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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Vampiros, Zombies, Classe Média

Estreou há pouco tempo a série The Walking Dead, sobre zombies, que está a ter um sucesso de audiências sem precedentes. Vem na enfiada de uma lista já longa de narrativas inspiradas em mortos vivos, desde filmes a livros, passando por BDs e jogos de consola[1]. Em paralelo, esta tem sido a década dos vampiros, outro género de morto vivo, com características bastante diferentes, também ele com os seus livros, as suas séries e os seus filmes.

O vampiro é glamoroso, endinheirado e perigoso. Pode-nos matar, mas também nos pode tornar como ele, se achar que somos merecedores. É um risco que pode ou não compensar. O vampiro esconde-se. Apesar de ser um predador interessa-lhe a manutenção do status quo. O vampiro pertence às classes altas, pertence quase sempre a uma forma de aristocracia, que se alimenta literalmente à custa dos seus inferiores sociais. Caça à noite, de modo a não perturbar os ritmos diurnos da sociedade e prefere as franjas, os círculos boémios, os criminosos, a riqueza diletante – ou então raparigas solitárias obcecadas por poesia.

Já os zombies são sempre um problema. São sujos, feios e apodrecidos. Ficar como eles não é de todo uma vantagem. Não lhes interessa grande coisa que não seja andar aos tropeções de um lado por outro à procura de cérebros frescos. Onde há zombies, a sociedade desfaz-se, as casas ficam vazias, as estradas entopem de carros abandonados, as cidades enchem-se de lixo, os sobreviventes barricam-se e têm medo de tudo e de todos. Ser um zombie é uma despromoção social.

Se os vampiros representam uma certa prosperidade predadora e parasita (precisam de uma sociedade para sobreviver), os zombies representam a crise total, a anarquia. Não é uma analogia nova. Originalmente, o zombie era alguém ressuscitado para trabalhar como um escravo. Com o tempo, foi perdendo essa associação mas ainda sobram vestígios: os filmes de Zombies de Romero aconteciam em centros comerciais abandonados; na Sátira Shawn of the Dead, o protagonista demorava algum tempo a distinguir entre a Inglaterra desempregada e vandalizada do costume de uma Inglaterra invadida por zombies.

Tanto o vampiro como o zombie são mortos vivos e, em algumas versões, é difícil distinguir entre os dois. No filme I Am Legend, por exemplo, as criaturas desfazem a sociedade tradicional como uma doença contagiosa, mas também só caçam à noite e demonstram inteligência e a capacidade para formar uma sociedade alternativa, mesmo que disfuncional.

Enquanto os vampiros são um medo fascinado por uma riqueza obtida a qualquer custo, os zombies são o medo da pobreza. É difícil não fazer um paralelo entre as secções inteiras de cidades abandonadas por causa da crise imobiliária e as cidades vazias e ameaçadoras dos filmes de zombies – com os seus sem-abrigo e os seus reformados puxados de volta à vida activa. Cada um destes monstros representa um certo medo social e pode-se dizer que, neste momento, a classe média vive encurralada entre os vampiros e os zombies.


[1] Já tinha escrito sobre zombies, consolas e capitalismo aqui.

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Filed under: Não é bem design, mas...,

6 Responses

  1. Se um dia me obrigassem a optar por ser vampiro ou zombie eu não pensava duas vezes e escolhia logo ser vampiro. Se não houvesse outra opção, claro.

    Interessante a analogia entre vampiros, zombies e a sociedade. Quando num filme se cruzam esses dois tipos de personagens os zombies acabam sempre como os mortos sem classe social e os vampiros como os mortos com classe. Ou melhor, os vampiros na maior parte das vezes são distinguidos como sendo imortais (e não apenas mortos-vivos) e os zombies, esses, acabam sempre mortos.

    Em alguns filmes o heroi luta com montes de zombies, exterminando-os a todos e quando por fim está prestes a aniquilar o vampiro o heroi decide não fazê-lo simplesmente porque ao matar o vampiro está a ser tão vilão quanto o vampiro. Isso acontece imensas vezes, mesmo emfilmes que nada têm a ver com vampiros. Mata-se um grande número de militares, assassinos, mercenários e no fim o heroi opta por não acabar com o vilão principal.

    Ou seja, os zombies podem ser sacrificados à vontade e o vilão principal não é tão dispensável como os zombies.

    Por outro lado, os vampiros são em muito menor número do que os zombies e, no entanto, os zombies são suficientemente ignorantes para se deixarem ser controlados pelos vampiros, tendo medo deles.

    A sociedade actual é igual. Aliás, sempre foi assim. Existe a ideia de que as coisas só funcionam se existir um vilão. As massas são, assim, dispensáveis e apenas as grandes figuras públicas dirigem as rédeas da sociedade. E quanto menos importante for alguém (economicamente falando) mais dispensável se torna à luz das outras pessoas. O zombie é em muito semelhante à imagem que temos de mendigo e indigente.

  2. Situr Anamur diz:

    Ainda bem que sou um elfo mágico

  3. maria diz:

    Ha ha ha
    Excelente.
    de zombies e vampiros todos temos um pouco.

  4. Nuno Jacinto diz:

    Van Helsing
    Caçador de Vampiros, Lobisomens, Zombies e outras figuras miticas, Extraordinere.
    Muito prazer 🙂

    Em relaçao ao texto: desde que os Zombies não sejam embrulhados em plastico como tem acontecido com os vampiros…

  5. […] dos Zombies, dos Vampiros e dos Hipsters, nesta série de textos dedicados a economias radicalmente diferentes da nossa […]

  6. […] comparada a Zombies. Share this:FacebookTwitterGostar disto:GostoBe the first to like this […]

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