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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Pessoas não são Alheiras

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Mais de uma pessoa me perguntou se já tinha lido «Trás-os-Montes, o Nordeste». Queriam saber o que eu pensava, sendo eu um Transmontano. Depois de o ler, percebi que se calhar até nem era, de acordo com os critérios apertados de Rentes de Carvalho. Nasci e vivi em lisboa até mais ou menos aos oito. Mudei-me para Vila Real, onde não tinha família ou amigos. Vim estudar para o Porto aos dezoito. Aos vinte e dois, odiava Vila Real e Trás-os-Montes em geral. Com uma energia negativa persistente, que agora até me espanta. Era mais intensa que a revolta de um adolescente contra os pais. Só começou a desacelerar aos trinta, muito devagar, com a inércia de um comboio sem travões ao qual se desligou o motor como último recurso. Agora, gosto. Dou passeios. Faço romarias aos sítios. Insisto em comer covilhetes e napoleões. Tenho a mesma inflexibilidade de um stalker do Tarkovski numa incursão à Zona – que é dizer, comporto-me como um turista, a paisagem é bonita, as pessoas fazem parte daquela parte da paisagem que nos abalroa se não tivermos cuidado. Percebi que não é só o amor, o sangue ou o contexto em que saímos da nossa mãe que nos une a um sítio. O ódio e a irritação são também bons combustíveis. E quando queimam até ao fim, a indiferença que sobra também funciona. Prefiro-os à condescendência provinciana de Rentes de Carvalho.

É um livro escrito por um bom escritor, embora não bem escrito, que tem um cuidado deliberado, carinhoso, de não escrever nada de novo, interessante ou substantivo. O seu propósito é trilhar o familiar e o tradicional, concluindo que apesar do progresso, do passar do tempo, ainda está tudo no seu devido lugar. O que quero dizer é que se aquela região fosse um filme, o livro de Rentes de Carvalho seria uma peça perfeitamente decente de fan-fiction. Como tal, todas as transgressões, todas as reviravoltas e inversões, acabam por ser epidérmicas. É um género conservador. Dê-se as voltas que se dê, fica-se no sítio onde se começou. A própria linguagem e vocabulário soam mais a escritor que decidiu escrever sobre Trás-os-Montes do que a transmontano. É bucólica. Há regatos. Há palha. Há maleitas. Há caciques. Não há, deliberadamente, cidades. Bragança fica de fora porque é cidade a sério e não província.

Disserta-se do carácter do transmontano, da sua fisionomia, das suas tradições, do seu passado, da sua pobreza, das suas mulheres. Pede-se desculpa, muitas vezes. Pede-se desculpa pelas generalizações, antes de diagnosticar o transmontano como uma condição genética, e lamentar que, nas novas gerações, se distingue cada vez menos o homem do norte do algarvio. Pede-se desculpa às feministas, antes de descrever a mulher típica transmontana, que recebe com resolução e criatividade pancada do marido. E lamenta-se que, nas novas gerações, se distingue cada vez menos a mulher do norte da algarvia. É tudo dito de um modo muito delicado e num vocabulário pastoral. Tudo é educadamente conservador. Cai no erro básico de atribuir ao objecto as limitações que são os do próprio escritor. É como ouvir um médico ou um professor que pensa que ajuda falando sobre si próprio.

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Filed under: Crítica

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