The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Contra a Anestesia do Design

Quando se muda de casa, não se tem outro remédio senão mudar de vida, sobretudo quando se colecciona livros. Entrei sozinho no apartamento onde morei dezoito anos. Saí com uma família e milhares de livros. Sempre comprei livros. Em 2010, comecei a coleccioná-los pelo seu design. Tenho livros em línguas que não domino (alemão, russo) porque são bonitos e bem feitos.

Pela mesma altura, comecei-me a interessar pela história do design português. Até aí, o meu interesse era a actualidade do design, o que se dizia, o que se fazia, o que se publicava, o que se expunha. A história do design chegou-me primeiro por necessidade profissional, quando me encomendaram textos sobre o assunto. Depois, tomou conta da minha vida de investigador enquanto um problema muito específico: fazer uma história do design português que não seja conservadora, desligar a história do design português da sua tradição. Leia o resto deste artigo »

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A história do «cliente»

No último Sábado, a convite doJosé Bártolo fui participar no lançamento do catálogo da exposição Sinal, na Casa do Design em Matosinhos. Trata-se de uma mostra dedicada aos correios e telecomunicações em Portugal desde o século XIX até às últimas privatizações. Leia o resto deste artigo »

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Cigarro

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A tentar cumprir prazos com a bebé doente. É difícil escrever e até ler no computador, portanto as leituras acabam por ser em papel. Li de rajada um livrito deste ano sobre design, política e jornalismo. Nunca fumei mas a sensação que tive ao sorvê-lo deve ser a de alguém que fumou um cigarro depois de anos de abstinência forçada. Chama-se The Fourth Estate Utopias e não, não é perfeito. São três ensaios e a transcrição de uma série de conversas. A paginação torna difícil seguir o fio. Os textos seguem em paralelo na mesma página, mudando apenas a fonte. Ao começo, saltei de ensaio sem dar conta. Talvez seja uma maneira de manter o leitor atento, crítico, etc. Mas os ensaios e as conversas são como cafeína para alguém como eu. Fala-se sobre acabar com o patriarcado no design. Há um texto bastante interessante de Ruben Pater sobre design, eleições, extrema direita. O livro veio-me recomendado pela Sofia Gonçalves. É tão refrescante ler gente a falar sobre design e assuntos correntes dos últimos quatro anos (eleições, Trump, Brexit, Putin, desinformação, etc. etc.) Lê-lo torna ainda mais óbvio o imenso falhanço que tem sido a crítica e o pensamento de design em Portugal nos últimos anos. Desapareceu quase por completo da imprensa e o pouco que ficou são guias de consumo ou estilo de vida, entrevistas a luminárias que confundem tipografia com design e, por sua vez, esta confusão com pensamento sobre design. Ou, a parte que mais me enjoa, notinhas de quatro ou cinco linhas sobre o grafismo interessante de alguma editora. Estou farto do design como nota de rodapé dos interesses do meiozinho editorial português. Na grande maioria dos casos, o que é gabado quando não é feio e banal, é bom gosto mediano sem grande interesse. Contra isso, gosto da Tinta da China, que realmente não se parece com nada. Depois gosto do trabalho de gente de quem gosto, e portanto, não sei se tenho distância, da Orfeu Negro, que me editou, e da Dois Dias, que são amigos, mas é sempre uma alegria encontrar um livro deles. Não são os únicos mas são consistentes e fiáveis. No que me diz respeito, é tudo o que há a dizer dentro daquilo a que se reduziu a crítica de design em Portugal. Adorava ler sobre design que pareça ter sido feito no século XXI. Adorava ler sobre design, política, guerra, o novo fascismo, desinformação. Bolas, até lia sobre design gráfico e gentrificação. Há alguém a escrever em público sobre isto? Se me vêm dizer que se está a fazer teses e seminários sobre o assunto, desculpem lá mas tenho que ir ali mudar uma fralda. Estou a falar de pensamento público, de crítica feita em voz alta, preto no branco.

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Ensaio um pouco à solta

Quando se cria é muito raro poder voltar-se ao mesmo lugar. Um escritor, por exemplo, pode citar à vontade quem quiser mas tem de cumprir um pudor de voltar à mesma frase, à mesma ideia, polindo-a, aparando-a. Até pode rever um texto, acrescentar e tirar, mas usar em outro texto a mesma frase, o mesmo parágrafo, isso já se sente como uma espécie de auto-plágio. João Pedro George, por exemplo, tornou-se um especialista em apanhar essas reciclagens. Um escritor deve exprimir-se sempre de novas maneiras. E por vezes tem a angústia terrível de ter desperdiçado uma boa ideia, de nunca mais a poder voltar a usar. Ora, uma das qualidades que aprecio mais no argumentista de BD Warren Ellis é a total falta de vergonha quando se trata de reciclar ideias, frases, situações. Não há nada que tenha usado que não se disponha a usar de novo. E é fantástico. Leia o resto deste artigo »

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Cinza foto

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Existiu com toda a certeza um cinzento mate na literatura portuguesa do começo da década de 1990. Podia ser mais ou menos escuro. Podia ser uniforme ou granuloso. Envolvia por completo os livros, assumindo matizes conforme a capa, a lombada, a contracapa. Da cinza formavam-se imagens, sombras de caras, de paisagens. Nas bordas visíveis das folhas podia ser branco, se possível pérola. Ou podiam ser pintadas também de negro ou de uma cor que refulgisse. Um livro fechado era uma placa compacta de cinzas sólidos, contínuos. Um livro de poesia, por exemplo, provocava as mesmas sensações físicas, tinha o mesmo toque que um portátil ou um smartphone bem desenhado.
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Edição Experimental

Terminou na semana passada a exposição dedicada à auto-edição que comissariei em Serralves com o Ricardo Nicolau. O objectivo inicial era mostrar objectos e projectos dos últimos vinte anos no Porto. Eu lembrava-me de muita dessa cena. Fiz parte dela, desenhando e pouco depois escrevendo. Ao entrevistar os protagonistas, folheando espólios, pasmou-me a fragilidade desse passado recente. Muitos projectos tinham desaparecido quando os seus autores se foram embora, mudaram de emprego, de área. Ou simplesmente perderam o interesse. Fui a umas tantas casas onde me tiraram de um armário de arrumos caixas de fanzines e revistas. As memórias eram enevoadas. Iam-se avivando na conversa. Leia o resto deste artigo »

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25 horas mínimo por semana

Vem aí uma exposição no Porto, no espaço Rampa do qual faço parte, dedicada às Guerrilla Girls. Perguntaram-me se não queria fazer qualquer coisa na programação paralela e acho que vou aproveitar para tratar de um tema difícil que é o das mulheres na história do design.

Investigar história tende a ser tido como uma actividade intelectual que está desligada na prática. Pela minha experiência, é algo físico, que se faz com o corpo, que nos curva as costas e estraga a vista. Precisa do seu tempo, precisa dos seus recursos. Tenho-me dedicado mais à história em parte porque me tornei pai. A minha esposa tem um emprego das nove às sete. A universidade deixa-me tempo para trabalhar em casa e assim, cabem-me os deveres de ir buscar e levar a minha filha à creche, de lhe preparar, dar o jantar e deitar quando estou sozinho. Mesmo quando está na creche, se a noite corre bem, e tenho ajuda, ocupa-me um mínimo de cinco horas por dia. É um mínimo (nunca atingido, sempre ultrapassado, meramente indicativo) de 25 horas nos dias úteis, bastante mais ao fim de semana. Leia o resto deste artigo »

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Boletim da Biblioteca na Biblioteca

Já tenho o primeiro boletim da exposição a Biblioteca na Biblioteca que co-comissariei com o Ricardo Nicolau em Serralves. O design é da Márcia Novais.

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Comunicar Design 2019 · Esad Caldas da Rainha

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É costume usar apresentações e conferências para testar ideias. Hoje na Esad das Caldas, ensaiei uma espécie de pré-história e história do design em Portugal, usando como base uma genealogia de publicações, entre outras, o álbum Portugal 1934 do SPN, o Notícias Ilustrado, o álbum da exposição do Mundo Português 1940, o álbum Portugal Um País que Importa conhecer. Interessou-me distinguir o designer actual do pintor-decorador do Estado Novo e dos tipógrafos. Aproveitei hoje ser 28 de Maio para mostrar como Salazar tinha uma relação pouco conhecida com a publicidade. As primeiras celebrações do dia em que foi fundada a ditadura foram usadas como ocasião para fazer propaganda ao Porto Borges. «Ditadura, brought to you by…»
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Comparações

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Um pequeno panfleto de propaganda salazarista comparando o Estado Novo com a Primeira República. Note-se a censura prévia vista como algo positivo na última imagem.IMG_5426IMG_5424IMG_5425

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Em busca da linha

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Encontrei-a. Afinal não é a segunda edição mas a terceira.

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Ainda mais coincidentes

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Não conseguia encontrar em casa o de cima.Queria-o por causa dos dentes. Enquanto o procurava encontrei o de baixo – que nunca tinha reparado usava a mesma dentadura.

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Um ano d’o design que o design não vê

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Faz pouco mais de um ano que saiu, e ainda tenho bastante orgulho no meu livrinho, sobretudo do ensaio que lhe dá o nome. Posso estar enganado, mas é capaz de ser o único editado em Portugal fora da academia a tratar a relação estrutural e  histórica do design com o racismo, a discriminação de género e de classe. Leia o resto deste artigo »

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Fora deste Mundo

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Nunca consegui comprar a Periférica nos quatro anos que durou – entre 2002 e 2006. A tentação era grande. Diziam muito bem dela nos jornais. Ainda por cima era editada perto de Vila Real. Várias as vezes a segurei e todas a deixei ficar na estante da livraria. Era demasiado feia. Não me considero um designer estrito daqueles que sentem uma má fonte ou entrelinha nas vísceras mas a Periférica ia além dos meus limites. Leia o resto deste artigo »

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O Blurb

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Os blurbs são aqueles elogios que aparecem nas capas ou contracapas dos livros. Podem ser feitos por convidados. Lembro-me de um do Steve Martin: «Eu ri. Eu chorei. Depois, agarrei no livro e li-o.» O que eu não sabia é que Blurb é o nome de um personagem ficcional, Belinda Blurb, inventada pelo escritor Gelett Burgess para se desfazer em elogios na capa de um dos seus livros.

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Conferência

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Dia 28 vou falar às Caldas. Já sei sobre o que quero falar mas prefiro não dizer nada para já.

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O Olho Agarrado à Palavra

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Abre-se um caixote enquanto se procura outra coisa e eis que lá estão, os Anos 70 Poemas Dispersos, do Alexandre O’Neill, da Assírio & Alvim. Inclui alguns poemas gráficos difíceis de apanhar, porque publicados em jornais e revistas ou porque foram esquartejados em outras ocasiões. Leia o resto deste artigo »

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O Designer Como Grunho

O design em Portugal envelhece. Já há muito tempo que não ouço ninguém com a lenga lenga do «é preciso trazer o design para Portugal». Seria absurdo. Aparecem sempre os que dizem que é preciso trazer o design «a sério», o que significa apenas «o deles». O design envelhece e às vezes parece que não aprende muita coisa. A proporção de mulheres a estudar design é consistentemente maior desde há anos. Tenho aulas onde praticamente só vão mulheres. Mas mesmo assim ainda se apanha gente a dizer que o design é uma coisa de homens. E diz-se que isso é por causa dos trabalho que os filhos dão ou da incapacidade para praticar a coisa à homem – “à patrão”, queira isso dizer “à bruta” ou “com charme”, não é muito fácil de distinguir. É um meio que não leva mulheres a sério (ou qualquer pessoa que não jogue por essas regras). Não é apenas o modo de trabalhar à antiga, porque já anda por aí uma versão 2.0, igualmente troglodita, alimentada a politicamente incorrecto e a “liberdade de expressão” – para dizer alarvidades em nome da informalidade. Tudo isto não é só conversa, como é evidente, mas é o software da coisa. Daí que seja útil ter uma formação que inclua uma história que seja crítica e não apenas transmitir o património e as lendas da profissão. E uma crítica que inclua feminismo, estudos culturais, política, etc. Porém, é comum achar-se que os alunos ainda não têm maturidade para isto (mesmo no ensino superior). Pela minha parte, se têm idade para ouvir ou fazer comentários sexistas, se têm idade para estagiar, têm mais do que idade para perceber o que isso implica.

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Richard Hollis

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A colecção de textos dispersos de Richard Hollis, About Graphic Design, tem-me sido um consolo e um prazer. São o tipo de textos que se escreve quando se escreve por encomenda sobre design, para conferências, para introduções, para revistas, para obituários. Como o próprio Hollis refere na curta introdução, cobrem assuntos que permaneceriam estrangeiros aos seus interesses não fosse o ser espicaçado pelos editores. Trata cada um desses assuntos com interesse, aquele sentido de perplexidade organizada que os melhores críticos cultivam. Diz ele, designer, que, para escrever sobre colegas, «it helps to puzzle out what is meant by “Graphic Design”.» O consolo deriva disso, desse puzzle out. Não escreve, como tantos, para apregoar o que é ou devia ser o design, e quem é ou não devia ser designer. Não trata o design como uma colecção de chavões, de certezas, mas como um problema constante.

O seu Graphic Design – A Concise History foi a primeira história do design que tive a boa sorte de comprar. Falo de sorte apenas no sentido coloquial, porque na verdade me limitei a beneficiar dos bons dons de estratego do próprio Hollis: fez uma história acessível, que se pode comprar por dez libras, pouco mais de onze euros e meio. Podem-se comprar cinco destas histórias pelo preço que custa a ainda muito usada história do design gráfico de Philip Meggs, e fica-se bem melhor servido.

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O designer como forma

No segundo número da revista de design Dot Dot Dot, publicava-se um breve artigo-entrevista onde se recuperava um designer suíço caído na obscuridade. Era o tipo de velho modernista com opiniões fortes sobre o rumo que o design actual leva que se gosta de ouvir em conferências pela caturrice bem humorada e inteligente. O humor político, iconoclasta era uma das marcas de Ernst Bettler. Num dos seus primeiros trabalhos tinha inventado um pintor Futurista de nome Giacomo Depinelli para gozar com um cliente pretensioso que lhe tinha encomendado uma cópia da famosa campanha de cartazes orquestrada pelo presidente da Container Corporation of America, Walter Paepcke, e contando com as contribuições de muitos dos melhores designers modernistas, como Max Bill, Herbert Bayer, Paul Rand ou Herbert Matter. Leia o resto deste artigo »

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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico.

Autor do livro O Design que o Design Não Vê (Orfeu Negro, 2018). Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

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