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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Indústrias Familiares

Nas últimas semanas tenho dedicado mais do que um texto a cada assunto porque os assuntos são grandes e depois de escritos fica sempre uma ou outra coisa por dizer – neste caso, mais alguns pontos avulsos no que diz respeito à dificuldade dos mais novos entrarem no mercado de trabalho.

Em primeiro lugar, a questão dos encargos das famílias. A ideia de um estágio não-remunerado implica que, em áreas como o design, são em parte os pais que sustentam as empresas onde estagiam os seus filhos, um custo que se junta ao da licenciatura, do mestrado ou do doutoramento. Isso significa que muitas empresas de design acabam por ser indústrias familiares, não no sentido de pertencerem a uma família, mas pelo facto dos seus trabalhadores serem pagos pelas suas famílias. Não me espantava se existissem famílias endividadas só para manterem os filhos num estagio – já imagino as manchetes: “Endividamento das famílias financia empresas.”

Tudo isto levanta outro problema que é o da igualdade de oportunidades: as famílias com mais dinheiro terão ainda mais facilidade do que antes em integrar os seus filhos no mercado de trabalho, tendo mais meios para suportarem toda a formação, cursos e estágios que constituem o compasso de espera até um bom emprego. Junte-se a isto a desigualdade geográfica: quem vive perto de uma universidade não precisa de pagar alojamento, custos de transporte, etc. Tudo isto se tornou ainda mais pesado e injusto depois de Bolonha, com os seus ciclos de estudos rápidos, que se limitam a oferecer a mesma que antes só que mais caro e mais à pressa. Resumindo, no sistema actual quem tiver meios para não só pagar a formação dos filhos mas sobretudo os seus primeiros anos de trabalho, tem à partida vantagem (e quem não tem país ricos ou não ganhou o euromilhões endivida-se).

Finalmente, uma última questão: se um jovem só começa a pagar a segurança social mais tarde – depois dos trinta, digamos –, isso significa que os seus pais terão nessa altura entre cinquenta e sessenta anos. Este limite superior fica próximo da idade da reforma, o que leva a que em alguns casos, provavelmente poucos, mas ainda assim mais do que seria razoável, a pensão dos pais vai estar a suportar total ou parcialmente a inserção dos filhos no mercado de trabalho – que entretanto não vão estar a pagar a segurança social que pagaria a pensão dos pais. Pensando que, precisamente por questões de instabilidade profissional, se começa a ter filhos cada vez mais tarde, o problema só vai piorar. Obrigar os mais novos a pagarem uma segurança social desproporcional em relação aos seus rendimentos só vai levar a que fiquem mais dependentes das famílias, do endividamento ou muito simplesmente de fugirem à segurança social.

(Ou então a emigrarem. Li há pouco tempo que a Alemanha procurava jovens licenciados portugueses. Por um lado, é bom para os próprios jovens. Por outro, suaviza um pouco o problema da entrada no mercado de trabalho. O que ficam a ganhar os alemães? Mais gente a pagar segurança social e impostos desde cedo, uma vantagem obtida a nossa custa.)

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Economia

11 Responses

  1. realvst diz:

    E a Alemanha não é um país de fazer passar ao lado. Ouvi dizer que ganhar por lá 3000 euros por mês é mais do que normal e até um jardineiro ganha isso… o que fará um designer?
    Tenho uma prima a trabalhar lá. Estudou lá durante 2 anos, acabou o curso de biologia e esteve desempregada (à procura de trabalho) durante 3 ou 4 meses. Ao contrário daqui, ele esteve a receber perto de 900 euros por cada mês que não trabalhou. 900 euros, na Alemanha, é pouca coisa. Mas em Portugal há alguma coisa desse género? Não. E provavelmente se houvesse o país ficaria na ruína! Na Alemanha há essa preocupação para com os jovens licenciados! Podem não arranjar trabalho, mas enquanto andam à procura dele vão recebendo algum dinheiro para se poderem auto-sustentar! Entretanto, ela arranjou estágio e começou a ganhar pouquito… 2500 euros por mês. Mas assim que passar a contrato normal irá ganhar mais por cada ano que for trabalhando na mesma empresa ou noutra qualquer.

    Se eu percebesse de alemão já tinha ido para lá viver. Actualmente, se resolvesse ir para outro país, facilidades não me faltam, porque tenho família no Brasil (país difícil), Canadá (país rico, talvez o mais rico do mundo), Inglaterra (a libra vale mais do que o euro e lá ganha-se muito mais do que cá, já para não falar nas miúdas que são muito mais giras que as portuguesas), Suíça (já não falo com os meus familiares da Suíça há imenso tempo… o ensino lá é muito mas muito caro, mas tem um óptimo nível de vida), e por fim Alemanha (só lá está essa minha prima). Desses países todos eu escolhia definitivamente o Reino Unido (o meu pai vive lá). Na Inglaterra é fácil arranjar trabalho (normalmente demora 1 dia ou 2 conseguir-se trabalho em qualquer área, dado que só temos de entrar numa empresa e perguntar… e normalmente precisam sempre de mais um ou dois funcionários), e nunca temos de ir a um médico. Quando ficamos doentes e faltamos ao trabalho a empresa onde trabalhamos envia um médico a nossa casa e é lá que é feita a consulta médica. E se forem precisas maquinarias de hospital até isso levam a nossa casa! Sei disso, porque já estive lá a trabalhar e aconteceu-me isso imensas vezes (o frio de lá é tanto que eu ficava constantemente de febre alta).

    • realvst diz:

      (o meu post já estava a ficar um bocado comprido)Isto para dizer que se um dia alguma coisa me corre mal eu não fico a pensar duas vezes e saio deste país. Ao fim e ao cabo deve ser isso que o governo português quer que aconteça! É que o governo que temos em vez de nos dar só nos tira! As empresas fecham por causa disso, as que se mantêm abertas ficam a trabalhar com estagiários não remunerados, aqueles que conseguem trabalho no ensino são reduzidos… Se eu fosse dos que acreditam em teorias da conspiração, achava que estão a fazer tudo por tudo para que se crie mais imigração, que querem colocar os portugueses fora do país. lol Se a crise existe em todo o mundo, porque é que uns países apoiam ao máximo os seus habitantes e mesmo assim continuam a crescer cada vez mais e Portugal, que não apoia em nada os seus habitantes está a ficar cada vez mais pequeno? Se nem dinheiro se consegue para construir um simples TGV, coisa que já está mais do que desactualizada em vários países do mundo… é só rir… ou chorar com tudo isto.

      • Elisabete diz:

        Realvst…

        Pois é! Falando abertamente, actualmente em estagio profissional estou a receber cerca de 900 (já com descontos). Como estou fora do meu local de residencia, tive que alugar um T0 do qual tenho que pagar despesas etc’s, e que me levam metade do meu ordenado. O resto? O resto serve para comida(cada vez mais cara),passe mensal (que também vai aumentar), bilhetes de autocarro para ir a casa, e por fim algumas despesas extras. conclusão: o ordenado dá para viver, mas a poupança é zero.

        Se depois o estagio ficar na empresa passo a ganhar MENOS do que recebia no estagio. Espero que esta relação anos de trabalho/ordenado nao seja esponencial negativa, por que é o que me vai acontecer qdo passar de estagiaria a designer junior.

        Só em Portugal para isto acontecer.

        Eu também sei que as pequenas empresas andam com o nó na garganta, mas no final do dia quem se lixa é o mexilhão miudo e estagiário.

        AHH e caso não passe a contracto? há esperança de ter um subsidio de desemprego ou assim? Muito pouca… não fazemos descontos para a segurança social.

    • ap diz:

      De facto o frio é considerado uma das maiores causas de febre, não tanto a infecção bacteriana ou vírus.
      Quanto a ires para a Alemanha, não esqueças que o custo de vida é proporcionalmente maior rel. ao salário de que falas, nas zonas mais ricas.
      E podes sempre tentar falar inglês, não é como se fosses para Espanha.

  2. Elisabete diz:

    Eu tive a sorte de entrar na faculdade; de poder estagiar 4 meses apenas a receber as ajudas de custos; de poder ir estagiar para outra cidade e ter que pagar uma renda durante 3 meses sem ainda ter um contracto de estagio assinado; e de ter ainda começado outro estagio onde os 3 primeiros meses me pagavam apenas o sub. de alimentação e onde tinha as despesas de uma casa. Durante estes 4 momentos, tirando a faculdade, em que recebia entre os 100-200 euros tive a sorte também de ter uns pais que me puderam ajudar, nao sou rica, os meus pais ganham pouco mais que o ordenado minimo, so que felizmente os meus pais nao tinham dividas logo poderam-me ajudar. Mas sei que deixaram muita coisa para trás e que só conseguiram alcançar assim que comecei a receber um “ordenado”. Agora estou prestes a acabar o estágio e nem sei o que me vai acontecer e nem para onde vou. Fazer outro estágio onde os primeiros 3 meses só recebo o sub de alimentação é me completamente impossivel para mim e para os meus pais (agora o meu pai é reformado).

  3. JL Andrade diz:

    Os estagiários não-remunerados precisam da ajuda dos pais (é justo). Se os pais já tiverem alguma idade, provavelmente serão reformados (o que também é justo). Logo, é a reforma dos pais que paga o trabalho do estagiário numa qualquer empresa… portanto o estado paga aos recém-formados.
    Além de injectarmos dinheiro em bancos, parcerias,etc. também andamos a suportar as empresas privadas.
    Já sabia que a economia era baseada na divida, mas começam a exagerar.

  4. Situr Anamur diz:

    Miúdos, tenho quase 12 anos desta cena e estou a ganhar a fabulosa quantia de 700. Já ganhei mais e menos. Umas vezes a recibos e outras com contrato. Algumas empresas quase falidas, algumas empresas enormes no panorama nacional. Ajuda zero e muitas coisas para se pagar.
    Solução é emigrar? Quem vai querer lá fora alguém que já anda a apagar fogos há 12 anos sem nunca subir na tal metafísica escada da carreira?

  5. Humberto diz:

    Resposta de um cliente depois de lhe ter feito um orçamento para um logo (cliente de São Miguel, Açores)

    “se queres a minha opinião eu dou-te espero que não a leves a mal, tal como eu apenas olhei a tua proposta e disse muito obrigada pelo tempo disponibilizado para comigo.
    agora a minha opinião é a seguinte e com a certeza do que estou dizendo.
    um logótipo eu arranjo em muitos sítios em s.Miguel com melhor ou pior qualidade uns dos outros por 40 ou 50 euros
    se eu for por exemplo ao “Senhor X” que ate nem é dos sítios mais baratos ele vai fazer-me vários e vai dizer para eu escolher se eu não gostar de nenhum ele vai trabalhar ate eu dizer é isto que eu quero e vou pagar dentro deste valor.”

    • Acontece na maior parte dos casos… infelizmente.
      Uma das manhosices que os clientes sabidolas costumam fazer é dizer sempre que o logo está mal. Ao fim de uns 50 logos dizem que não gostaram de nenhum mas que vão pagar à mesma e optar por um à sorte. Passados uns 4 ou 5 anos reparas que eles voltam a mudar o logo para um dos 50 que fizeste. Ao fim e ao cabo ficam com logos para toda a vida.
      Isso chegou-me a acontecer mais do que uma vez. Uma das vezes foi para uma revista. Volta e meia eles mudam a cara da revista. Novo layout, novo logo, novas cores. Todos eles foram desenhados por mim há cerca de 6 ou 7 anos atrás. E pelo que me lembro pagaram-me apenas 20 euros dado que eu ainda estava em início de carreira… 😐
      Também me aconteceu com outdoor gigante que me foi encomendado para tapar um edifício a fazer publicidade a um grande centro comercial em frente. Fiz 4 propostas e apenas optaram por uma delas. Ao fim de 2 anos trocaram o outdoor para uma das outras propostas que apresentei e volta e meia vão fazendo isso. Dá-me algum gozo saber que alguns trabalhos que realizei quando tinha pouca prática ainda resultam. hehe Por outro lado, por vezes sinto-me um bocado usado… e enganado.

    • Victor Almeida diz:

      Explique ao Senhor Z que aquilo que vai ter é um LOGOTÍPICO copiado e que, com alguma sorte, poderá ter de ser responsabilizado por isso. Outro aspecto terá a ver com a natureza do pedido. Um LOGO insere-se numa estratégia de comunicação mais vasta e, como tal, pode assemelhar-se a um pedido de projecto de uma casa para a família. O cliente pode optar por comprar uma igual a tantas outras ou pedir a um arquitecto que desenhe uma ‘por medida’. O LOGO é a mesma coisa: é por medida!
      Manda-se fazer a quem sabe, e sobretudo a quem sabe devolver uma resposta adequada ao senhor Z.

  6. […] culpando uma geração de trabalhadores pelos problemas da seguinte. Mas, tal como referi num texto anterior, esta acusação não faz muito sentido, tendo em conta que, em bastantes ocasiões, são os pais […]

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