The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Do Que os Homens São

Das decisões que tomei, as maiores são como sopros, ventos que atravessam, que desfazem as palavras, as que dizemos e as que ouvimos. Só com o tempo é possível nomeá-los.

Num jantar em Lisboa perto do intendente ouvi do outro lado da mesa uma conversa que me nomeou um desses sopros, uma dessas decisões do nosso tamanho. Alguém falava da década de oitenta, de como era jovem, numa periferia qualquer, e de como praticamente toda a gente que conhecia se drogava de um modo ou de outro. De como muitos tinham morrido. Enunciou os nomes, ao que as outras pessoas responderam com outros nomes. Nada de novo. Também tinha os meus nomes. Também me lembro dos tempos da escola e dos colegas que fumavam, injectavam e tantas outras coisas. Mas ele continuou, disse que não tomar parte daquilo se tinha tornado numa questão identitária, crucial. Uma resistência. Não se resistia com um vazio mas com algo que o ocupava. Reconheci ali a minha própria resistência sem nome. Apesar de todas as pressões, fui resistindo. Sem uma moralidade ou sequer argumentos sobre a saúde. Sem impôr a minha decisão a outros. Se era tabaco ou charros, dizia quase sem mentir que era a bronquite. Só ali, à espera dos cafés numa tasca de Lisboa, enquanto os outros fumavam lá fora, é que encontrei um nome para uma parte de mim, que até aí era só uma torção física, um movimento.

Há tanta coisa assim sem nome. A primeira parte das nossas vidas é assim, sopros que só ganham palavras muito depois. Toda a dolorosa construção que é aprender a ser homem é talvez o maior desses ventos. Aprende-se através de piadas, de histórias, de rituais, de obrigações. de agressões, de nomes atirados em todas as direcções, nomes que não se percebe. O «paneleiro» que se atira a outro é uma coisa nebulosa que não se percebe. Talvez venha a consciência muito depois que é o uso aberto, público, desses nomes que define a masculinidade tradicional. O homem, o macho, é o único que pode dar esse tipo de nome. De quem os recebe, espera-se a luta ritual ou real, ou o silêncio. Aprende-se uma certa relação com as mulheres, que se não for cumprida é uma derrota, uma vergonha. Aprende-se.

A construção da identidade masculina é uma subcategoria de bullying. Se calhar até é o bullying quase todo. E desde então que lhe tento resistir pior ou melhor, mesmo quando ainda não tinha um nome para essa resistência. Penso muitas vezes que seria muito fácil ter-me tornado num misógino ressentido, a queixar-se da ditadura do politicamente correcto. Tive sorte. A identidade masculina dominante era algo que não me era confortável. Não sei porquê. Se calhar porque na minha família há mais mulheres. Se calhar por o meu pai ter sido criado por mulheres. Não sei.

Tenho a convicção que dos maiores problemas actuais é acreditar-se que se pode apagar a identidade masculina dominante sem erigir nada em sua substituição. Acredita-se que se pode dispensá-la. É esse vazio que os extremismos têm vindo a ocupar, nem digo apenas a alt-right, mas também a direita «clássica», o novo fundamentalismo islâmico, etc. Tudo marcado por uma misóginia identitária que deveria ser um alerta muito forte.

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Filed under: Crítica

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