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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Falta de civismo

O que faltou nesta discussão sobre Mário Machado foi civismo. Também faltou ética. Não estou a dizer que a discussão foi mal educada ou desleal, significados habituais dessas expressões. Estou a dizer que o Civismo, crucial numa sociedade liberal, foi secundarizado ao ponto da total irrelevância.
 
Neste contexto, defino civismo como a ética colectiva de uma sociedade, que não é fixada por leis mas por decisões éticas individuais ou colectivas. O civismo determina as nossas atitudes perante o que é comum. Na sua origem, o termo denota a capacidade de sacrifício em prol dos concidadãos.
 
Parece-me interessante mas muito preocupante que a discussão em torno de Mário Machado, do racismo, do sexismo, da homofobia, do chamado politicamente correcto em geral, se centre no plano da lei, ou seja na intervenção do Estado, e que portanto se insiste em temas como a censura ou totalitarismo. Essa insistência na intervenção do Estado demonstra uma desconfiança, uma descrença quase completa na ideia de civismo.
 
Pouca gente coloca a discussão nesses termos. Lembro-me de Miguel Esteves Cardoso o fazer, quando defendeu o politicamente correcto como uma forma de boa educação. Ontem, Vasco M. Barreto fê-lo também no Público.
 
Pelo contrário, enquanto se debateu a ida de Mário Machado à televisão, a discussão resvalou quase sempre para o plano legal, se era proibido pela Constituição portuguesa, ou se era legítimo defender que não fosse, porque atentava à liberdade de expressão. Quando se saía desse plano, a argumentação tornava-se vaga. Perguntava-se se era realmente interessante ouvir Mário Machado, se tinha algo de novo para dizer. O problema era colocado como uma questão estética, de gosto, ou talvez até de consumo: como espectador, não me interessa ouvir pessoas como Mário Machado nos meios de comunicação.
 
É natural que se assuma essa postura dentro de um esquema liberal: por um lado, acredita-se que o Estado não deve censurar todo o tipo discursos, e perante um problema destes, a atitude do liberal, que acredita na troca de opiniões como um mercado de livre troca de ideias, é a de um consumidor, que apoia ou rejeita noções como se estivesse a avaliar a qualidade de um estabelecimento comercial.
 
Mas fica a faltar a dimensão do interesse social, do interesse colectivo, público, o civismo.
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Filed under: Crítica

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