The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O passado não perdoa

via

Enquanto fazia a minha ronda diária pelos blogs e tumblrs dei com a imagem acima, um pastiche evidente dos cartazes turísticos ingleses de entre as duas guerras. Não me pareceu um objecto de época, mas algo subtilmente actual, talvez por causa da abrasão entre a violência implícita do seu título – “Nacionalismo” – e a bucólica imagem de tons simplificados.

Tirando o tom alaranjado, poderia ser uma capa das Great Ideas da Penguin que, até agora, tiveram quatro séries, de tons vermelhos, azuis, verdes e roxos, respectivamente. Assumi assim que poderia ser um duplo pastiche – de um cartaz dos anos 20, 30 e do estilo fortemente inspirado na história do design que David Pearson tem feito para a Penguin.

Um clique confirmou que se tratava realmente de uma das capas de Pearson, e que aquele alaranjado iria ser a cor da quinta série da Great Ideas. Tenho a maioria dos livros destas séries, praticamente uma colecção completa, mas desta vez havia qualquer coisa que não batia completamente certo: confundir um objecto de design com um pastiche de si mesmo é talvez um sinal que se está a resvalar para a auto-paródia ou pelo menos para a exaustão.

No design gráfico, a primeira década do século XXI foi dedicada ao passado, à história e à investigação académica, que se reflectiu em fontes eruditas, ilustração nostálgica e publicações que parecem ter vindo de outros tempos. Neste momento, tenho que confessar que o passado já me cansa. A história interessa-me como um assunto de estudo, não como um catálogo de tendências. Caindo talvez na contradição, sinto um pouco de falta dos anos noventa, quando as coisas eram boas apenas porque não se pareciam com nada, não citavam nada e negavam alegremente – por vezes estupidamente – a história.

No caso da Penguin, acredito que seria uma boa iniciativa voltar a pensar no futuro ou pelo menos no presente. É verdade que a editora vive muito da administração da sua história enquanto imagem de marca, mas a reencenação que faz do passado pode resvalar facilmente para a paródia, como lembra Robin Kinross, um dos raros críticos da estética das Great Ideas, em particular da impressão das capas em relevo que considera serem apenas um “modo refinado de kitsch” – uma caricatura da impressão com tipos de chumbo – lembrando também que toda esta preocupação com o design não se estende à produção mais alargada da Penguin, que continua a mandar cá para fora capas com relevos a ouro, imagens desfocadas de perfis, sóis poentes, etc.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, História, Publicações

3 Responses

  1. Um exemplo mais saudável de diálogo com o lastro da história, parecem-me ser as edições da Criterion. Mas também me parece evidente que entram aqui em jogo as tipificações dos clientes para os quais se destinam estes produtos (um certo “bom gosto”, uma erudição gráfica, mesmo resvalando para o kitsch, tudo acompanhado por um grande cuidado nas técnicas de impressão / transcrição de conteúdos). Em Portugal, enquanto que nos livros as coisas podem ser pobres, mas estão seguramente melhores do que há 20 anos, no caso dos DVDs / BlueRay (mesmo que seja uma área condenada a um desaparecimento relativamente rápido) o cenário é desolador. Claro que conhecendo o que pensam alguns responsáveis pela edição nesta área (e não estou a pensar na Zon Lusomundo) é fácil perceber porque é que as coisas são como são.

  2. rui diz:

    Há elementos gráficos em uso, tidos como modas ou manias, realmente já muito “batidos”. A ideia do sol poente que referes faz-me até lembrar aquela imagem egípcia (muito usada nos relevos e hieróglifos)do sol com raios que actualmente é usado em tudo o que é flyer e cartaz e já o era nos anos 50, 60, 80… e por aí fora. Há elementos quase simbólicos que foram e ainda são repetidos vezes sem conta. E confesso que até já enjoei um pouco. Mas o pior é que (principalmente quando as ideias ou a inspiração já me são escassas) não penso duas vezes e acabo por usar esses elementos seja em sites, newsletters, flyers… jeje

    Penso que o futuro está na arte digital, como a tridimensional. Daí já têm surgido elementos visuais (seja abstractos, seja hiper-realistas) bastante interessantes e completamente novos, pelo menos para o mercado habitual.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: