The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Sobre esquecer

Não sei as datas ou os nomes. Um trisavô ou tetravô meu terá morrido de súbito, à mesa da família na Alemanha. A filha mais velha foi encarregue de levar o corpo para Inglaterra, para ser enterrado no local onde nasceu. O caixão chegou mas a tia desapareceu. Nunca foi encontrada. Não sei quem me contou a história. Não sei se é verdade. Não sei se a minha memória a alterou. Penso muitas vezes na história da tia desaparecida, vejo-a como uma constelação de fragmentos, que incluem os velhos álbuns fotográficos, a situação (mas não as pessoas) de quando ouvi a história pela primeira e única vez, a imagem de um navio de passageiros, tudo a oscilar como as peças de um jogo antigo do qual se perderam as regras.

Tenho muitas memórias assim. De histórias, filmes, livros, que li uma única e marcante vez e não voltei a encontrar nunca. De pessoas, que esqueci ou que morreram. De sítios, aonde sei que será muito difícil regressar. Tenho alturas do ano em que isso tudo me dói.

É possível que a mania de coleccionar livros tenha que ver com isso, com tentar refazer a forma das constelações incompletas, reconstruir as regras dos jogos antigos. Os meus livros favoritos são os que me servem como lembrança do percurso que me levou a eles. Servem como paliativo de já não os poder procurar de novo.

Com a internet, é mais fácil encontrar o que se pensava perdido para sempre. Não se descobre tudo, apenas o suficiente para nos fazer querer ter mais. Encontrar o livro que um colega nos mostrou quando ainda nem sabíamos ler. Uma cópia da banda desenhada que a mãe ou a avó ofereceram à caridade. O nome do sítio onde se passaram aquelas férias antes dos nomes dos sítios serem importantes. Encontra-se uma foto da primeira pessoa de quem se gostou, há muitos anos, muitas cidades e muitas escolas atrás.

A memória na era da internet é um vício que não se larga. Que se alimenta a si mesmo, uma acumulação irreversível de memória que tem um horror ao vazio, que não larga nunca nada. Já não é possível descartar o lixo, o que não serve, o que faz mal, os pedaços toscos de teorias que já se sabe que estão erradas, de projectos que falharam. A obsessão com uma memória absoluta é o que sustenta quem acha que se deve ouvir outra vez quem acha que a terra é plana, que as vacinas provocam o autismo, que vale a pena dar a palavra a nazis. Qualquer coisa que subtraia a esse vício terrível de guardar tudo é um crime e uma censura.

A lembrança do Holocausto, da Primeira Grande Guerra, da Guerra Colonial, do Salazarismo, não são memórias como as outras, não são bibelots vintage. São formas poderosas, gigantescas de luto, de aprender que lembrar nem sempre deve ser reencontrar. Que esquecer também é um percurso.

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Filed under: Crítica

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