The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Falta de civismo

O que faltou nesta discussão sobre Mário Machado foi civismo. Também faltou ética. Não estou a dizer que a discussão foi mal educada ou desleal, significados habituais dessas expressões. Estou a dizer que o Civismo, crucial numa sociedade liberal, foi secundarizado ao ponto da total irrelevância.
 
Neste contexto, defino civismo como a ética colectiva de uma sociedade, que não é fixada por leis mas por decisões éticas individuais ou colectivas. O civismo determina as nossas atitudes perante o que é comum. Na sua origem, o termo denota a capacidade de sacrifício em prol dos concidadãos.
 
Parece-me interessante mas muito preocupante que a discussão em torno de Mário Machado, do racismo, do sexismo, da homofobia, do chamado politicamente correcto em geral, se centre no plano da lei, ou seja na intervenção do Estado, e que portanto se insiste em temas como a censura ou totalitarismo. Essa insistência na intervenção do Estado demonstra uma desconfiança, uma descrença quase completa na ideia de civismo.
 
Pouca gente coloca a discussão nesses termos. Lembro-me de Miguel Esteves Cardoso o fazer, quando defendeu o politicamente correcto como uma forma de boa educação. Ontem, Vasco M. Barreto fê-lo também no Público.
 
Pelo contrário, enquanto se debateu a ida de Mário Machado à televisão, a discussão resvalou quase sempre para o plano legal, se era proibido pela Constituição portuguesa, ou se era legítimo defender que não fosse, porque atentava à liberdade de expressão. Quando se saía desse plano, a argumentação tornava-se vaga. Perguntava-se se era realmente interessante ouvir Mário Machado, se tinha algo de novo para dizer. O problema era colocado como uma questão estética, de gosto, ou talvez até de consumo: como espectador, não me interessa ouvir pessoas como Mário Machado nos meios de comunicação.
 
É natural que se assuma essa postura dentro de um esquema liberal: por um lado, acredita-se que o Estado não deve censurar todo o tipo discursos, e perante um problema destes, a atitude do liberal, que acredita na troca de opiniões como um mercado de livre troca de ideias, é a de um consumidor, que apoia ou rejeita noções como se estivesse a avaliar a qualidade de um estabelecimento comercial.
 
Mas fica a faltar a dimensão do interesse social, do interesse colectivo, público, o civismo.
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Filed under: Crítica

Histórias dos Designs

Sempre que posso leio história da arquitectura. Com os anos, a arquitectura e o design tornaram-se aquelas vilas ou aldeias próximas, onde se desenvolveram rivalidades tradicionais que não se percebem muito bem a quem as vê de fora. Em tempos, a arquitectura já foi a peça central, primordial, da ideia moderna de uma cultura universal de projecto a que se chamou «design». Agora, são tradições distintas – o que é uma afirmação carregada. O design moderno foi concebido em grande medida para substituir processos tradicionais de produção. Decisões que eram ensinadas enquanto tradição, rituais até, – cortar uma peça de roupa, compor uma página, construir uma habitação – passaram a ser vistas como problemas a resolver de maneiras sempre novas.¹ Pelo menos assim foi durante a época moderna, heróica, do design. Entretanto, voltou-se em força à tradição no design. O principal problema passou a ser encaixar o que lhe ia aparecendo dentro dos formatos tradicionais.

O mesmo se passa com a própria história do design que, na sua vertente mais comum e mais básica, se dedica a identificar a presença ou não de design em tudo onde põe os olhos. É uma história estilo Flintstones ou Asterix onde se projecta as características do nosso próprio tempo sobre o passado – aquela distorção a que os historiadores chamam presentismo. O exemplo mais caricato é talvez a «recuperação» da tradição tipográfica enquanto exemplo de design, quando o objectivo foi durante muito tempo discipliná-la e geri-la de acordo com métodos modernos de projecto.

As histórias da arquitectura mostram-nos uma cultura muito próxima, um espelho cuja distorção é a sua própria identidade. Olhar para o design reflectido nas histórias da arquitectura permite-nos adivinhar o que falta, aquilo que não se vê porque está disfarçado pelo mito, pela tradição.

Uma das diferenças é o modo como se faz a história. Lendo Kenneth Frampton, por exemplo, percebe-se logo desde o começo que a história da arquitectura não é só a história de edifícios e dos seus arquitectos, mas realmente a história da Arquitectura, que é como quem diz a história de como o conceito mudou, dos modos distintos de o definir. Em muitas das histórias do design gráfico, o modo dominante são as cronologias de objectos e praticantes. Em geral, o design é tido como uma constante, ou então uma ideia que se vai refinando com o tempo, progredindo em direcção ao futuro.

Polémicas entre concepções radicalmente distintas do que deve ser o design tendem a ser «alisadas» de modo a não estragar a progressão linear da história. O chamado design pós-moderno dos anos 70, 80 é vulgarmente reduzido a uma esquisitice passageira – o «cult of the ugly», as «style» ou «legibility wars». Na verdade, foi um fenómeno complexo com efeitos duradouros que propôs novas identidades para o designer, modos novos de exercer o design, etc.

A história popular, «oral», do design, cuja principal função se reduziu a transmitir uma certa tradição do que deve ser o design, tem propósitos utilitários e muito limitados – promover certos modos de fazer e de falar sobre eles. Reduziu-se com efeito a uma mitologia,² uma estória que encadeia e integra tudo o que dá jeito integrar, resolvendo de modo narrativo as contradições que não lhe dá jeito eliminar de todo.

1- Ver The Philosophy of Design, de Glenn Parsons.

2- Uso o termo na acepção que lhe deu Roland Barthes.

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10 Anos

Vai fazer dez anos que saiu o Design em Tempos de Crise. Foi aqui no Porto no dia mais frio do ano. Nevou com abundância. O lançamento foi no Passos Manuel. A primeira edição, que tinha uma borda vermelha e moedas entre as páginas, esgotou em menos de um mês. A segunda, borda verde-azul, notas de banco entre as páginas, poucos meses depois.

Dez anos depois, a crítica de design em Portugal continua miserável, à beira da extinção. Nunca se escreveu tanto sobre design mas o que aparece é absorvido pelo meio fechado da academia e ali desaparece, sem nenhuma divulgação. Ao contrário da Arte ou até do cinema que têm sabido criar projectos de crítica, escrevendo de propósito ou absorvendo produção académica, o design pouco ou nada consegue produzir de comentário.

As revistas que havia, como a Pli, acabaram. A Modes of Criticism é um exemplo solitário, embora o seu âmbito seja mais internacional e cosmopolita do que local.

Os que faziam crítica há dez anos dedicam-se ao comissariado, acompanhando uma tendência geral. Fazem-se exposições onde antes se escrevia. Alguns espaços nos jornais, mais de divulgação que de crítica, como o de Guta Moura Guedes no Expresso, funcionam num modelo de comissariado, apresentando uma selecção comentada de objectos, quase uma pequena exposição.

A maioria da pouca crítica feita nos jornais a objectos de e sobre design acompanha também a tendência geral para ser produzida por gente que também escreve sobre mais assuntos. Não é muito diferente da crítica de música, de cinema, de literatura ou até de arte. Em geral, não deixa as coisas em pior estado do que já estão. Em outros, consegue acumular todos os piores defeitos da crítica e jornalismo actuais (conservadorismo de conteúdo, desactualização da forma, metodologias obsoletas, desprezo pelo rigor, uso ostensivo da crítica como arma de arremesso ou de silenciamento) e junta a isso todos os defeitos do discurso menos interessante e actualizado sobre design (abordagens biográficas sobre os heróis aceites da disciplina, salganhadas mal misturadas de cocabichices vindas daquela área turva que se confunde com a história do livro, a edição, da tipografia, da arquitectura, etc. mas não chega bem a ser.)

Como dizia mais atrás, o problema não é falta de gente a escrever bem e de modo inovador sobre design. Há muito boas teses e dissertações mas não saem da escola. As que saem para o mundo exterior, através de editoras generalistas, não são as mais arriscadas ou interessantes. São mais confirmações do que já se sabe do que investidas em territórios ou métodos novos. É sintomático que a parte mais interessante destes objectos acabe quase sempre por ser a dos dados em bruto, a das entrevistas por tratar, mais do que a argumentação construída a partir dessa matéria-prima. Ilustra a falta de inovação ou mesmo de pertinência teórica.

Culpo, por um lado, a maneira artesanal e ingénua como se pratica a história do design. O design tem os seus formatos favoritos de tratar a história, tradicionalizados pela repetição, porque dão jeito, porque são fáceis – entre eles o portfolio, o manual, a cronologia, a monografia biográfica. São formatos semelhantes aos usados para promover o design e os designers, adaptados para outros fins. Por outro, culpo a massificação da investigação de Bolonha, que reduziu a metodologia a uma formatação genérica e apressada. Disciplinas mais consolidadas que o design sobrevivem mal – mas ainda assim melhor. O design limitou-se a exportar os seus maus hábitos para um contexto novo.

A melhor tese de doutoramento que li nos últimos dez anos foi a do António Gomes sobre Paulo de Cantos. Ponho a do Victor Almeida, da Fbaul, em segundo. A única separação que as hierarquiza é pessoal e estética. Tem que ver com os meus próprios gostos em termos teóricos. Num meio como o design onde se usa a biografia por defeito, no seu grau mais básico, fácil e acrítico, a tese de Gomes é exemplar. Evita os problemas do costume. Não parte do designer, de uma pessoa eleita como representante heróico da disciplina, como um ponto de apoio mágico para explicar tudo, mas tenta perceber uma vida e uma obra tal como determinadas por um conjunto complexo de contextos históricos, institucionais, etc.

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Contra a barra de progresso

Tinha uma professora que me dizia que, quando se escrevia uma crítica, se devia dizer quem era o artista, qual o contexto e não me lembro de mais nada. Tentei nunca seguir essa ou outras «listas de compras». Tenho tiques de estrutura a escrever, claro, que preferia não ter. Sempre que possível, tento identificá-los e eliminá-los. É difícil. Mas prefiro esses clichés inadvertidos aos que se praticam de propósito, que se ensinam como se fossem coisas sérias.

Fico com uma boa dose de inveja de The Earth Dies Streaming, porque é bem escrito, porque cada recensão, das pequenas às maiores, é sumarenta e vibrante. Antes de ler não se sabe onde o crítico quer chegar, nem como vai lá chegar. Usa referências teóricas e sabe a sua história mas não as emprega por norma, apenas quando fazem sentido, quando são necessárias. A História do Cinema é tão depressa invocada ou descartada como um sonho, como a descrição de uma sessão de cinema, como uma anedota pessoal ou um mito. É uma escrita frondosa mas económica, onde mesmo meia dúzia de linhas dizem muito mais do que seria razoável esperar de tão pouca coisa.

Por comparação, a maioria da crítica lê-se como um formulário preenchido, que tem sempre a mesma duração, a mesma estrutura, as mesmas intenções ou os mesmos critérios.

The Ballad of Buster Scruggs, o último filme dos irmãos Cohen, lembrou-me até que ponto ando viciado em barras de progresso, um hábito derivado de assistir a filmes no computador. Saber quanto falta para terminar é um grau zero de spoiler, é algo que nos sossega um pouco, talvez demais. Um volte-face a uma hora do fim dificilmente será definitivo. A barra de progresso é um indicador da nossa falta de tempo, do nosso tempo formatado, e aparece em todo o lado. Um romance lido no kindle tem a sua barra de progresso, um ensaio no medium anuncia-nos o tempo estimado de leitura. A Balada de Buster Scruggs, usando o formato velhinho da antologia temática de pequenas narrativas, baralha-nos as expectativas. Sabe-se que as histórias vão terminar mal, mas nunca se sabe como ou quando se vai chegar ao triste fim. Fantasiei até que seria interessante rodear um filme de pseudo-imagens, de outros filmes, de modo que o espectador nem avançando com o rato sobre a barra de progresso soubesse o que vinha para a frente ou quando o filme terminava. Havia uma estratégia semelhante quando se importavam livros proibidos durante o período da inquisição em Portugal. Disfarçava-se uma obra, compondo-a dentro de outra, com uma falsa introdução e conclusão.

A crítica de Hamrah com as suas oscilações de formato, de temática e de método tem o efeito semelhante de apanhar o leitor desprevenido, de não lhe dar uma lista de compras. É o tipo de escrita que só muito dificilmente será plagiada num trabalho de escola, porque não responde a perguntas concretas, não dá estrelinhas, tem a sua própria agenda a cumprir. Vale a pena segui-la nos seus próprios termos.

Fico com uma boa dose de inveja de The Earth Dies Streaming, porque é bem escrito, porque cada recensão, das pequenas às maiores, é sumarenta e vibrante. Antes de ler não sabe onde o crítico quer chegar, nem como vai lá chegar. Usa referências teóricas e sabe a sua história mas não as emprega por norma, mas apenas quando fazem sentido, quando são necessárias. A História do Cinema é tão depressa invocada ou descartada como um sonho, como a descrição de uma sessão de cinema, como uma anedota pessoal ou um mito. É uma escrita frondosa mas económica, onde mesmo meia dúzia de linha dizem muito mais do que seria razoável esperar de tão pouca coisa.

Por comparação, a maioria da crítica lê-se como um formulário preenchido, que tem sempre a mesma duração, a mesma estrutura, as mesmas intenções ou os mesmos critérios.

The Ballad of Buster Scruggs, o último filme dos irmãos Cohen, lembrou-me até que ponto ando viciado em barras de progresso, um hábito derivado de assistir a filmes no computador. Saber quanto falta para terminar, é um grau zero de spoiler é algo que nos sossega um pouco, talvez demais. Um volte-face a uma hora do fim dificilmente será definitivo. A barra de progresso é um indicador da nossa falta de tempo, do nosso tempo formatado, e aparece em todo o lado. Um romance lido no kindle tem a sua barra de progresso, um ensaio no medium anuncia-nos o tempo estimado de leitura. A Balada de Buster Scruggs, usando o formato velhinho da antologia temática de pequenas narrativas, baralha-nos as expectativas. Sabe-se que as histórias vão terminar mal, mas nunca se sabe como ou quando se vai chegar ao triste fim. Fantasiei até que seria interessante rodear um filme de pseudo-imagens, de outros filmes, de modo que o espectador nem avançando com o rato sobre a barra de progresso soubesse o que vinha para a frente ou quando o filme terminava. Havia uma estratégia semelhante quando se importavam livros proibidos durante o período da inquisição em Portugal. Disfarçava-se uma obra, compondo-a dentro de outra, com uma falsa introdução e conclusão.

A crítica de Hamrah com as suas oscilações de formato, de temática e de método tem o efeito semelhante de apanhar o leitor desprevenido, de não lhe dar uma lista de compras. É o tipo de escrita que só muito dificilmente será plagiada num trabalho de escola, porque não responde a perguntas concretas, não dá estrelinhas, tem a sua própria agenda a cumprir. Vale a pena segui-la nos seus próprios termos.

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Espectador de alta competição

A melhor peça de crítica de arte que li em 2018 escreveu-a Zadie Smith. Apareceu-me na sua última colectânea de ensaios, Feel Free. Eu já suspeitava que dali, daquele livro, ia sair coisa boa. Reservei-o na loja apple muito antes de sair e vou-o lendo aos pedacinhos. E um dos melhores pedacinhos é «Killing Orson Welles at Midnight», que não sei se é crítica de arte, não sei se é crítica de cinema, só sei que é muito bom.

Eu sou suspeito, sou fã dos ensaios de Smith, pelo menos desde da sua anterior antologia, que me cativou logo desde o título, tão bom, tão feito à medida do que são os melhores entre os melhores ensaios, «Changing My Mind», que se poderia traduzir por mudar de ideias. Os melhores ensaístas não mudam as ideias de quem os lê, mudam publicamente as suas próprias. Lê-los é como ver um nadador de alta competição a fazer alongamentos, a aquecer, a tentar uma coisa nova num treino.

«Killing Orson Welles at Midnight» é sobre a obra The Clock, de Christian Marclay, um filme de vinte e quatro horas onde cada minuto é construído a partir de referências a esse mesmo minuto em todo o tipo de filmes. Smith dedica-lhe um exercício cada vez mais raro nos tempo que correm que é o de simplesmente ser uma espectadora. É um exercício feito na primeira pessoa, como só poderia ser. Que envolve encaixar o filme dentro da sua própria vida, dos seus horários, das idas à creche – aqui em Portugal, onde a pior crítica mascara a sua mediocridade e mediania com tiques neutros, académicos e funcionários, há quem ache ensaios deste tipo como um exercício de vaidade.

Ser espectador a sério é uma experiência que se faz com o corpo todo, com a vida toda. Era algo que sabiam críticos e ensaístas seminais como Diderot ou o seu melhor descendente, Baudelaire. Não teriam futuro ou emprego dentro da crítica portuguesa que emperrou com gosto num modo funcionário de viver, numa versão aguada, domesticada, do tipo de escrita que se praticava na October. Se não se usa o estilo, não se é levado a sério.
É um gosto ler este e outros ensaios de Zadie Smith. É como ouvir música nos anos oitenta, quando era preciso esperar que chegasse a Portugal numa longa cadeia de importação, quando desejar boa música ao vivo acontecia num vazio tão grande e escancarado que consumia a própria possibilidade de se fazer música, quando cada músico em Portugal era só um tipo de espectador mais impaciente e performativo.

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Brexit e Trump, Dois Pesos e Duas Medidas

Quando foi do referendo do Brexit, que aconteceu logo a seguir à crise europeia, confesso que não tinha (e ainda não tenho) grande fé na Europa. Num referendo semelhante, eu só votaria para ficar na Europa por medo do que nos poderia acontecer na economia, porque estar na Europa ainda era, e é, algo que mete medo. Agora, votaria com mais certeza para ficar mas continuaria a ser por medo. Já não da economia mas de outros sustos.

Daí que compreenda o que levou muita gente de esquerda a não gostar da Europa, inclusive o Corbyn ou o PCP por aqui. Não acho, como muita gente acha, que o voto no Brexit tenha sido só xenófobo mas houve muito voto anti-europeísta – coisas distintas, que era boa política saber distinguir. O que se percebeu com a discussão em torno do Brexit é que criticar a Europa tornou-se para muita gente de esquerda inaceitável.

Curiosamente, as mesmas pessoas que dizem que votar contra a Europa é xenófobo já dizem que votar em Trump é um voto motivado por questões laborais e ansiedades económicas, e que devíamos esquecer o racismo e a xenofobia (em nome de ganhar eleições). Acho que há muito má consciência, muita hipocrisia e tacticismo de meia-tigela à esquerda.

O meu ponto é que houve um duplo standard na reacção de certa esquerda ao Trump e ao Brexit. As mesmas pessoas que assumiram desde logo e sem mais a xenofobia do voto no Brexit já estavam pouco tempo depois a dizer que se devia perceber «as verdadeiras motivações» de quem votou no Trump.

Ora, vendo friamente, é bastante mais plausível ver motivações complexas num referendo sobre a Europa, que pode realmente ter as tais ansiedades de classe e económicas, do que na eleição de Trump, que vinha com uma agenda explicitamente racista, xenófoba, machista, etc., que tinha um estratega nazi (Bannon), etc.

O referendo sobre a permanência na Europa, por mais que tivesse sido badalado pela ultra-direita inglesa permitia outras motivações. Na altura, houve uma série de depoimentos sobre gente que votou contra a Europa por questões de economia, de emprego. Posições muito próximas das do PCP aqui. Também li gente que votou no Brexit contra as políticas de imigração da Europa, não no sentido de serem abertas mas demasiado restritas.

O que acho curioso foram as maneiras retorcidas como se tentou ver isto como um voto xenófobo – o que não aconteceu com o Trump. Pela minha parte, acho que o trabalhismo de Corbyn esconde muita grunhice mascarada de preocupações económicas e de classe. Há muita luta contra o neoliberalismo que disfarça racismo, homofobia, anti-semitismo, chauvinismo, etc. Basta ver os que criticam o feminismo ou as reinvidicações LGBT apenas porque os vêem como neoliberais – não porque o sejam, mas apenas porque não dão jeito.

Deveria haver mais cuidado em perceber que há causas e motivações complexas, mesmo quando se trata do voto xenófobo. Todo o cuidado que se tem em entrevistar grunhos de bonés vermelhos em diners na rust belt pura e simplesmente não existiu no referendo do Brexit. Houve uma diabolização instantânea de quem votou para sair. Quem quer que exprimisse a menor dúvida em relação à Europa ou ao projecto europeu era logo apelidado de xenófobo, e isso aconteceu aqui mesmo em Portugal.

No dia seguinte ao referendo, houve um colectivo grito de «xenófobos e racistas». Tive discussões gigantescas só por ter chamado a atenção que havia votos minoritários contra a Europa mas cuja motivação era económica, laboral.

Pelo contrário, em relação aos Estados Unidos ainda há uma corrente muito forte, associada ao Bernie Sanders, que acha que não se deve alienar os eleitores chamando-lhes racistas, xenófobos, etc. Encontra-se isso em gente como o Mark Lilla, liberais que denunciam o politicamente correcto, etc. Que criticam as identity politics e as tentam colar a Hillary, que vêem o feminismo e o activismo lgbt como um desvio de atenção do que interessa verdadeiramente que é a luta de classes, a única coisa que unificará a esquerda, blá, blá.

Desconfio que a maneira como essas ideias se engancham aqui em Portugal tem muito que ver com experiências da diáspora em cada um dos países: em Inglaterra, o imigrante português é o tipo estrangeiro do sul da Europa que vem roubar empregos. Ou seja, em Inglaterra o português é alvo da xenofobia. Nos Estados Unidos, a emigração portuguesa teve uma longa luta a distanciar-se de negros e latinos. Tornou-se, para todos os efeitos, branca e portanto, mesmo quando vota democrata, tende a votar como a classe operária branca.

(Este é um texto construído a partir de comentários a um post no muralRaquel Ribeiro, respondendo a alguns comentários do Ricardo Noronha. Fiz esta espécie de frankenstein para não me esquecer do que tinha escrito, não para isolar isto da discussão que o motivou.)

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Uma lista de listas sem Quase Nada

Nesta altura do ano, os críticos fazem listas do que gostaram no ano. Eu pela minha parte faço listas dos críticos que gostei de ler este ano. Sou um grande fã do ensaio crítico.
 
E não, não me consigo lembrar de quase nada que tenha gostado de ler na imprensa portuguesa, quase nada que me tenha parecido fresco na forma, no tratamento ou no assunto. Pode ser que me tenha escapado alguma coisa e aceito sugestões, em particular na área da literatura, da arquitectura, da arte ou do cinema. Não li nada sobre design que me tenha ficado.
 
Do que gostei? Leio o André Tavares sobre arquitectura. Da revista Electra em geral, um serviço exemplar de António Guerreiro, e de um ensaio do Pedro Levi Bismarck sobre turismo. Não é bem crítica, tal como não são bem crítica os artigos do André Barata, de que também gosto. Espero os posts do facebook do Bruno Baldaia como se fosse um assinante. É o pouco que me vai ficando.
 
Da crítica propriamente dita, acho que por aqui se tornou uma formalidade. Parece aquele discursos que os presidentes da junta repetem qualquer que seja a ocasião. Só mudam alguns substantivos, o resto fica tudo igual. E quase que se diz, «ainda bem». Porque quando a crítica arrisca, enche o peito e se acha dura, fica à vista a imensa preguiça mental, o agressivo conformismozinho.
 
Não há indício maior dessa preguicite agressiva, dessa vontade de não pensar, do que a constante invocação da ameaça do «políticamente correcto». Só esta semana no Expresso, e sem andar à procura, contei gente a rezingar contra o politicamente correcto por duas vezes. É uma maneira delicada, elíptica, politicamente correcta, de rezingar contra os que acham que vale a pena discutir a igualdade de género, entender a literatura escrita por afro-descendentes nos seus próprios termos, não gozar com ciganos ou homossexuais em nome da tradição.
 
É uma má vontade contra perceber que os critérios estéticos mudam e ainda bem que mudam. A crítica portuguesa acomodou-se ao seu papel tradicional de guarda alfandegário. Pratica o que pensa ser divulgação quando na verdade é um sistema de filtragem. É um espectáculo triste ver quase tudo o que se produz de mais interessante e vital ser carimbado de politicamente correcto. E o que passa, o que tem que passar, ser reinterpretado de acordo com os critérios ultrapassados , rançosos do lugarelho.
 
Em contraponto, para quem queira uma crítica inventiva e celebratória, basta ler a New Yorker ou o New York Times. São dezenas de formas, de formatos, de estilos, de ideias. Um dos ensaios que mais gostei de ler este ano apareceu na New York e era uma apreciação da banda de prog rock Yes sob a forma de uma carta de resposta a um leitor deprimido. Dos formatos que me dá mais gozo ler são os recaps, as anotações que se faz a séries de televisão e que, quando são bem feitas, nos aumentam o prazer de espectador. Por aqui, não há nada disso, nem pode haver.
 
Enquanto nunca se fez tanta crítica interessante, combativa, progressista, aqui carpe-se o fim da crítica, garante-se que se vive num período pós-crítico porque se leu isso num livro qualquer há dez anos. É uma tristeza.

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2019 ainda…

Além da exposição da bienal de Design, preparo uma exposição mais pequena da qual ainda não posso dizer muito, excepto que é sobre publicações. Para além disso, preparo também dois livros, um deles associado à bienal, o outro sobre publicações.

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2019

O próximo vai ser para mim um ano de exposições. Ando a preparar «A Força da Forma» para a Porto Design Biennale. É uma exposição que tenta tratar a política não como um tema do design mas algo que lhe faz parte da essência e lhe determina a identidade a cada passo. Sem querer adiantar muito, trata do modo como o design se transmite em Portugal, como o design cá entra, como sai, como se desloca, tanto no espaço como no tempo. Trata de inspiração, de tradução, de roubo, de reaproveitamento, de influência. Trata de estilo e de gosto.

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Percorrer a dor em banda desenhada

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Faz parte de ser pai uma extensa colecção de medos, o maior deles a morte dos filhos.

Já não faço banda desenhada há muito tempo, mas ainda me interesso por teoria, em especial livros que ensinam a conceber argumentos. Fiquei muito feliz quando encontrei o livro «The Art of the Graphic Memoir: Tell Your Story, Change Your Life» (2018). Comprei-o de imediato. Conheci o seu autor Tom Hart num Salão de Banda Desenhada do Porto, ainda na década de noventa. Ele veio num grupo associado à editora Black Eye (salvo erro), que incluía Jason Lutes e Jessica Abel. Já era fã de todos eles em especial do Tom. Trocámos desenhos, saímos à noite. Eu estava em trabalho, eles também, mas foi das coisas mais próximas que tive daquelas férias que se tem quando se é adolescente e se lembram para sempre.

«The Art of the Graphic Memoir» é uma espécie de making of pedagógico de «Rosalie Lightning» (2016), a história que ele escreveu e desenhou sobre a morte súbita da sua filha, com pouco menos de dois anos em 2011. Hart nunca tinha feito histórias autobiográficas, esta foi a primeira, a maneira que encontrou de lidar com a pior das tragédias. Demorei dias a decidir-me a lê-la. É muito difícil enfrentar esse medo, mesmo quando é ficção, mesmo quando acontece a outros. É um terror supersticioso, dos piores.

Li-o apenas porque o conheci. De outro modo, ser-me-ia impossível. No fim, não me arrependi. Uma vez que se decida começar, vale a pena terminá-lo. Tem que se terminá-lo. É sobre o percurso de um luto e é também, em si mesmo, um objecto de luto. Passa-se por momentos terríveis mas chega-se ao fim e sente-se a serenidade possível, a aceitação possível.

É a tentativa de encontrar uma causa e um sentido na morte repentina, arbitrária de uma criança de dois anos, um ser humano que está no limiar da linguagem que percebemos e nos percebe de um modo primordial, mas que deixa tantas coisas de fora. Quando não há um aviso, conclui Hart, tudo pode ser e não ser um aviso. Uma frase repetida dias antes que não se sabe o que queria dizer. Uma última foto. Não me lembro de nada antes dos meus dois, três anos. É terrível imaginar uma vida inteira ali, nesse ponto cego da memória. Esta memória gráfica é também isso, uma tentativa de lembrar essa pequena vida.

Quando o conheci, Tom fazia as suas bds enquanto guardava um parque de estacionamento à noite. Não conseguiu sair dessa precariedade estes anos todos. Esta é a história de um luto prostrado em sofás de casas de amigos, transportado em carros emprestados com maus radiadores, pago com multibanco com o fundo das contas.

É um objecto que não quero resumir, cheio de momentos enormes, terríveis, descritos com uma certeza e uma delicadeza que nos deixam a tremer. Um objecto sem oportunismo, sem falsos sentimentos.

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E ainda…

Ainda tenho o Vasco Rosa a moer-me a cabeça via mail. Tenho alguma dificuldade a imaginar o que se passa na cabeça de alguém que, quando lhe chamam a atenção de um erro que publicou à vista de toda a gente num jornal, prefere vir chatear a pessoa sobre quem se enganou via mail a simplesmente corrigir o erro.

Acho piada que a resposta genérica de Rosa a quem lhe responde às críticas seja achar que ficam ofendidos pelo que escreveu. Tem razão. É uma sensação muito estranha ser avaliado com sobranceria por um tipo que não tem o professionalismo de corrigir um erro factual básico e prefere vir debitar insultos para a conta de mail da pessoa sobre quem inventou factos.

Pouca gente se dará ao trabalho de verificar o que escreve um crítico, se o próprio crítico nem se dá a esse trabalho. Estranhamente, as pessoas ainda acreditam que um jornal se responsabiliza pela qualidade do que mete em pixeis. Ou então estão-se nas tintas. Se um colega meu na universidade publicasse um erro factual num paper, numa tese, ou no que fosse, e se, em vez de o corrigir, se dedicasse a moer a cabeça de quem o assinalou, seria alvo de muita chacota – e isso seria o menos.

(Já nem lhe leio os mails. Basta-me ler o remetente.)

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Ano Zero

Já tínhamos ido ao hospital por causa das contracções mas mandaram-nos para casa. À segunda, ficámos. Na sala de espera, sozinho depois da Susana entrar, esperei, rodeado de fotos gigantes de bebés, cada um com o seu nome e a sua data. As enfermeiras ensinaram-me um caminho complicado para a casa de banho dos pais que passava por detrás dos quartos, uma passagem secreta, estreita entre uma parede vazia e janelas altas por onde viam os parques de estacionamento vazios e mais longe as formas eriçadas de triângulos dos pinheiros. Ensinaram-me também outras coisas que entretanto esqueci, e disseram-me muitas vezes que agora era esperar. Tinha tanto sono das noites de contracções que adormeci numa cadeira. Sempre que nos disseram que agora era esperar, alguma coisa acontecia e o processo acelerava. Chegaram-me a mandar embora para casa para segundos depois me dizerem que as águas tinham rompido, que já se via o cabelo. Que era agora. E foi. Saiu num instante, inteira, sem transição, como um objecto a aparecer de esticão num filme mudo. Embrulharam-na num pano verde e encostaram-na entre uma mesa e a parede, a chorar, a chorar. Um ano atrás começava a maior noite do ano durante a qual havia de nascer a Rosa, tão pequenina.

Quando apareceram no facebook as primeiras imagens do vestido, eu vi-o em listas negras sobre fundo azul, mas descobri que vendo-o no monitor inclinado do portátil, a apanhar o máximo de reflexos, ele ficava dourado sobre fundo branco. Também acontecia o mesmo se visse apenas uma pequena faixa de cada vez. Ao fim de umas tantas vezes, já não o conseguia ver em azul e negro. Nunca mais consegui. Com a Rosa foi o mesmo, deslizei para um novo modo de percepção. Foi como se o que era fundo numa vida anterior se tivesse tornado figura. Passei a ver os filmes de adolescente sob o ponto de vista do pai. Comove-me ver bebés.

Penso muito no About Time, um dos piores filmes do Richard Curtis, o do Quatro Casamentos e Um Funeral, sobre um homenzito que descobre que lhe basta querer para voltar atrás no tempo. Graças a esse dom, vai conquistando por tentativa e erro, muitas tentativas e erros, mulheres, até que encontra a certa. Irritou-me que fosse um talento herdado apenas pelas homens da família, que as mulheres fossem apenas peões passivos, ignorantes, daquele jogo. Havia porém um detalhe pungente: uma vez tendo filhos, não se podia alterar o passado antes do seu nascimento porque se corria o risco de voltar ao presente e ter um filho diferente, resultado de uma combinação distinta de espermatozóide e óvulo. Ou nem existir de todo.

Um mau filme que apanhava bem um único e grande pormenor. Depois dos filhos, o passado já é só e realmente o passado. Penso muito nele, nos meus tempos de escola, da primária, do ciclo, do liceu, mas vejo-me a mim mesmo com os olhos de um pai, tal como vejo os meus primeiros colegas, os meus primeiros amores. Vejo-me como um filho.

Sim, é nisto tudo que penso ao entrar na segunda noite mais longa desde que ela nasceu. Penso no ano que passou. Só faz anos amanhã, mas faz mais sentido escrever isto agora, quase no fim do primeiro ano, do ano zero. Amanhã será outro.

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Balanço

Em jeito de balanço, este ano bloqueei muito menos gente no facebook. Aliás, a pior discussão que tive no que diz respeito à falta total de qualidade nem foi tida aqui mas por mail, que é uma variante ainda mais estúpida daquelas pessoas que têm vergonha de discordar em público e vêm-me chamar nomes através de instant message. Não há paciência. Já nem lhes respondo.

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Desigualdade de Género

Por cá, será muito provavelmente o mesmo. A minha própria opinião sobre o assunto que expus no livro «O Design que o Design Não Vê», é que a própria natureza do design, aquilo que se acredita ser o design, é definido em parte para excluir práticas onde as mulheres são mais visíveis. Para se perceber a desigualdade dentro do design, é preciso reflectir sobre a natureza do próprio design.

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Guarda Serôdio

Ainda não sabia bem o que fazer no meu doutoramento. Estava a pensar em ética no design mas considerava mudar de tema, e apareceu a oportunidade de inventariar o acervo de uma das grandes figuras do design português, ainda vivo mas bastante doente. Como costuma acontecer nestes casos, havia alguma crispação na família sobre o que fazer e acabei por deixar a coisa cair ainda antes de começar. Não me arrependo.

Tenho muitos colegas que trabalham com velhos designers e as suas famílias. Os relatos metem-me sempre aflição. As pessoas são muito protectoras e, mesmo quando se desenvolvem cumplicidades, é comum ir tudo por água abaixo por um mal entendido, uma palavra mal percebida, um rumor. É difícil lidar com viúvas e familiares, confidenciava-me um colega que se especializou em história do design português. Será o mesmo na fotografia, no cinema, nas artes plásticas. Há um acervo. Há um guardião. Há muita cautela.

O mais preocupante é quando o próprio investigador se arvora por sua vez em guardião do acervo, começando a policiar o que é produzido sobre o assunto, inviabilizando ou até insultando quem se atreve a usar o seu trabalho de investigação chegando a conclusões «não-autorizadas».

A investigação sobre fontes primárias em design é bem intencionada, mas tosca e pouco informada. Fazem-se entrevistas, vai-se jantar com os veteranos, organiza-se o acervo, registam-se os relatos anedóticos e pouco mais. Faz-se a coisa a olho ou, na melhor das hipóteses, de acordo com a metodologia genérica usada nos mestrados e doutoramentos. É a talho de foice mas ainda assim tem valor pelo inventário e pela catalogação. O problema é mesmo quando se acha que esse é o fim do caminho.

É preciso todo um trabalho secundário de sistematização e interpretação dessas fontes primárias que só muito raramente é feito. Perceber tendências, estudar influências, regularidades, etc. A consequência é uma história atomizada, assente em nomes próprios, em portfolios, em detalhes anedóticos, que é pouco mais do que inútil quando nem sequer pode servir de matéria prima para estudos mais aprofundados, porque aparece logo alguém a protestar que se está a desrespeitar as fontes, que é ignorância, etc.

Confesso que durante bastante tempo tolerei o melhor que pude esta atitude, mas já não tenho paciência. A vida é curta.

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Vago

Vou ser vago. O design e conteúdo de certa coisa piorou depois de uma remodelação. Pensei escrever sobre o assunto, mas espreitei a ficha técnica e desisti ao saber que um dos autores é um imbecil com o qual já me cruzei algumas vezes.

Prefiro não escrever sobre o trabalho de pessoas que não suporto, sobretudo se não presta. A crítica negativa que me sabe melhor fazer e ler é sempre uma descoberta. A que despacha com impaciência aquilo de que não gosta é uma facilidade e um chavão.

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Sobre esquecer

Não sei as datas ou os nomes. Um trisavô ou tetravô meu terá morrido de súbito, à mesa da família na Alemanha. A filha mais velha foi encarregue de levar o corpo para Inglaterra, para ser enterrado no local onde nasceu. O caixão chegou mas a tia desapareceu. Nunca foi encontrada. Não sei quem me contou a história. Não sei se é verdade. Não sei se a minha memória a alterou. Penso muitas vezes na história da tia desaparecida, vejo-a como uma constelação de fragmentos, que incluem os velhos álbuns fotográficos, a situação (mas não as pessoas) de quando ouvi a história pela primeira e única vez, a imagem de um navio de passageiros, tudo a oscilar como as peças de um jogo antigo do qual se perderam as regras.

Tenho muitas memórias assim. De histórias, filmes, livros, que li uma única e marcante vez e não voltei a encontrar nunca. De pessoas, que esqueci ou que morreram. De sítios, aonde sei que será muito difícil regressar. Tenho alturas do ano em que isso tudo me dói.

É possível que a mania de coleccionar livros tenha que ver com isso, com tentar refazer a forma das constelações incompletas, reconstruir as regras dos jogos antigos. Os meus livros favoritos são os que me servem como lembrança do percurso que me levou a eles. Servem como paliativo de já não os poder procurar de novo.

Com a internet, é mais fácil encontrar o que se pensava perdido para sempre. Não se descobre tudo, apenas o suficiente para nos fazer querer ter mais. Encontrar o livro que um colega nos mostrou quando ainda nem sabíamos ler. Uma cópia da banda desenhada que a mãe ou a avó ofereceram à caridade. O nome do sítio onde se passaram aquelas férias antes dos nomes dos sítios serem importantes. Encontra-se uma foto da primeira pessoa de quem se gostou, há muitos anos, muitas cidades e muitas escolas atrás.

A memória na era da internet é um vício que não se larga. Que se alimenta a si mesmo, uma acumulação irreversível de memória que tem um horror ao vazio, que não larga nunca nada. Já não é possível descartar o lixo, o que não serve, o que faz mal, os pedaços toscos de teorias que já se sabe que estão erradas, de projectos que falharam. A obsessão com uma memória absoluta é o que sustenta quem acha que se deve ouvir outra vez quem acha que a terra é plana, que as vacinas provocam o autismo, que vale a pena dar a palavra a nazis. Qualquer coisa que subtraia a esse vício terrível de guardar tudo é um crime e uma censura.

A lembrança do Holocausto, da Primeira Grande Guerra, da Guerra Colonial, do Salazarismo, não são memórias como as outras, não são bibelots vintage. São formas poderosas, gigantescas de luto, de aprender que lembrar nem sempre deve ser reencontrar. Que esquecer também é um percurso.

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Geada

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Comove-me sempre ver campos cobertos de geada ao começo do dia. Eu sei. Dizem-me que a geada é nociva e pode arruinar as culturas. A neve também, mas tem uma imensa máquina de relações públicas a trabalhar por ela. Somos treinados desde o berço para gostar de neve, para a celebrar quando chega. As montras dos fotógrafos transmontanos enchem-se de registos de neve, a fazer vergar os ramos das árvores, sobre as pedras de um regato, nos canteiros dos jardins municipais.

Eu tinha uma tia-avó que não gostava nada de neve. Morreu centenária e lembrava-se com rancor das décadas que o Inverno transmontano era mais frio, em que a neve chegava ou passava o meio metro nas ruas. Era quase um terço do tamanho da minha tia. Odiava em particular um tipo de neve a que chamava buraqueira e que entrava pelas frinchas das telhas e se acumulava nos sótãos das casas. Antes do degelo, era preciso ir de pá e baldes retirá-la, não fosse alagar a casa e apodrecer as madeiras. Quando nós nos descaíamos e falávamos de neve como as crianças falam de neve, a minha tia dizia com a boca muito fechada que não gostava nada disso.

A geada, pelo contrário, ninguém gosta dela. Não enche as montras dos fotógrafos. Não há estúdios de efeitos especiais a investigar como renderizar uma boa paisagem coberta pela geada. Mas eu sinto a sua falta. É um pedaço de nostalgia por trás-os-montes que não se consegue resolver indo às compras. Não é uma alheira. Raramente aparece em fotos ou filmes.

Tenho muitas saudades assim de Trás-os-Montes. São saudades artesanais, feitas à mão e sem os materiais adequados, por mim mesmo, porque não as leio, nem as vejo em lado nenhum. Há uma maneira certa de escrever e de fazer imagens sobre Trás-os-Montes que não cobre quase nada das minhas memórias. O livro de J. Rentes de Carvalho sobre o nordeste é dos piores exemplos. Percebe-se-lhe uma alegria em aparar as partes que não são suficientemente transmontanas.

Reconheço uma obrigação de gostar e de saber certas coisas: os doces regionais, os caretos, os enchidos, a vinha, etc. Mas não deixa de ser uma obrigação. Sinto falta da urbanidade da província, de certo tipo de prédio pós-moderno que só se via por ali, do cimento carcomido no meio da erva húmida e do saibro. São coisas que tendem a ficar fora do enquadramento e que só vemos quando nos fazem depois falta.

Antes do sol bater, a paisagem é dos mesmos tons cinza que realçavam as textura e os emaranhados de suíças e barbas em certas provas fotográficas oitocentistas. Umas silvas cobertas de geada na berma granítica da estrada reclamam uma dignidade que as aproxima do retrato que Júlia Margaret Cameron tirou a John Hershel. Há uma afinidade, uma parecença de família entre os carvalhais geados e as barbas de Marx, Darwin ou William Morris. E quando o sol bate, é como se assistíssemos ao vivo à história das imagens, desde o preto à cor, e finalmente ao cinema e ao vídeo quando o movimento das pessoas e automóveis reanima por fim o mundo.

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Do Que os Homens São

Das decisões que tomei, as maiores são como sopros, ventos que atravessam, que desfazem as palavras, as que dizemos e as que ouvimos. Só com o tempo é possível nomeá-los.

Num jantar em Lisboa perto do intendente ouvi do outro lado da mesa uma conversa que me nomeou um desses sopros, uma dessas decisões do nosso tamanho. Alguém falava da década de oitenta, de como era jovem, numa periferia qualquer, e de como praticamente toda a gente que conhecia se drogava de um modo ou de outro. De como muitos tinham morrido. Enunciou os nomes, ao que as outras pessoas responderam com outros nomes. Nada de novo. Também tinha os meus nomes. Também me lembro dos tempos da escola e dos colegas que fumavam, injectavam e tantas outras coisas. Mas ele continuou, disse que não tomar parte daquilo se tinha tornado numa questão identitária, crucial. Uma resistência. Não se resistia com um vazio mas com algo que o ocupava. Reconheci ali a minha própria resistência sem nome. Apesar de todas as pressões, fui resistindo. Sem uma moralidade ou sequer argumentos sobre a saúde. Sem impôr a minha decisão a outros. Se era tabaco ou charros, dizia quase sem mentir que era a bronquite. Só ali, à espera dos cafés numa tasca de Lisboa, enquanto os outros fumavam lá fora, é que encontrei um nome para uma parte de mim, que até aí era só uma torção física, um movimento.

Há tanta coisa assim sem nome. A primeira parte das nossas vidas é assim, sopros que só ganham palavras muito depois. Toda a dolorosa construção que é aprender a ser homem é talvez o maior desses ventos. Aprende-se através de piadas, de histórias, de rituais, de obrigações. de agressões, de nomes atirados em todas as direcções, nomes que não se percebe. O «paneleiro» que se atira a outro é uma coisa nebulosa que não se percebe. Talvez venha a consciência muito depois que é o uso aberto, público, desses nomes que define a masculinidade tradicional. O homem, o macho, é o único que pode dar esse tipo de nome. De quem os recebe, espera-se a luta ritual ou real, ou o silêncio. Aprende-se uma certa relação com as mulheres, que se não for cumprida é uma derrota, uma vergonha. Aprende-se.

A construção da identidade masculina é uma subcategoria de bullying. Se calhar até é o bullying quase todo. E desde então que lhe tento resistir pior ou melhor, mesmo quando ainda não tinha um nome para essa resistência. Penso muitas vezes que seria muito fácil ter-me tornado num misógino ressentido, a queixar-se da ditadura do politicamente correcto. Tive sorte. A identidade masculina dominante era algo que não me era confortável. Não sei porquê. Se calhar porque na minha família há mais mulheres. Se calhar por o meu pai ter sido criado por mulheres. Não sei.

Tenho a convicção que dos maiores problemas actuais é acreditar-se que se pode apagar a identidade masculina dominante sem erigir nada em sua substituição. Acredita-se que se pode dispensá-la. É esse vazio que os extremismos têm vindo a ocupar, nem digo apenas a alt-right, mas também a direita «clássica», o novo fundamentalismo islâmico, etc. Tudo marcado por uma misóginia identitária que deveria ser um alerta muito forte.

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Pessoas não são Alheiras

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Mais de uma pessoa me perguntou se já tinha lido «Trás-os-Montes, o Nordeste». Queriam saber o que eu pensava, sendo eu um Transmontano. Depois de o ler, percebi que se calhar até nem era, de acordo com os critérios apertados de Rentes de Carvalho. Nasci e vivi em lisboa até mais ou menos aos oito. Mudei-me para Vila Real, onde não tinha família ou amigos. Vim estudar para o Porto aos dezoito. Aos vinte e dois, odiava Vila Real e Trás-os-Montes em geral. Com uma energia negativa persistente, que agora até me espanta. Era mais intensa que a revolta de um adolescente contra os pais. Só começou a desacelerar aos trinta, muito devagar, com a inércia de um comboio sem travões ao qual se desligou o motor como último recurso. Agora, gosto. Dou passeios. Faço romarias aos sítios. Insisto em comer covilhetes e napoleões. Tenho a mesma inflexibilidade de um stalker do Tarkovski numa incursão à Zona – que é dizer, comporto-me como um turista, a paisagem é bonita, as pessoas fazem parte daquela parte da paisagem que nos abalroa se não tivermos cuidado. Percebi que não é só o amor, o sangue ou o contexto em que saímos da nossa mãe que nos une a um sítio. O ódio e a irritação são também bons combustíveis. E quando queimam até ao fim, a indiferença que sobra também funciona. Prefiro-os à condescendência provinciana de Rentes de Carvalho.

É um livro escrito por um bom escritor, embora não bem escrito, que tem um cuidado deliberado, carinhoso, de não escrever nada de novo, interessante ou substantivo. O seu propósito é trilhar o familiar e o tradicional, concluindo que apesar do progresso, do passar do tempo, ainda está tudo no seu devido lugar. O que quero dizer é que se aquela região fosse um filme, o livro de Rentes de Carvalho seria uma peça perfeitamente decente de fan-fiction. Como tal, todas as transgressões, todas as reviravoltas e inversões, acabam por ser epidérmicas. É um género conservador. Dê-se as voltas que se dê, fica-se no sítio onde se começou. A própria linguagem e vocabulário soam mais a escritor que decidiu escrever sobre Trás-os-Montes do que a transmontano. É bucólica. Há regatos. Há palha. Há maleitas. Há caciques. Não há, deliberadamente, cidades. Bragança fica de fora porque é cidade a sério e não província.

Disserta-se do carácter do transmontano, da sua fisionomia, das suas tradições, do seu passado, da sua pobreza, das suas mulheres. Pede-se desculpa, muitas vezes. Pede-se desculpa pelas generalizações, antes de diagnosticar o transmontano como uma condição genética, e lamentar que, nas novas gerações, se distingue cada vez menos o homem do norte do algarvio. Pede-se desculpa às feministas, antes de descrever a mulher típica transmontana, que recebe com resolução e criatividade pancada do marido. E lamenta-se que, nas novas gerações, se distingue cada vez menos a mulher do norte da algarvia. É tudo dito de um modo muito delicado e num vocabulário pastoral. Tudo é educadamente conservador. Cai no erro básico de atribuir ao objecto as limitações que são os do próprio escritor. É como ouvir um médico ou um professor que pensa que ajuda falando sobre si próprio.

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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico.

Autor do livro O Design que o Design Não Vê (Orfeu Negro, 2018). Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

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