The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Crítica também passa de moda

Fazendo as contas, concluo que leio mais livros do que imaginava. Dos que deixo a meio, sei a quantidade e que é maior. O mesmo das séries de televisão, um vício confinado desde que sou pai. Sei as que só vejo meio episódio e até gosto e depois paro. Escolher um livro ou uma série tornou-se uma disciplina rigorosa, necessária. Leio muita crítica, muitas recensões. Também aqui, na leitura de crítica, é preciso rigor. Não se pode ler toda a crítica, nem se pode assumir que toda a crítica é um guia de consumo.

Há dois clichés sobre crítica que não são verdade. Um deles é o da crítica como guia de consumo. A melhor crítica mostra-nos critérios, uma estética e uma determinada ética. O outro cliché é de que só se pode avaliar a qualidade de uma crítica confrontando-a com os objectos que critica. Não é de todo verdade. Consumindo muita crítica, não se chega a consumir nem uma ínfima parte do que é criticado, mas forma-se uma ideia das qualidades e defeitos do crítico, da sua escrita, dos seus critérios, dos seus preconceitos, da sua capacidade de exposição. Pode-se confrontar cada um dos textos sucessivos que o crítico escreve e pode-se pesá-los contra os textos de outro crítico.

Defender que só se pode apurar a qualidade de um crítico vendo o filme, lendo o livro ou ouvindo a música é um lugar-comum que, num sítio pequeno e com pouca crítica, protege acima de tudo o mau crítico, que dá uma estrela a objectos que não percebe e confia que nunca o terá que justificar porque serão raros os que vão ler o livro.

Neste momento, em Portugal, o crítico de que menos gosto é João Pedro Vala, no Observador. Ontem li a crítica que escreveu à tradução portuguesa de Go, Went, Gone livro de Jenny Erpenbeck. Vala é exímio a descrever com clareza e fluência a sua incapacidade para perceber um tipo muito específico de objecto que, infelizmente para ele, corresponde a muito do que se faz de interessante na literatura actual – aquilo que se designa por literatura politicamente correcta, coisas que envolvam identidade, direitos civis, refugiados. O livro de Erpenbeck é isso tudo, logo Vala não o percebe, tal como não percebeu o Se Esta Rua Falasse, de James Baldwin. Ninguém é obrigado a perceber, claro, e calculo que a perplexidade irritada de Vala represente a do público-alvo do Observador.

Mas compare-se o artigo de Vala com o de James Woods na New Yorker, um crítico que nem é dos meus favoritos embora não pelas mesmas razões que Vala. Ou a crítica que lhe fizeram no New York Times. Dão-se ao trabalho de não ver apenas um mosaico de clichés panfletários, o caso do crítico do Observador, que gasta a sua crítica a ensaiar o encaixe do livro nas fórmulas que conhece e espera, mas de perceber que as aparentes fórmulas se organizam, são narrativa, são literatura, e fazem-no de um modo delicado e complexo. Percebe-se por um lado que o que impede Vala de perceber o livro tem que ver com a sua mundividência, do que sabe sobre refugiados, de política, etc. mas sobretudo do que sabe sobre literatura, da compartimentação que faz entre literatura e política, ignorando que os clássicos, o cânone só não são obviamente políticos para nós, porque a sua actualidade não é a nossa.

Não queria escrever tanto e agora isto precisa de uma conclusão. Aqui vai: a crítica também é um género literário e tem os seus ciclos as suas modas. A crítica que não sabe lidar com o politicamente correcto, com a política, com a sociedade, não interessa muito neste momento.

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Os livros do Jan Tschichold, sobretudo os que escreveu, são objectos inacreditáveis. A mancha de texto, a sua relação com a página, a articulação tonal entre as fontes, o uso da cor, o papel – é tudo incrível. Folhear Die Neue Typographie, de 1928, ou o Typografische Gestaltung, de 1935, são como ver um atleta olímpico a nadar, um corredor de Fórmula 1 a conduzir, sobretudo quando se sabe o suficiente para pressentir a impossibilidade do que vemos, o atrito entre aquilo e o que se vai vendo e o que se vai fazendo, o design do dia-a-dia.

Tschichold é um dos designers mais influentes – o que é curioso, porque destrói por completo quem tenta segui-lo. Tudo o que disse e escreveu sobre design é uma espécie de gigantesca armadilha. Deixou centenas de receitas, esquemas, preceitos, mezinhas, dicas e moralidades. Seguidas à risca, não dão em nada. Não há nada que fique sequer perto.

A maneira de apreciar Tschichold é ficar embasbacado com o seu design e tratar a sua escrita como uma coisa boa para pôr os alunos a fazer exercícios. Depressa perceberão que seguindo a receita não se chega a nada de interesse.

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Coisas Graves

Um engano é uma coisa. O engano torna-se numa mentira quando, depois de apontado, é mantido. Pelo que percebo, é comum nos jornais portugueses fazer-se isso: publicar-se um erro e insistir-se nele, promovendo-o assim a mentira. É um hábito cobarde que assenta na confiança do público, traindo-a. Chateia ver isso à direita, chateia ver isso no Trump, mas chateia bem mais ver isso à esquerda.
Boaventura Sousa Santos publicou um artigo de opinião sobre a Venezuela com erros factuais graves, que qualquer pessoa pode verificar. Descreve Juan Guaidó como sendo «membro de um pequeno partido de extrema-direita, Voluntad Popular». Ora, esse partido está filiado na mesma Internacional Socialista que o Partido Socialista português. Diz também que Henrique Capriles, o mais conhecido líder da oposição venezuelana, afirmou que o «Presidente-fantoche Juan Guaidó está a fazer dos venezuelanos “carne para canhão”». Na conta de Twitter e no site de Capriles, a história é diferente – título de um dos posts: «Maduro: ¡reconoce a Guaidó!»
Se é um engano é grave, se é deliberado, a desinformação é grotesca.

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Design, Identidades

Quando comecei a escrever sobre design, fui-me apercebendo cada vez mais de duas coisas. Um, ao contrário do que muita gente pensa, o design é em grande medida uma actividade triste e precária, mal paga para a maioria dos que a praticam, muito lucrativa para uns poucos. É um mundo de estagiários, funcionários e patrões, e de grandes desigualdades. O design apesar dos macs, dos óculos de massa, das revistas reluzentes, das conferências histéricas de optimismo, tinha o mesmo esqueleto, os mesmos músculos, da exploração capitalista. Havia capitalistas e havia proletários. Dois, boa sorte a quem queira convencer um estudante de design, estagiário, funcionário, que é um proletário. Todos eles pensam que vão ser alegres profissionais liberais, empreendedores que enfrentam os problemas naturais dos primeiros anos a caminho do sucesso. Seria tão fácil resolver muitos dos problemas que afligem os designers reconhecendo simplesmente que são problemas laborais, iguaizinhos aos dos arquitectos, condutores da Uber, etc. Mas é difícil convencer os designers que merecem respeito, pagamento e direitos porque trabalham e não apenas porque o design é uma tarefa muito importante.

O que quero dizer com isto é que, de acordo com o marxismo, uma maneira eficaz de criar uma sociedade mais justa passa por convencer todo o tipo de trabalhadores que, apesar de todas as diferenças das suas profissões, têm uma coisa em comum: são trabalhadores. Porém, a dificuldade que descrevo acima em relação aos designers é a mesma dificuldade que aflige o marxismo. No fundo, trata-se de convencer um monte de gente que têm a identidade comum de um trabalhador. É em parte isso que significa a foice e o martelo, os trabalhadores do campo e os trabalhadores da cidade, todos os trabalhadores. Mas é bastante difícil a um designer rever-se num martelo. É preciso bastante esforço de imaginação. Quando muito funciona como uma metáfora.

Assim, quando ouço gente a dizer que o marxismo e as políticas de identidade estão em pólos opostos, aquilo que penso é que o marxismo assenta numa política de identidade, a ideia que uma série de tarefas podem ser descritas enquanto trabalho, e certas pessoas enquanto proletariado. Mas é só uma identidade, um meio de conseguir que as pessoas se unam em nome de uma causa maior. Juntar a essa identidade outras identidades oprimidas só junta mais gente, não diminui, não fragmenta. Não é uma distracção.

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Comédias

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Soube da maneira como essas coisas se sabem, pelo instagram, que a tradução do primeiro livro do George Saunders é do Rogério Casanova. Tem graça porque andava por estes dias a pensar nos dois, em Saunders e Casanova. Pensava eu que Casanova é um dos melhores representantes do ensaio humorístico português. Que não é só um género mas também um estilo, uma escola, a que pertencem também Ricardo Araújo Pereira ou João Sesinando. É um humor absurdista, cuja matéria-prima é a linguagem e os costumes – no fundo, os formalismos. Sejam os que se dizem, os que se escrevem ou os que se fazem. Lembra-me sempre aquilo que se designa por «humor inglês», que se caracteriza por uma sucessão rítmica, muito rápida, de absurdos, de reviravoltas, de surpresas, até se chegar ao fim do espaço ou da paciência disponível. Casanova é bom porque se dá ao trabalho de ir construindo ao longo do seu texto um fim decente, que tenta transcender ou pelo menos justificar a torrente de piadas. Pensava eu em Casanova e Saunders porque dei conta que sentia a falta de alguém que fizesse humor como Saunders, ou como Denis Johnson, um humor menos inglês (menos português) e mais americano, menos assente no sentido de humor evidente da voz que nos guia, da sua auto-consciência irónica, das suas piadas que o colocam acima da situação mesmo quando esta lhe leva a melhor, mais seco, mais ambiental, e mais assente na construção de um personagem que é ele mesmo uma situação, um problema, e ao mesmo tempo nem pior nem melhor do que nós. Não é um guia, não é um comentador, não é alguém que nos tenta convencer a segui-lo com a sua arenga de humorista, mas alguém que se segue, como se segue um acidente em curso, uma desgraça prestes a acontecer, alguém que faz coisas a mais, que leva demasiadas coisas em equilíbrio. É como um comédia muda mas na alma.

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Paint It Black

Achei penosa a exposição do Pedro Costa em Serralves. Os seus filmes são coisas que me ficam. Uso o termo «coisas» com deliberação, porque demoram a pensar ou a digerir ou a passar pela memória. Nem sei se são coisas que se apreciam ou se gostam. Sei, porque vou lendo sobre isso, que os acompanham uma série de referências, os filmes favoritos de Costa, as fotos de Nozolino, de Jacob Riis. Ver essas referências ali pareceu-me pouco, não sei se redundante, se condescendente, se pretensioso, se simplesmente falhado. Achei penosa a fiada de televisões a desfiarem momentos de filmes favoritos que seriam os favoritos de qualquer outro frequentador da cinemateca. Achei descuidadas e adolescentes as colagens de fotos nas paredes. Não aguentavam a escala de tudo o resto. Um pequeno desenho junto a uma janela fez-me olhar com atenção para uma planta das saídas de emergência que com ele concorria do outro lado. Os melhores momentos eram os de maior escala, os que eram mais obviamente variações do gigantismo obscuro das salas de cinema. Mas a impressão com que fiquei daquele labirinto foi a de um adolescente, de um Adrian Mole, que pintou todo o seu quarto de preto.

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Anedotas

É mesmo fantástico que a direita do Observador se chateie com o Mamadou Ba por ter dito «bosta de bófia». Dizem que foi incendiário e ofensivo. Tem piada, porque deve ser humor. O mesmo Observador que se está sempre a queixar de que já não se pode dizer nada, que é a ditadura do politicamente correcto. Se for um comediante a fazer piadas de pretos, fixe. Se for um jornalista a dizer que não há problema nenhum em chamar cigano a um ladrão, porreiro. Se for um historiador a garantir que a culpa da escravatura é dos africanos, óptimo. É o direito de ofender, é a liberdade de expressão. Tudo isto e muito mais nunca chega a ser racismo para os Observadores. Racismo é ter a lata de soltar um «bosta de bófia» depois de uma vida toda a aguentar tratamento abusivo por parte da polícia – amplamente documentado. Adoraria ver idiotas como José Manuel Fernandes, que estão sempre a ver gulags e Estalines quando se lhes aponta qualquer coisinha, a viver nas mesmas condições que os habitantes do Bairro da Jamaica, que estão condenados a ser presos, interrogados, interpelados na rua, simplesmente pela cor da pele e pelo sítio onde vivem. A vida deles não é um hipotético 1984 que há-de chegar se alguém criticar uma piada sobre gajas, é um 1984 já aqui, agora mesmo. E sim, é racista apontar o dedo a um afrodescendente quando desabafava um «bosta de bófia» em relação a isto tudo, enquanto se acha uma vitória da liberdade de expressão continuar a dizer «piadas de pretos.»

(Republico do meu facebook)

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Destaque

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Artigo no suplemento P2 do Público do Guilherme Sousa, uma das novas vozes mais interessantes da escrita sobre design em Portugal.

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Depois de almoço

Terminei as avaliações tarde, já perto das duas, meio tonto de fome, almocei no primeiro sítio, a primeira coisa. A partir daí, sei o que costuma acontecer. Desço a Passos Manuel em direcção aos Aliados, parando na Fnac para ver os livros. Na secção de História, uma adolescente repetia que até lia um do Hitler, se lho dessem, que lia o Máine Kemf. Um colega disse que tinha. Ela pergunta se vale a pena, porque não ia gastar 26 euros numa coisa que não valesse a pena. Vou à secção de design, que nunca tem nada de novo. Se não fosse o chilrear da jovem, que repetia tantas vezes «Hitler» como um aspirante à direcção do PSD diz «Sá Carneiro», não teria dado conta que havia. Aliás, já lá estava da última vez que lá fui, umas semanas atrás. Na altura, olhei mas não percebi. Só o esforço para filtrar os «Hitlers» ambientes é que me levou a olhar duas vezes para um pequeno livro amarelo que dizia «Dorindo Carvalho». Abrindo-o percebi que se tratava de uma remodelação da Colecção D, de Jorge Silva, e o meu coração descaiu um bocadinho. Eu gostava da Colecção D. Eram livros pequenos, quadrados e atraentes, cada um sobre o seu designer ou estúdio de design. Instalavam-se de um maneira elegante, bem produzida, numa posição escorregadia. Toda a gente acha bem que se façam recolhas dos trabalhos de designers portugueses. Não parece má ideia. O problema é que pouca gente as compra. Para o seu maior público, os estudantes, são caras. Como fonte de pesquisa, o google é mais barato e funciona na maioria dos casos. Para os designers e académicos veteranos que se interessem por história, funcionam como uma lista de compras. Servem para perceber o que se tem e o que não se tem na colecção. Não sei se haverá outro público. Jorge Silva resolvia o problema praticando a história como se fosse uma espécie de direcção de arte.  Fazia com os trabalhos das sumidades do design aquilo que ele sabia fazer com os ilustradores de suplementos como o Mil Folhas, do Público. Recolhendo, tratando, organizando as imagens, não se limitava a um catálogo neutro mas imprimia o seu gosto e a sua visão ao trabalho. Era uma história feita em parte com as ferramentas metodológicas do design prático. E funcionava. Era interessante ver obras organizadas pelo olho de um designer experiente. Folheando este Dorindo Carvalho só conseguia pensar que deve ter terminado o dinheiro ou que o projecto se cansou. Aumentou-se a escala das páginas mas as reproduções pareciam menos nítidas. Mesmo a vaga diferença de tom entre o branco das ilustrações e o das páginas me pareceu inconsequente. Tudo aquilo era bidimensional. Senti falta das fotos de objectos que davam peso e contexto nos volumes anteriores da colecção. Quando entro assim na Fnac, cansado e depois de avaliações, tendo a sair com dois ou três livros. Mais tarde, custa-me a perceber e até a tolerar a sua presença nas minhas prateleiras. Desta vez, saí sem nada.

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Sifting The Trash · A History of Design Criticism

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Saiu em 2017 e chegou-me no começo de 2019. Adiei-o este tempo todo por causa do título e do resumo dado no bookdepository. Desagradava-me a ideia do crítico como alguém que tenta descobrir coisas interessantes no meio do lixo. Parecia elitista. Mandei-o vir porque dizia ser uma história da crítica de design, mesmo que centrada apenas no design de produto. Felizmente que o fiz. O resumo não mente mas dá uma imagem severamente amputada do livro.

Não é uma história completa da crítica de design, porque trata apenas da segunda metade do século XX. O seu âmbito é limitado ao Reino Unido e aos Estados Unidos. Não é uma história contínua mas em cinco momentos. O primeiro, «A Throw-Away Esthetic» (1955-1961), descreve o trabalho de críticos como Deborah Allen, Richard Hamilton, Reyner Banham. O segundo cobre os protestos na conferência de Design de Aspen 1970 (1970-1971), onde reencontramos Banham, que no primeiro capítulo defendia uma estética Pop, de use e deite fora, a enfrentar um modo completamente distinto, político e ecológico, de pensar o design. É destas tensões que vem o trash do título. O terceiro trata da crítica e comissariado de Design no Reino Unido entre 1983 e 1989, um período de expansão subsidiado pelas políticas de estímulo ao empreendorismo neoliberal de Thatcher, cobrindo o trabalho de Deyan Sudjic, Peter York, Stephan Bailey, mais apolítico e celebratório e a crítica contrária e politizada de Dick Hebdige e Judith Williamson.  Aqui cobre-se realmente o crítico como elitista que resgata preciosidades no meio do lixo. No quarto (1998-2001), cobre-se o critical design e no último os blogues na sua época de ouro (2003-2007).

A cronologia é esburacada porque Alice Twemlow prefere (e bem) centrar-se em case studies que podem ser desbastados em profundidade, cobrindo contextos, sociais, geográficos, biográficos, políticos e, sobretudo, sobretudo, pontos de vista distintos e antagónicos. Este é o livro que quase me pôs em paz com o que se vai escrevendo sobre design que, francamente, não tem sido muito interessante.

Sobretudo aqui em Portugal, onde no discurso crítico ainda impera um unanimismo de opinião, de estilo e formato de escrita. Emperrou-se em meia dúzia de lugares comuns: a promoção e defesa do design, a transmissão da «história», entendida como fazer finalmente mais outro livro sobre outro «designer» esquecido, ou como a obsessão hipertrofiada pelo artesanato vintage que são as velhas tipografias ou editoras. O que fica de fora? Quase tudo: a discussão, concepções distintas, paralelas ou antagónicas do que é o design, o que se diz sobre isso e onde, etc. etc. etc.

O livro de Twemlow dá uma ideia do design como uma arena de pensamento vibrante onde uma nova ideia de pensar o design é tão mais interessante e polémica do que as discussões sobre comic sans ou da condenação da modinha e do trendy. Foi a última coisa que li sobre design que não pousei até acabar.

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Vergonha

Dizem-se coisas para calar, o que não é contradição nenhuma, apenas uma forma leve, passiva-agressiva de autoritarismo. Por exemplo, está-se realmente à espera de uma resposta quando se pergunta a Mariana Mortágua porque acha mal a ida de Mário Machado à TVI quando o seu próprio pai «é um terrorista»? Ou o objectivo é apenas confundir, colocando no mesmo plano coisas que só dificilmente se podem comparar. Como muita gente disse, Camilo Mortágua praticou a luta armada como forma de resistência a uma ditadura. Lutou pela liberdade. Machado luta contra uma democracia, luta contra a humanidade de minorias.

Mas se calhar pode-se ir mais longe. Tenho um livro grande velho, daqueles que faz espirrar quando se abre. Comemora a resistência belga durante a segunda grande guerra. No final tem dezenas de páginas em três colunas, letra miúda como a de uma lista telefónica. São mortos. Muitos em acções de combate contra os nazis. Será que esses podiam ir à TVI? Iria aparecer alguém a condenar a ida de terroristas ao Goucha?

O objectivo é mesmo só calar mas por trás disso, ou bem à frente, há uma indiferença à democracia, uma indiferença literal, que não a consegue distinguir de uma ditadura. É um caso leve, sonso, chico-esperto, de Salazarismo. Se realmente apreciam a liberdade de expressão, o direito a ofender, espero que sim, que se sintam ofendidos, se possível envergonhados, com isto.

Se não sentem, paciência. Subtraindo matematicamente a uma democracia o que havia durante o Salazarismo, uma das coisas com que se fica é uma liberdadezinha. A de vos mandar foder, claro.

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Sobre Palavras

Uma das séries de televisão mais interessantes do ano que passou é The Deuce, dos mesmos criadores de The Wire. É uma história à volta de Times Square da década de 70, de chulos, de prostitutas, de donos de bares, de mafiosos, de realizadores de cinema porno, de políticos. No tabuleiro de Nova Iorque, trata dos percursos paralelos, concorrentes, da prostituição, da pornografia e da gentrificação. Não é tão épica e teatral, mas lembra-me Deadwood, que tratava de temas semelhantes no Velho Oeste. Tal como The Wire, são obras que conseguem revelar nas trajectórias dos personagens dinâmicas sociais maiores, a tensão entre as preocupações quotidianas de um dono de bar, navegando à vista entre as pressões dos seus patrões da Máfia, que tentam organizar e massificar tanto a prostituição como o cinema porno e as pressões da administração municipal, com um plano a longo prazo para limpar a cidade através da gentrificação. É fascinante.

Um dos fios narrativos tem que ver com a homossexualidade, algo secreto porque ilegal na época. Num dos episódios, um personagem no armário, casado com filhos, é «engatado» por um homem de negócios em visita, recorrendo a uma linguagem de código. É uma janela breve para um mundo paralelo que em grande medida se perdeu. Em Inglaterra, por exemplo, havia uma linguagem inteira, que permitia a homossexuais comunicarem em público sem que se percebesse. O risco que corriam era serem presos, internados, sujeitos a terapia hormonal forçada.

Não havia falta de palavras sobre a homossexualidade. Não era uma questão de silêncio. Estou a ler neste momento uma reedição de Terry and Pirates, uma banda desenhada de aventuras para rapazes, do fim da década de 1930, e a cada página surge alguém a dizer que não é um «sissy», ou coisas semelhantes. Apanha-se o mesmo em outras tantas tiras, como Gasoline Alley, que também leio neste momento. Do discurso legal e médico da época, também se podem ver muitos exemplos, a descrever essa «perversão» como um «desvio», uma «doença», uma «inversão», etc. As únicas palavras secretas, o único silêncio, era o dos próprios homossexuais, obrigados a criar e manter uma identidades escondidas, paralelas.

A propósito da ida de Mário Machado à tv reiterou-se de novo a distinção entre palavras e violência. Se o discurso de ódio se limitar às palavras, tudo bem. O problema é quando se bate em pessoas, quando se mata, quando se deporta. Mas a verdade é que essa distinção me parece cada vez mais artificial, uma conveniência de quem não é sujeito às palavras, ao discurso, como uma forma de violência constante. Fazê-la é um indício do que se chama agora privilégio.

As palavras moem e matam.

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Glitch

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É real, fica na Turquia. É um empreendimento de luxo que encravou. 732 casas que parecem um glitch de cad que transbordou, derramando-se no mundo real. O estranho é achar-se que esta alucinação só falhou porque o dinheiro acabou.
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Falta de civismo

O que faltou nesta discussão sobre Mário Machado foi civismo. Também faltou ética. Não estou a dizer que a discussão foi mal educada ou desleal, significados habituais dessas expressões. Estou a dizer que o Civismo, crucial numa sociedade liberal, foi secundarizado ao ponto da total irrelevância.
 
Neste contexto, defino civismo como a ética colectiva de uma sociedade, que não é fixada por leis mas por decisões éticas individuais ou colectivas. O civismo determina as nossas atitudes perante o que é comum. Na sua origem, o termo denota a capacidade de sacrifício em prol dos concidadãos.
 
Parece-me interessante mas muito preocupante que a discussão em torno de Mário Machado, do racismo, do sexismo, da homofobia, do chamado politicamente correcto em geral, se centre no plano da lei, ou seja na intervenção do Estado, e que portanto se insiste em temas como a censura ou totalitarismo. Essa insistência na intervenção do Estado demonstra uma desconfiança, uma descrença quase completa na ideia de civismo.
 
Pouca gente coloca a discussão nesses termos. Lembro-me de Miguel Esteves Cardoso o fazer, quando defendeu o politicamente correcto como uma forma de boa educação. Ontem, Vasco M. Barreto fê-lo também no Público.
 
Pelo contrário, enquanto se debateu a ida de Mário Machado à televisão, a discussão resvalou quase sempre para o plano legal, se era proibido pela Constituição portuguesa, ou se era legítimo defender que não fosse, porque atentava à liberdade de expressão. Quando se saía desse plano, a argumentação tornava-se vaga. Perguntava-se se era realmente interessante ouvir Mário Machado, se tinha algo de novo para dizer. O problema era colocado como uma questão estética, de gosto, ou talvez até de consumo: como espectador, não me interessa ouvir pessoas como Mário Machado nos meios de comunicação.
 
É natural que se assuma essa postura dentro de um esquema liberal: por um lado, acredita-se que o Estado não deve censurar todo o tipo discursos, e perante um problema destes, a atitude do liberal, que acredita na troca de opiniões como um mercado de livre troca de ideias, é a de um consumidor, que apoia ou rejeita noções como se estivesse a avaliar a qualidade de um estabelecimento comercial.
 
Mas fica a faltar a dimensão do interesse social, do interesse colectivo, público, o civismo.

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Histórias dos Designs

Sempre que posso leio história da arquitectura. Com os anos, a arquitectura e o design tornaram-se aquelas vilas ou aldeias próximas, onde se desenvolveram rivalidades tradicionais que não se percebem muito bem a quem as vê de fora. Em tempos, a arquitectura já foi a peça central, primordial, da ideia moderna de uma cultura universal de projecto a que se chamou «design». Agora, são tradições distintas – o que é uma afirmação carregada. O design moderno foi concebido em grande medida para substituir processos tradicionais de produção. Decisões que eram ensinadas enquanto tradição, rituais até, – cortar uma peça de roupa, compor uma página, construir uma habitação – passaram a ser vistas como problemas a resolver de maneiras sempre novas.¹ Pelo menos assim foi durante a época moderna, heróica, do design. Entretanto, voltou-se em força à tradição no design. O principal problema passou a ser encaixar o que lhe ia aparecendo dentro dos formatos tradicionais.

O mesmo se passa com a própria história do design que, na sua vertente mais comum e mais básica, se dedica a identificar a presença ou não de design em tudo onde põe os olhos. É uma história estilo Flintstones ou Asterix onde se projecta as características do nosso próprio tempo sobre o passado – aquela distorção a que os historiadores chamam presentismo. O exemplo mais caricato é talvez a «recuperação» da tradição tipográfica enquanto exemplo de design, quando o objectivo foi durante muito tempo discipliná-la e geri-la de acordo com métodos modernos de projecto.

As histórias da arquitectura mostram-nos uma cultura muito próxima, um espelho cuja distorção é a sua própria identidade. Olhar para o design reflectido nas histórias da arquitectura permite-nos adivinhar o que falta, aquilo que não se vê porque está disfarçado pelo mito, pela tradição.

Uma das diferenças é o modo como se faz a história. Lendo Kenneth Frampton, por exemplo, percebe-se logo desde o começo que a história da arquitectura não é só a história de edifícios e dos seus arquitectos, mas realmente a história da Arquitectura, que é como quem diz a história de como o conceito mudou, dos modos distintos de o definir. Em muitas das histórias do design gráfico, o modo dominante são as cronologias de objectos e praticantes. Em geral, o design é tido como uma constante, ou então uma ideia que se vai refinando com o tempo, progredindo em direcção ao futuro.

Polémicas entre concepções radicalmente distintas do que deve ser o design tendem a ser «alisadas» de modo a não estragar a progressão linear da história. O chamado design pós-moderno dos anos 70, 80 é vulgarmente reduzido a uma esquisitice passageira – o «cult of the ugly», as «style» ou «legibility wars». Na verdade, foi um fenómeno complexo com efeitos duradouros que propôs novas identidades para o designer, modos novos de exercer o design, etc.

A história popular, «oral», do design, cuja principal função se reduziu a transmitir uma certa tradição do que deve ser o design, tem propósitos utilitários e muito limitados – promover certos modos de fazer e de falar sobre eles. Reduziu-se com efeito a uma mitologia,² uma estória que encadeia e integra tudo o que dá jeito integrar, resolvendo de modo narrativo as contradições que não lhe dá jeito eliminar de todo.

1- Ver The Philosophy of Design, de Glenn Parsons.

2- Uso o termo na acepção que lhe deu Roland Barthes.

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10 Anos

Vai fazer dez anos que saiu o Design em Tempos de Crise. Foi aqui no Porto no dia mais frio do ano. Nevou com abundância. O lançamento foi no Passos Manuel. A primeira edição, que tinha uma borda vermelha e moedas entre as páginas, esgotou em menos de um mês. A segunda, borda verde-azul, notas de banco entre as páginas, poucos meses depois.

Dez anos depois, a crítica de design em Portugal continua miserável, à beira da extinção. Nunca se escreveu tanto sobre design mas o que aparece é absorvido pelo meio fechado da academia e ali desaparece, sem nenhuma divulgação. Ao contrário da Arte ou até do cinema que têm sabido criar projectos de crítica, escrevendo de propósito ou absorvendo produção académica, o design pouco ou nada consegue produzir de comentário.

As revistas que havia, como a Pli, acabaram. A Modes of Criticism é um exemplo solitário, embora o seu âmbito seja mais internacional e cosmopolita do que local.

Os que faziam crítica há dez anos dedicam-se ao comissariado, acompanhando uma tendência geral. Fazem-se exposições onde antes se escrevia. Alguns espaços nos jornais, mais de divulgação que de crítica, como o de Guta Moura Guedes no Expresso, funcionam num modelo de comissariado, apresentando uma selecção comentada de objectos, quase uma pequena exposição.

A maioria da pouca crítica feita nos jornais a objectos de e sobre design acompanha também a tendência geral para ser produzida por gente que também escreve sobre mais assuntos. Não é muito diferente da crítica de música, de cinema, de literatura ou até de arte. Em geral, não deixa as coisas em pior estado do que já estão. Em outros, consegue acumular todos os piores defeitos da crítica e jornalismo actuais (conservadorismo de conteúdo, desactualização da forma, metodologias obsoletas, desprezo pelo rigor, uso ostensivo da crítica como arma de arremesso ou de silenciamento) e junta a isso todos os defeitos do discurso menos interessante e actualizado sobre design (abordagens biográficas sobre os heróis aceites da disciplina, salganhadas mal misturadas de cocabichices vindas daquela área turva que se confunde com a história do livro, a edição, da tipografia, da arquitectura, etc. mas não chega bem a ser.)

Como dizia mais atrás, o problema não é falta de gente a escrever bem e de modo inovador sobre design. Há muito boas teses e dissertações mas não saem da escola. As que saem para o mundo exterior, através de editoras generalistas, não são as mais arriscadas ou interessantes. São mais confirmações do que já se sabe do que investidas em territórios ou métodos novos. É sintomático que a parte mais interessante destes objectos acabe quase sempre por ser a dos dados em bruto, a das entrevistas por tratar, mais do que a argumentação construída a partir dessa matéria-prima. Ilustra a falta de inovação ou mesmo de pertinência teórica.

Culpo, por um lado, a maneira artesanal e ingénua como se pratica a história do design. O design tem os seus formatos favoritos de tratar a história, tradicionalizados pela repetição, porque dão jeito, porque são fáceis – entre eles o portfolio, o manual, a cronologia, a monografia biográfica. São formatos semelhantes aos usados para promover o design e os designers, adaptados para outros fins. Por outro, culpo a massificação da investigação de Bolonha, que reduziu a metodologia a uma formatação genérica e apressada. Disciplinas mais consolidadas que o design sobrevivem mal – mas ainda assim melhor. O design limitou-se a exportar os seus maus hábitos para um contexto novo.

A melhor tese de doutoramento que li nos últimos dez anos foi a do António Gomes sobre Paulo de Cantos. Ponho a do Victor Almeida, da Fbaul, em segundo. A única separação que as hierarquiza é pessoal e estética. Tem que ver com os meus próprios gostos em termos teóricos. Num meio como o design onde se usa a biografia por defeito, no seu grau mais básico, fácil e acrítico, a tese de Gomes é exemplar. Evita os problemas do costume. Não parte do designer, de uma pessoa eleita como representante heróico da disciplina, como um ponto de apoio mágico para explicar tudo, mas tenta perceber uma vida e uma obra tal como determinadas por um conjunto complexo de contextos históricos, institucionais, etc.

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Contra a barra de progresso

Tinha uma professora que me dizia que, quando se escrevia uma crítica, se devia dizer quem era o artista, qual o contexto e não me lembro de mais nada. Tentei nunca seguir essa ou outras «listas de compras». Tenho tiques de estrutura a escrever, claro, que preferia não ter. Sempre que possível, tento identificá-los e eliminá-los. É difícil. Mas prefiro esses clichés inadvertidos aos que se praticam de propósito, que se ensinam como se fossem coisas sérias.

Fico com uma boa dose de inveja de The Earth Dies Streaming, porque é bem escrito, porque cada recensão, das pequenas às maiores, é sumarenta e vibrante. Antes de ler não se sabe onde o crítico quer chegar, nem como vai lá chegar. Usa referências teóricas e sabe a sua história mas não as emprega por norma, apenas quando fazem sentido, quando são necessárias. A História do Cinema é tão depressa invocada ou descartada como um sonho, como a descrição de uma sessão de cinema, como uma anedota pessoal ou um mito. É uma escrita frondosa mas económica, onde mesmo meia dúzia de linhas dizem muito mais do que seria razoável esperar de tão pouca coisa.

Por comparação, a maioria da crítica lê-se como um formulário preenchido, que tem sempre a mesma duração, a mesma estrutura, as mesmas intenções ou os mesmos critérios.

The Ballad of Buster Scruggs, o último filme dos irmãos Cohen, lembrou-me até que ponto ando viciado em barras de progresso, um hábito derivado de assistir a filmes no computador. Saber quanto falta para terminar é um grau zero de spoiler, é algo que nos sossega um pouco, talvez demais. Um volte-face a uma hora do fim dificilmente será definitivo. A barra de progresso é um indicador da nossa falta de tempo, do nosso tempo formatado, e aparece em todo o lado. Um romance lido no kindle tem a sua barra de progresso, um ensaio no medium anuncia-nos o tempo estimado de leitura. A Balada de Buster Scruggs, usando o formato velhinho da antologia temática de pequenas narrativas, baralha-nos as expectativas. Sabe-se que as histórias vão terminar mal, mas nunca se sabe como ou quando se vai chegar ao triste fim. Fantasiei até que seria interessante rodear um filme de pseudo-imagens, de outros filmes, de modo que o espectador nem avançando com o rato sobre a barra de progresso soubesse o que vinha para a frente ou quando o filme terminava. Havia uma estratégia semelhante quando se importavam livros proibidos durante o período da inquisição em Portugal. Disfarçava-se uma obra, compondo-a dentro de outra, com uma falsa introdução e conclusão.

A crítica de Hamrah com as suas oscilações de formato, de temática e de método tem o efeito semelhante de apanhar o leitor desprevenido, de não lhe dar uma lista de compras. É o tipo de escrita que só muito dificilmente será plagiada num trabalho de escola, porque não responde a perguntas concretas, não dá estrelinhas, tem a sua própria agenda a cumprir. Vale a pena segui-la nos seus próprios termos.

Fico com uma boa dose de inveja de The Earth Dies Streaming, porque é bem escrito, porque cada recensão, das pequenas às maiores, é sumarenta e vibrante. Antes de ler não sabe onde o crítico quer chegar, nem como vai lá chegar. Usa referências teóricas e sabe a sua história mas não as emprega por norma, mas apenas quando fazem sentido, quando são necessárias. A História do Cinema é tão depressa invocada ou descartada como um sonho, como a descrição de uma sessão de cinema, como uma anedota pessoal ou um mito. É uma escrita frondosa mas económica, onde mesmo meia dúzia de linha dizem muito mais do que seria razoável esperar de tão pouca coisa.

Por comparação, a maioria da crítica lê-se como um formulário preenchido, que tem sempre a mesma duração, a mesma estrutura, as mesmas intenções ou os mesmos critérios.

The Ballad of Buster Scruggs, o último filme dos irmãos Cohen, lembrou-me até que ponto ando viciado em barras de progresso, um hábito derivado de assistir a filmes no computador. Saber quanto falta para terminar, é um grau zero de spoiler é algo que nos sossega um pouco, talvez demais. Um volte-face a uma hora do fim dificilmente será definitivo. A barra de progresso é um indicador da nossa falta de tempo, do nosso tempo formatado, e aparece em todo o lado. Um romance lido no kindle tem a sua barra de progresso, um ensaio no medium anuncia-nos o tempo estimado de leitura. A Balada de Buster Scruggs, usando o formato velhinho da antologia temática de pequenas narrativas, baralha-nos as expectativas. Sabe-se que as histórias vão terminar mal, mas nunca se sabe como ou quando se vai chegar ao triste fim. Fantasiei até que seria interessante rodear um filme de pseudo-imagens, de outros filmes, de modo que o espectador nem avançando com o rato sobre a barra de progresso soubesse o que vinha para a frente ou quando o filme terminava. Havia uma estratégia semelhante quando se importavam livros proibidos durante o período da inquisição em Portugal. Disfarçava-se uma obra, compondo-a dentro de outra, com uma falsa introdução e conclusão.

A crítica de Hamrah com as suas oscilações de formato, de temática e de método tem o efeito semelhante de apanhar o leitor desprevenido, de não lhe dar uma lista de compras. É o tipo de escrita que só muito dificilmente será plagiada num trabalho de escola, porque não responde a perguntas concretas, não dá estrelinhas, tem a sua própria agenda a cumprir. Vale a pena segui-la nos seus próprios termos.

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Espectador de alta competição

A melhor peça de crítica de arte que li em 2018 escreveu-a Zadie Smith. Apareceu-me na sua última colectânea de ensaios, Feel Free. Eu já suspeitava que dali, daquele livro, ia sair coisa boa. Reservei-o na loja apple muito antes de sair e vou-o lendo aos pedacinhos. E um dos melhores pedacinhos é «Killing Orson Welles at Midnight», que não sei se é crítica de arte, não sei se é crítica de cinema, só sei que é muito bom.

Eu sou suspeito, sou fã dos ensaios de Smith, pelo menos desde da sua anterior antologia, que me cativou logo desde o título, tão bom, tão feito à medida do que são os melhores entre os melhores ensaios, «Changing My Mind», que se poderia traduzir por mudar de ideias. Os melhores ensaístas não mudam as ideias de quem os lê, mudam publicamente as suas próprias. Lê-los é como ver um nadador de alta competição a fazer alongamentos, a aquecer, a tentar uma coisa nova num treino.

«Killing Orson Welles at Midnight» é sobre a obra The Clock, de Christian Marclay, um filme de vinte e quatro horas onde cada minuto é construído a partir de referências a esse mesmo minuto em todo o tipo de filmes. Smith dedica-lhe um exercício cada vez mais raro nos tempo que correm que é o de simplesmente ser uma espectadora. É um exercício feito na primeira pessoa, como só poderia ser. Que envolve encaixar o filme dentro da sua própria vida, dos seus horários, das idas à creche – aqui em Portugal, onde a pior crítica mascara a sua mediocridade e mediania com tiques neutros, académicos e funcionários, há quem ache ensaios deste tipo como um exercício de vaidade.

Ser espectador a sério é uma experiência que se faz com o corpo todo, com a vida toda. Era algo que sabiam críticos e ensaístas seminais como Diderot ou o seu melhor descendente, Baudelaire. Não teriam futuro ou emprego dentro da crítica portuguesa que emperrou com gosto num modo funcionário de viver, numa versão aguada, domesticada, do tipo de escrita que se praticava na October. Se não se usa o estilo, não se é levado a sério.
É um gosto ler este e outros ensaios de Zadie Smith. É como ouvir música nos anos oitenta, quando era preciso esperar que chegasse a Portugal numa longa cadeia de importação, quando desejar boa música ao vivo acontecia num vazio tão grande e escancarado que consumia a própria possibilidade de se fazer música, quando cada músico em Portugal era só um tipo de espectador mais impaciente e performativo.

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Brexit e Trump, Dois Pesos e Duas Medidas

Quando foi do referendo do Brexit, que aconteceu logo a seguir à crise europeia, confesso que não tinha (e ainda não tenho) grande fé na Europa. Num referendo semelhante, eu só votaria para ficar na Europa por medo do que nos poderia acontecer na economia, porque estar na Europa ainda era, e é, algo que mete medo. Agora, votaria com mais certeza para ficar mas continuaria a ser por medo. Já não da economia mas de outros sustos.

Daí que compreenda o que levou muita gente de esquerda a não gostar da Europa, inclusive o Corbyn ou o PCP por aqui. Não acho, como muita gente acha, que o voto no Brexit tenha sido só xenófobo mas houve muito voto anti-europeísta – coisas distintas, que era boa política saber distinguir. O que se percebeu com a discussão em torno do Brexit é que criticar a Europa tornou-se para muita gente de esquerda inaceitável.

Curiosamente, as mesmas pessoas que dizem que votar contra a Europa é xenófobo já dizem que votar em Trump é um voto motivado por questões laborais e ansiedades económicas, e que devíamos esquecer o racismo e a xenofobia (em nome de ganhar eleições). Acho que há muito má consciência, muita hipocrisia e tacticismo de meia-tigela à esquerda.

O meu ponto é que houve um duplo standard na reacção de certa esquerda ao Trump e ao Brexit. As mesmas pessoas que assumiram desde logo e sem mais a xenofobia do voto no Brexit já estavam pouco tempo depois a dizer que se devia perceber «as verdadeiras motivações» de quem votou no Trump.

Ora, vendo friamente, é bastante mais plausível ver motivações complexas num referendo sobre a Europa, que pode realmente ter as tais ansiedades de classe e económicas, do que na eleição de Trump, que vinha com uma agenda explicitamente racista, xenófoba, machista, etc., que tinha um estratega nazi (Bannon), etc.

O referendo sobre a permanência na Europa, por mais que tivesse sido badalado pela ultra-direita inglesa permitia outras motivações. Na altura, houve uma série de depoimentos sobre gente que votou contra a Europa por questões de economia, de emprego. Posições muito próximas das do PCP aqui. Também li gente que votou no Brexit contra as políticas de imigração da Europa, não no sentido de serem abertas mas demasiado restritas.

O que acho curioso foram as maneiras retorcidas como se tentou ver isto como um voto xenófobo – o que não aconteceu com o Trump. Pela minha parte, acho que o trabalhismo de Corbyn esconde muita grunhice mascarada de preocupações económicas e de classe. Há muita luta contra o neoliberalismo que disfarça racismo, homofobia, anti-semitismo, chauvinismo, etc. Basta ver os que criticam o feminismo ou as reinvidicações LGBT apenas porque os vêem como neoliberais – não porque o sejam, mas apenas porque não dão jeito.

Deveria haver mais cuidado em perceber que há causas e motivações complexas, mesmo quando se trata do voto xenófobo. Todo o cuidado que se tem em entrevistar grunhos de bonés vermelhos em diners na rust belt pura e simplesmente não existiu no referendo do Brexit. Houve uma diabolização instantânea de quem votou para sair. Quem quer que exprimisse a menor dúvida em relação à Europa ou ao projecto europeu era logo apelidado de xenófobo, e isso aconteceu aqui mesmo em Portugal.

No dia seguinte ao referendo, houve um colectivo grito de «xenófobos e racistas». Tive discussões gigantescas só por ter chamado a atenção que havia votos minoritários contra a Europa mas cuja motivação era económica, laboral.

Pelo contrário, em relação aos Estados Unidos ainda há uma corrente muito forte, associada ao Bernie Sanders, que acha que não se deve alienar os eleitores chamando-lhes racistas, xenófobos, etc. Encontra-se isso em gente como o Mark Lilla, liberais que denunciam o politicamente correcto, etc. Que criticam as identity politics e as tentam colar a Hillary, que vêem o feminismo e o activismo lgbt como um desvio de atenção do que interessa verdadeiramente que é a luta de classes, a única coisa que unificará a esquerda, blá, blá.

Desconfio que a maneira como essas ideias se engancham aqui em Portugal tem muito que ver com experiências da diáspora em cada um dos países: em Inglaterra, o imigrante português é o tipo estrangeiro do sul da Europa que vem roubar empregos. Ou seja, em Inglaterra o português é alvo da xenofobia. Nos Estados Unidos, a emigração portuguesa teve uma longa luta a distanciar-se de negros e latinos. Tornou-se, para todos os efeitos, branca e portanto, mesmo quando vota democrata, tende a votar como a classe operária branca.

(Este é um texto construído a partir de comentários a um post no muralRaquel Ribeiro, respondendo a alguns comentários do Ricardo Noronha. Fiz esta espécie de frankenstein para não me esquecer do que tinha escrito, não para isolar isto da discussão que o motivou.)

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Uma lista de listas sem Quase Nada

Nesta altura do ano, os críticos fazem listas do que gostaram no ano. Eu pela minha parte faço listas dos críticos que gostei de ler este ano. Sou um grande fã do ensaio crítico.
 
E não, não me consigo lembrar de quase nada que tenha gostado de ler na imprensa portuguesa, quase nada que me tenha parecido fresco na forma, no tratamento ou no assunto. Pode ser que me tenha escapado alguma coisa e aceito sugestões, em particular na área da literatura, da arquitectura, da arte ou do cinema. Não li nada sobre design que me tenha ficado.
 
Do que gostei? Leio o André Tavares sobre arquitectura. Da revista Electra em geral, um serviço exemplar de António Guerreiro, e de um ensaio do Pedro Levi Bismarck sobre turismo. Não é bem crítica, tal como não são bem crítica os artigos do André Barata, de que também gosto. Espero os posts do facebook do Bruno Baldaia como se fosse um assinante. É o pouco que me vai ficando.
 
Da crítica propriamente dita, acho que por aqui se tornou uma formalidade. Parece aquele discursos que os presidentes da junta repetem qualquer que seja a ocasião. Só mudam alguns substantivos, o resto fica tudo igual. E quase que se diz, «ainda bem». Porque quando a crítica arrisca, enche o peito e se acha dura, fica à vista a imensa preguiça mental, o agressivo conformismozinho.
 
Não há indício maior dessa preguicite agressiva, dessa vontade de não pensar, do que a constante invocação da ameaça do «políticamente correcto». Só esta semana no Expresso, e sem andar à procura, contei gente a rezingar contra o politicamente correcto por duas vezes. É uma maneira delicada, elíptica, politicamente correcta, de rezingar contra os que acham que vale a pena discutir a igualdade de género, entender a literatura escrita por afro-descendentes nos seus próprios termos, não gozar com ciganos ou homossexuais em nome da tradição.
 
É uma má vontade contra perceber que os critérios estéticos mudam e ainda bem que mudam. A crítica portuguesa acomodou-se ao seu papel tradicional de guarda alfandegário. Pratica o que pensa ser divulgação quando na verdade é um sistema de filtragem. É um espectáculo triste ver quase tudo o que se produz de mais interessante e vital ser carimbado de politicamente correcto. E o que passa, o que tem que passar, ser reinterpretado de acordo com os critérios ultrapassados , rançosos do lugarelho.
 
Em contraponto, para quem queira uma crítica inventiva e celebratória, basta ler a New Yorker ou o New York Times. São dezenas de formas, de formatos, de estilos, de ideias. Um dos ensaios que mais gostei de ler este ano apareceu na New York e era uma apreciação da banda de prog rock Yes sob a forma de uma carta de resposta a um leitor deprimido. Dos formatos que me dá mais gozo ler são os recaps, as anotações que se faz a séries de televisão e que, quando são bem feitas, nos aumentam o prazer de espectador. Por aqui, não há nada disso, nem pode haver.
 
Enquanto nunca se fez tanta crítica interessante, combativa, progressista, aqui carpe-se o fim da crítica, garante-se que se vive num período pós-crítico porque se leu isso num livro qualquer há dez anos. É uma tristeza.

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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico.

Autor do livro O Design que o Design Não Vê (Orfeu Negro, 2018). Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

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