The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Trabalho a sério

Há assuntos aos quais preferia nunca mais regressar, mas, sendo isto um blogue – cada texto enterrando cada vez mais fundo os anteriores – torna-se necessário voltar a questões que, infelizmente, vão mantendo a sua actualidade. Esta semana, por exemplo, li um artigo no New York Times descrevendo a maneira como, numa época em que as oportunidades de emprego são cada vez mais reduzidas, o aumento dos estágios não remunerados levou a que o governo americano suspeitasse que muitos empregadores os estavam a usar como trabalho ilegal.

Depois de ler o artigo, fica-se na dúvida se haverá realmente estágios legais nos Estados Unidos ou em qualquer outro sítio. Na America, para um estágio não remunerado ser legal precisa de cumprir seis critérios federais, entre os quais: que o trabalho efectuado seja semelhante ao de uma escola vocacional ou de uma instituição académica; que o estagiário não esteja a substituir trabalhadores assalariados; que o empregador não tire vantagens imediatas – leia-se “lucro” – do trabalho do estagiário. Resumindo: um estágio é um trabalho pro bono por parte da empresa e não do estagiário – um trabalho a sério deveria ser pago a sério.

O artigo confirma também que um estágio não remunerado pode ser um mecanismo muito perverso de discriminação social, um obstáculo à carreira de quem não tenha meios financeiros – leia-se “ajuda dos pais” – para trabalhar de graça durante meses ou mesmo anos .

A vários níveis, que o artigo não chega a tratar, o estágio acaba por destruir a credibilidade de uma actividade como o design profissional, por exemplo. Em primeiro lugar, ao substituir o trabalho pago, desvaloriza-o directamente; desvaloriza-o também de modo indirecto ao minar a credibilidade das instituições de ensino superior – muitas empresas usam o argumento das “universidades não formarem pessoas para o mercado de trabalho” para darem elas mesmas a formação em falta sob a forma de um estágio não remunerado. Naturalmente, como os estágios são lucrativos para as empresas, dá sempre jeito ir descredibilizando o ensino superior.

Finalmente, o pior problema dos estágios é que, mesmo que sejam apenas um estratagema para poupar dinheiro disfarçado de formação a sério, são, ainda assim, formativos. Surgem num período da vida particularmente frágil na vida de um profissional, a transição entre a formação académica e a vida activa. Normalmente, são anunciados como uma maneira de ganhar experiência, mas se existe alguma experiência envolvida, é a de uma espécie de praxe perversa, de ritual de iniciação às desigualdades crescentes do mercado de trabalho – podem durar semanas, mas são semanas determinantes na vida de um designer.

Um dos piores efeitos dos estágios, quando são mais traumáticos, é afugentarem os estudantes de design de uma carreira no design. No meu próprio caso, depois de um estágio de curta duração e muito pouco remunerado num atelier de design a ilustrar livros infantis, comecei a distanciar-me progressivamente do design como uma actividade profissional. Depois dessa primeira má experiência, ainda tive alguns trabalhos não remunerados que foram produtivos – em retrospectiva, gostei de trabalhar na revista de banda desenhada Quadrado, que me deu a oportunidade de aprender os básicos do tratamento de imagem para impressão, mas também me introduziu às subtilezas do trabalho de edição, não apenas ao nível do design mas da própria gestão de conteúdos. Quase todos os trabalhos que fiz durante o meu período pouco ou nada remunerado foram revistas mais ou menos independentes, mais ou menos culturais, todas sem grandes fins lucrativos – ter a revista impressa já era recompensa quanto baste. Muitas vezes pediam-me para escrever um ou outro artigo, e foi assim que me fui aproximando da crítica de design. Tornei-me crítico por todas essas oportunidades, mas também pelo facto de ter começado a trabalhar num contexto que me parecia particularmente injusto e merecedor de críticas, em que trabalho sério não só não era pago como nem sequer era reconhecido ou acompanhado.

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Filed under: Ética, Crítica, Cultura, Design, Ensino, Estágios,

19 Responses

  1. Já há muito tempo que não lia algo tão contundente e honesto vindo de alguém com maturidade e que pelos vistos passou pelo dilema paixão/sobrevivência.

    De facto eu próprio apesar de ser apaixonado pelo design depois do último ano e meio como recém licenciado não são poucas as vezes que penso que deveria ir vender livros ou atender pessoas numa loja, em vez de continuar a saltar de estágio para recibos e recibos para estágio.

    Mais triste é a falta de honestidade intelectual e ética de quem acha que está a fazer um favor em ter estagiários a trabalhar de graça e não a produzir sem custos, à custa da exploração do outro.

    Pelos vistos na terra do liberalismo já começaram a perceber que se trata de um ataque à livre concorrência e à igualdade de oportunidades…

  2. Também passei por experiências semelhantes… Mal terminei a faculdade, e depois de ter feito férias no estrangeiro, mal cheguei a Portugal comecei a procurar trabalho. O que encontrei foi um atelier de gráfica. Na altura da entrevista falaram que eu ia receber qualquer coisa como 800 euros de ordenado, tendo direito a contracto e tudo. Assim que eu já estava no 5º mês de trabalho acabei por desistir de trabalhar, uma vez que nunca recebi um tostão deles… Aquilo nem poderei considerar estágio não remunerado uma vez que nem estágio era. Mas a empresa evoluiu durante esses 5 meses, portanto não foi de certeza por falta de dinheiro que não me pagaram o salário. 😐

  3. Isso é que é uma boa notícia! 😀

  4. c.m diz:

    gosto dessa imagem do lego

  5. Lígia diz:

    Mais uma pedra no saco da desigualdade – vai para a faculdade quem pode, não quem quer + aumento das propinas sem a correspondente subida na qualidade do ensino + estágios não remunerados… Muito triste, num bom texto.

  6. rawckee diz:

    o que me impressiona no meio disto tudo é que esta nova forma de escravatura é promovida é normalmente mantida por pequenas e micro empreas, geridas por pessoas “normais” que provavelmente não gostariam que isto acontecesse a familiares ou amigos seus.

    Por vezes lembro-me de quando via no telejornal os fechos das manufacturas/fábricas texteis do vale do ave em que os trabalhadores diziam sempre que a empresa nunca teve falta de trabalho…

    e calo-me para já que isto dava muitas linhas mais

  7. ana diz:

    Depois de ler este texto senti-me de certa forma mais apoiada, pois após cinco anos do final do curso continuava a sentir-me uma ave rara por ter escolhido não trabalhar em Design.
    Trabalhei a recibos verdes, depois fiz estágio profissional noutra empresa e quando acabou tive que pedinchar para me fazerem contrato (pois de outro modo permanecia eternamente a recibos verdes), contrato com valores miseráveis e sem me inscreveram como licenciada na S.S., pois alegavam que não podiam pagar-me mais, mesmo eu tendo conhecimento das avenças aveludadas que eles mantinham, enfim…
    O problema nem estava ai, mas sobretudo na forma como éramos explorados e maltratados pelos patrões, e principalmente na forma de fazer Design, “chapa cinco”, “-o Cliente não paga para estares a perder tempo com isso! Toca a mexer”. Não se prima nem pela qualidade nem pelo empenho nem pela criatividade, mas por a quantidade e por o “toca a andar que o mercado não perdoa”.

    Por isso hoje trabalho em engenharia civil, faço orçamentos…pois se é para ser robô e fazer sempre a mesma coisa, sem criatividade, e sobretudo ser mal paga e maltratada, então prefiro fazer isto. E deixo o que gosto realmente de fazer para os meus teus livres.

  8. Tu trabalhaste no Quadrado — além de autor? Não me lembro nada, mas ando meio senil. Como estagiário não foi, deve ter sido como amigo 🙂 .

    Nos comentários confunde-se estágio, com trabalho não remunerado, com vigaristas, com recibos verdes…

    O estágio curricular na minha opinião não deve ser pago — o estagiário deve aproveitar para absorver tudo como uma esponja, mas é difícil absorver e queixar-se ao mesmo tempo.

    Sobre o trabalho a sério… não vai ser por decreto que se vai resolver isso. Essa certeza eu tenho.

    Repara que o Quadrado e tantas outras coisas que se fizeram, era tudo trabalho a brincar. Não se tinha que fazer, inventava-se. E foi a melhor época.

    Onde anda essa vontade de fazer coisas? Se eu propusesse hoje a um estudante fazer o Quadrado 4ª Série, de borla, o mais certo era aparecer na primeira página do pasquim O Crime.

    Pois eu digo-te, preferia mil vezes inventar uma revista, ou fanzine, do que estagiar por uma côdea numa empresa “tradicional” de design. E as condições e possibilidades de hoje, nem se comparam.

    Quanto à desigualdade, também não vai ser por decreto que vai ser resolvida, nem percebo porque haveria de ser tudo igual. Olho para os da minha turma e da minha época, partiram todos praticamente do mesmo sítio. Uns são hoje designers respeitados como o João Faria (também trabalhou muito de borla, incluindo no Quadrado — aliás lutava-se por esses trabalhos de borla) ou o Dino dos Santos; outros nunca foram designers na vida. Eu tenho uma livraria — vendo livros, como diz o primeiro comentador. Deixei o design gradualmente como sabes e saudades há poucas. Só tenho saudades dessa época em que tudo era novo e se fervilhava de actividade. Do “trabalho a sério”? Jesus Cristo.

    • Digitalizei imagens, fiz alguns lay-outs, ainda sinto um aperto no estômago quando folheio a revista e reparo em erros que fiz – mas é dos trabalhos que mais gostei de fazer. Colocou sem dúvida um standard elevado naquilo que eu considero trabalhar em design.

      • É um bocado elogioso chamares revista… a Quadrado. Eu digo o Quadrado, nunca passou de um fanzine para mim…

        O aperto é quando vai para a gráfica… isso sim é duro e nunca me livrei (o Steve Jobs chama borboletas no estômago?). Ainda há pouco mandei fazer uns autocolantes nuns restos para a Associação Árvores de Portugal e em vez de http://www.arvoresdeportugal.net, escrevi .com — não há paciência para o design 🙂 .

        Por falar nisso, esse é mais um trabalho de borla. Não só de borla, como paguei a programação do site. Se propusesse a um estudante fazer o design do Árvores de Portugal (logo, recibos…), lá ia eu para a capa d’O Crime outra vez…

        Desculpa lá, não quero estragar o post com os meus trabalhos grátis.

        Suponho que entendo o que queres dizer com o standard elevado, mas não te consigo explicar o pouco que considero que se fez. E o que podia ter sido feito.

      • Oh, revista, fanzine, prozine, etc. Na altura, distinguia as revistas dos fanzines por umas serem feitas na gráfica e os outros numa fotocopiadora. De resto, a quadrado tinha um ar mais profissional, para não falar de mais números, que muitas revistas a sério.

  9. José,

    Há que ter algum cuidado em afirmar-me que os estudantes de design de hoje não fazem nada de graça… há que não confundir trabalho pro bono não lucrativo de trabalhar de graça em agências de publicidade multinacionais (só para dar o exemplo mais ridículo).

    Eu por exemplo tenho a Associação Ophiusa que mantenho e pago servidores do meu bolso há 2 anos (www.criatividadeportuguesa.org) e só não faço mais porque tenho de trabalhar para pôr o pão na mesa.

    Aliás, até anda ai o projecto Design é Preciso que é tudo pro bono para ONG’s portuguesas e ainda ninguém os pôs n’O Crime.

    Tens também muitos outros projectos de designers sem fins lucrativos, por isso não percebo bem com que fundamento é que dizes que agora ninguém trabalha de graça 😉

    No meu tempo não era assim como os Peste diziam LOL

    Um abraço ;O

    • José Rui diz:

      Bah. Não vejo motivação em lado nenhum. Este blogue trata de design, mas é um erro eventualmente pensar que isto é uma exclusividade do design. No design é mais exacerbado porque há muitos “artistas”, com os seus próprios tempos e sempre à procura que a inspiração caia de qualquer lado…
      Ainda há pouco me cruzei fugazmente com um programador que supostamente desenvolvia para iPhone… afinal nunca tinha feito nada… faltou-lhe motivação…

      Eu não disse que ninguém trabalha do borla. Eu li o texto e pelos vistos há gente a mais a trabalhar de borla. E eu acredito.

      Agora, os meus fundamentos… são os meus fundamentos. Se calhar já me cruzei com muita gente e por azar, de borla já eram caros — designers(?) e não-designers. Vejamos… mandei há um mês e meio traduzir um livro de bd para inglês, trabalho para um dia… passado um mês estava a moer o tradutor… pediu-me mais uma semana. Agora o autor diz-me que a tradução está uma merda. Desculpa lá já não ter paciência para queixosos.

      O que te digo é o seguinte: preferia mil vezes trabalhar de borla um ano para uma ONG ou algo que eu escolha — tipo projecto meu (mas para isso é preciso ter projectos), do que um mês a receber para uma dessas empresas manhosas aqui descritas.

      Preferia virar hamburgers no MacDonalds e depois ter algumas horas de qualidade para os meus projectos de design, do que torrar a cabeça numa dessas empresas manhosas aqui descritas. Mas sou eu, cada um que faça o que entender.

      Fui ver o teu site… gostei. De borla e bom. Não entendo uma coisa no entanto: é um tijolo para uma associação e o “quem somos” não é ninguém? Os textos são assinados por um tal de “menosketiago”? Na tua ideia é assim que se credibiliza um projecto?

  10. […] Há alguns textos atrás, quando falei do modo como muitos estágios eram uma experiência de tal modo traumática que chegavam a afugentar muito jovens designers da profissão, não antecipava a reacção: vários designers e ex-designers, em mais do que uma ocasião, me vieram dizer pessoalmente como se identificavam com o que eu tinha escrito. Também eles tinham tido uma primeira experiência de trabalho que os tinha  marcado de tal maneira que, em alguns casos, os tinha feito mudar completamente de carreira. […]

  11. […] tiverem um curso, uma qualificação que lhes pode assegurar um salário melhor, pode-se sempre dizer que o curso não ensinou nada, mas que isso pode ser resolvido trabalhando de graça por uns […]

  12. […] tratado em outros países. Nos Estados Unidos, por exemplo, foram estabelecidos – como já referi em outro texto – seis critérios federais para apurar a legalidade de um estágio, entre eles que o trabalho […]

  13. ana diz:

    Gostei de ler este post. Tal como eu, desde 2006 o seu conhecimento e discernimento evoluiu. Sem querer ‘spammar’ o seu mural, deixo aos outros leitores deste fantástico post, o manifesto de tantas outras pessoas que já passaram pelo mesmo e querem fazer algo. Se concordarem apelo-vos a assinar:
    http://www.movimentosememprego.info/subscrevermanifesto.htm

  14. Ana Menta diz:

    Gostei de ler este post. Tal como eu, desde 2006 o seu conhecimento e discernimento evoluiu. Sem querer ‘spammar’ o seu mural, deixo aos outros leitores deste fantástico post, o manifesto de tantas outras pessoas que já passaram pelo mesmo e querem fazer algo. Se concordarem apelo-vos a assinar:
    http://www.movimentosememprego.info/subscrevermanifesto.htm

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