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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Ética Laboral do Designer

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Quando folheamos catálogos de design gráfico, é difícil perceber se o trabalho que vemos foi realmente concebido pela pessoa que o assinou, se esse trabalho foi pago, ou se o designer que o fez foi ética, política ou religiosamente condicionado. De alguma maneira, os designers parecem existir num plano de mediação abstracta e neutral, acima das realidades mais duras da sua própria sociedade (a mera presença de design gráfico num determinado pais pode ser apresentada como um indicio de liberdade de expressão); no entanto, os modos subtis de repressão e controle que também atravessam as salas brancas e forradas a revistas dos estúdios de design raramente são investigados com rigor.

Os designers tendem a ver o seu trabalho como alheio à moralidade – eticamente neutral. Só precisam de fazer o melhor serviço possível, independentemente das suas crenças e valores morais, ou até das consequências que o seu trabalho possa ter. Quando querem ética, em geral, vão buscá-la a fontes “exteriores”. Por outras palavras: o design é ético quando trabalha para clientes éticos (ONGs), usa materiais éticos (papel reciclado) ou lida com conteúdos éticos (manifestações contra a guerra), permanecendo neutral em todas as outras situações. Os exemplos acima são, sem dúvida nenhuma, causas legítimas – não é esse o problema –, mas ao limitarem as suas preocupações éticas a eles, não estarão os designers a objectificar a ética, limitando-a a alguns temas aceites, enquanto se esquecem que o design é, em si mesmo, uma actividade industrial com éticas e politicas internas que permanecem abaixo do radar?

Identidades corporativas, sites ou revistas são, muitas vezes, criados por grupos surpreendentemente grandes de designers, trabalhando em hierarquias rígidas. O facto do design ser uma tarefa criativa apenas torna estas hierarquias mais difíceis de controlar. Como demonstra o trabalho do filósofo italiano Toni Negri, há actualmente uma transição de indústrias baseadas na produção em massa de mercadorias (trabalho material) para modos de produção baseados no trabalho criativo e intelectual (trabalho imaterial). Naturalmente, esta transição é acompanhada pelo desenvolvimento de novas maneiras de controlar trabalhadores muito diferentes dos operários fabris tradicionais. Algumas destas técnicas de controle, dirigidas ao trabalho intelectual, são examinadas nos trabalhos de Edward W. Said, em particular no livro Representações do Intelectual, ou de Noam Chomsky, nos livros Manufacturing Consent e Necessary Illusions.

Obviamente, estas técnicas de controle têm de ser incrustadas no discurso e nos métodos de cada designer em todas as fases da sua carreira. Durante os anos de formação, por exemplo, os designers sofrem uma espécie de “condicionamento comportamental” que efectivamente os cega quanto à natureza industrial da sua própria profissão. Na escola, são treinados para serem profissionais liberais solitários, enquanto no “mundo real” são frequentemente pequenas peças dentro de complexas máquinas empresariais. São treinados para lidarem com clientes que não percebem nada de design enquanto no “mundo real” lidam principalmente com outros designers; os seus patrões são muitas vezes designers, assim como os seus colegas de trabalho. O mito do designer enquanto profissional liberal solitário é uma maneira eficaz de desviar a atenção da estrutura laboral do design que, longe de ser uma abstracção, reproduz tanto dinâmicas e limitações sociais locais, como globais.

Uma forma produtiva de ligar o design aos problemas e realidade locais seria começar a vê-lo como um trabalho concreto, feito por pessoas que fazem parte da sua própria sociedade, e são vulneráveis às suas pressões e limitações. Um conhecimento mais profundo da maneira como os mecanismos e tensões internas do design divergem localmente, contribuiria sem dúvida para alargar o alcance e a profundidade das suas preocupações éticas. Enquanto mantivermos as nossas preocupações éticas, politicas e sociais apontadas a objectivos convenientemente distantes, será fácil ignorar que o design também tem a sua própria ética e politica. Não estou a dizer que o design se deve virar para dentro, esquecendo o contexto mais alargado; antes pelo contrário, a ética e a política internas do design fazem parte desse contexto.

Esta é a tradução de um texto escrito originalmente em inglês e publicado no blogue limitedlanguage.org em 2005.

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Filed under: Ética, Cliente, Crítica, Cultura, Design, Política, ,

2 Responses

  1. E quando o designer é, de facto, um profissional liberal solitário? E quando o cliente é, na realidade, a única entidade perante a qual o designer solitário responde? E quando esse mesmo cliente se intromete para além do razoável (isto é, pondo e dispondo em áreas para as quais não está de facto capacitado) no trabalho desenvolvido? Onde fica, como fica, então, a ética laboral de designer? Deve ele aceitar deturpar um seu trabalho gráfico, de maneira a satisfazer um cliente e, assumamos, garantir o ganha-pão? Ou deve ele abandonar o trabalho e o cliente? Eu não sou grande adepto da teoria que acha que os designers devem educar os seus clientes, logo, que devem ir à luta e defender energicamente as suas opções, acho que o bom senso e o diálogo geralmente servem. Mas o que fazer quando um cliente se mostra irredutível numa posição altamente desconfortável para o designer (e para o trabalho gráfico em questão)? Deixá-lo a falar sozinho e seguir em frente? Ou cumprir a tarefa, sabendo que esta está fundamentalmente errada? A ética laboral do designer tem destes dilemas…

  2. […] 17 01 2008 Ontem tive a oportunidade de ler um artigo muito interessante, intitulado “A Ética Laboral do Designer”, publicado no The Ressabiator onde, em linhas gerais, se questiona até que ponto o trabalho […]

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