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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Turismo político

A dificuldade principal de fazer arte política em Portugal reside no facto da política estar na moda. Está-se em crise e se as artes querem ter algum modo de presença precisam de se situar politicamente de modo explícito. Um artista português que vá a um evento internacional vai ser necessariamente confrontado com ter vindo de um país que não só está em crise como é um dos símbolos dessa crise. Mesmo responder que se faz arte pela arte será visto como uma afirmação política.

Ou seja, espera-se que a arte em Portugal seja política. Tal como o turista espera que o país seja típico, certo turista espera que seja político. E assim corre-se o risco de produzir o equivalente político de tasquitas gurmê, que não serão para todos, claro (o turista típico não vem pela política), mas ocupam o seu nichozito de mercado. O desafio será, pelo contrário, não limitar a política a um tema, a uma forma de decoração, mas mantê-la viva. Mas como?

Espaço, tempo e recursos são distribuídos de um modo que não apenas político, social ou económico mas também estético. Dá-se dinheiro a projectos  não apenas porque são viáveis mas porque parecem, a uma sensibilidade geral, viáveis. O exemplo mais óbvio é o empreendorismo [sic], onde um certo discurso muito codificado, com um vocabulário e um ritual muito próprios, é uma espécie de pré-requisito à visibilidade de um projecto mesmo que não acrescente nada ao seu conteúdo (ou até o prejudique). O mesmo se pode dizer de discursos como o comissariado dentro das artes. O desafio será encontrar objectos e situações que renegoceiem ou ponham mesmo em causa estes discursos. Que reclamem coisas que não se espera que reclamem.

Gosto do projecto Worst Tours, por exemplo, visitas guiadas ao Porto que mostram e enunciam problemas, porque se instalam de um modo activo dentro do discurso mais geral do turismo e depois, dentro deste, contra um turismo político condescendente, bem intencionado mas formulaico. Aproveita-se de um discurso dominante, os seus formatos, vocabulário e hierarquias,  para o subverter.

Pelo contrário, cansam-me um pouco as reencenações da política enquanto uma certa tradição, eucaristias mais simbólicas do que outra coisa qualquer: falar de 25 de Abril a propósito de Liberdade, do Maio de 68 a propósito de praxes, do SAAL a propósito dos problemas actuais da habitação, etc. É importante lembrar, sim, mas não chega. Em política, o passado deve ser uma caixa de ferramentas versátil e não um breviário de rituais supersticiosos a serem encenados do modo mais autêntico possível.

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Filed under: Crítica

One Response

  1. Mas o objectivo em falar muito de certos eventos e datas (de as banalizar) é precisamente retirar-lhes conteúdo político legítimo, esvaziar o significado até se transformarem em algo ornamental e vestigial.

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