The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Malhar

Do estilo crítico que gosto menos, embora admita que possa ser bem feito, é o de certos arguentes de teses, que pouco mais fazem do que apontar gralhas e sugerir bibliografia redundante.

O melhor exemplo nos jornais é o António Araújo que apesar deste problema escreve ensaios com interesse. Talvez porque este tipo de erudição seja mais fértil quando é feita em proveito próprio e não da avaliação de terceiros.

Como estilo de avaliação faz um vistaço mas tem pouco sumo. Como crítica percebe-se bem os seus limites quando se verifica que só vibra, só muscula, quando vai atrás de algo que não a merece, quando António Araújo vai atrás de José Rodrigues dos Santos, quando João pedro George vai atrás de Margarida Rebelo Pinto.

É uma erudição académica aplicada como uma forma de bullying desproporcional, do amigo do sub-vice-vice-campeão de kickboxing que trabalha como segurança porque é «mais real» bater em pessoas a sério. Lá está, são estes momentos em que se bate abaixo da cintura, porque o adversário nem chega lá com a cabeça, que têm um sabor perverso.

E ás vezes até são úteis. Porque José Rodrigues dos Santos ou Miguel Sousa Tavares andam realmente convencidos que os seus romances são tratados. Porque Margarida Rebelo Pinto pensa que é o Honorato e é só o McDonald’s – e, claro está, pensa que o Honorato está acima do McDonald’s. Porque a crítica de livros do Público (e não só) realmente tem um problema endogâmico.

Mas bater numa coisa óbvia não é garantia de qualidade ou sequer de grande coragem. Um dos refúgios do mau crítico é procurar objectos seguros para desancar. Pensa-se que é preciso menos rigor quando se despreza, mas mesmo o desprezo exige preparação, método e ética.

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Desde Sempre

Numa tese de doutoramento,* leio que William Morris foi um exemplo de empreendedorismo e que o design sempre teve exemplos de empreendedorismo.

O problema é que o empreendedorismo não é uma constante histórica. Não se pode confundir o simples acto de criar uma empresa com empreendedorismo. Morris não criou as suas empresas, a Kelmscott Press por exemplo, com base em conceitos como inovação, destruição criativa, risco, e tantas outras ideias chave do empreendedorismo actual. Aliás, fundou-as usando como base ideias socialistas e de regresso a modos de produção pré-capitalistas. Só isso deveria levar as pessoas a pensar antes de escrever asneiras.

Se há vício que chateia em certo discurso do design é essa insistência em usar termos de modo ahistórico. Assim, sempre houve empreendedorismo, sempre houve design, etc. Quando ouço essas tiradas, penso logo na quantidade de esforço, de legislação, de divulgação, ocupado a trazer o design, uma coisa que existe desde sempre, para Portugal. Imaginem se era uma coisa inventada na semana passada.

O mesmo se pode dizer de outras coisas às quais se aplica o «desde sempre»: o empreendedorismo, a arquitectura, as artes plásticas, a literatura.

*Já defendida.

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Universalismo não é inclusão

Quando comecei a escrever sobre design, eu era agressivo mas inclusivo. Ainda vejo o design não como algo uniforme mas como um conjunto de culturas distintas e até antagónicas. Havia o design dominante, o que ganhava prémios, que fazia logotipos, que tinha a sua própria forma de falar em público, os seus formatos favoritos. Depois havia o design mais ligado a tendências, que se adapta a cada nova moda e vai marcando as décadas. O design praticado em termos políticos, por colectivos, por feministasAinda há o design que é feito no contexto da arte, da música, da banda desenhada, etc.

Agora, sou menos inclusivo. Eu tentava dar uma atenção semelhante a todas estas culturas mas fui percebendo que algumas pessoas não viam isto como variedade mas como enganos, fraudes, delírios, etc. Já vi demasiadas vezes gente a apanhar más avaliações e até humilhações públicas porque não ligava ao design «como deve ser», porque se estava nas tintas para o Paul Rand ou para o Sebastião Rodrigues ou paginar à Tschichold. Não porque fizesse mau design ou má teoria sobre design mas porque não prestava vassalagem a isto tudo.

Não tenho paciência quando o ensino ou o discurso do design se tornam numa praxe permanente. Se é uma coisa básica saber quem foi o Paul Rand também se devia saber que se demitiu quando uma feminista se tornou na primeira mulher chefe de um departamento de design em Yale. Quando se chama universal ao design praticado por Rand deveria haver consciência do que esse universalismo proíbe. Assim, sou cada vez menos inclusivo para com discursos que excluem.

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Birrinhas

Já me tinha decidido a esquecer o assunto mas isto é cómico demais para deixar passar. O crítico literário Vasco Rosa, do Observador, anda-me a acusar de ter «destratado» o Observador. Só porque declarei que sentia asco desse jornal. E é claro que sinto. Publicaram uma crítica do Vasco Rosa a um livro onde me atacaram o carácter, a competência profissional, etc. É a opinião dele. Não estou para entrar em discussões que começam logo pelo insulto. Mas nessa mesma crítica o Vasco Rosa inventou factos sobre mim, e a partir desses «factos alternativos» declarou a minha incompetência. Escrevi três vezes para o dito jornal para corrigirem o erro e nada. «Destratei-os» e agora estão de birra. Se calhar, só corrigem o que inventaram sobre mim se lhes pedir desculpa. É só profissionalismo e maturidade.

CORRECÇÃO: Entretanto o Vasco Rosa apontou-me que uma frase da sua recensão que me parecia indicar que punha em causa a minha aptidão profissional na verdade queria dizer que o género de alguém não é indicador da sua competência profissional. Refiro-me a esta passagem: «à privacidade individual — qualquer que ela seja — não pode ser atribuído ad limine litis [sic] valor de exigível aptidão profissional.» Interpretei-a mal e por isso peço desculpa.

(Só tenho a acrescentar, e com certeza ninguém me há de censurá-lo: dá um gozo do caraças assumir um erro a pedido de alguém que se recusa a assumir os seus.

O erro deles continua lá. Por corrigir.)

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A boa educação

Sou a favor do politicamente correcto em dois sentidos.

No sentido de uma forma de educação ou de cortesia para com minorias tradicionalmente oprimidas. Parte dessa tradição é oral e iconográfica. Toma a forma de anedotas, de frases feitas, de caricaturas, etc. Chamar cigano a um ladrão, judeu a um ganancioso, mulher ou maricas a um cobarde, não são só vestígios mas formas activas dessa opressão, atribuindo as mesmas más características a um grupo inteiro. Não se faz isso por falta de educação mas porque ainda se foi educado assim. Quando as pessoas protestam contra o politicamente correcto é porque percebem que foram mal educadas. Que a sua própria cultura os educou mal. Mas a educação pode mudar se assim a deixarem.

E aí chega-se ao segundo ponto, sou a favor do politicamente correcto no sentido do Estado e das suas instituições usarem de uma linguagem inclusiva e praticarem o mais possível a igualdade de género, étnica, etc. Porque é a maneira mais eficaz da educação mudar.

Compara-se muito a liberdade de expressão a um mercado das ideias, onde as melhores, se deixadas circular em liberdade, virão ao de cima. Um dos problemas desta metáfora é que isso nem sequer acontece com os mercados a sério. A electricidade liberalizada ficou mais cara, os correios ficaram pior. Há até quem diga que os afrodescendentes tendem a viver em más vizinhanças por causa da economia, das pressões do mercado, do rating social, etc. Mas se o mercado consegue separar brancos de negros de um modo tão eficaz e natural, é porque o próprio mercado, agindo sem regulação, é racista.

A solução tanto no mercado como nas ideias é a regulação. Essa regulação vai simplesmente no sentido do Estado usar e promover de uma linguagem inclusiva, e de garantir que minorias lhe possam aceder, tanto como cidadãos, como enquanto funcionários e representantes. Porque também cumpre a função de dar acesso à discussão a quem não o tem. Há quem ache que está a ser censurado quando é criticado por dizer uma coisa que sempre disse – uma anedota de pretos, uma comparação deselegante sobre homossexuais, etc. Mas se está a ser criticado é porque começou a viver numa sociedade que se preocupa com o que afrodescendentes e homossexuais pensam. Até aí, quem estava a ser censurado, por norma, eram eles e outros tantos.

Até aí, aquilo que um homem, branco, heterossexual, assumia como uma sociedade liberal era na verdade uma sociedade com gradações sucessivas e crescentes de opressão – uma democracia onde um cigano, ou uma mulher negra vivem no que um homem branco consideraria ser um regime autoritário, se passasse pelo mesmo.

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Carrazeda de Ansiães

No Verão em que ardeu o Chiado fui passar o mês de Agosto a Carrazeda de Ansiães, com a minha tia-avó Puri, que era baixinha como um Hobbit. Vivia numa casa a condizer, com uma escada de pedra com um vaso em cada degrau, um pequeno alpendre e portas onde eu martelava a testa pelo menos uma vez por dia. Foi inesquecível.

Eu ia a meio da adolescência. Da parte em que se gosta de Rimbaud, nem se sabe bem como ou porquê. É um instinto, igual ao das tartarugas que insistem em ser atropeladas a caminho da desova numa praia qualquer. A minha tia era mais prosaica. Tinha uma casa de banho luminosa e arejada, forrada a azulejo verde claro hidráulico com uma janela que dava para o largo da Igreja. Junto à banheira havia uma abertura quase do tamanho de uma porta tapada por uma cortina. No pequeno compartimento guardava os sapatos em prateleiras e toda a sua biblioteca (passei muito tempo por lá, a vasculhar Selecções empoeiradas do Reader’s Digest). Um dia que me apanhou a ler O Ano da Morte de Ricardo Reis (era o centenário de Pessoa), foi buscar à casa de banho o Férias com Salazar. Educadamente recusei.

Nunca tinha estado tanto tempo em Carrazeda e estranhei os hábitos. No dia em que cheguei, o dono de um matadouro rebentou com dinamite o seu próprio armazém para defraudar a seguradora. A sua falta de experiência abriu uma cratera com uns dois metros de fundo que fui visitar com a minha tia e os seus amigos. No dia seguinte, comentou-se à refeição um acidente viário que tinha feito vítimas ali ao pé. Nessa noite, fomos de carro ver o local. Percebi que essas romarias eram comuns. Fiquei com a imagem de oliveiras a passarem demasiado rápido pelas janelas do nosso carro enquanto desandávamos por uma estrada escura. O carro da frente atropelou um animal com um solavanco.

Num jantar de festa conheci uma das poucas pessoas que votava à esquerda em Carrazeda. Tinha um cão e era agressivo. (Ele. O cão era gigante e pacífico. Aceitava as festas.) Anos depois, soube que um vizinho o atingiu a tiro numa discussão sobre sebes de quintal. Ficou num coma que acabou por ser fatal. O vizinho andou a monte e acabou por se entregar. Tive oportunidade de apresentar as condolências às irmãs bastante mais velhas. Só me responderam que “era um rapaz tão turbulento”.

Algum tempo depois, o Expresso publicou um especial sobre criminalidade rural. Trás-os-Montes era a região com mais crime. E Carrazeda de Ansiães era o munícipio com mais crime de Trás-os-Montes.

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Sugestões

«Já faz quase duas semanas que escrevi pela primeira vez para este espaço a sugerir uma correcção. Suponho que ainda tenham os dois últimos mails, portanto já nem vou repetir qual é o erro. De resto, o vosso crítico admitiu-o em comentários [!?], embora com má vontade e descartando a sua responsabilidade nele (diz que se deixou enganar pela formulação de algo que, segundo ele, não foi declarado). E também fica desagradado com a minha insistência em que se corrija o seu erro. Faço a sugestão que eliminem ou pelo menos concertem aquele linkzito na parte de baixo dos posts sugerindo ao leitor para enviar correcções: não está a funcionar.

já não esperando grande coisa,
Mário Moura»

Mais outro mail para o Observador

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Telhados de Vidro

Só para ir lembrando que, depois de ter escrito para o Observador duas vezes a pedir a correcção de um erro factual do crítico Vasco Rosa (uma coisita menor que só foi usada como base para atacar a minha competência profissional em particular e a da universidade em geral), ele admitiu o «lapso» em comentários mas, tirando isso, nada fez para o corrigir. Aliás, até me culpou por ele próprio ter tirado conclusões erradas a partir de dados inexistentes. É sempre mais fácil ser rigoroso com os outros.

Não me vou chatear mais com este assunto, mas vou partilhar de vez em quando este texto (já está feito) até se decidirem a corrigir esse erro, que suspeito seja nunca.

CORRECÇÃO: Entretanto o Vasco Rosa apontou-me que uma frase da sua recensão que me parecia indicar que punha em causa a minha aptidão profissional na verdade queria dizer que o género de alguém não é indicador da sua competência profissional. Refiro-me a esta passagem: «à privacidade individual — qualquer que ela seja — não pode ser atribuído ad limine litis [sic] valor de exigível aptidão profissional.» Interpretei-a mal e por isso peço desculpa.

(Só tenho a acrescentar, e com certeza ninguém me há de censurá-lo: dá um gozo do caraças assumir um erro a pedido de alguém que se recusa a assumir os seus)

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Lata

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Depois de me chamar vaidoso por escrever ensaios na primeira pessoa, depois de pôr em causa a minha competência profissional a partir de um «lapso» que ele próprio cometeu, depois de me acusar de ser um embuste por ele próprio não saber o significado de «por norma» (como lhe lembrou o leitor Fernando Sousa nos comentários), depois de citar parcialmente afirmações cautelosas minhas tornando-as extremas, depois de me acusar de delírios, ele está à espera que eu refute as «suas reservas e contestação». Deve estar a gozar. Se fossem reservas e contestação, eu respondia-lhes. Eu discuto até se chegar ao insulto pessoal. Aqui, isso chegou com a segunda palavra do título e terminou na última frase do artigo.

E ainda se queixa por eu insistir na correcção de apenas um dos seus muitos erros¹ quando ele próprio me insultou por erros que não cometi. E até ao fazer essa queixa me consegue distorcer: eu disse que nem ia mandar um pedido de correcção ao Observador porque «A ideia de escrever para eles, até para corrigir um erro relacionado comigo, traz-me um bocadinho de comida já meio digesta à boca.» Acabei por fazê-lo. Duas vezes. E em vão. O erro está por corrigir. Porque pelos vistos até sou culpado pelos erros do Vasco Rosa. Quando não declaro uma coisa, devia talvez não declará-la de modo a não induzir em erro pela sua não formulação. Se calhar até devia pedir para incluirem o meu relatório na segunda edição para dar razão retrospectivamente ao Vasco Rosa.

Quer que eu não sinta asco por um jornal que deixa uma notícia com erros factuais sobre a minha pessoa durante uma semana mais de um mês depois de alguém os ter assinalado? Experimente corrigir o erro. Considerei escrever um direito de resposta, mas andar a dar cliques a gente só para corrigir os erros que eles próprios cometeram é uma forma de recompensar a incompetência.

¹Erros factuais a que ele chama, repare-se no desplante, «informação».

P.S. – Em 2 de Junho de 2018, quase duas semanas depois, o erro a que Vasco Rosa chama «lapso» e «informação», e que lhe serviu como base para atacar a minha integridade profissional continua por corrigir.

CORRECÇÃO: Entretanto o Vasco Rosa apontou-me que uma frase da sua recensão que me parecia indicar que punha em causa a minha aptidão profissional na verdade queria dizer que o género de alguém não é indicador da sua competência profissional. Refiro-me a esta passagem: «à privacidade individual — qualquer que ela seja — não pode ser atribuído ad limine litis [sic] valor de exigível aptidão profissional.» Interpretei-a mal e por isso peço desculpa.

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Mail

«Boa tarde,

já faz quase uma semana que fiz ao Observador um pedido de correcção factual. Lembro: escreve o crítico a propósito do primeiro ensaio do livro que «[e]mbora não seja declarado como tal, trata-se do relatório de nomeação definitiva na FBAUP». Não é. São dois textos distintos. O ensaio é declarado como inédito na introdução do livro. Foi escrito em 2017 a pedido da editora. O relatório foi entregue em 2015 e é um ensaio acompanhando e comentando uma lista da investigação que produzi depois do doutoramento. Não poderia ser inédito porque é um documento público do qual se produziram exemplares para o júri, para a escola, de acordo com o regulamento pertinente. Ao afirmar que o ensaio «não é declarado» como sendo o relatório, o crítico assume que inventou, sem qualquer base. Se inventou por iniciativa própria ou através de fonte mal informada, é-me de todo indiferente. Espero apenas a correcção.

Sublinhe-se que não ponho em causa a opinião do crítico do Observador que, por pior construída que seja, é só sua. Estou a apontar apenas um erro factual, que gostaria de ver corrigido. Haveria mais correcções a fazer mas creio, pela sua natureza, que caberiam ao revisor do Observador, caso exista.

esperando (ainda),
Mário Moura»

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O santo acima dos beatos

Da obra do Jan Tschichold talvez a parte que goste menos seja a mais copiada. Os livros da Penguin. O formato, a disposição do texto, a sua mancha, tudo soa familiar. Banalizaram-se porque se perderam no meio das cópias. É bom design no sentido modernista em parte porque se reproduz com facilidade. Não é suposto ser irrepetível.

Há por vezes uma reverência excessiva e acrítica pelo Tschichold que roça a beatice. Quando alguém me diz que gosta do Tschichold não sei muito bem se é um gosto intelectual ou se isso é apenas a beatice a manifestar-se como estética. Ao beato, não interessa muito compreender o objecto da sua devoção. Interessa-lhe o mistério, acima, e interessa-lhe o ritual, abaixo. O Tschichold presta-se a isso. Um dos seus livros era subtitulado «um ensaio sobre a moralidade do bom design».

Não é o que me interessa mais no Tschichold. Aliás, só me interessa pelo lado – vamos chamar-lhe assim – sociológico.

É fácil começar a menosprezar os santos, julgando-os pela qualidades dos beatos que os adoram. Seria injusto, no caso do Tschichold.

Só conhecia imagens e reedições da sua Neue Typographie. Ver o original de 1928 é uma revelação. É um livro em grande medida perfeito. Do papel, à mancha, à cor do texto, à reprodução das imagens, é uma pequena obra prima do género. Até comparado com outras obras primas da época.

O Malerei Fotografie Film do Moholy Nagy, que apareceu três anos antes, impressiona pela brutalidade dos negros, dos caracteres que deixam relevo, da crueza do papel, dos arranjos geométricos agressivos. O Neue Typographie é elegante na construção e clareza, até claridade, da página. A agressividade dos negros das vanguardas, visível em Moholy Nagy, dá lugar a um equilíbrio tonal perfeito.

Uma década, em 1938, depois Moholy Nagy já paginou o seu New Vision de um modo muito semelhante. Tschichold na altura estava à frente do seu tempo. Também porque o futuro seria de consolidação e até conservadorismo. As experiências extremas das vanguardas foram limadas até se tornarem numa receita. São inscritas numa tradição. O próprio Tschichold o fez no seu livro que, ao contrário dos da Bauhaus, incluía uma história da tipografia.

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O autor empalhado

A melhor demonstração da ideia de Morte do Autor está na capa das suas edições mais recentes aqui em Portugal. Têm uma fotografia do autor, o próprio Roland Barthes. Numa análise superficial, dir-se-á uma contradição. O autor a aparecer na capa da sua morte. Não só o sujeito que escreveu, mas realmente o Autor, a figura tutelar, que aparece como uma fonte física de autoridade, que, mesmo gordo, careca e o resto, mesmo que ele próprio o proíba, como Salinger e Pynchon, tem que aparecer, tem que se ver a cara dele para confiar no livro.

Mas não, não é uma contradição, só uma confirmação. Barthes está morto, foi atropelado pela carrinha do homem do leite. E, mesmo quando estava vivo, já se podia fazer tudo o que se quisesse com o trabalho dele. O único obstáculo era ele próprio.

As primeiras edições dele em Portugal eram perfeitamente Barthianas. Nas capas tinham padrões quase abstractos. Uma delas tinha a demonstração diagramática de como funciona o formato A4. A geometria recursiva lembrava indirectamente arte islâmica porque o objectivo era próximo: não representar a figura do profeta. Na contracapa não vinha a foto do autor.

Acabo sempre por gravitar para estas edições brancas, as mas antigas de Barthes, não pela fidelidade aos princípios do Autor, mas porque percebi que, apesar de toda a perfeição canónica do design das mais recentes, consigo lê-las bem melhor.

Mas o que sei é que estas novas edições, com a foto do homem na capa, demonstram bem que o Autor morreu, porque até com Barthes se pode fazer o oposto do que ele quereria.

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Os «a-Ha»

Se há coisa mais maçadora, é a análise crítica praticada através dos «a-ha!», como por exemplo: «A-Ha! Dizes que se fala pouco sobre mulheres no design mas no mês passado saiu uma revista sobre mulheres no design!» Não é um grande a-ha, aliás é uma falácia. É como o Trump dizer que não há aquecimento global porque houve um nevão na semana passada. Uma coisa são exemplos pontuais outra coisa são tendências. Tem-se falado mais sobre mulheres tanto no presente como na história do design mas continua a ser insuficiente. É fácil constatá-lo consultando qualquer história do design. Há muito trabalho científico relacionado sobre o cânone do design que incide sobre isso, a começar com os de Martha Scotford ou Erica Nooney.

Outro «a-Ha» comum, no meu caso, é o de ser acusado de fazer biografias quando critico as histórias do design excessivamente centradas em biografias. Para perceber o que quero dizer basta comparar a história do design de Meggs com a de Emily McVarish e Johanna Drucker. Enquanto a primeira estabelece uma linhagem contínua de praticantes, inventores, a segunda faz uma história baseada em conceitos, tecnologias, mudanças sociais, etc.

Voltando aos A-Ha, mesmo quando se faz uma história como a de McVarish e Drucker é impossível excluir os pormenores biográficos, mas enquanto no texto de Meggs são o assunto central, ao ponto de parecer um longo encadeamento de biografias, nesta costumam aparecer nas legendas das imagens e não no corpo de texto. Um pormenor simbólico.

Uma parte da minha investigação doutoral incidiu no modo como os designers representam a sua própria identidade através de dispositivos gráficos como este. O tema foi o uso da biografia e em particular a auto-biografia dentro do design. Se a biografia é comum ao ponto de se tornar a muleta das histórias do design, as auto-biografias são vistas como projectos de vaidade.

Interessa-me a construção de identidade, e interessa-me o modo como os designers constroem a sua própria como praticantes. Gosto bastante do formato enquanto objecto de estudo.

Daí que seja particularmente cómico quando alguém me pergunta porque trabalho ou uso a biografia quando critico histórias do design demasiado centradas na biografias.

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Enfim

Por um lado, toda a gente me diz para nem ligar, por outro confesso que me irritam um bocado os erros de palmatória que foram cometidos na recensão ao meu livro no Observador. O maior deles é, pelas suas próprias palavras, da exclusiva responsabilidade do crítico, que, em relação ao primeiro ensaio do livro diz que embora «não seja declarado como tal, trata-se do relatório de nomeação definitiva na FBAUP». Não é declarado enquanto tal porque não é. São dois textos distintos.

O ensaio é declarado na introdução do livro como inédito. Os relatórios são documentos públicos. Nunca poderia ser inédito depois de apresentado.

Aliás, o relatório é uma lista comentada do trabalho que fiz entre o doutoramento e a contratação definitiva. É um formato definido por lei, que versa publicações, investigação, actividade pedagógica, etc. Eu escolhi fazê-lo num formato de ensaio com anexos.O ensaio do livro trata da relação histórica entre o design e as questões de identidade. Qualquer pessoa que se desse ao trabalho de fazer bem a sua investigação não confundiria estes dois formatos. Aliás, bastaria ter a precaução básica de não inferir afirmações de facto a partir de dados que não as suportam cabalmente.

Não tenho vergonha absolutamente nenhuma nem dum texto nem de outro, sobretudo pelas razões que o Vasco Rosa aponta que se resumem, espremidas, a uma acusação de ser politicamente correcto – desconfio que se lesse o relatório, encontraria razões para a mesma acusação.¹

Enfim, nem me chateia grande coisa do resto. É um texto onde, na preocupação e pressa de dizer mal, se diz mal de mim pessoalmente, se inventam factos, se pegam em pormenores menores de linguagem, como assumir a minha vaidade porque uso a primeira pessoa. Não o faço em trabalhos académicos ou crítica jornalística. Mas em ensaios, porque não? Há uma longa tradição disso.

Nem sequer vou mandar um pedido de correcção para o Observador. A ideia de escrever para eles, até para corrigir um erro relacionado comigo, traz-me um bocadinho de comida já meio digesta à boca.

Ps: Contrariando o asco, escrevi para o Observador a pedir uma correcção de facto em relação à asserção que o primeiro ensaio do livro é o meu relatório de nomeação definitiva. Não acho que seja uma questão de pormenor, tendo em conta que é um facto extrapolado na ausência e até contra as minhas próprias declarações.

¹ Quem inventa coisas idiotas sobre um texto, inventará com a mesma facilidade sobre outro.

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Lentes

Ler a sério sobre feminismo foi para mim um pouco como aqueles óculos que permitem a um daltónico ver as cores que lhe eram invisíveis. Repara-se em coisas que passavam completamente despercebidas. Por exemplo, é muito mais habitual ver chefes a levantar a voz com mulheres do que com homens. Uma amiga dizia-me que certos chefes preferem ter uma empresa com mais mulheres porque é mais fácil berrar com elas sem resposta. Daí que certa «inclusão» não o é. Outra disse-me que foi obrigada a trabalhar como designer com certo crítico literário que lhe levantava a voz de tal maneira que ela só resolveu o problema levando o pai às reuniões. Porque, claro está, e tal como acontece com o piropo, não se manda vir com uma mulher acompanhada do seu «responsável» seja ele o namorado, o marido ou pai. Daí que muitos homens nunca tenham reparado em piropos mais agressivos. Não se faz isso na presença do «proprietário». Nunca tinha reparado até mo chamarem a atenção. Depois disso é difícil não ver.

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Reacções

Uma estrela no Observador e dada pelo Vasco Rosa! Confesso que é motivo de orgulho…

(aproveito só para corrigir um erro: na crítica é dito que o ensaio principal do livro é o meu relatório de nomeação definitiva. Não é. Foi escrito de propósito para o livro – vem assinalado na introdução que é inédito. O meu relatório é um documento burocrático. Gostei de o escrever mas duvido que tivesse grande interesse para o público em geral.)

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ERRATA e PEDIDO Muito Grande de DESCULPAS:

Tenho que pedir desculpa aos meus leitores e ao Luís Miguel Oliveira. A crítica que lhe atribui num post anterior afinal era do Jorge Mourinha. No texto, tentava eu (na minha irritação) demonstrar que as críticas de Luís Miguel Oliveira eram todas iguais. Acabei por demonstrar que não sou uma pessoa muito atenta às minúcias e acabei por descobrir (totalmente sem querer) que também são iguais às do Jorge Mourinha – tanto na estrutura como nos tiques. Peço desculpa também a este último. De futuro, quando me quiser referir à minha embirração com a crítica de cinema do Luís Miguel Oliveira, visarei a minha fonte de irritação correcta que é a crítica de cinema do Ípsilon.

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Fast food

Mais outra embirração favorita às sextas: a crítica de cinema de Luís Miguel Oliveira. É uma seca porque é sempre a mesma coisa. O homem tem um espaço minúsculo para expor as suas ideias e gasta-o sempre da mesma maneira.

Esta semana dedica uma colunita ao filme A Quiet Place. Esbanja o primeiro parágrafo a admitir que o filme provocou discussão nos Estados Unidos. Há sempre uma parte das críticas do Luís Miguel Oliveira onde se revela que o filme é apreciado ou difamado em outro sítio. O segundo parágrafo é gasto a conceder algumas qualidades que justificam essa discussão, mas que «Nem tanto ao mar nem tanto à terra». A conclusão, que surge no terceiro e último parágrafo, tão inevitável e entusiasmante como uma conta da luz, é que, acabado o visionamento, tudo o que filme tinha de bom se desvanece:

«A prova disso é que, se não há um momento de fastio durante o tempo da sua projecção, cinco minutos depois de terminada a memória começa a ter dificuldades em restitui-la, e o filme vai “desaparecendo” como se não tivesse sido capaz de se constituir em “objecto”, sólido e palpável.»

Espera. Enganei-me. Peço desculpa. Isto é sobre o Ladybird. Sobre o A Quiet Place é isto:

«É uma ideia que [se] aguenta com garra ao longo de todo o filme, mais uma prova de que as lições do cinema mudo andam injustamente esquecidas. Mas, depois da projecção, o rasgo desvanece-se e o que falta no filme começa a vir ao de cima.»

É, no fundo, tal e qual uma crítica do Luís Miguel Oliveira.

Aquilo não chega a ser o McDonalds da crítica de cinema. Aquilo é a versão gourmet e enjoada do McDonalds. É uma coisa demasiado pretensiosa para fazer de conta que é McDonalds e só consegue fazer de conta que é o H3. O menu é sempre mesmo. Pode-se escolher batata ou arroz. Há a liberdade suprema de optar por limonada ou Coca Cola e de levar um pãozinho minúsculo embrulhado em plástico. No fim, arrota-se, encerrando-se uma experiência desenhada para sossegar snobes que nunca seriam apanhados mortos num centro comercial mas acabam sempre por ir lá ter.

A crítica do Luís Miguel Oliveira é o mesmo. Uma fórmula modular sempre com os mesmos ingredientes mas que quase consegue dar a ideia que só é uma fórmula porque os filmes é que não prestam. É como alguém que come sempre num pseudo-H3 mas consegue dar a ideia que só lá vai porque não encontrou nada melhor, porque não tem tempo. Porque tudo o resto é pior. É um snobismo enlatado.

ERRATA e PEDIDO de DESCULPAS: Tenho que pedir desculpa aos meus leitores e ao Luís Miguel Oliveira. A crítica que lhe atribui neste post afinal era do Jorge Mourinha. No texto, tentava eu (na minha irritação) demonstrar que as críticas de Luís Miguel Oliveira eram todas iguais. Acabei por demonstrar que não sou uma pessoa muito atenta às minúcias e acabei por descobrir (totalmente sem querer) que também são iguais às do Jorge Mourinha – tanto na estrutura como nos tiques. Peço desculpa também a este último. De futuro, quando me quiser referir à minha embirração com a crítica de cinema do Luís Miguel Oliveira, visarei a minha fonte de irritação correcta que é a crítica de cinema do Ípsilon.

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Publish or Perish

Um detalhe curioso do livro que publiquei agora é que teve a sua origem no meu relatório de nomeação definitiva. Para quem não anda na vida académica, é um documento que se entrega quatro anos e quatro meses depois do doutoramento com o objectivo de convencer a instituição a contratar-nos de vez. Até aí, estamos todos a prazo.

O relatório costuma ser uma lista mais ou menos comentada do que se publicou, conferenciou ou expôs nesse período de tempo. Há quem se limite a entregar meia dúzia de páginas (nada de mal com isso). Eu entusiasmei-me. Passei o Outono de 2015 a escrevê-lo e confesso que me diverti. Foi uma oportunidade para passar em revista o que escrevi em quatro anos e eu próprio fiquei surpreendido. Tinha publicado mais de vinte textos em publicações impressas. No caso deste blog, havia 1671 posts. Muitos eram observações de passagem, mas uma grande percentagem não envergonhava.

Um amigo sugeriu-me que apresentasse uma selecção de textos à Orfeu. Quase de imediato, decidi não construir o núcleo do livro a partir do blog. Através do relatório  apercebi-me também que havia uma grande quantidade de textos dispersos por publicações variadas. Apesar de produzidos por encomenda, seguiam um conjunto de fios condutores, aquilo a que se poderia chamar as minhas preocupações de investigação. A principal são são talvez as questões de identidade no design. Depois de bastante escrita, revisão, selecção, reescrita, o livro reune doze textos sobre esse tema – identidade do design enquanto disciplina, dos designers, de género, étnica, de classe, geográfica, etc. A maioria veio de outras publicações por vezes muito modificados, dois foram escritos de raiz. Apenas um deles teve a sua origem no blog.

Quanto ao relatório, foi também um ensaio que cumpriu com sucesso a sua função principal – consegui a nomeação definitiva com uma óptima nota. Foi também um documento importante para mim, apesar do seu carácter «burocrático», tanto pela oportunidade de fazer um ponto da situação como pelos caminhos que abriu, um deles levando ao «O Design que o Design Não Vê».

Deixo aqui aqui o começo da sua introdução:

“Combining [an] academic job with freelance activities leads to a life in which the de- tour is the tour, as projects are shaped by whatever possibilities there are to finance them partially. I too have tried to make the most of these conditions, and attempted to develop a practice that is embedded and tactical.”

Sven Lütticken

Neste documento, apresento a investigação e intervenção públicas que produzi nos quatro anos e quatro meses que passaram entre a defesa do meu doutoramento e a en- trega deste relatório, enquadrando-a no seguimento do esquema teórico desenvolvido na minha investigação doutoral. Trata-se de integrar num fio narrativo coerente um conjunto de intervenções muito distintas entre si, tanto na forma como nos temas. Este é, afinal, o problema de tentar combinar o ensino e a investigação académicos com oportunidades de investigação, escrita ou comissariado, quase sempre sujeitas a temas e condições que, mesmo quando são generosas, nunca são exactamente as ide- ais. Usam-se as ocasiões mais díspares para ir construindo, lentamente e em público, uma linha de argumentação que se prolonga através de textos, ensaios, posts, folhas de sala, conferências, livros, cada qual sob temas tão diferentes como a biografia de um designer, o design e influência de um determinado livro, uma conferência cuja única obrigação é durar exactamente seis minutos e quarenta segundos, etc. É uma manta de retalhos – ou como descreve elegantemente Sven Lütticken na citação que serve de epígrafe a este texto, uma vida onde o “detour is the tour”, onde o desvio é a via. Mesmo este relatório é uma oportunidade. Uso-o como ocasião para convocar um conjunto de peças dispersas e heterogéneas para, espero, revelar que fazem parte de um todo coerente.

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Mudei de ideias e ando vai não vai para voltar ao blog.

Não, a culpa não é do Zuckerberg – pelo menos não neste caso. Quando me juntei ao facebook sabia ao que ia. Há uma piada onde um rato de laboratório está a dizer ao cientista, «Olha, acho muito fixe fazer estes exercícios, andar pelo labirinto, correr na roda, e é óptimo receber queijo no fim, mas às vezes fico a pensar porque me dás isso tudo.» E o cientista escreve no bloco notas, «Queijo deixa rato paranóico.» Para gente como Zuckerberg, a solução para uma questão de ética será – sempre e só – afinar a experiência do utilizador. O problema do facebook é ser uma comunidade cuja ética é um assunto de backoffice, ao qual os membros só têm um acesso muito indirecto. Mas isso já se sabia.

O que me afastou do blog é o design ter, colectivamente, uma atitude muito próxima da do facebook. Em resposta a problemas éticos ou políticos afina-se a experiência do utilizador ou muda-se de cliente. Não se põe em causa os princípios. Aliás, nem se tem muita consciência desses princípios, de como funcionam.

O que me afastou do blog, percebo agora, não foi a minha experiência de utilizador mas ser o local onde eu falava mais sobre design.

Com o tempo, percebi que era possível escrever sobre design sem cair em variações das discussões do costume. Que o estilo é algo a evitar, por exemplo. Quando é muito difícil analisar a política do design sem falar de estilo. Ou, a pior discussão de todas, o equivalente em design a falar sobre o tempo, que são as críticas da Comic Sans e os seus derivados. Criticar a Comic Sans (ou o estilo) é o equivalente teórico de usar a Comic Sans.

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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

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