The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Comprei-o quando saiu. Só o li agora. @magdapatologica é uma das melhores argumentistas da BD portuguesa, que está na sua Era de Ouro. Muito bom sentido de diálogo, de layout, de mostrar o sentimento através da pose. Argumento rico, complexo, cheio de camadas.

Mas isto não é uma recensão. O que me interessa mais neste momento são as imagens. Por esse motivo, interessa-me o luto. Ou mais concretamente a dor (grief) que lhe está associada. Esta BD é sobre essa dor.

Um tema comum nas histórias de Joana Mosi é o modo como se processam sentimentos de dor e de perda através de objectos contemporâneos do dia-a-dia (jogos, discos).

Dizem-nos que se tornou impossível a espiritualidade num mundo afogado em imagens, em objectos copiados industrialmente, onde já não se tem uma ligação directa com a natureza, a lá de fora e a nossa própria. Esta história indicia-nos o oposto. Júlia afunda-se numa dor que recusa até nomear – a palavra “viuvez” e as suas declinações nunca são usadas. Para representar a sua dor ela imagina um mangusto que destrói a horta criada pelo marido. O mangusto é a imagem central do seu luto, que vê em todo o lado, mas também não está em lado nenhum. Só começa a curar a sua dor quando deixa de tentar matar o animal e decide vê-lo, fazendo-lhe uma oferenda de comida. Em outros tempos, dir-se-ia que ela invocou ou foi visitada por um espírito ou por uma divindade que a ajudou a fazer o percurso da dor.

Em parte, esse percurso sempre foi feito a solo. Júlia vive numa época desconfiada das imagens, mesmo que nos ajudem no luto. Desconfiámos da cópia, em especial da cópia industrial. Do sentimento invocado em objectos produzidos em massa. Inventámos até um nome para isso: o kitsch, que não nomeia tanto o objecto como o nosso pudor em relação à possibilidade que uma cópia nos possa ajudar nas tarefas difíceis dos sentimentos.

Um dos obstáculos a ultrapassar nesta história é, usando uma expressão de Gonçalo M. Tavares, “aprender a chorar na era da técnica”. O problema não é a falta de oportunidades para o fazer, mas escolher a imagem certa. A história propõe várias: as cópias do LP de George Harrison ou um jogo vídeo (que é um tema recorrente em Mosi).

Filed under: Crítica

Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico.

Autor do livro O Design que o Design Não Vê (Orfeu Negro, 2018). Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

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