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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Somos Diferentes, Somos Desiguais

Com a crise, das coisas que vão ficando óbvias é o triste estado da sociedade portuguesa, não em termos da vida acima das posses, da dívida, da confiança dos mercados ou da economia, mas do seu desenvolvimento social, humano e público.

E, sobretudo – sobretudo –, do seu entranhado conservadorismo e imobilidade social, dos modos retorcidos como esta crise está a ser usada como desculpa para colocar as coisas “no seu devido lugar”, apoiando um cotovelo firmemente sobre a tecla de rebobinar do país, mandando em marcha-atrás, aos trambolhões, aos solavancos, gerações inteiras de volta para a pobreza remediada, rural, bruta, de onde mal tinham saído – para uma economia da horta de subsistência e para uma cultura assente numa variedade cada vez maior de tasquitas e cafés.

Vão-se acumulando quase diariamente as estatísticas que provam uma sociedade desigual ao extremo, tornando-se ainda mais injusta e desesperada pela aplicação da nossa própria versão caseira do xarope europeu para a tosse. Pelos vistos, e por comparação com outros países aflitos, vamos ficando ainda mais desiguais, pressionando ainda mais os mais pobres, e diminuindo esse peso progressivamente à medida que se vai trepando na pirâmide social.

E é reveladora também a maneira como se desvalorizam as estatísticas ou estratégias de superar a crise que não aceitem o desemprego como algo consumado, estrutural, tudo o que conteste o consenso neoliberal, conservador (em especial tudo o que se pareça com  Keynesianismo, essencialmente uma maneira de alcançar mais emprego em tempos de crise), argumentando muito simplesmente que a nossa realidade não pode ser resumida por essa coisa das estatísticas, e que somos demasiado pobres para ter até uma esquerda que funcione.

É uma espécie de chauvinismo irracional, moralista e medíocre que descarta sumariamente tudo o que não aconchegue os seus preconceitos, para quem a nossa miséria é, acima de tudo, a nossa identidade, que nos isenta de comparação, de tentar ser como os outros. E, já agora, um slogan com variações, para ser usado com orgulho por uns e como marca de vergonha por quem ainda tenha um restinho de cérebro empoleirado acima do pescoço: Portugal Diferente, Portugal Desigual (Ou Portugal ≠).

Filed under: Crítica, Design, Economia, Política, Prontuário da Crise

One Response

  1. Andava há que tempos a pensar no tema “Identidade Gráfica de Portugal”. Agora até já lhe arranjei uma bandeira:

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