The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Fora deste Mundo

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Nunca consegui comprar a Periférica nos quatro anos que durou – entre 2002 e 2006. A tentação era grande. Diziam muito bem dela nos jornais. Ainda por cima era editada perto de Vila Real. Várias as vezes a segurei e todas a deixei ficar na estante da livraria. Era demasiado feia. Não me considero um designer estrito daqueles que sentem uma má fonte ou entrelinha nas vísceras mas a Periférica ia além dos meus limites. Leia o resto deste artigo »

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A Forma Segue o Funcionário

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A encerrar o álbum Mundo Português – Imagens de uma Exposição Histórica – 1940, há um longo rol, estendendo-se por várias páginas, onde se enumera a equipa responsável pela exposição, contabilizando por fim o número de operários (5000), engenheiros (15), arquitectos (17), pintores-decoradores (43), auxiliares (129) e mais de 1000 modeladores-estucadores. Quase todas estas designações mantêm a sua actualidade. Ainda podiam aparecer numa ficha técnica feita agora. A única a precisar de uma nota de explicação é o pintor-decorador. Imagina-se talvez alguém que pinta motivos ornamentais nas paredes de estuque da exposição ou no seu mobiliário. Com algum esforço, o leitor mais especulativo lembrar-se-á que se calhar também é possível usar motivos decorativos em publicações, livros, folhetos. Leia o resto deste artigo »

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Uma Fina Barra Vertical

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IRL, longe da internet, das bases de dados, da Amazon ou do Abebooks, os livros perdem-se ou encontram-se pela lombada. Ter boa memória para capas não chega ao livreiro ou ao coleccionador compulsivo. Se a capa do livro é o seu poster publicitário, a lombada é o seu número da porta. Porém, é raro o coleccionador comprar um livro por causa do design da lombada. Leia o resto deste artigo »

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Richard Hollis

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A colecção de textos dispersos de Richard Hollis, About Graphic Design, tem-me sido um consolo e um prazer. São o tipo de textos que se escreve quando se escreve por encomenda sobre design, para conferências, para introduções, para revistas, para obituários. Como o próprio Hollis refere na curta introdução, cobrem assuntos que permaneceriam estrangeiros aos seus interesses não fosse o ser espicaçado pelos editores. Trata cada um desses assuntos com interesse, aquele sentido de perplexidade organizada que os melhores críticos cultivam. Diz ele, designer, que, para escrever sobre colegas, «it helps to puzzle out what is meant by “Graphic Design”.» O consolo deriva disso, desse puzzle out. Não escreve, como tantos, para apregoar o que é ou devia ser o design, e quem é ou não devia ser designer. Não trata o design como uma colecção de chavões, de certezas, mas como um problema constante.

O seu Graphic Design – A Concise History foi a primeira história do design que tive a boa sorte de comprar. Falo de sorte apenas no sentido coloquial, porque na verdade me limitei a beneficiar dos bons dons de estratego do próprio Hollis: fez uma história acessível, que se pode comprar por dez libras, pouco mais de onze euros e meio. Podem-se comprar cinco destas histórias pelo preço que custa a ainda muito usada história do design gráfico de Philip Meggs, e fica-se bem melhor servido.

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O designer como forma

No segundo número da revista de design Dot Dot Dot, publicava-se um breve artigo-entrevista onde se recuperava um designer suíço caído na obscuridade. Era o tipo de velho modernista com opiniões fortes sobre o rumo que o design actual leva que se gosta de ouvir em conferências pela caturrice bem humorada e inteligente. O humor político, iconoclasta era uma das marcas de Ernst Bettler. Num dos seus primeiros trabalhos tinha inventado um pintor Futurista de nome Giacomo Depinelli para gozar com um cliente pretensioso que lhe tinha encomendado uma cópia da famosa campanha de cartazes orquestrada pelo presidente da Container Corporation of America, Walter Paepcke, e contando com as contribuições de muitos dos melhores designers modernistas, como Max Bill, Herbert Bayer, Paul Rand ou Herbert Matter. Leia o resto deste artigo »

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Decorativos e felizes

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O Notícias Ilustrado, suplemento semanal do Diário de Notícias, era provavelmente o periódico português de grande circulação com o grafismo mais inovador. Foi durante muito tempo o único impresso em rotogravura, uma técnica que fazia da página uma só unidade, uma só imagem, valorizando a fotografia, a colagem e a sua interacção com o texto. Leitão de Barros, hoje mais conhecido como cineasta, foi o seu director artístico. Ensaiou em Portugal técnicas de edição e composição editorial ao nível do que de melhor se praticava no mundo. Leia o resto deste artigo »

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Influências: Eros

 

Ontem falei de uma das influências da monumentânea, a TM. Hoje republico um texto antigo sobre outra, a Eros, que me deu vontade de fazer uma revista (ou coisa parecida) de capa dura, um formato mais associado a álbuns de bd e fotográficos e a livros infantis:

Só foram publicados quatro números da revista Eros, entre a Primavera e o Inverno de 1962, altura em que a revista acabou, em grande medida porque o seu editor, Ralph Ginzburg, foi processado por obscenidade e considerado culpado. Não pelo conteúdo “gráfico” da revista, que pelos padrões actuais era bastante mais casta que qualquer revista de supermercado, nem pelo facto de ter tentado enviar a revista através dos correios de terras com nomes como Blue Ball ou Intercourse, na Pennsylvana, decidindo-se finalmente por Middlesex, em New Jersey.

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Os Limites do Empreendedorismo

Lembro-me perfeitamente do Prós e Contras onde apareceu o Miguel Gonçalves. Eu falava no Skype e até virei o computador para a televisão só para a pessoa do outro lado poder ouvir também aquilo. Na altura pareceu-me apenas uma versão mais pura e ainda mais estúpida do género de discurso que costumava aparecer na segunda parte do programa, uma espécie de catarse, de transe quase religioso. A plateia a confessar os seus problemas, as suas ânsias, aos quais se ia respondendo com um reafirmar da fé nos dogmas do empreendedorismo. Tipicamente, se um desempregado se queixava, alguém lhe perguntava porque não pedia uma linha de crédito e criava o seu próprio negócio. Leia o resto deste artigo »

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Casa de Ferreiro

Na era pós-Bolonha, fala-se muito do design como área científica e o que significa realmente isso? Na prática significa que a administração de uma instituição dedicada ao ensino de design (artes) se torna igual à das ciências exactas. A ciência é aqui um sinónimo de avaliação de desempenho, de progressão de carreira, papers, etc. Resumindo numa palavra: burocracia.

Se não, vejamos. Leia o resto deste artigo »

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Os Outros 66 Cêntimos

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Os leitores mais atentos terão reparado no estranho preço que paguei pelo livro que serviu de mote ao texto de ontem: 33 cêntimos. A explicação é simples: comprei-o numa promoção de “leve 10 por 1 euro” e só trouxe 3. Os outros dois foram estes magníficos Albatross, os primeiros que apanhei ao vivo. Para quem não saiba a sua história, parecem imitações da Penguin quando na verdade é o oposto. A editora Alemã de livros de bolso de língua Inglesa (que não podiam ser vendidos dentro do Império Britânico como se avisa a capa) inventou muitas das características que seriam aproveitadas mais tarde pelos seus rivais ingleses: o formato em proporção Áurea; as capas com uma cor indicando o género; e o próprio logo do Pinguim começou por ser uma versão tosca, quase sem asas, do elegante Albatroz. O designer é Hans Mandersteig, um clássico quase esquecido. Leia o resto deste artigo »

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Publicidade não endereçada, não obrigado

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Depois do cacilheiro apareceu um Toyota da Joana Vasconcelos. Edição limitada a cinco exemplares. Preço só revelado a quem encomenda. Diz Bruno Galante, do departamento de comunicação e marketing da marca: “Estes exemplares podem vir a tornar-se nos mais valiosos que a marca produziu, pelo facto de serem obras de arte.” E qual é o problema? Leia o resto deste artigo »

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O Futuro das Artes

Há umas semanas, dizia eu que para se perceber o futuro das artes em Portugal era uma boa ideia olhar para a cena do Porto durante a última década, uma economia cultural abandonada – pelos financiamentos, pelos media, pelas grandes instituições – e que encontrou uma identidade e uma saída a produzir dentro do contexto da viagem low-cost, que lhe traz um público de turistas internacionais, mas permite também a circulação de objectos e artistas. Neste contexto, percebe-se bem como a música, a comida, a roupa e a ilustração, formatos portáteis por excelência, ganham protagonismo. O melhor exemplo será talvez o livro de ilustração: pequeno, cabe numa mochila, agrada a crianças mas também a adultos, incluindo aqueles que não falam bem a língua.

Pois bem, podemos confiar no nosso governo para f***r tudo, com particular perigo para o que esteja a funcionar bem: a venda da ANA arrisca-se a dar cabo desta cena toda muito rapidamente.

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Realidade Aumentada

Ontem terminou Fringe. A última temporada não foi excelente, mas conseguiu encerrar a história com muito mais dignidade do que Lost, por exemplo. Em homenagem, partilhei no facebook a primeira coisa que escrevi sobre a série, sobre o seu design, em particular o modo como as suas legendas pairavam como grandes objectos entre as árvores ou as casas, reflectidas nas janelas, um efeito cuja estranheza se foi dissolvendo com o tempo. Nem me lembro se o usavam nos últimos episódios. Leia o resto deste artigo »

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Será que é possível reindustrializar o design gráfico?

Há muitos, muitos anos, praticamente desde que a disciplina se institucionalizou em Portugal, um dos maiores e mais consensuais objectivos do design gráfico tem sido estabelecer uma ligação com a indústria. Esse era um dos propósitos do falecido CPD. E já perdi a conta a todas as ocasiões oficiais em que ouvi a ideia ser solenemente repetida, todos os papers, artigos e teses onde a li. A aproximação do design à indústria lembra o que se diz de todos os filmes do 007 desde, pelo menos,1983:[1] que nunca se tinha apresentado um Bond tão frágil e humano. Três décadas depois, o agente secreto já tinha obrigação de ser mais humano que a maioria das pessoas. Quatro décadas depois, o design gráfico português já tinha obrigação de ter a sua ligação à indústria. Leia o resto deste artigo »

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Listas

No guia das 100 melhores escolas de design e arquitectura da Europa da revista Domus, há quatro instituições portuguesas. A Esad das Caldas da Rainha e a Universidade de Aveiro (Design de Produto), as Belas Artes de Lisboa (Design Gráfico) e Arquitectura do Porto (Arquitectura, claro).

O meu amigo, designer e antigo editor Pedro Nora é finalista dos Design’s of the Year 2013 do Design Museum de Londres com a identidade e publicidade do Doc Lisboa de 2012.

Não duvido que muitas destas escolhas tenham o dedo do Frederico Duarte, que andaria à vontade numa lista das pessoas mais influentes do design português.

Parabéns a todos!

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Outras ruas para ocupar

Quanto ao vídeo da Samsung, o tal da blogger de moda cujo desejo para 2013 seria comprar uma mala Channel, e que tem andado a gerar um coro de assobios na internet, não vejo nada de particularmente reprovável no que a rapariga disse. Terminou o mestrado, arranjou um emprego, tem menos tempo e o desejo “consumista” dela para 2013 seria “poupar dinheiro” para comprar uma mala Chanel.

Talvez soasse melhor se dissesse que andava a angariar dinheiro para uma campanha de combate à fome. Mas se ela acrescentasse que achava mal que uma família fizesse sacrifícios (poupasse) para ir a um concerto rock (ou comprar um filme, ler um livro ou comprar uma mala), muita gente (talvez a mesma) a criticaria também. Leia o resto deste artigo »

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O Futuro das Artes Está No Porto

Querem saber como vão ser os próximos anos da cultura aqui em Portugal? Olhem para o Porto na última década. É a segunda cidade do país, empobrecida e periférica. Preterida pela televisão e pelos jornais, apontados quase sempre a Lisboa. Teve um momento de abundância com o Porto 2001, uma dinâmica sustentada por uma geração inteira de artistas plásticos locais, que se aguentaram precariamente, consolidados numa cena frágil durante mais meia dúzia de anos, depois da Capital da Cultura acabar e de Rui Rio chegar a presidente da câmara, ironizando que quando ouvia falar de cultura puxava logo do livro de cheques.

No final, esta cena incipiente não se extinguiu propriamente – dissolveu-se. Leia o resto deste artigo »

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O Melhor Design do Ano

Dentro do design, não foi um ano onde consiga isolar um evento, um livro, um estilo ou uma exposição. Houve muita coisa e muita coisa boa mas no conjunto soube-me a pouco. Foi um ano que me pareceu vazio. Intermédio. Os estilos da última década, cansados: o chamado estilo holandês ou werkplaats no design gráfico (impressão em RISO, lombada cosida à vista, etc.); tudo o que seja hipster ou aquela coisa quase punk do pós-hipster (do sapatinho oxford até à Doc Martens). Não sei o que possa ser o estilo que se segue: algo mais agressivo, impaciente, espero. Leia o resto deste artigo »

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Crise de Identidade

Resumindo o que já escrevi em outros textos: as artes, incluindo o design ou a arquitectura, não têm ferramentas para enfrentar esta crise. Porquê? Porque são, neste momento estruturas de serviços onde anomalias como a precariedade, o estágio e o resto se tornaram banais e até identitárias. Leia o resto deste artigo »

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“Ninguém Compreende o Neoliberalismo”

Às vezes, quando estou mais cansado, tento perceber as pessoas que acreditavam neste Governo e entretanto se desiludiram. Não falo dos que só queriam ver-se livres de Sócrates e votarão pela mesma razão contra Passos, mas dos que realmente acreditam numa agenda neoliberal (o que interessa é a iniciativa individual; o Estado que melhor governa é o que governa menos; que sai do caminho da iniciativa privada; o mercado, se for deixado em paz, garante a harmonia da sociedade bem melhor que o Estado; na prática, para o neoliberal o mercado acaba por ser uma ocorrência natural da democracia, embora poluída pelos interesses de políticos e medrosos que preferem a segurança imediata e egoísta à possibilidade de uma sociedade mais justa e dinâmica.)

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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico.

Autor do livro O Design que o Design Não Vê (Orfeu Negro, 2018). Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

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