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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Teoria Política Tosca Mas Fiável

O Cidadão Português Médio só assume uma posição política quando quer foder a vida de outro Português ou Grupo de Portugueses. Não é grande novidade, claro, mas explica tudo. Mesmo tudo. Podia ser o axioma base para uma Grande Teoria Unificada da Decisão Política em Portugal. Explica como toma decisões o político profissional, como vota o militante, como se decide o indeciso e como não vota o abstémio ou até simplesmente o baldas.

Começando pelo indeciso, talvez a segunda peça mais importante do jogo (costuma decidir o resultado das eleições nacionais), o seu voto vai basculando entre partidos, em geral o PS e o PSD. Como se decide então o indeciso? Na grande maioria dos casos, castiga o governo anterior. Não vota em alguém mas contra alguém. Em Passos contra Sócrates; em Sócrates contra Santana e Barroso; em Barroso contra Guterres; etc. Às vezes, vota no CDS ou no BE, mas só para penalizar (ou controlar) o partido maior em que estariam quase a votar. O chamado voto útil ou mais exactamente estratégico, é praticado contra alguém, para limitar ou eliminar o seu poder.

A seguir ao indeciso vem o eleitor que não vota num partido para criar governo, mas para fortalecer a oposição. Não é preciso muito esforço para encaixar estes dentro da Grande Teoria. Simplesmente não acreditam na bipartidarização e votam BE e PCP. Se já estão ainda mais fartos disto tudo, votam no Garcia Pereira ou num Fernando Nobre qualquer (antes deste descambar).

O abstémio ou o baldas nem sequer votam. Vão à praia em vez de irem votar porque ainda estão mais fartos disto tudo. Mesmo e sobretudo quando a eleição é no meio de Janeiro. Vão à praia. Por convicção.

Quanto ao militante, ele vota não para foder um partido ou um executivo mas contra um determinado grupo social. A direita vota contra a classe média, em especial a função pública, os professores, os médicos, os artistas. A esquerda vota contra gente que vota assim.

E, é claro, os Partidos do eixo governativo conhecem e aplicam a Grande Teoria a contento, atirando jovens contra reformados, professores contra médicos, litoral contra interior.

O resultado é uma espécie de democracia invertida, negativa, onde se vota de modo a impedir que o máximo número de pessoas nos foda a vida. Por aqui se percebe imediatamente que o eleitor mais bem sucedido é aquele que consegue contrariar o maior número possível de concidadãos, aquela meia dúzia de pessoas num país que consegue dar cabo dos planos da outra dezena de milhões. Governos, grandes fortunas, bancos, escritórios de advogados, etc.

Este último grupo, o mais importante, vamos chamar-lhe 1%, pratica uma forma curiosa de abstenção, um pouco diferente da clássica (que consistia no acto do eleitor se abster a ele mesmo do processo democrático, indo à praia). Esta era uma abstenção subjectiva porque se aplicava a um sujeito. A nova abstenção dos 1% é objectiva, material, e consiste em subtrair objectos, ou seja conteúdos, ao processo democrático, privatizando-os por exemplo.

Assim, mesmo quando se vai votar, há cada vez menos possibilidade de votar realmente em alguma coisa. Votando em certo ministro estamos a garantir que ele se tornará num ex-ministro vitalício, no que isso implica em reformas abonadas, cargos em conselhos de administração e por aí adiante. Neste momento, o próprio acto de votar é na sua essência subtractivo, retirando pessoas e coisas do domínio público. Anedótico? Não, liberal.

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Filed under: Crítica, Cultura, Política, Prontuário da Crise

8 Responses

  1. Pedro diz:

    Bravo. Já agora, e os que não votam porque não acreditam que nenhum dos grupos partidários tenham qualquer solução para o problema?

    Até gostava de ver um partido com ideias inovadoras que rompessem com esta pasmaceira, ganhar as eleições, sair do euro, desvalorizar o escudo, pagar a dívida, promover a produção nacional e aguentar as consequencias. Dá-me ideia que ainda eramos invadidos por uma qualquer aliança para repôr a ordem no burgo. Não seria um caso isolado na história.

    • Kawazaki John Wayne diz:

      Já percebi, preferem uma solução tipo Alemanha 1933

      Ou seja, o pessoal agora queixa-se que lhes tão a ir às liberdades e direitos mas não se importavam de perder os mesmos desde que isso viesse acompanhado de um ilusório sentido de futuro e de segurança.

      • Pedro diz:

        Gostava só de afastar-me de qualquer sarcasmo que possa transpirar do meu comentário. Assim como não vejo solução que não passe pelas medidas supra-citadas, acho no mínimo lógico que essas soluções não passariam impunes pelos credores e por todos aqueles que olham com indiferença a depressão social a que estamos destinados. E essa ‘punição’ poderia chegar a vias mais agressivas.

        Caso chegue, talvez ajude a que ganhemos consciência de nós próprios enquanto sociedade, talvez seja possível uma união que vá além das aglomerações mais ou menos periódicas em frente da AR. Não restariam mais alternativas.

  2. José Nogueira diz:

    Noto neste blog um constante “Medina Carreirismo”, ou seja, fazer o que qualquer português faz de melhor–apontar muitos problemas, falar eruditamente sobre o péssimo estado da nação, (com um distanciamento que o coloca numa esfera à parte dos outros e da portugalidade) e não fazer nada, ou melhor, a achar que o fazer algo é pura e simplesmente falar mal, ser derrotista, apontar o dedo, dizer mal de tudo e de todos. É a isto que a critica se resume? Qual é a diferença entre este blog e apanhar um taxi? Ah ok, o taxista não fala de design, e provavelmente não dá palmadinhas nas costas dos amiguinhos?

  3. Houve tempo, que eu recordo bem e presumo que o autor também, em que se votava em alguém, em alguma ideia, a favor de alguma coisa. Mas os vendilhões que ocuparam a nossa política (e aí não podemos sacudir a responsabilidade de não termos nós próprios ocupado os lugares), destruíram de facto o edifício da democracia, tornando claro que o voto é inútil, pois as promessas de hoje são os esquecimentos do dia após a eleição, sendo que recentemente são mentiras deliberadas e quase todas as decisões são tomadas não para o país, mas para um qualquer grupo de interesse.

    Não devemos esquecer também que a democracia representativa é competitiva por definição e sendo-o, implica sempre que o voto em alguém ou algo, é sempre contra outro algo ou alguém. O problema está em que em Portugal, hoje em dia, não há algo ou alguém em quem votar, pelo que o voto acaba sempre por ser apenas contra algo, não por deformação mas por ausência de alternativas.

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