arquitecto) respondia que também não era uma galinha e sabia perfeitamente o que era uma boa omelete. Um dia alguém me respondeu a isso dizendo que, no caso da omelete, se tratava de degustar (uma coisa das sensações) e não verdadeiro pensamento, que os críticos de arte (era este o caso) não sabiam do que falavam. Por esta diferença entre sentir sem pensar e fazer pensando se vê o desprezo pelo crítico (que ainda tenta pensar) que é apenas uma subdivisão menor do desprezo pelo espectador (que nem isso). Penso que nunca se desprezou tanto o espectador: educa-se o espectador, põe-se o espectador a estudar, põe-se o espectador a trabalhar, planeiam-se actividades, visitas guiadas, leva-se o espectador pela mão, etc.

Ora, para mim o crítico é apenas um espectador que escreve (ou fala em público) sobre o que vê, lê ou ouve. Não é um criador frustrado mas um espectador frustrado, não no sentido de assistir ao que não quer mas no sentido de não chegar a ser o espectador idealizado, alguém que se limita a assistir. Ninguém é. Haverá pouquíssima gente que não comente o que viu. Em parte, é-se espectador para fazer parte de uma comunidade, para poder falar com outros sobre o que se vê em comum. O crítico é apenas um especialista nisso. E não precisa de mais. Poder responder a meios, a dinheiro, a poder, a talento, apenas com palavras é um direito mínimo, porque as palavras são baratas, são democráticas.

Não se emancipa o espectador pondo-o a fazer outras coisas que não sejam ser espectador (o espectador pode até ser um criador frustrado, não se sabe, mas é um espectador, com toda a certeza). Emancipa-se o espectador reconhecendo-lhe essa condição, e reconhecendo-lhe o carácter político, comunitário. É isso que Rancière sugere no seu texto O Espectador Emancipado, onde critica as ideias de Debord ou Brecht, para quem o espectáculo e o espectador são problemas a resolver. Significativamente, já li interpretações onde se defende que Rancière é Debordiano ou Brechtiano. Só significa que neste momento não se consegue conceber o espectador como uma acção em si mesma. É sempre preciso algo que o active a partir de fora. É sempre um problema a resolver.

Mas o espectador, no fundo, é algo a controlar. Percebe-se isso nas recentes polémicas sobre o humor. Assume-se que criticar um humorista por usar a palavra “mariconço” é equivalente a um acto de censura, quando o humorista continua a ter toda a liberdade de o usar depois da crítica ser feita. Não está a ser silenciado. Está a ser interpelado. E pode responder. Com humor ou recorrendo à justiça. Da mesma maneira que pode ser processado por difamar alguém ou de estar a espalhar o ódio, tem também todo o direito de processar quem o tenha acusado de tal. Os direitos são iguais. Mas, apesar de tudo, assume-se que a liberdade de expressão é predicada pelo silêncio crítico do espectador, que só pode fazer o que se espera dele: rir-se agora ou (como nos casamentos) calar-se para sempre.

A desconfiança da passividade do espectador não é nova. Mas nos últimos anos, começou-se a achá-la subversiva. Falo da doutrina do empreendorismo onde se faz equivaler o próprio sujeito a alguém que toma a iniciativa, que faz, que cria. Quem se limita a assistir é um problema a ser resolvido. Só se assiste como preparação para uma acção posterior. Assiste-se enquanto se espera pela vez de mostrar. Desde as épocas de Debord ou Brecht a acção tornou-se parasitária, alienante, principalmente depois do espectador e da crítica terem desaparecido. Vivemos numa Sociedade do Espectáculo onde não são autorizados espectadores.

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Apagar fogos faz-se com prevenção e planeamento, mesmo a nível metafórico

Um dos trabalhos que os meus alunos do quarto e último ano fazem é paginar um livro. Tem apenas três contos do escritor argentino Jorge Luís Borges, escolhidos pela sua qualidade literária e pelas dificuldades que impõem ao designer. Incluem notas de rodapé, diagramas, listas, citações, referências bibliográficas, epígrafes, etc. Este ano, na entrega desse trabalho, pedi aos alunos que descrevessem a maior dificuldade que tiveram ao concretizá-lo. Uma aluna respondeu que, sempre que mudava qualquer coisa, tudo o resto precisava de mudar, originando novas mudanças que por sua vez afectavam o todo.

Era isso o que se costumava chamar “design” nos velhos tempos. Este era um exercício, mais do que aquilo que se chama brief, trabalhos “realistas” com cliente, contexto, etc., mas tentava aproximar-se a essa ideia de ter um projecto total que se ia afinando até que as suas partes – formas, materiais, necessidades, etc. – se equilibrassem. Tentava ser a resolução de problemas, no sentido de um puzzle sistémico. Já não se faz muito.

No design, continua-se a falar de “resolver problemas”, é difícil mudar de chavões, mas agora isso quer dizer sobretudo “apagar fogos”. Resolvem-se as coisas não com um sentido de sistema, mas uma coisa de cada vez, à medida que surgem os imprevistos. Aliás, tem-se glamorizado cada vez mais o desenrascanço dentro do design, e são duas coisas que pouco têm que ver uma com a outra. Design é projectar, desenrascar não. É uma desistência, um vazio do design.

A confusão entre desenrascanço e design, com o primeiro a entranhar-se de tal maneira que já nem se vê o segundo, é uma consequência por um lado da informatização e por outro da institucionalização quase total de certos modos de “resolver” um trabalho – certos formatos. Neste momento, o design gráfico limita-se cada vez mais a resolver o problema de como dar um ar empresarial ou empreendedor a todo o tipo de coisas. Desde pessoas a causas sociais, tudo se resolve do mesmo modo. Por outro lado ainda, vem da precariedade da prática e do ensino do design, que fazem dele o exercício de um expediente que não termina, e que isola a maioria dos praticantes da possibilidade de participar sequer em decisões de outro modo que não seja ir passando o balde.

Daí que os encontros de design se pareçam cada vez mais com shows evangélicos, onde a sucessão mais banal de produtos, de soluções, de dicas de auto-ajuda, é debitada de auricular na orelha, humor desidratado e ambições de mudar o mundo, com soluções que tirando um pormenor olvidável qualquer se parecem com tudo o que foi apresentado antes e vai ser apresentado depois. O design tornou-se numa formalidade.

O ensino tem culpa porque tem insistido cada vez mais no “realismo”, na ideia de que a escola deve simular o mais possível o mercado de trabalho, que o aluno não fica bem preparado se, enquanto aprender, não estiver a ser confrontado com imprevistos, com mau equipamento, prazos irrealistas, exigências arbitrárias, etc. Por um lado, trata-se da pressão neoliberal para fazer da escola uma empresa, por outro trata-se de simplesmente ir lidando com todos os entraves a que o ensino vai sendo sujeito. Com cada vez mais alunos, menos professores, menos dinheiro e mais ambição nos objectivos, só por milagre é que o ensino não se ia tornar num longo exercício de desenrascanço organizado por especialidade e área científica.

O problema do “realismo” é platónico – ao fazer do ensino uma reprodução do “mundo real”, falsifica-o nesse preciso momento. Se o realismo é o objectivo, a cópia será vista sempre como algo de segunda. Pelo contrário, o ensino da Bauhaus não era particularmente realista, o que não significa que sacrificasse pragmatismo. Os alunos trabalhavam em oficinas não para aprender como se trabalhava numa fábrica mas para tentarem descobrir maneiras novas de usar materiais e maquinaria. Era um ensino abstracto na medida em tentava pensar em soluções sistémicas, abstractas, por oposição a simplesmente reproduzir o que se fazia lá fora no “mundo real”.

Filed under: Crítica

Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

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