The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Folga

Ainda mais desilusões: neste momento, estamos entre Abril e Maio e para quem escreve ou fala regularmente sobre design começou a época alta: inexplicavelmente toda a gente precisa de um texto ou de uma conferência. Chegam-me a pedir dois ou três (textos ou conferências) por semana e é difícil dar vazão aos pedidos.

Na maioria dos casos, custa-me dizer que não – ou melhor: não me custa dizer que sim. É como pedir dinheiro emprestado: pedem-me uma coisa para daí a dois meses e eu digo que sim e só daí a dois meses é que preciso de começar a pagar a promessa. É chato porque nesses dois meses vou ficando cheio de trabalho; posso ter mudado de ideias; posso estar farto ou esgotado. Neste momento, quando me pedem um texto, só pergunto: não preferem pedir-me para dormir um bocado depois do almoço? (consigo fazer isso tão bem ou melhor do que escrever ou dar conferências).

Às vezes, ponho-me a fantasiar que só vou dizer que sim aos trabalhos pagos e antecipo dias e dias de calma, a escrever artigos com vagar, com pesquisa a gosto e com a possibilidade de gastar o dinheiro em livros ou roupa. Mas então propõem-me que escreva –gratuitamente – sobre qualquer coisa que me interessa e eu não resisto.

Entretanto, custa-me cada vez mais escrever um mail ou até um sms. Imagino cada dia como um reservatório, uma ampulheta, contendo um número finito de palavras. Se as gasto a escrever actas ou a combinar idas ao cinema, nunca as hei-de conseguir recuperar. Fora a crítica, prefiro falar – ao vivo ou ao telefone – do que escrever.

No caso das conferências, fui-me habituando a (mais) um efeito secundário de Bolonha e da falta de financiamento: há cada vez mais alunos e cada vez mais cadeiras e cada vez menos professores. Talvez por isso se tenham tornado habituais cadeiras que são leccionadas por convidados e onde o professor desempenha o papel de comissário. Numa cadeira tradicional, o professor dava a sua matéria, construindo – bem ou mal –uma narrativa de longo curso que interessasse – melhor ou pior – o aluno. É provável que o fizesse a partir de fontes, livros ou filmes que ia digerindo lentamente ao longo dos anos. Neste momento, a mesma cadeira pode ser dada invocando não uma fonte bibliográfica mas um convidado – um pouco como aquela cena do Annie Hall onde Woody Allen saca do próprio Marshall McLuhan para vencer uma discussão numa bicha para o cinema.

Para os alunos, a experiência é talvez mais rica deste modo: cada aula uma pessoa diferente. Não é, no entanto, imediatamente útil. Sê-lo-ia (talvez), se o aluno pudesse responder a esta sucessão de convidados, não com um relatório, um paper, uma recensão ou uma tese, mas com a sua própria sucessão de convidados – avaliada pelo professor, claro está. Assim se sacássemos do McLuhan em pessoa, os nossos alunos sacariam do Umberto Eco ou do José Gil. Seria sem dúvida um grande avanço em direcção a uma pedagogia onde se valoriza mais a gestão de conteúdos do que a sua produção.

Filed under: Crítica, Cultura, Design

3 Responses

  1. carlos pontes diz:

    é claramente uma constatação da quase inexistência de figuras em portugal.
    ou antes, é a evidência que em portugal, basta escrever o nome em qualquer triste local para se ser imediatamente chamado.
    a opinião, a maioria das vezes, é de menor interesse.
    e por favor, não se compare com o mcluhan. não está nem de perto nem de longe, na mesma divisão.
    nessa cena de annie hall, mcluhan é a referência.
    o senhor é a possibilidade acessível.

    • por favor não me interprete mal, se ler melhor o texto vai ver que, no que diz respeito ao Annie Hall, eu me comparo com as duas lagostas, enquanto os meus leitores desempenham sem dúvida o papel de um documentário do Alain Resnais.

      ou então não.

  2. Victor Leal diz:

    Este texto parece-me começar como um espécie de reflexão pessoal que depois encontra o assunto de Bolonha. Quanto a isso, tenho uma experiência de desilusão. Embora mais orientado à multimédia, estudo na área de design e a questão de que falava, dos professores convidados, é facilmente visível na falta de capacidade dos professor em transformar as aulas no tal longo discurso, apurado e consolidado, que transpire credibilidade através da boa fundamentação dos assuntos abordados. As barreiras do conhecimento do professor são facilmente encontradas, gerando sensação de insatisfação, ao ver esgotada uma fonte de conhecimento que gostaria de absorver…Quero com isto dizer, enquanto aluno, que não creio ser uma verdade comprovada o facto de os alunos acharem a experiência mais rica dessa forma! No meu caso, por vezes, encontro mais satisfação nos assuntos e na forma como o Mário os aborda, mesmo sendo em texto, do que muitas das aulas de design que tive…

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