The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Monstros e imagens

No Verão de 2023, redescobri a EN304, entre Vila Real e Mondim de Basto. Ia lá muito em miúdo com o meu pai. Depois, parei, até à Susana tirar a carta. Nessas férias, andava preocupado com o caso da História do Design Gráfico em Portugal, que entrava na recta final. Assim, cismava nos problemas mais imbecis da minha área rodeado por paredões verdes e fragas imensas. No fundo, as minhas filhas ouviam a banda sonora da Guarda do Leão. A Susana tem um gosto impecável no que diz respeito a música, em especial portuguesa. Foi nessa estrada que começámos a ouvir a Garota Não. Tornou-se numa das minhas favoritas. É uma música verbal, quase de hip-hop mas que ao mesmo tempo tem métricas que saíram da música de intervenção, de Zeca Afonso ou de Sérgio Godinho, mas novas, polidas, aceradas, afinadas como um modo de locomoção que ainda não tinha sido inventado na década de 1970. Gosto em especial de uma em que se falava de “decretar o fim da arte”. Uma grande letra.

O aperto que senti quando descobri que tinha sido escrita pelo Miguel Tiago.

É uma das figuras mais brutas da esquerda portuguesa. O que escreveu sobre Joacine Katar Moreira podia ter sido escrito por um deputado do Chega. Para além disso, é transfóbico. As merdas que disse sobre a Síria e sobre a Ucrânia são enjoativas.

Demorei uns momentos a decidir que não, não ia parar de ouvir aquela música. A arte, quando faz clique, transcende quem a faz. Não passa a existir num fundo branco abstracto de êxtase. Transporta o que a fez, quem a fez e como feita, mas liga-se a mais gente, emociona mais gente, move mais gente. Passa a ser também de outros. Nossa. Deixa de ser apenas do seu autor ou autora.

Um dia que morra o Miguel Tiago (se eu ainda for vivo), não me esquecerei certamente da agressão terrível e tóxica dos seus actos e palavras, mas não me esquecerei daquele momento cristalino, certeiro, daquela letra. O que significa é que, para o melhor ou para o pior, se tornou algo meu, inscrito nas minhas células.

Pois. Isto também é um texto sobre a Brigitte Bardot. É possível para mim ver o Mépris, de Godard, enquanto me lembro das suas crenças públicas odientas e fascistas. Disse-se que Bardot se tornou um “ícone”, um certo tipo de imagem. Isso significa também que parte do que ela era, até a si mesma escapava. No seu auge, era como uma fonte milagrosa de imagens. Uma imagem que gera imagens. Há aquele filme de Jacques Rozier sobre Paparazzi que tratava disso (não o vi na cinemateca, mas seguindo o conselho de Luís Miguel Oliveira, vi-o num serviço de streaming).

Mas no centro estava ela, que também era fascista, racista, homofóbica, etc. Como podia aquela pessoa produzir aquelas imagens? O segredo das imagens é que não há nada que as ligue ao que representam. O único modo de o fazer é através da violência da lei, e da estritura dos costumes. Mas não são realmente as imagens que são controladas, apenas as pessoas.

A imagem, em suma, é livre. Nem a própria Bardot a conseguiria pôr de volta na lâmpada. Habita em cada um de nós. Nas centenas de fotos, de personagens de BD que inspirou, de pessoas que se vestiram como ela, ou lhe imitaram as cadências da fala. É possível ter isso tudo e a consciência que foi uma pessoa terrível, que dedicou parte da sua vida a agredir e maltratar outros, não de um modo distraído, como um meio para um fim, mas como um fim em si mesmo (o fascismo é isso).

Escrevo isto para pensar sobre o que sinto. Não para o justificar.

Filed under: Crítica

Geada

Comove-me sempre ver campos cobertos de geada ao começo do dia. Eu sei. Dizem-me que a geada é nociva e pode arruinar as culturas. A neve também, mas tem uma imensa máquina de relações públicas a trabalhar por ela. Somos treinados desde o berço para gostar de neve, para a celebrar quando chega. As montras dos fotógrafos transmontanos enchem-se de registos de neve, a fazer vergar os ramos das árvores, sobre as pedras de um regato, nos canteiros dos jardins municipais.

Eu tinha uma tia-avó que não gostava nada de neve. Morreu centenária e lembrava-se com rancor das décadas que o Inverno transmontano era mais frio, em que a neve chegava ou passava o meio metro nas ruas. Era quase um terço do tamanho da minha tia. Odiava em particular um tipo de neve a que chamava buraqueira e que entrava pelas frinchas das telhas e se acumulava nos sótãos das casas. Antes do degelo, era preciso ir de pá e baldes retirá-la, não fosse alagar a casa e apodrecer as madeiras. Quando nós nos descaíamos e falávamos de neve como as crianças falam de neve, a minha tia dizia com a boca muito fechada que não gostava nada disso.

A geada, pelo contrário, ninguém gosta dela. Não enche as montras dos fotógrafos. Não há estúdios de efeitos especiais a investigar como renderizar uma boa paisagem coberta pela geada. Mas eu sinto a sua falta. É um pedaço de nostalgia por trás-os-montes que não se consegue resolver indo às compras. Não é uma alheira. Raramente aparece em fotos ou filmes.

Tenho muitas saudades assim de Trás-os-Montes. São saudades artesanais, feitas à mão e sem os materiais adequados, por mim mesmo, porque não as leio, nem as vejo em lado nenhum. Há uma maneira certa de escrever e de fazer imagens sobre Trás-os-Montes que não cobre quase nada das minhas memórias. O livro de J. Rentes de Carvalho sobre o nordeste é dos piores exemplos. Percebe-se-lhe uma alegria em aparar as partes que não são suficientemente transmontanas.

Reconheço uma obrigação de gostar e de saber certas coisas: os doces regionais, os caretos, os enchidos, a vinha, etc. Mas não deixa de ser uma obrigação. Sinto falta da urbanidade da província, de certo tipo de prédio pós-moderno que só se via por ali, do cimento carcomido no meio da erva húmida e do saibro. São coisas que tendem a ficar fora do enquadramento e que só vemos quando nos fazem depois falta.

Antes do sol bater, a paisagem é dos mesmos tons cinza que realçavam as textura e os emaranhados de suíças e barbas em certas provas fotográficas oitocentistas. Umas silvas cobertas de geada na berma granítica da estrada reclamam uma dignidade que as aproxima do retrato que Júlia Margaret Cameron tirou a John Hershel. Há uma afinidade, uma parecença de família entre os carvalhais geados e as barbas de Marx, Darwin ou William Morris. E quando o sol bate, é como se assistíssemos ao vivo à história das imagens, desde o preto à cor, e finalmente ao cinema e ao vídeo quando o movimento das pessoas e automóveis reanima por fim o mundo.

(texto antigo)

Filed under: Crítica

“Bom dia”



Colecciono imagens de “Bom dia” nas páginas de cidades do interior do país. Fascina-me que haja pessoas cuja relação com a internet seja publicar estes postais. Também gosto de seguir gente que coloca todos os dias as mesmas fotos das mesmas paisagens, acompanhadas de um “bom dia”. Interessa-me perceber porquê. Bem mais do que ler mais um artigo sobre edgelords da extrema-direita. Quando se destacam estes conteúdos, há uma exotização da esfera política na internet que só beneficia a extrema-direita. De repente, a própria esquerda fica tentada a adoptar a agressividade, a toxicidade, a hipérbole cansativa e angustiante. Quando olho para Zohran Mamdani, vejo uma comunicação e um vibe que se aproxima mais destes “bons dias”.

Penso que Mamdani isolou uma postura intrínseca dos youtubers e dos influencers, que é não ter medo de fazer figura de urso à frente do mundo inteiro, mas emprega-se para dizer “bom dia” e não para fazer merdas ofensivas. As muitas imitações de Mamdani falham isso, porque não percebem que a vulnerabilidade é o cerne do processo. Aquilo a que se chama “vitimização” é a versão da direita radical dessa vulnerabilidade performativa.

A incapacidade para navegar essa vulnerabilidade é talvez o maior problema da esquerda. Não há essa abertura para errar em público, para ser vulnerável em público.

A questão não é o homem de esquerda começar a ir ao ginásio (tipo Citarella), a questão é estar disposto a expor-se, a ser frágil e a reconstruir-se. O problema da extrema-direita é que essa fragilidade e vulnerabilidade se concretiza numa agressão a imigrantes, minorias, mulheres, etc. A vulnerabilidade reconstrói-se assim enquanto fascismo.

A alternativa é reconstruir-se de um modo frágil, mas que emancipe e respeite os mais frágeis.

Filed under: Crítica

Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico.

Autor do livro O Design que o Design Não Vê (Orfeu Negro, 2018). Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

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